Chá com a vó Anitta

Chá, café ou leite?

Tanto faz.

O jogo de prata pobre é antigo.

Precisa de lustro, Brasso e braço. Força.

O brilho ressurge.

Querida filha, este jogo singelo era de sua bisavó Anitta.

Sua avó e eu separamos para você,

assim como separamos 2 cadeiras Thonart

para seu irmão.

São heranças de família. 100 anos de história.

Esperamos que permaneçam na família

por mais 100 anos. Pelo menos.

Que as novas gerações jamais esqueçam 

dos antepassados que passaram por aqui,

deixando algo para nós.

São objetos, utensílios e móveis

carregados de energia e história.

A nossa história.

O que será dos nossos livros?

E pensar que tudo começou quando li que Susan Sontag vendeu sua biblioteca com 20 mil livros por 1 milhão de dólares. Depois soube que a biblioteca de Alberto Manguel tinha 35 mil livros. Soube de outros escritores e colecionadores de livros que tinham entre 3 e 5 mil livros em suas bibliotecas paticulares.

Fiquei curiosa.

Quantos livros tem na minha biblioteca? 

Não contabilizei nem revistas, livros infantis (deveria, pois aí estão Moby Dick, O diário de Anne Frank, Robinson Crosué, O mundo de Sofia, entre tantos outros clássicos) e os livros técnicos de engenharia do meu marido.

Depois do faxinão anual que costumo fazer, tirando a poeira, limpando com pano úmido e depois seco e depois deixando respirar ao sol, decidi contar a quantidade de livros que amealhei ao longo da minha vida: são livros técnicos de Psicologia (uma biblioteca bem sortida, fruto da formação e 3 especializações. Polpuda, e certamente, desatualizada), livros de culinária, as obras de Freud, livros de viagens, literatura nacional e internacional, livros de poesia, contos e crônicas, entre tantos outros, escritos por amigos, presentes, livros bons, lidos e não lidos. Lembrei de vários livros emprestados e perdidos na vida.

Contei 1.200 livros aproximadamente. Destes devo ter lido mais da metade. Certamente.

Sei do trabalho que foi, é e continuará sendo, organizá-los e deixá-los saudáveis (livres de poeira, umidade, bolor, cupins e traças). Fico imaginando o estado destas bibliotecas com milhares de exemplares!!!!Quem e como cuidam delas? Uma missão colossal.

Quando infartei, no começo de 2022, à medida que ia me recuperando pensei no destino da minha biblioteca, caso tivesse partido. Segundo Miguel Sanches Neto, escritor paranaense, em seu livro “Herdando uma biblioteca”, recentemente relido, o pior inimigo de uma biblioteca são os herdeiros.

Meus filhos.

Chamei-os para uma conversa séria e ambos concordaram em não vendê-la a um sebo. O combinado é que ela seja doada para a biblioteca pública da cidade onde nasci e cresci.

Minha preocupação agora tem sido o destino das telas “à la Pollock” que revestem as paredes de minha casa. São dezenas de momentos e emoções únicas. Não que eu pretenda partir em breve, mas, o que será delas, quando eu partir? Meu ímpeto artístico e literário tem balançado com as possibilidades de destinação daquilo que me é tão precioso. 

Imagino que não esteja só nesta apreensão

Por ora, continuo incrementando minha ainda biblioteca. Amo os livros, sua companhia, a diversão, o conhecimento e as viagens literárias que cada um me proporciona. 

Se hoje não empresto nenhum livro à ninguém, no futuro, meus livros serão de todos.

Dia de colheita

Domingo de sol.

Dia de caminhada e coleta de conchas.

Adoro este processo.

Adoro este tipo de caminhada.

O olhar é de águia.

Minha nova amiga Miriam alertou:

“Há poucas conchas nesta manhã.”

Tudo bem.

No horizonte, lá longe, vi nuances de 5 golfinhos

Mergulharam. Sumiram.

Mudei de direção.

Deparei-me com pedaços de estrelas do mar. Catei.

Caminhei com minha calça de gorda. Presente de Bali.

Abaixar e levantar fica mais fácil. 

A colheita exige.

Enchi o bolso com tudo que encontrei.

Meu marido voltava da corrida e me falou algo.

Não entendi.

Dei meia-volta. De novo.

