Cerâmicas Inacabadas

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Decidi dar um tempo na cerâmica. Não pela cerâmica em si. Que aprendi a amar, fazer e vou continuar fazendo. Num outro momento.

Decidi dar um tempo, porque tem hora que a gente precisa entender e aceitar o que está escrito entre linhas, ou como pude perceber, entre as trintas peças cerâmicas produzidas e não finalizadas. O que elas estão me dizendo? Porque, quase que apenas elas, entre tantas peças de tantas colegas, ficaram pra trás e não foram queimadas? Algumas sequer biscoitadas? Uma enorme tristeza me assaltou quando percebi que meu fazer incomodava quem deveria me incentivar e motivar.

Decidi não sofrer mais com o descaso e o desleixo alheios, os eternos ranços e desculpas.

Decidi trazer minhas peças cerâmicas inacabadas para casa e curti-las como estão. Frágeis e inacabadas. Estou como elas. Simples argila modelada e seca. Falta a energia, o calor e a força do fogo que virá no devido tempo. Outras artes me preencherão. Vê-las abandonadas nas prateleiras era ver-me igualmente abandonada.Juntas nos fortaleceremos. Pressinto e sinto isso.

Decidi esperar a tristeza e a decepção abrandarem. Depois vou em busca de um novo espaço de arte cerâmica, de novas energias e conhecimentos. De um novo professor.

É do que eu e minhas cerâmicas inacabadas precisamos.

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Acordando

E o bentevi não cansa de bicar a claraboia da casa.

– luz que irradia o sol de todos os dias –

Ele insiste em dar rasantes e bebericar na piscina,

fazer cocô em parapeitos e sacadas.

O danadinho tá se achando.

Bica, bica, bica.

Parece pipoca na panela.

Ploc ploc ploc ploc ploc

Assim como o piriri piriri piriri que desce calha abaixo.

Chuvica preguiçosa molha de pouco em pouco,

de tanto em tanto.

Outros pássaros arrulham. Bicam. Ploc ploc ploc.

A natureza berra no silêncio da manhã.

Meus ouvidos espicham-se. Querem entender.

Desisto. Fecho as janelas. Os olhos.

Escuto. Penso. Canso. Cochilo.

Ploc ploc ploc ploc.

 

Gatinhos no porão

A casa dos meus avós era gigantesca. Um verdadeiro castelo quadrado, com pé direito alto, cheio de portas e janelas. Lá dentro, funcionava uma venda que vendia desde tecidos: chitas, cambraias, tergal e anarrugas até bonecas, chupetas, bibelôs, feijão, balas. Céus, o que era o baleiro daquela venda!!!!! Três andares com cinco gomos cada, cheinhos de caramelos e pirulitos. O telefone antigo – que acabei de restaurar – era ligado por fios a uma Central. Eu conhecia todas as centristas, que por acaso, eram mães das minhas amigas. Eram elas que completavam as ligações telefônicas e foram – sem querer ou querendo, vai saber? – cúmplices de muitas fofocas e namoros escondidos. Eu que o diga. De um lado da venda funcionavam os secos e molhados e a bodega: banha de porco vendida em lata, cebolas e batatas e o “schluc” do “happy hour” de cachaça de alambique. Do outro lado, paredes cheias de cortes e tecidos, gavetas abarrotadas de rendas, calcinhas e calçolas, linhas, gravatas e camisolas, botões e caminhões de madeira; prateleiras de louças, potes plásticos, brinquedos e tudo que se pode imaginar que exista numa venda nos arrabaldes do interior do interior do Rio Grande do Sul. Aquela venda era o paraíso para uma menina de mãos leves e mente curiosa. Nos fundos, separada por um imenso balcão, funcionava a casa propriamente dita. Com direito a avós, bisavô, tia-avó, os pais e um irmão metido a caçador de tico-ticos. Eu e mais 25 gatos. Os móveis eram antigos e gastos. A decoração, deprimente. Os lustres eram singelos topes – ou laços, como preferem alguns – de papel crepom enroscado no benjamim da lâmpada. Sem contar a banheira de louça encardida e pés de leão. Um luxo. E, além do fogão à gás Venax, o mais moderno que existia naquela casa eram os móveis em fórmica – um balcão, mesa e seis cadeiras – e o sofá de courino vermelho. Depois chegaram a TV Telefunken, a Monark da Caloi …

Saindo pela porta dos fundos o que eu via eram os Jardins de Versailles. Um labirinto de cercas vivas, jardins de dálias e rosas, cravos e crisântemos, um gramado infestado de rosetas e tiriricas, dois balanços, uma gangorra e uma cama elástica feita com tiras de câmaras de pneu de caminhão, que meu pai, orgulhosamente, nos presenteou. Árvores de todos os tamanhos circundavam as laterais da casa, além da estrebaria, o galinheiro e os chiqueiros. A horta. O pomar. A plantação de milho. O matinho. O Rio Taquari. Este era o meu reino, com direito a brincar de casinha, venda, elástico, sapata, bola, carrinho de lomba, Cinderela, Jane e Tarzan, roubar amendoins torrados e testar todas as chupetas da venda, sem contar a apropriação de um dos porões daquele casarão com ares de Versailles.

