Retomando a cerâmica.

Quase um ano sem ceramicar. Meu último registro no blog, data de 03 de agosto de 2020. Estava eu, na época, curtindo meu recém criado espaço pra fazer cerâmica em casa e fazendo as primeiras peças para esculturas de jardim. 

O ano passou. E, quase nada aconteceu. A cerâmica hibernou. Ateliê arrumado, organizado, fechado. Nada de ideias, nem projetos. Nada de esculturas.

Hoje, mais de um ano depois, amanheci inspirada. De onde veio a inspiração, nem imagino. Talvez estivesse entediada de acompanhar a política, o crochê, as leituras e escrevinhações. Talvez precisasse colocar a mão na massa. 

E assim foi: sem grandes programações ou projetos, decidi fazer pit pots maiores e cheios de estilo que vão para a mesa do “cheff”, assim como as travessas. Se ficarem boas. 

Talvez amanhã, as peças estejam em ponto de couro e comece a modelá-las. Depois esperar secar, a primeira queima, a esmaltação e a queima final. Enquanto isso vou produzir mais peças – naquela “wibe” de consumir meus materiais – algo em torno de 30 kg de argila. 

Visualizo mais travessas, bacias, pit pots, panelinhas … 

Voltar a frequentar algum ateliê. Uma possibilidade.

primeira etapa

Poemário – Dia de relaxar

É domingo. 

Manhã carregada de vento,

sol recém nascido e perdido entre nuvens passeadeiras.

Lá fora, 

o cantar dos pássaros e o farfalhar das folhas das palmeiras,

inauguram os primeiros ruídos no meu refúgio,

no interior do interior, no sul do país.

Cá estou eu, com a caneca de café, 

quente e doce,

espiando a vida acontecer. 

Gatos passeiam tranquilos e seguros pelo gramado 

recém aparado;

vizinhos  caminham de cá para lá e de lá para cá;

cães latem ao longe,

o caminhão de gás passa apressado

  • em pleno domingo? –

carros transitam na rua de paralelepípedo.

E eu? 

Só observo.

A  vida por aqui, acontece em noventa graus.

Ando, de café em punho, pelo ambiente desnudo.

Quase tudo foi retirado.

Sobraram a velha poltrona, o tapete puído, o abajour enferrujado,

a lareira e eu.  

Todos esperando o frio voltar.

Na cozinha, o vinho e o queijo, também estão de prontidão.  

Duas taças, um saca-rolhas e uma tábua de frios.

Todo o enxoval gastronômico, deste momento, 

nesta casa, onde tudo é tão pouco 

e tão absoluto.

No cepo de nogueira, mesa improvisada,

contabilizo os livros deixados para trás.

Ficaram comigo, feito companheiros:

  1. Terapia do luto, de J. William Worden;
  2. Homens que odeiam suas mulheres & As mulheres que os amam, de Susan Forward;
  3. Não é mais como antes, de Massimo Recalcati;
  4. 50 contos de Machado de Assis, de John Gledson;
  5. Ser artista, de Marcus Montenegro;
  6. Toda luz que não podemos ver, de Anthony Doerr, e
  7. Woddy Allen, a autobiografia. A leitura do momento.

Abandono o livro dobrado e marcado. A vida do outro.

Desço as escadas e me embrenho no pequeno pomar. 

Me aproprio de quem sou e onde estou. A própria vida.

Meu pequeno poemário:

A constante fertilidade do bananal,

uma bergamoteira de galhos quebrados e muitas,

muitas frutas murchas,

a velha jabuticabeira. Depois de 25 anos, 

eis que a danadinha começa a produzir.

O tronco, mais parece pele de adolescente, 

salpicado de espinhas. Florzinhas. 

Frutos rechonchudos, em breve. 

Estarei eu, aonde?

Vou  voltar quando as jabuticabas brotarem e amadurecerem.

O que são seiscentos quilômetros

pra colher e comer a fruta direto do tronco, do galho, do pé?

Léia pode me avisar.  

Vira e mexe é ela quem abre as janelas,

e deixa o sol entrar. É ela que passa pano úmido no tacão de cumaru,

prepara a cama e as toalhas. 

É ela quem cuida do refúgio que cuida de mim.

Observo a piscina de águas turvas.

Turvo meus sentimentos.

O sol me abraça. O vento quente embaraça meus cabelos. 

Descalça ando pelo gramado,

acaricio e converso com os kaizucas e as estrelitzas,

as fênix e cicas. Buxos e aspargos. Cactos e algarves.

Sempre elogio a Três Marias que abraça o portão de entrada.

Haja talento para tanta floração. Cor carmim.

Percebo as dracenas verdes e rosas 

emparedadas sob o beiral da casa. Precisam ser aparadas.

Observo as orquídeas. Raquíticas e secas. Sem brotos. Sem vida.

Meu jardim maduro anda carente e descuidado. Estranhamo-nos.

Quase não escuto o que ele tem a me dizer. 

Não quero escutar.

Como posso me desfazer

do que pretendo deixar pra trás

sem deixar pra trás?

Como posso não sofrer sem abandonar?

Circulo por todo o jardim. 