Meu amigo Sérgio também me alertou:

“Suzete tem muita concha em frente ao Jurerê Beach.”

Parece que todos meus amigos sabem o que vou fazer na praia. 

Caminhar ou catar conchas?

Dei meia volta de novo.

O mar foi generoso.

50 metros de conchas de todos os tamanhos e matizes.

Enchi o bolso. 

Acompanhei Sérgio até sua saída e retornei.

Fui ao encontro da fartura.

Me fartei feito criança.

As primeiras cerâmicas de 2023

Dia de retomar as aulas de cerâmica. Foram 2 meses de ausência … fiquei feliz ao ver que os 6 primeiros “bowls” feitos no torno eletrônico passaram pela primeira queima. Em agosto, começa a fase de esmaltação e acabamentos.

É quando a peça fica pronta para uso. Os 3 potes feitos no torno eletrônico hoje, foi catastrófico. Obrigada a professora Vânia que se puxou pra levantar as peças que rumavam pra queda vertiginosa. Vou ter de ser mais assídua nas aulas.

Retomei a técnica do acordelado e iniciei um novo trabalho, que ainda é projeto. Tem cara de pote, mas devo subi-lo e fazer um vaso, talvez uma luminária, um porta velas. As possibilidades são muitas. E deve ser nesta toada que devo prosseguir: insistindo na aprendizagem do uso do torno eletrônico, e revisando técnicas quase dominadas. Assim, saio das aulas menos frustrada.

Organizando livros

“Aproveitem o espaço, 

este sol maravilhoso,

jájá voltam todos para a biblioteca”

– escura, empoeirada e apertada –

“Gostaram dos companheiros da noitada?

Sinto dizer, mas a maioria volta pro mesmo lugar,

com o mesmo companheiro do último ano.”

Minha empregada ri.

“Tá rindo do que?”

“Da senhora falando com seus livros.”

Dou-me conta de que ando falando com gente esquisita:

plantas, animais, livros, a casa que me cerca, o mar, o sol, a lua, as estrelas, as conchas…

isso quando não estou falando comigo mesma.

De qualquer forma, amo estes monólogos imateriais.

Coisa de gente louca, para alguns

Coisa de gente sozinha, para outros.

Tá tão complicado dialogar com as pessoas!!!!!

É quando organizo meus livros que fico mais preocupada:

Sei que os li – a grande maioria – mas não lembro de tê-los lido.

Nada que leio me soa familiar.

A genética familiar para Alzheimer me assombra.

Ao manusear o livro “Para sempre Alice” de Lisa Genova sinto calafrios.

Não sei se por ter assistido ao filme e lido o livro, mas

lembro de detalhes da história que aborda a doença degenerativa de uma profissional jovem e dinâmica.

Em parte, leio muito, pois sei que a leitura é um dos melhores exercícios para ativar a memória.

Mesmo assim, esqueço.

Penso em reler alguns títulos. Desisto.

Minha amiga Mônica, enfática, dizia:

“Tem livro bom demais para ler. 

Pra que perder tempo com livros ruins?”

Parafraseando minha amiga:

Pra que perder tempo com livros que não deixaram nenhuma marca? Nenhuma pista?

Melhor ler os novos.

E o que fazer com as revistas?

A coleção de revistas Cláudia e Viagem – de quem fui assinante por anos – foi doada. Várias revistas, livros escolares, de publicidade e de leituras obrigatórias também. Presídios, escolas e creches certamente aproveitaram as caixas recheadas. Mantenho minhas revistas Casa Vogue.Não consigo me desfazer delas. De tempos em tempos, distribuo alguns exemplares pela casa:

A decoração é atemporal. A Casa Vogue também. Os olhos se enchem e a casa se enche de novas e antigas imagens e ideias. É esta a ideia de decoração vibrante e atemporal que me formou decoradora. Reviso meus conteúdos de x em quando. De olho nas antigas Casa Vogue. Será que ainda são publicadas?

Livros de poesia. Adoro. Pra ler num vapt vupt.

Tem poesia que precisa ser relida: 

uma, duas, três, tantas vezes forem necessárias.

Decidi esparramar poesia, arte e decoração por toda casa.

Livros, livros, livros e mais livros.

Uma poesia por dia? E pq não?

São tantos livros …

Quem sabe o desafio tome jeito. Vou tentar.

