Assinaturas

A assinatura de uma pessoa parece coisa simples. Mas não é. Quando fiz meu primeiro CPF, assinei meu nome de solteira por extenso. Ao casar acrescentei a meu nome, o sobrenome do meu marido. Assumia uma nova identidade, que precisava de uma  assinatura de casada. Despreparada, abreviei o M. de Maria, o L. de Lammel, sobrenome de meu pai. Assinei escrituras, diplomas, certidões, documentos. Assinei meu livro “Os segredos de Serena” com meu nome de casada. Ainda não me sentia escritora. Ainda era a mulher, a mãe, a psicóloga. Demora um tempo para descobrir quem somos, como nos transformamos e como queremos ser representados.

A vida nos empurra,

querendo ou não, gostando ou não.

Ao deixar pra trás um jeito de ser e viver, deixei também algumas das minhas neutralidades e paranoias. Fui me descobrindo outra e confortavelmente me apresentei ao mundo, simplesmente, Suzete Herrmann. E então vieram os “Diálogos do Inconsciente”. Minha primeira exposição artística individual. Cada obra pedia um nome e uma assinatura. De artista. Como das outras vezes fiquei confusa. Insegura.

O nome incomum, enfim, se impôs.

Me representa e me apresenta: Suzete H.

Esta é apenas a história da assinatura do um nome. E minha assinatura como ser humano? Que marca ou marcas me identificam? Um eterno e intrincado crochê onde cores e fios que se mesclam e se enroscam. Dão nó. Pontos se sobrepõe. Uma marca é fazer sempre a diferença, um lema de vida. Ser um espírito livre, um valor absoluto. Ser autêntica e verdadeira, sempre. Generosa e grata também. Outras marcas. Singelas e poderosas assinaturas. Aos poucos, percebo brotar doses indigestas de intolerância e irritabilidade frente à imbecilidade, falsidade e mediocridade humanas. Assim como o desenho da minha assinatura mudou e se adequou a papeis e escolhas, minha assinatura humana começa a criar novos contornos.

Onde existe sombra e luz,

como nunca antes. Percebo-as

numa Gestalt transparente de tão límpida.

Existe quem fui, quem sou e quem pretendo ser.

Mas quem, exatamente serei eu?

Quando Ana chegou

Quando Ana chegou, Marta simpatizou com sua expressão serena, a frente dos olhos pretos carregados de desespero e apreensão. O corpo e o olhar sinalizavam algo que o tom de voz e a escolha das palavras tentavam omitir. Será que ela sabia que Marta sabia, mesmo ela não dizendo nada? Ana preferia acreditar nas próprias palavras. Elas lhe davam esperança. Queria que fosse a verdade. A realidade. Para Marta, aquelas palavras davam a certeza de que algo muito sério estava acontecendo. Ana precisava de ajuda. Por algum motivo, Marta decidiu ajudá-la.

Ana saiu de Apiaí, sul de São Paulo, com a cara e a coragem, 3 filhas pequenas – a menor com 5 meses incompletos – o irmão de 22 anos e toda a mudança que coube no Gol emprestado. Basicamente roupas e brinquedos das pequenas. Katia (7anos) e Kelly (6 anos) demorariam algum tempo para entender como, da noite para o dia, estavam morando numa casa sem reboco, na servidão de um bairro pobre, num quarto e sala com banheiro e mini lavanderia, alguns móveis e eletrodomésticos usados à exaustão, uma geladeira pifada, colchões mofados e puídos jogados rente às paredes igualmente mofadas e fedorentas. Quando chegou, Ana disse a Marta, a si mesma e às crianças, que o pai viria próximo ao Natal, tão logo finalizasse a colocação do porcelanato para o qual foi contratado.

Que mãe abandona casa, marido, o pai e os irmãos, cunhadas e cunhados, e sai no lusco fusco de uma noite no final de novembro, numa viagem cuja única certeza é o nome de onde quer chegar? Um lugar que não sabe de sua chegada. Um lugar onde não existe nem casa, nem emprego, nem amigos, nem dinheiro pra começar o que for possível começar. O troco miserável enrolado no bolso de trás de uma calça jeans esgarçada é tudo o que aquelas 5 pessoinhas terão, até que ela ou o irmão arranjem um trabalho, um bico, uma faxina, um emprego. Uma ajuda. Um troco recolhido às pressas, escondido em esconderijos improvisados como xícaras, fundos de gavetas, bolsos de calças e casacos. Um troco surrupiado em momentos de pavor, quando na incerteza da vida, a certeza da sobrevivência gritou a plenos pulmões.