Infelizmente, meu reino infantil encolheu depois que saí de casa. Virou miniatura depois que conheci o legítimo Palácio de Versailles. E hoje, cabe inteirinho dentro das minhas lembranças. E é dentro destas lembranças que tento resgatar aqueles porões.

Eram dois. Dois enormes porões escuros e úmidos, divididos por uma cisterna. De um lado, o porão de móveis e roupas em desuso. Um baú preto imenso, com roupas do período imperial corvense. Cristaleiras com fundos espelhados, copos de licor cor de rosa, xícaras de porcelana quebradas, pratos e travessas da bisavó Elisa. Penteadeiras com gavetas recheadas de dentaduras e armações de óculos quebrados de todos os moradores. Os vivos e os mortos. Prateleiras com ânforas, pratos, pinicos, dosadores e pesos. Tapetes puídos e geringonças, tantas quanto impossíveis de lembrar.

Do outro lado, na fachada dos fundos, o porão dos entulhos. Minha apropriação.

Visto de frente, o casarão parecia ter um único andar,. Visto dos fundos, o casarão exibia um imenso vão e paredes marrons intercaladas por pequenas janelas basculantes de vidros canelados e sujos. No vão maior, funcionava a lavanderia da casa, ostentando uma tábua desequilibrada e um martelo de madeira para bater roupa, sabão caseiro feito de sebo de boi, um tanque de cimento, baldes de lata e bacias de alumínio, além de uma bomba de água que passou a vida gorgolejando. Nem a Consul, nem a Brastemp e muito menos o OMO e a Sanremo andaram por lá naqueles tempos. Esta esdrúxula lavanderia era a antessala de um enorme porão – o meu porão – que se espraiava por metade do subsolo da casa, onde eram guardados restos de tudo: de lenha e madeira para queimar no fogão à lenha, vassouras de piaçava desgastadas, cadeiras e balanços quebrados, guarda-chuvas estragados, vasos de barro abandonados; tijolos, telhas, sacos de batata e farinha empilhados, engradados de madeira, garrafas e garrafões de vinho vazios, carrinhos de mão, enxadas e pás. Bem ao fundo, uma nesga multicolorida refletia as paredes úmidas da cisterna sinalizando a água que escorria pelo chão batido e desembocava no rebaixo de pedras de areia, onde descansavam sapos grandes de dorso pitipoá. Meus indesejáveis e eternos hóspedes.

 O silêncio úmido só era quebrado, de tempos em tempos, pelo miado fraco das diversas ninhadas de gato que nasciam sem cerimônia e atenção. Veterinário era médico de boi e vaca, e de porco pra castrar. Aos gatos, os ratos. E as ninhadas. De alguma maneira, sempre soube que a tarefa de manter a população de gatos sob controle era do meu avô Eugênio. Era dele também a tarefa de lavar chiqueiros e estrebarias vazias e montar minhas casinhas de boneca arejadas no verão e preparar a parte ao lado da lavanderia do porão dos gatos, para a casinha de inverno das bonecas.

Assim, tanto meu avô quanto eu, ouvíamos os primeiros miados dos recém-nascidos, encalacrados no mais fundo breu daquele porão. Meu avô se fazia de surdo. Eu também. Ele ia tratar as galinhas, capinar a horta e tirar leite das vacas, enquanto eu colocava as bonecas pra dormir, lavava as panelinhas cheias de lama, folhas e sementes de árvores e arbustos e varria o chão batido da casinha caprichada com teias de aranha, tijolos aparentes e a trilha sonora mais fofa que se poderia querer. Quando meu avô sumia de vista, eu escalava os entulhos do porão em busca da gata e sua ninhada e os colocava mais fundo, mais longe e mais seguros do alcance das mãos do meu avô. Sempre com os olhos e o pavor atentos aos sapos pretos de bolinhas brancas que rondavam a área e à chegada inesperada do vô Eugênio. Sabia que era ele quem acabava com os gatinhos. Só não sabia como. Ouvia cochichos pela casa e olhares dissimulados sobre dar um fim nos gatos, que chegaram a vinte e cinco numa época em que fui muito eficiente. Vinte e cinco gatos criados soltos, xucros e selvagens. Meus amiguinhos. Mias, Minos, Minas e Mingos faziam parte das minhas brincadeiras. Vivia aranhada e feliz feito Dian Fossey, a zoóloga americana que morreu defendendo os gorilas em Ruanda, na África. Diferentemente dela, sobrevivi. De todos os jeitos.