Assim deixo esta turminha respirando por mais tempo.

Vou poetizar.

Terceiro dia entre os livros: Cansei.

Olho na mesa ao lado: continua empilhada de livros.

O escritório/biblioteca continua um caos. 

Sabe quando bate aquela apreensão?

Me informaram que amanhã chega visita. Sinto muito,

vou logo avisando. Vão ter de conviver com meus amigos desencarcerados e esparramados pela casa.

Meu marido diz que não dá. Nem ele consegue conviver com esta desarrumação.

Problema dele.

Se é pra juntar amigos, que todos se respeitem.

Posso garantir espaço nas poltronas. 

As mesas já estão ocupadas.

É nesse ponto que me perco. 

Nas últimas prateleiras. Nos últimos livros:

tem indiano, sueco, alemão, sul-africano, sudanês.

Tem tudo e todos.

Tudo vira uma grande salada de estilos.

Tem livros bons, livros da adolescência, da época da universidade, tem livro que nunca li nem vou ler, livros abacaxis, tem pra todos os gostos e maus gostos também…

Como ajeitar todo este povo?

Assim como gente, 

tem livro que não se adapta, nem se encaixa.

São únicos. Excepcionais?

Não necessariamente geniais.

O fim de semana foi de caminhada, conversa com os amigos, pizza, descanso.

A biblioteca está hibernando. 

Alguns livros continuam nas mesas respirando e aguardando.

E eu me calibrando. Tem muito ainda a fazer.

“Poemas” de T.S. Eliot tem me acompanhado.

Ando boiando nas poesias de 1920. 

Leio e releio, releio de novo.

Minha leitura de respiração. 

Respiro e leio. Bóio entre as linhas.

Respiro.

Certeza de não precisar comprar mais nenhum livro.

Há muitos ainda para ler, muitos pra reler.

Enquanto der, reponho.

Colinas agradece.

Quando eu morrer, a pequena cidade onde nasci,

herdará minha biblioteca. Testamento pronto.

“Encaixotando minha biblioteca” de Alberto Manguel

me inspira,

 e CÉUS, a biblioteca dele tinha 35.000 livros

– 15.000 a mais que Susan Sontag –

desumano e divino. Acho.

Esta biblioteca estava instalada num celeiro, no interior da França, onde ficou por mais ou menos 15 anos.

Alberto Manguel foi morar num ap em New York.

Que destino foi dado a estes livros?

O fim desta empreitada literária é uma viagem:

livros trazidos de todas as partes de mundo, livros de viagem, mapas, guias da Folha de São Paulo, etcetcetcetc

Livros dos meus filhos. Kevin &Haroldo, Onde está Wally, Uma história por dia, Cinderela, Mobby Dick, A Bela Adormecida …

Retirei adornos e decorações.

Apaixonada pelo clean do espaço. 

Enfim, limpo. Organizado.

(Vislumbro as gavetas, material de papelaria, documentos, pastas, cartões, papeis, equipamentos antigos. Esta parte não me pertence. Irritada com o agito que me cerca. Rita Lee morreu. A tristeza é avassaladora. “Herdando uma biblioteca” de Miguel Sanches neto será meu companheiro do dia.) 

Quando o terapeuta se deprime – 1

Pode parecer um tema espinhoso. É e não é. Porque o terapeuta é gente como a gente. Passa por perrengues, perdas, decepções, se entristece, adoece. O terapeuta também se deprime. Consulta terapeuta, psiquiatra, médico, toma medicamento, faz tratamento. Assim como dentista tem cárie, médico tem câncer, advogado pode ser processado e por aí vai.

Já tive crises de depressão, ansiedade, angústia. Já fiz tratamento e acompanhamento médico/medicamentoso e psicológico. 

Quando fui surpreendida pela primeira crise – e lá se vão 20 anos – entendia o que estava acontecendo, mas não compreendia. 

Como? Pq eu?

Hoje, pressinto a nuvem negra se aproximando, a energia se esvaindo, a tristeza puxando a cadeira, o desânimo levantando pesos. Compreendo todo o processo e o aceito como ser humano. Imagino as causas, amaldiçôo meus hormônios, repenso a vida e os sentimentos. Procuro o fio da meada. É através da própria dor que entendo a dor do outro. Quando o terapeuta se deprime ele alcança a depressão do seu próprio paciente. Passa a entender o espanto, as dúvidas e questionamentos. 