Foi assim que Ana chegou. Magra feito varra. Pesada como os escombros de um prédio demolido. Aos poucos, fragmentos ganharam voz: a morte precoce da mãe, um câncer não levado à sério, noites mal dormidas, o casamento abandonado. Neste abandono, o marido se aconchegou nos braços da pedra. Nada de outra mulher. Melhor e mais fácil seria. Ele preferiu o conforto do crack. Neste conforto, Ana viu seu carro sair da garagem e nunca mais voltar, a campainha tocar fazendo ameaças, a pilha de avisos de cobrança crescendo feito sua barriga de 7 meses de gravidez, a inquietação do marido mouco de olhos espetados de terror, circulando entre os últimos móveis em busca de algo que não existia mais. Ana reconhecia naquele marido irreconhecível, alguém que nunca lhe deixara faltar nada, e que agora, transformava a própria vida e das pessoas que mais amava, em nada. Apavorada, suscitava lembranças de outros tempos, quando ele ouvia vozes e via coisas, que ela não ouvia nem via. Você sabe o que é telepatia? Pediu ela a Marta, um dia. Ele achava que era um telepata. E ela, naquele princípio de tudo, acreditara nesta versão da loucura do marido. Depois, levou-o ao médico. Em menos de cinco dias, ele jogou os comprimidos no lixo e disse que não era louco, que não precisava de ajuda nem de ninguém. Saiu de casa e voltou dois dias depois, com a roupa rasgada, hematomas por todo corpo e olhos banhados em sangue. Foi quando ela percebeu que o inferno do marido começava a queimar seus próprios pés e lhe agarrava as pernas com línguas de fogo. Sabe, disse ela, ele ainda não está no fundo do poço. Uma amiga me disse que quando ele chegar no fundo ele vai ter duas chances: ou ele salta pra fora do poço ou vai se afogar dentro de uma réstia de água. Pode ser, disse Marta. Então, só me resta esperar. – Ana olhou desolada para a patroa, torcendo o pano de chão. – Sei que ele vai morrer. Ele é mole demais pra sair de um poço destes. Depois de passar o pano, o que mais que a senhora quer que eu faça? Vá pra casa. Fique com suas crianças. Amanhã a gente termina. Ana abraçou Marta, suada e suja, os olhos cheio de lágrimas. Obrigada. A senhora entende porque eu o abandonei? Entendo. Quero acreditar que seu marido consiga sair do fundo do poço e venha ajudar a cuidar e criar as crianças.

A senhora é muito boa, Dona Marta. Não conhece o olho vermelho do demônio. Eu vi. Dentro dos olhos do meu marido. Ele já está no inferno.

Pq não finais felizes?

Sabe aquele filme que vc assiste, tá chato, mas vc continua assistindo, insiste, acredita que haverá uma reviravolta, o filme ainda não mostrou a que veio e, de repente, a imagem some, e mais de repente ainda, sobem os créditos do filme, e mesmo assim, você fica plantado no sofá acreditando que miraculosamente, algo inesperado ainda pode acontecer naquele finalzinho do finalzinho? Pois é, tem livro que também é assim. Você começa a ler um autor novo. É o primeiro livro dele. Você sente a insegurança nas palavras das primeiras páginas. Você insiste, acha que o autor promete. Embarca no enredo. Se envolve. Vc sente que está chegando no ápice e que em seguida virá , como disse minha norinha, uma epifania, uma reviravolta cinematográfica, onde os maus serão desmascarados, os bons recompensados … Vc sente, acredita, espera. Mas nada disso acontece. De repente, o autor apresenta um novo personagem, diminui a ação do personagem principal, outro enredo ganha forca, você imagina que mais adiante os dois enredos e os dois personagens irão se encontrar – eles até se encontram – mas o primeiro personagem principal muda tanto de comportamento, abandona a carreira de promotor público e o país, mergulha numa depressão profunda em Paris, onde uma prostituta, do nada, aparece e o convence a ir pra Nice. Lá ele trabalha como garçom/ carregador/ um faz tudo e conhece uma mulher madura maravilhosa e milionária, ambos se apaixonam, vivem dois meses do mais ardente romance, e do nada, ela diz que ele deve retornar ao Brasil. Ela vai embora. Ele também. Ela vai pra Paris retomar a vida de milionária e ele vai a Berlim, sem saber porque foi pra lá. Entra numa discoteca, bebe os dois drinks a que tem direito, aceita dois comprimidos de droga, surta e é pego pela polícia, que por uma infelicidade, o agride violentamente e Armando – o personagem principal – entra em coma. Um neurologista alemão tenta ajudá-lo. Ele está melhorando. Percebo as páginas do livro acabando. Ele recupera mais e mais a memória, a ponto de lembrar-se da sequência de números do cofre onde deixou sua mochila e seus documentos na estação central de trens de Berlin. Ufa, que alívio. O médico bonzinho irá ajudá-lo a voltar ao Brasil, penso eu. Mas aí vem o fim de semana, a polícia descobre quem é Armando e o extradita ao Brasil. Quando o médico alemão chega para atendê-lo na segunda-feira e não o encontra, fica muito nervoso e revoltado. Eu também. Armando não estava pronto para ter alta. Edu, grande amigo, o irmão para todas as horas, circunstâncias e situações se desencontra de Armando em Nice, por inexplicáveis dois dias. Edu se desespera pela falta de notícias do amigo. Chora desconsoladamente e retorna ao Brasil. O cara foi uma amigo sensacional durante toda a narrativa. Adoraria ter um amigo assim. Na última página do livro, Edu, a esposa e o filho vão jantar. Na saída do restaurante vêem, um mendigo deitado de lado num banco próximo. Edu pede que chamem o Samu e vai embora. O Samu chega, o paramédico examina o morador de rua e diz que está morto há 30 minutos. Ao revirar os bolsos em busca dos documentos, encontra um passaporte, que acredita seja roubado, a foto destruída por um líquido vazado, onde o socorrista lê as últimas linhas do livro:

“Paris – Arrivé – Charles de Gaule”

“Berlin – Abfahrt”

Não sei não; às vezes, não foi bem assim!

FIM

Vontade de afogar o livro na banheira. Rasgá-lo em mil pedacinhos. Sacanagem o que o autor fez com o personagem Armando. Ele não merecia nada disso. E sim, eu me identifiquei com o personagem principal. Vislumbrava para ele outro desfecho. À medida que novos personagens e situações foram atropelando a trama principal, comecei a ficar irritada. Armando perdeu força e entrou numa depressão profunda e se perdeu. O promotor de justiça mais prestigiado do momento, cometeu um erro, não se defendeu, foi injustiçado e banido, abandonou sua carreira, seus amigos, seu país, e no final, morreu como mendigo. A trama poderia realmente acontecer? Tem tanta coisa absurda acontecendo que não duvido de nada. Poderia. Seria o pior dos cenários.

A verdade é que todos gostamos de um final feliz para filmes, livros, para a própria vida. O livro me lembrou em como podemos nos deprimir e nos destruir. O processo de se desvencilhar de tudo e de todos é leve e insidioso, e quando nos damos conta, entramos num caminho sem volta. A volta – sempre possível – é cada vez mais difícil e trabalhosa. A energia e determinação cada vez mais volátil. Histórias como a de Armando acontecem diariamente a nossa volta. Não as vemos. Nem lhes damos atenção. A morte como fim é misericórdia do autor. Porque muitos, morrem em vida. Perdem-se de si mesmos e viram zumbis humanos. Drogados, alienados, bêbados. Órfãos da sociedade, da família, de sonhos. Quantas vezes não é assim que nos sentimos? Lembro de uma professora de literatura que dizia que pouco importava o que era escrito. Importava como era escrito. E que boa arte, boa literatura tinha de chocar. Choquei!!!! O livro “Não foi bem assim – verdades e cicatrizes de um julgamento” de Francisco Almeida Prado é muito bem escrito e envolvente. Se vc tiver baixa tolerância à frustração, passe longe. Caso contrário, ótima leitura.

Férias

Enfim, férias.

Quase surtei.

No processo e na viagem.

Mas, cá estou. Sozinha. Em Lajeado. O dia é de café, livros e sonecas.

A música, os sons que me cercam.

Os pedidos, apenas o que o corpo e a alma sussurram.

De pouco em pouco, algumas ideias cochicham:

“Lá fora agora, alguns latidos e pios. Marieta, como sempre, reclamando de alguma coisa. Mal escuto. Parece eco nesta manhã fresquinha de um verão escaldante. Alguns carros rodam lentamente no paralelepípedo molhado. A garoa me transporta para uma manhã de inverno a cinco meses de distância. Um sino bate. Maria Edite recebendo visitas. As vozes alegres – que bom!!! – vem de longe. Longe é com “g” e não com “j” como acabei de escrever. Obrigada corretor de texto. Preciso dormir mais. Fechar portas e janelas e me recolher em mim mesma. Onde já se viu: “lonje”.