Um dia vi como meu avô dava sumiço nas ninhadas. Fiquei horrorizada. O saco de linhagem de milho estava cheio de filhotes com poucas horas de vida, rosados, sem pelos e de olhos fechados. Eram pequeníssimos fetos felinos. Quando o vi sacar filhote por filhote e atirá-los sem dó nas pedras de areia nos fundos do casarão, próximo à estrebaria, gritei e corri desesperada e quase derrubei meu avô na tentativa de poupar alguns filhotes. Ele me afastou com rispidez, tirou o cinto, me ameaçou e gritou. Que eu me afastasse, ou então, ele teria de fazer algo muito pior que matar gatinhos. Apavorada, corri e chorei no colo da minha avó. Ela explicou que não havia comida nem ratos suficientes para todos aqueles gatos que eu insistia em salvar. E sobre o pior que meu avô poderia fazer comigo era dar-me uma bela surra. Coisa que ele jamais fez.

Meu avô e eu continuamos nos fazendo de surdos e desentendidos.

O veterinário foi chamado mais vezes para castrar gatos e gatas – pelo menos aqueles que ele conseguia pegar, pois a maioria crescia xucra e selvagem – muitos gatos morreram envenenados, eu cresci, meu avô envelheceu, e ambos, deixamos a natureza seguir seu curso.

Minha paixão pelos gatos continua. Meu asco pelos sapos também. A saudade do meu avô é eterna.

Crochetaria

Não sei exatamente quando aprendi a fazer crochê. Era menina ainda. A mãe de uma amiga ensinou e nós duas fizemos quilômetros de correntinhas. Pra fazer, enrolar e depois, desenrolar e desmanchar. Vieram outras professoras, amigas, cunhadas, colegas. Cada uma ensinando um ponto aqui, um arremate ali. Sempre fugi dos esquemas, receitas e revistas com pontos endiabrados. O básico do crochê sempre me satisfez.

Anos atrás, fiz minha primeira manta de crochê de lã. Depois dela, vieram outras oito. Todas doadas.

2018 12Em 2018 resolvi inovar. Andava às voltas com mandalas e círculos. E assim, fui fazendo círculos de crochê enquanto assistia à filmes e séries dubladas da Netflix.  Quando chegou a hora de emendar um círculo no outro, achei que precisava de ajuda. Era hora de fazer aula com quem entendia do assunto.

Além da manta de mandalas e círculos, que segue no paralelo, o que tem agitado meus dias é a novidade do fio de malha e todas as suas possibilidades. Pra quem não sabe, o fio de malha, também conhecido como trapilho, é produzido a partir da reciclagem de retalhos de malha que sobram da indústria têxtil.

E o crochê do fio de malha nada tem a ver com o crochê da vovó. Moderno, funcional, rápido e fácil de fazer, ele vai bem em praticamente toda casa e no vestuário também. A lista do que e pra quem fazer está cada dia maior.

O primeiro mutirão vão ser os puffs. Muuuuuuitos puffs.

Pra começar comprei fios e agulhas. Bases e espuma também. É hora de começar a crochetar e experimentar.

O resultado da crochetaria vou postando aos poucos. Com passo a passo, dicas, fotos, etcetcetc e tudo mais.

Mãe e filha

“Filha sai da água, depois você reclama que está morta de cansaço. Água cansa.

Precisa de alguma coisa? Estou aí pra te ajudar. É só mandar.

Filha, come alguma coisa. Você comeu pouco. Vai passar fome durante a viagem. O ônibus só para em Sombrio durante 20 minutos. Tem de ser rápida e anota o número do ônibus, pra não pegar o errado.

Você não precisa fazer xixi? Vai enquanto o ônibus não chega. Vou ficar olhando suas coisas. Se precisar ir durante a viagem, o banheiro fica bem na entrada.

Você lembrou de trazer um casaquinho? Olha que no ônibus o ar condicionado é forte. Se precisar, fala com o motorista. Não vai ficar doente.

Minha filha, esta roupa não fica bem em você. Sou sua mãe e tenho de lhe dizer. Você não é gorda, mas aquela calça com a blusa de bolinhas te deixou mais fofa. Possante. Você não é gorda. Você puxou o corpo da sua tia Ivone. Usa aquele seu vestido longo que te deixa bem.

Vai descansar. Deixa que eu arrumo a cozinha. Aproveita as férias. Comprei doce de amendoim que você adora. E balas também. Quer que eu faça torta de carne moída? Encomendei “pizzinhas” da Rejane. Não vai passar fome aqui em casa.

