Fantasia

Quarta-feira de cinzas.

Lá estava ela. Eu. Você. Qualquer um ou uma de nós.

 

Ela se arrastava pelo dia.

Feliz. Apaixonada. Realizada. Plena de si mesma.

Queria apenas que aquele momento

jamais terminasse.

Queria, mesmo assim, sabendo

que aquele momento duraria o tempo de um suspiro.

Era rebento da mais perversa fantasia. Fruto do delírio e do desejo.

Não era nenhuma princesa, diva ou realeza.

Era apenas ela, fantasiada de plumas e ventos,

de canto e desespero, de mentira e purpurina.

 

Era ela, e não apenas ela, querendo ser o que não era.

 

Maldição desta vida louca,

que quer o que não tem, ser o que não é, fazer o que não pode nem consegue.

Quer a vida de outrem, o corpo de alguém, a casa de ninguém.

Maldição deste tempo sem tempo,

onde a fantasia e o desejo aguilhoam feito reza, feito religião.

Ela, eu, você, qualquer um ou uma de nós,

Somos o que somos. Existimos.

 

Ainda bem que a fantasia colore e adoça a vida.

O desejo,

instiga a existência.

 

 

Dia de fazenda

Na manhã gelada,

me esgueiro entre lençóis aquecidos e cobertas fofas.

Prefiro meu dia de fazenda assim … preguiçoso,

entre livros e leite de ovelha. Quente e doce.

Imagino que estejas trotando na terra encharcada, cruzando pastos cortantes,

encilhado no lombo espesso e fedido de Trovão.

Imagino também que estejas se adoçando nas abelhas.

Sei que, preferes seu dia assim … atarefado. Trabalhoso. Judiado.

Pois, descanse em seu trabalho.

Estou ocupadíssima devorando palavras, absorvendo aromas,degustando sabores.

Sentindo a vida no tutano dos ossos.

Quando terminares …

Imagino sobre trotes adocicados e lençóis quentinhos.

 

Anoitece

Quando o sol se esgueira por trás das araucárias e se ajoelha aos pés da montanha,

o balido das ovelhas, o latido dos cães,

o coaxar de sapos e o grasnar de pássaros,

anunciam o achegamento da noite.

As estrelas se posicionam, a lua baila.

A quietude finca os pés na dormência de todos.

Na névoa que envolve e acoberta, ouço a coruja,

também alguns grilos e

o zunir de miríades de pirilampos.

Um cometa e estrelas cadentes incendeiam o breu.

A noite, enfim, se exibe.

Palmas para ela.

 

Fotos que contam filmes

Janeiro acabou de terminar, fevereiro mergulha com Iemanjá em pleno dia dois, eu ainda estou às voltas com a faxina de final de ano (o que passou), a lista de metas e providências para 2018 continua se debatendo perdida entre desejos e necessidades, meu tarô embaralhado e posto, com o Diabo apontando como a carta Essência do ano, aguardando interpretação, a agenda com apenas os dados de identificação assinalados … O ano mal começou e já me sinto atropelada. Cantando pneus e levantando a poeira, me convenci de que é verão, o calor baixa minha pressão arterial (e minha energia), 2017 me exauriu com muitas viagens, compromissos, preocupações, decisões e sustos. 2018 que sossegue um pouco. Tudo tem seu tempo e seu jeito. Também eu. Decidi fazer de fevereiro o mês de descanso, férias e organização. Por algum motivo – entre o consciente e o inconsciente – pedi que Carla colocasse todos os álbuns de fotos de toda a vida sobre a enorme mesa da churrasqueira.

img-1193.jpgFui pegando um a um, e aos poucos, observei o amarelado das páginas, o mofo esbranquiçado em capas e contracapas de álbuns de scrap, fotos arrancadas e misturadas, caixas com postais, pequenos e antigos mini-álbuns gratuitos de papelão, uma infinidade de fotos fora de foco, imprecisas e descoloridas, com uma nitidez sofrível de momentos, lugares e pessoas, algumas ainda presentes, outras distantes e agora desconhecidas, perdidas pela vida ou sugadas pela morte.

IMG-1198Rever fotos é rever a própria vida. O tempo que as consome, também nos consome. A vida que se vê nas fotos se desenrola como num filme. A dimensão do tempo que passou redimensiona a própria vida vivida e sentida. De repente, percebo que nunca fui tão gorda como sempre me lembro de ter sido, que meus filhos sempre foram lindos e queridos demais (apesar das incomodações e preocupações), alguns lugares nem eram tão bonitos, algumas pessoas tiveram vidas incompatíveis com aqueles olhares, poses e histórias que sabíamos até então. Muitos morreram, outros tantos sumiram do mapa. Eram amigos de outros tempos. Assim como muitos sonhos e projetos que se perderam pelos mais diversos motivos. A família cresceu. O jeito de viver mudou. Todos mudamos e nos transformamos. A vida apenas seguiu seu rumo e se perdeu em algumas encruzilhadas. Hoje, consigo ver por onde andei, onde me perdi, a que ponto cheguei. Também sei que nem tudo que acontece – ou deixa de acontecer – depende do meu querer ou fazer. Tem coisas que simplesmente acontecem. Simples assim.

img-1196.jpgAos poucos, separo álbuns que precisam de consertos, algum tipo de limpeza ou acréscimo de fotos e informações.

img-1197.jpgMe encanto com antigos álbuns de scrap produzidos com capricho e amor. Preciso voltar a fazê-los e contar a vida através de fotos. Daqui a 10, 15, 20 anos, sei que vou adorar ver pra onde e como a vida me levou.