Torna-se humano, demasiado humano, como diria Nietsche. Torna-se psicoterapeuta com P maiúsculo. Nem sempre a experiência nos torna melhores, mas a vivência, sim. 

Não tenha vergonha de reconhecer o processo que se inicia, que crava as garras, que escurece os dias e tira o colorido e a vivacidade de estar bem. Quanto antes você reconhecer quem está dando o ar da graça e souber nomeá-lo, melhor. 

Mas, jamais esqueça: tristeza não é depressão.

Busque ajuda profissional para conseguir distinguir uma da outra. Ficar triste faz parte de existir. 

Depressão é doença. Tem tratamento e cura.

Busque ajuda.

Não sei o que acontece comigo

De repente, todas as minhas vontades, desejos e projetos evaporaram, sumiram, escafederam-se.

A vontade é de dormir, ler, caminhar na beira da praia, coletar conchas, conversar, comer pouco, deitar, dormir, acordar, olhar o relógio, que horas são, o que vou fazer? Vontade nenhuma de nada.

Desisti de fazer o pijama do flombayant aqui de casa. Trabalhoso demais. Enrolado demais. Demais demais e tudo o que quero é de menos.

Comecei um crochezinho básico para fazer uma capa para uma antiga cadeira de jardim que encontrei na casa de Lajeado. Ela é confortável e o trabalho só vale por causa disso. Mal iniciei e já estou medindo os 5 centímetros trabalhados como se já estivesse nas carreiras finais.

Andava tão bem, tão animada, tão cheia de ideias … peguei uma dengue que me virou do avesso e descobri uma senhora preguiça incorporada em cada pedacinho do meu ser.

Abandonei, temporariamente, meu curso de cerâmica. O torno elétrico que fique onde está. Estou de má vontade com ele. Quando ficar de bem, remarco minhas aulas.

Talvez devesse sair mais de casa, conversar com pessoas diferentes, ver coisas diferentes, comprar novos livros, ir ao cinema, passar a tarde no shopping – sem vontade – tenho me contentado com as caminhadas a beira mar … pelo menos, descobri meia cartela de fluoxetina, ainda no prazo de validade, de uma fase baixo astral de um ano atrás. A sensação de rastejar me deprime. Devo melhorar. Ando lendo com certa regularidade. De tudo um pouco.

A dengue, caros senhores, é uma destruidora de projetos e sonhos. Tudo engavetado.

Escrevo pouco, quase nada. Nas minhas caminhadas surgem várias, muitas ideias. Elas fogem assim que entro em casa.Trocamos de empregada de novo. Ando cansada desse troca-troca e da casa enorme onde moro.

Saudades do jardim da casa da minha mãe. Saudades da minha mãe. De colo de mãe. Saudades do sul.

Exausta do barulho de obra que me ronda. Esgotada com martelos, serras, gente, agito, caminhões.

Acho que é a dengue. Vão fechar 3 semanas que o mosquitinho me picou daqui a 2 dias. Eita bixinho poderoso esse mosquito. Convivo com este eu desmotivado há quase um mês. Não me gosto assim. 

Tenho de expulsá-lo das minhas entranhas.

Doença me intimida e suga minhas energias. Até clinicar tem sido exaustivo.

Vou melhorar.

Vou.

Vou melhorar.

Os primeiros “bolws” de torno

Retomei as aulas de cerâmica em 2023, basicamente para aprender a trabalhar no torno elétrico. Domino bem a técnica do acordelado (que gosto), das placas (ambivalência total – amo e odeio) e a cerâmica orgânica (adoro). Tenho interesse em aprender a trabalhar com o torno elétrico e, em algum tempo, mergulhar na cerâmica artística. Por ora, estou apanhando no torno elétrico.

Na última aula, foi um desastre: sem o olhar e a ajuda persistente da professora, todas as peças desandaram. Aproveitei a liberdade para errar e brincar com o torno para sentir a argila, seus calombos, bolhas, espessura, formatos, imperfeições, e tudo que uma peça condenada antecipadamente, permite. Pra não dizer que a aula foi um desastre total, finalizei 2 peças. E assim, em 3 aulas (nove horas), preparei 8 bowls (6 prontos para a primeira queima).