Vou tocar piano pra você. “Sobre as ondas” ou “Danúbio Azul”? Seu avô adorava o “Adeste Fidelis”.

Minha filha, faça como você quiser: quer ir dormir em Lajeado? Vai. Quer dormir aqui em casa? Dorme. Eu penso que cada um deve fazer as coisas do jeito que gosta. Sei que você adora ficar em casa sozinha. Eu também gosto. Não precisa se preocupar comigo. Eu estou bem. Muito bem pra minha idade. Porque quando eu ficar velha, aí sim, vou precisar de ajuda.”

Porque mãe é tudo igual.

Esta é a minha, aos 80 me tratando como se eu tivesse 5 anos.

Bom saber que tem alguém que ama a gente assim: sem medidas.

Quando eu crescer quero ser igualzinha a ela.

Chata

Intoxicada

de farinha, açúcar, café, vinho; claridade, calor, cupins, casa grande; roupas apertadas, velhas e esfarrapadas; notícia ruim, política podre; ressentimentos, mágoas, inveja alheia.

Intoxicada

de noites mal dormidas e livros ruins; de listas intermináveis e afazeres a perder de vista; de dias atarefados de futilidades. Facebook e Whatsaap.

Intoxicada

de cara feia, críticas e reclamações, de música, da professora de cerâmica; empregada atrasada, cheia de filhos e desculpas; dúvidas, incertezas, medos, decepções, ansiedade e angústia …

Caraca.

Tô azucrinante. A vida, desgastante. Existir, incomodante.

Caraca.

Virei uma chata.

 

 

Memórias, sonhos, reflexões – Carl Gustav Jung

Do analista junguiano li outros livros. Exigência da minha formação em Arteterapia, cuja teoria faz pano de fundo para todo entendimento arteterapêutico. Mas, diferentemente dos outros livros, o livro de Memórias de Jung mescla teoria, vivência, a infância, adolescência, os pais, a religião, a morte, o dia a dia, viagens, opiniões, dados sobre a família, cartas, etcetcetc. Quase uma autobiografia. Tudo muito espontâneo. A teoria que acompanha textos e comentários mais parece um processo cognitivo em busca de sentido. Algo como a construção de um entendimento a partir de ideias e lembranças, sonhos e devaneios … um eterno amadurecer, onde complementos são sempre bem vindos e adequações, idem. A obra de uma vida com gosto de obra inacabada.

O texto, em alguns momentos agradável de ler, parece um diário. Em outros momentos, o texto é denso e pesado. Pulei algumas partes. Por isso, o livro continua na cabeceira pra ler o não lido, reler o esquecido, reconsiderar hipóteses, me aprofundar no imaginário de Jung e me inspirar em sua coragem.

Acompanhar a linha de raciocínio de Jung é inspirador. Imagino como era pensar e registrar os mais estapafúrdios pensamentos e ideias há mais de 100 anos, e mesmo assim, acreditar e perseverar. Lembro-me de quantas vezes pensei em soluções, ideias e projetos, cheia de energia e criatividade, para depois, ao perceber por onde andaram meu bom senso e racionalidade, acabar boicotando atitudes, textos e programações. Jung acatava as mensagens que vinham do seu inconsciente e não se importava com o que os outros iriam pensar, nem o quanto ele precisaria se desviar do que estava fazendo para implementar aquilo que lhe apareceu em sonhos, devaneios, observações e insights. São tantos os momentos em que Jung fez o que sentiu que deveria fazer que, se vivesse na atualidade, seria visto como pessoa disfuncional. A ideia da personalidade nº1 e nº2, onde a nº1 era objetiva e a nº2 absolutamente subjetiva, possivelmente seria considerada um distúrbio de personalidade. Dissociação. Jung não esconde suas fases depressivas e esquisitas, nem o quanto foi importante contar com a família, amigos e a própria arte como forma de superar estes períodos sombrios. Mesmo indeciso e inseguro com suas escolhas e ideias, seu inconsciente sempre lhe deu sinais – que ele considerou e levou à sério – para seguir em frente.

Pra variar vou ter de reler o texto. Ele vale. E o recomendo a todos que querem conhecer um pouco mais sobre Jung e se inspirar em sua coragem, foco e determinação.

Como sugestão:

  • Leia aos poucos.
  • Saboreie temas e frases.
  • Deixe-se levar.
  • Possivelmente Jung tenha sido o maior expedicionário e explorador do universo do inconsciente humano.
  • Não tenha medo.
  • Se entregue.
  • Entre em contato com seu próprio inconsciente. Escute-o. Dê-lhe espaço e atenção. Ele sabe muita coisa sobre você, que você nem desconfia.