“Depois de semanas neste contexto festivo de final de ano, incluindo visitas, compras, cama-mesa-banho – serviço completo, me olho no espelho: enfim, todos se foram. Foi ótimo estar com todos todo este tempo. O que vejo no espelho depois de tantos e todos os excessos, depois de tantos e todos espumantes, vinhos brancos, cervejas, moquecas, churrascos e sorvetes, depois de tantos e todos banhos de sol, mar e piscina … o que vejo merece tantos cuidados e todos urgentes.Urgentíssimos!!!! Vou começar pintando os cabelos. “

“Iniciei 2019 terminando de ler “Minha História” de Michelle Obama – que obviamente não consegui terminar de ler em 2018. Recomendo a leitura. Me identifiquei com várias passagens da vida da ex-primeira dama dos EUA, mas uma frase, da página 202, faço questão de assinalar: “Os legisladores me pareciam, em geral, praticamente tartarugas de casco duro, lentas e cheias de interesses próprios.” Penso exatamente o mesmo sobre a maioria dos políticos brasileiros.”

As obras completas de Freud sorriem.

Trouxe o primeiro volume.

Por enquanto, apenas dormimos juntos.

O namoro pode ser sério: 24 volumes e uma antiga e eterna vontade de criar um grupo de estudos pode me direcionar por um caminho longo, muuuuito longo.

Tenho mais dois dias sem nada pra fazer.

Da cama, olho a tela na parede.

Estou como ela. Com um buraco no centro.

Adoro esta tela.

Do buraco saem raios amarelos e dourados.

Renascimento puro.

Vozes

Meu maior desejo e cobiça, por ora,

é que as vozes que me possuíram e me habitaram, neste último mês,

me abandonem. Por inteiro e por completo.

Que se partam e partam em paz. Deixem-me comigo mesma.

Me preencho das minhas próprias ausências,

em meio à solidão, cercada de silêncio.

Em meio a este desdém, minha voz jaz acabrunhada,

clama pelo brado estrondoso e retumbante.

Asfixiada goela abaixo. Calada. Submissa.

Entorpecida ainda, pressinto-a revivescer.

Às vozes que partiram, obrigada pela presença.

À minha voz, por favor, não demore.

Mexa-se.

Efeito mate

Das 3 peças feitas com a técnica Aero Brush, apenas uma foi 100% finalizada. O resultado não ficou exatamente o que eu imaginava. A esmaltação não ficou brilhosa. O efeito foi do tipo “mate” (palavras da professora). Pintura falha e opaca.

Como tudo que se aprende, aprende-se muito com os erros. Da próxima vez que usar esta técnica, é necessário mais braço, mais camadas de pulverização e mais fogo. Esta peça foi queimada a 1200 graus centígrados. Possivelmente com 1300 graus, o resultado seja diferente. Anotação feita.

Meu filho gostou. Ainda bem, porque a luminária foi presente dele neste Natal.

Casquinha de Siri


Ingredientes:

  • 1 Kg de carne de siri congelado
  • 1 cebola picada
  • 4 colheres (sopa) azeite de oliva
  • 2 tomates sem pele/sementes picados
  • 1 colher (chá) gengibre picado
  • 1 pimentão vermelho picado
  • sal e pimenta dedo de moça picado
  • 1 xíc. (chá) de farinha de trigo
  • 5 colheres (sopa) manteiga
  • 500ml de leite
  • 1 vidro de leite de coco
  • 3 colheres (sopa) azeite de dendê
  • queijo ralado ou farinha de rosca pra gratinar

Modo de fazer

Refogue a cebola, o tomate, pimentão e gengibre no azeite. Tempere com sal e pimenta dedo de moça e junte o siri limpo (lavado e escorrido), até secar. Em outra panela, doure a farinha na manteiga, acrescente aos poucos o leite, o leite de coco + o azeite de dendê. Depois de ficar cremoso, misture ao siri e regule no sal, pimenta e azeite de dendê. Coloque em forminhas refratárias ou conchas individuais. Salpique com queijo ou farinha de rosca e leve ao forno pra dourar ou gratinar. Sirva com Tabasco ou Molho de Pimenta e azeite de oliva.

Quando chegamos em Florianópolis em 2013, a grande queixa dos meus filhos eram as casquinhas de siri servidas nos restaurantes e botecos da ilha. Normalmente chegavam à mesa gratinados por fora e gelados por dentro. Depois das constantes reclamações aprendi esta receita fácil e rápida de fazer. Presença garantida nos fins de semana de verão entre a família e os amigos.

Conforme o tamanho do pote, rende até 15 porções bem servidas.