Um começo. E, nada mais.

a chuva e o arco íris

Depois da chuvarada 

uma caminhada pela praia.

A mansidão das ondas e a timidez do sol 

lembraram a vida e a morte.

Aquela manhã, recém superada e vencida.

Ultrapassada.

A morte, percebo cada vez mais, 

Imita uma visita aguardada e desejada:

um, parte de forma melancólica, acanhada e tímida.

outro, encerra sua jornada heroica, acabado e agitado,

outros, aparecem de quando em quando.

Entre lágrimas que caem, vários sentimentos.

Conflitos. Hipocrisia. Maledicências.

Me retirei.

Não suportei.

Engatei a vida e segui.  

Retornei à ilha da magia.

O caminho é longo e cheio de surpresas.

O céu faz uma pagelança de sol e chuva, 

nuvens carregadas e passeadeiras.

Quando chove feito a dor que sinto,

reduzo a marcha, agarro o manche, 

levo o nariz e o olhar ao para-brisa.

Preciso ver, cheirar e sentir aquela enxurrada 

e redescobrir o caminho. A estrada.

Depois da chuva torrencial, da escuridão fenomenal,

nuvens brancas sorriem e se engraçam a frente,

revelam vários arco íris: 

completos, duplos, vistosos e discretos.

E lá vinha o negror, a chuva torrencial,

a marcha reduzida, o nariz no para-brisa. De novo e de novo.

A vida se mostrando, a morte rondando.

Num vai e vem constante. Aflitivo e reflexivo.

Próximo ao destino

uma lua cheia, imensa, amarela, pintada de sol

desponta no horizonte e guia o caminho. 

Depois da chuva e do arco-íris, vem o sol.

Na estrada e na vida.

Agora, cato conchas na areia,

me refresco nas águas mornas do mar.

Lembro dos livros que chegaram.

Vou ler Verônica e os pinguins.

Acho. 

A caixa de encomendas veio recheada e diversificada.

A vida também.

A maltrapilha

Enfim, a maltrapilha sobrevivente terá seus dias de Cinderela. Tempo, inspiração e fé. É preciso acreditar na ideia pra que ela aconteça.

Não sei quantas vezes esta cadeira antiga (de vinte anos atrás?) já esteve na fila, na porta da garagem, para ser sucateada. Sempre aparecia uma mão e a carregava de volta ao depósito. “Talvez eu possa usá-la quando for mexer com os caixilhos de cera das caixas de abelhas”. E assim, a maltrapilha foi sobrevivendo.

Dias atrás, reorganizando o ateliê depois do Natal, senti falta de uma poltrona para aqueles momentos de esticar a coluna, espichar as ideias e dar asas à imaginação. Percorri a casa em busca de alguma cadeira/poltrona e não encontrei nada que atendesse minha vontade, até que abri a porta do depósito. E quem eu encontro? A maltrapilha.

Levei-a rodando pro sol, virei de ponta cabeça pra ver o estado dela em termos de estrutura: impecável. Nenhuma pinta de ferrugem, rodas saudáveis … tecidos e couro deploráveis. Pedi que Sabrina lavasse com mangueira, esponja, bombril, sabão em pó, água sanitária. Enfim, a parafernália toda. Depois a maltrapilha tomou banho de sol e ficou feito esfinge na sala de casa. O tamanho dela é perfeito para o pequeno canto do ateliê, e o encosto deitado dará vertigens e se houvesse alguma chance, eu veria a lua e as estrelas do subsolo de casa.

Os dias foram passando e fui imaginando o que poderia ser feito para transformar a dita cuja. Fui pesquisar no Pinterest. É lá que um mundo de ideias desfila sem cerimônia nem preconceito. Num vapt vupt, visualizei a cadeira giratória adequada ao meu ateliê. Escolhi sobras dos fios de malha azul marinho e roxo para o apoio dos braços. O trabalho é simples. Nada além de enrolar os apoios detonados, cuidando apenas para que os fios seguissem lado a lado, de ponta à ponta. Tanto pra iniciar como para finalizar, deixe uns 10 cm de fio por baixo da trama que seguirá por cima, mantendo todos os fios firmes.