IMG-1195Por isso, mãos à obra.

Maratona Elena Ferrante

Iniciei 2018 com uma meta audaciosa. Ler. Ler. Ler. Ler muito. O tempo todo. Sempre que possível.

Por incrível que pareça em 2017 escrevi apenas 3 posts sobre os livros que li no decorrer do ano. E foram muito mais que 3. Só de livros de Arteterapia foram 11 citados. Lidos de cabo à rabo uns 6, sem contar as recomendações da supervisão. Hilda Hilst, “Da poesia”, Mia Couto “Cada Homem é uma raça”. Enfim …

Neste primeiro mês do ano, mergulhei na obra de Elena Ferrante.

Além da Série Napolitana (“A amiga Genial”, “História do novo sobrenome”, “História de quem foge e quem fica” e “História da Menina Perdida”), mais de 1600 páginas lidas, o livro infantil “Uma noite na Praia” e o romance “A filha perdida” encerram a primeira maratona literária do ano.

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma autora italiana muito festejada por seu estilo literário moderno, sem ser artificial, sem modismos ou receitas. Elena escreve sem medo de ser redundante, minimalista e detalhista. Ela apenas escreve, fazendo você viajar na história e nos pensamentos de seus personagens. A escrita, muitas vezes poética, é de uma força única. A narrativa em primeira pessoa, envolvente. Os personagens, extremamente bem desenvolvidos: Lina, Lenu, Stefano, os Irmãos Solara, Pietro, Nino, Enzo (tetralogia), Mati e Minu (livro infaltil) e Leda (A filha perdida) são absolutamente convincentes e tão humanos que poderiam ser eu, você, nossos filhos, sonhos, pensamentos, nossa própria vida.

IMG-1200Experimente Elena Ferrante. Você vai gostar.

Invadida

Quando a casa se enche de gente

– com suas necessidades e obviedades,

suas ladainhas e lamentações, sofrências e maledicências –

me esvazio de energia e sintonia,

engolida numa estranha mesmice desinteressante.

O olhar se perde na busca de algo que não vê,

não sabe o que é, nem o que quer.

Sabe apenas que não gostaria de estar onde está,

consumido e sugado,

neste espectro nebuloso, cheio das mais duras realidades.

Apeteceria mergulhar no vácuo do silêncio, em terra de ninguém,

onde o nada é a melhor companhia.

Porque tem gente que enche e preenche.

Se infla e se expande desvairadamente,

devorando solenemente o ar, consumindo a alma e todos os instantes.

Suspiro agoniada.

Me refugio em quatro paredes.

“Com licença, preciso descansar. Vou ler um pouco. Dar um cochilo.”

Puxo a descarga. Depois volto.

Preparo o jantar.

 

 

Os vinhos da Austrália

 

regioesvinicolas da australia

Na Austrália, a vitivinicultura é mais antiga, portanto, bem mais desenvolvida. Como o programa desta viagem incluía Melbourne e Adelaide (South Australia), aproveitamos para conhecer Barossa Valley (a mais famosa região vinícola australiana) e McLaren Vale Wine Region (na minha opinião, os melhores vinhos).

IMG-0978No Barossa Valley, nos hospedamos na cidadezinha de Greenock e durante dois dias degustamos vinhos mais encorpados e maduros em diversos cellars: Chateau Yaldara (imperdível), Grant Burge Wines, Jacob’s Creek, Lambert Estate Wines, Penfolds Wines, Rockford Wines, Seppeltsfield Estate Winery, St Hallett e Whistler Wines.

IMG-0973De Adelaide até McLaren Vale Wine são uns 40 Km. Visitamos os cellars Bekkers Wine, Chapel Hill Winery, Coriole Vineyards, Cradle of Hills, d’Arenberg, Penny’s Hill, Primo Estate e Yangarra Estate Vineyard.

Em Western Austrália, (costa leste) próximo a Perth, anos atrás, conhecemos as regiões vinícolas de Margareth River e Swan District.

IMG-0871O que encanta neste universo etílico-alquímico-saboroso mundo dos vinhos é o casamento perfeito entre vinho, arte, música e design.

Tanto na Austrália como na Nova Zelândia, a visita à vinícola não se limita apenas à degustação de vinhos. Exposições de arte (pintura e escultura), concertos de música, cerâmica, acessórios para adega, livros (vinhos, paisagismo, gastronomia, cães e gatos …) enriquecem o passeio. Assim como os jardins, as vinhas, a gastronomia, os ambientes caprichosos.

No Brasil, o mais próximo que conheci foi a Vinícola Villa Francioni, em São Joaquim (SC).

E mesmo assim, muito aquém de outras regiões vinícolas. Na serra gaúcha (que conheço muito bem) nem Miolo, nem Valduga, nem Petterlongo, nem Carraro, nem nenhuma das vinícolas, respira ou transpira esta energia contagiante do mundo dos vinhos. Tudo se resume à equação simples e muito rudimentar de compra e venda.