Depois foi a vez do encosto. Lembrei do trabalho inacabável e juntei as bolachas circulares de crochê com alfinetes, depois costurei com agulha de tapeçaria e fio preto, frente e verso. Imprescindível fazer bom acabamento na parte de baixo da cadeira, onde costurei as bolachas de crochê da frente com as de trás. É importante fazer no local da aplicação, pois o trabalho fica firme e bem encaixado.

Foi trabalhoso? Foi. Mas adorei o resultado.

Por último, o assento.

Escolhi um fio de lycra preto (comprado para fazer bolsas e biquinis) e comecei a crochetar com agulha de 9 mm. Desmanchei 3 vezes até ficar na largura certa, no ponto certo, sem deformações. Depois foi fazer os acabamentos finais e “voialá”!!!!!

A maltrapilha reina majestosa no ateliê.

Florianópolis – no miolo da ilha

Nem só de praias vive Florianópolis. Ontem foi dia de aula de cerâmica. O ateliê que voltei a frequentar fica no miolo da ilha entre as montanhas, matas, flores, beija-flores, jacus e outros pássaros, gatos, cachorros, vacas, e pasmem … ontem fui recepcionada por um macaco bugio. Ao abrir o portão, vi o danadinho bem serelepe entre as árvores. Ao me ver, adentrou a mata e sumiu. É impressionante o que o interior da ilha tem a oferecer. 

É no meio desta floresta nativa e pujante que fica o ateliê da ceramista Vania Bueno, no Muquén, entre a Praia dos Ingleses e o Rio Vermelho. Se quiser chegar, cruzando a montanha, vá pela Vargem Grande e se delicie com as curvas e a vegetação exuberante que delineia a estrada asfaltada até outro ponto do Rio Vermelho, e de lá, vá ao Muquén.  No instagran procure por @ceramicavaniabueno e descubra a verdadeira arte cerâmica.

Anos atrás fui conhecer uma mestra no tear e seu ateliê, em Ratones. Outro paraíso no miolo de Floripa. 

Quem sabe, neste ano – 2023 – me anime a descobrir e visitar artistas e ateliês por toda Ilha de Santa Catarina. Tenho certeza de que vou me surpreender.

Você já teve um ET em casa?

Eu já. Aliás, aprendi a conviver com ele. Ou melhor, tento. Diariamente. Há anos.

Em 2017 conheci uma pessoa incrível. Não lembro do nome dela, nem da sua fisionomia. Era uma mulher entre 45 e 50 anos, em fase terminal de câncer. Suas palavras, seu projeto e sua postura frente ao desfecho final da vida me marcaram profundamente.

Nos encontramos num jantar harmonizado, na extinta loja de vinhos Carvalho Francês, do ladinho de Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis. Sentamo-nos lado a lado, numa mesa retangular para 10 pessoas, e logo fomos conversando sobre tudo. De onde éramos, o que fazíamos, trabalho, moradia, família, momento de vida … Ela era jornalista e me falou do seu câncer. Estava no lucro há mais de 3 anos. O prognóstico inicial era de uma sobrevida de 6 meses. “E você?”

Contei da casa nova e do marido recém aposentado em casa. Ao que ela replicou: o ET baixou em casa e ninguém sabe como agir com ele? 

Arregalei os olhos e ela completou:

“Sei como é isso! De repente, aquele que sempre saía de manhã e só voltava à noite, passou a ocupar todo espaço da casa o dia todo; você e seus filhos, acostumados a almoçar o trivial básico, de repente, tem de atender aos pedidos de uma mesa posta, suco natural, salada e três tipos diferentes de comida, tudo servido em travessa,  na copa ou na sala de jantar. Adeus pizza de almoço em frente à TV. Tudo o que sempre aconteceu e deu certo, começa a ser questionado, quando não, sumariamente modificado. Os filhos ficam mais tempo fora de casa, a empregada se esgueira pelos cantos, tentando não ser notada, e, sobra pra você, a esposa, a tarefa de adaptar o ET aos hábitos e costumes da casa. Costumes esses, existentes desde que vc se conhece como gente. O difícil é quando o ET insiste em não se adaptar. O alienígena quer implantar um novo mundo, um novo jeito de existir naquela casa – a sua casa. Sabe o que acontece, né? Às vezes, só um advogado na causa, pois a guerra inter-mundos pode ser bem complicada, e podem precisar de um mediador.”

Enquanto aquela sábia e irreverente senhora careca de peruca estranha, sorria com o canto dos lábios, olhei para meu marido, e identifiquei o ET, ali, do meu ladinho, rindo, bebendo e se divertindo com os outros possíveis ETs daquela mesa.

Depois de trinta anos trabalhando longe de casa, da cidade, do estado e até do país, a aposentadoria parecia algo merecidíssimo (e é). Morar à beira mar era projeto antigo. Meu marido se preparou para este momento da vida. Eu, pelo visto, não. De repente, alguém acostumado a liderar milhares de funcionários nas mais diferentes obras de engenharia pesada, alguém ocupadíssimo que só aparecia ou à noite, ou nos finais de semana, aterrissou em casa e encontrou apenas duas pessoas para comandar. Eu e a empregada. Os filhos foram lançados ao mundo naquela outra fase: o famigerado Ninho Vazio. É, a vida anda a galope e passos largos na direção contrária de onde tudo começou. 

Meu companheiro de uma vida inteira, queria mudanças e não media esforços para implantá-las. A casa entrou em choque. Eu também. A empregada sabia quem pagava seu salário e foi logo se adaptando. Traíra. 

Já eu, tinha um território a preservar, uma vida estruturada para manter. A barricada foi armada. Os dias começaram a ser de nuvens e chuvas torrenciais, rajadas de vento, raios e trovões. O caos foi se instalando.

No Japão, após longa pesquisa, foi confirmado o aumento da depressão entre as esposas de companheiros recém aposentados. A teoria sistêmica já identificava, há décadas, pontos de tensão e possibilidade de stress em vários momentos do Ciclo Vital Humano. A aposentadoria é um deles.

Passados alguns anos daquele jantar, a harmonização doméstica continua sendo um desafio constante. Como em toda guerra, ganha-se algumas batalhas, perde-se outras. Tem dia que dá vontade de chutar o pau da barraca e entornar o balde, mas então, lembro daquele antigo e sábio provérbio popular “do limão, uma limonada”. 

Abri mão da cozinha e das compras de supermercado, mercado público e açougue. Perfeito. Também abri mão de questões burocráticas e desgastantes com a empregada, pagamentos e toda a burocracia que o viver agrega. Graças a Deus. Coloco em prática diariamente as máximas “nada vai fugir”, “não existe nada que não possa piorar”, “a gente aprende errando”, “Fulano é quem decide, isso não é comigo”. Aleluia. Aprendi a delegar e pouco me importar. Não gostei? Sigo em frente. Como bem dizia minha sogra “Você tem dois ouvidos: um pra deixar entrar, outro pra deixar sair.” lálálálálá

Se consegui domesticar meu ET? Não. 

O ET conseguiu implantar todas as mudanças que queria? Também não. 

Às vezes, o campo está minado. 

Conhecemos a artilharia e as barricadas um do outro. Aprendemos a respeitar o território alheio e quais batalhas valem a pena lutar. Nem tudo merece nossa energia, sossego e bem estar.

Assim, de pouco em pouco, conseguimos vislumbrar o céu de brigadeiro. É quando entendemos o valor do bom combate.  Aquele que vale a pena o esforço.

Identificou o ET na sua vida?

Você tem lutado o bom combate?

sou destas

sou daquelas xaropentas quanto ao toque, beijo, abraço.

aos próximos, muito. não tudo.

contenção e respeito.

aos distantes, estranhos e estrangeiros

um aperto de mão, um sorriso.

cada um no seu espaço 

físico e emocional.

a invasão agride. ameaça.

ultrapassa limites invisíveis

em estrutura de muralha.

sou daquelas enxeridas

que cai de boca, rasga, arranha, arranca,

mergulha fundo,

corta em pedaços, pica, amassa,

congela, atiça,

fica na cola, no cangote, no rastro,

não perdoa,

come pelas bordas,

mirando o centro, o núcleo,

o trauma.

o ponto de fixação.

me lambuzo e mastigo

sentimentos e emoções,

afetos e palavras,

conflitos e desajustes … 

a mais pura desarmonia.

sou assim.

perdoe-me e me dê licença para avançar

sempre e cada vez mais.

vivo disso

você na sua poltrona.

eu na minha.

nada de toques e salamaleques.

entre nós, um mundo.

O Universo do SELF. Do Eu.

Prazer. Sabes quem sou?