Nas mãos, uma placa, com letras garrafais 

e números em vermelho.

Cor de sangue. De raiva. De paixão descarrilada.

O tormento de abandonar o que se ama.

Abandono a ideia, o plano , a placa.

Volto pra dentro. Fecho portas e janelas.

Preparo a lenha. Faço fogo na lareira.

Abro a garrafa de vinho tinto. Almaviva.

Corto nacos de queijo.

Jogo o pelego na poltrona, tomo Woody Allen nas mãos. Vou ler.

Lá fora, o vento continua. 

Traz nuvens negras e frio pra junto de mim.

A calor aconchega e o refúgio mostra a alma que ainda tem.

Quando chegar a hora,

Léia que coloque a placa em frente à casa.

Quando chegar a hora,

estarei à seiscentos quilômetros de distância.

E como bem dizem, 

o que os olhos não veem o coração não sente.

Coletânea de Cartas

Enfim, um trabalho digital. Nada de ebook, por enquanto. Apenas o resultado de um curso de cartas, em que alguns se dispuseram a participar de uma coletânea: 2 cartas e 2 bilhetes por pessoa.

Gostei.

Se a ideia é não deixar passar em branco, vai aí o link com um pouco do que poucos fizeram. Uma ótima leitura.

https://bit.ly/coletanea-cartas-turma3-lume-202

Carta de acolhimento às dores

Jurerê, 30 de julho de 2021

Às minhas dores com carinho

Cara dor de consciência! Cara dor da indecisão! Cara ansiedade, angústia e depressão. Caras dores físicas e emocionais que hoje me preenchem o corpo, a alma, os dias. 

Pelo visto estamos nos entendendo bem, já que não consigo afastá-las do meu dia a dia, nem das minhas noites insones. Ando às voltas com uma nova psicoterapeuta.

Só para avisá-las. 

A esperança é que ela me diga algo novo e inusitado, algo que me resgate das dúvidas e indecisões, para seguir em frente, deixando vcs comendo poeira e à léguas de distância de mim. Como dizem, a esperança é a última que morre, e sinceramente, depois de oito sessões, começo a olhar para vcs – dores da alma, do espírito e do universo psi – como minhas dores cativas, que me dão contorno e humanidade. O que seria de mim se não as tivesse? Como digo para meus próprios pacientes, terapeuta que sou, “qual a função do seu sintoma?”. Tenho me feito a mesma pergunta. Porque mantenho minhas dores emocionais e afetivas tão grudadinhas a mim? O que estou ganhando com isso, ou como diriam os profissionais da área, qual seu Ganho Secundário mantendo estas dores como visitas eternas? Tirando meu sobrepeso, minha insônia e minha pressão arterial (sob controle medicamentoso) nenhum outro sintoma físico tem me acometido. Li num desses Compêndios de Psiquiatria, que quando a dor emocional  é demais, não sobra espaço nem tempo para o corpo lidar com as dores físicas. Pelo menos estou consultando com a área médica/humana correta; a Psicologia. Talvez devesse buscar um psiquiatra e acalmar vcs com medicamentos de última geração, mas decidi que desta vez, vou trabalhar meu emocional como nos velhos e bons tempos de Freud e Jung: associação livre e catarse. Ou seja, vou remoer os ossos da emoção, re-compartimentalizar cada pedacinho de intelectualização e racionalização usados ao longo dos anos, realocando situações, sentimentos, mágoas e frustrações; exterminando alguns, amenizando outros, digerindo a maioria de vcs. O plano é este. E está em curso. Só para avisá-las.

Pq, caras dores, se não conseguir domá-las, reduzi-las, e tomara Deus, eliminá-las definitivamente da minha vida, em algum momento, a somatização será acionada e tomará conta de todo meu corpo físico. 

E aí, tenho medo do que virá. A área médica é uma ilustre e ameaçadora desconhecida. E meus mecanismos de defesa psicológicos, de nada adiantarão. Só para avisá-las. Então, tomem rumo.

Susi

A miudeza da rotina

Quase um mês e meio sem postar. Escrever até ando escrevendo. Na conta deste período, um curso relâmpago sobre Cartas/Bilhetes (Literatura Epistolar), Experimentação Poética, e agora, um Mergulho nas obras de Adélia Prado, Cora Coralina e Ana Martins Marques. Oficinas da Lume com a energia da professora Mellrenault. Uma temporada em SP, outra no RS. Muito barulho com duas obras grudadas à nossa casa. E, frio. Muito frio. A meta é a segunda dose da vacina, agora em 28 de agosto e aguardar a chegada da primavera. Nada de romance à vista, nem cerâmicas, nem pinturas, nem exposições. Tenho vivido os dias entre os livros, as raras caminhadas, o consultório, os cursos online. E à noite, as maratonas de Netflix. A miudeza da rotina em tempos de COVID19. Nada a reclamar. Tudo a agradecer. 

Sogras

A minha era venenosa. Literalmente e venturosamente.

Talvez a benção dos velhos seja falar o que tem vontade, não importando o lugar, a pessoa, a situação. À  medida que aprendi a conviver pacificamente com ela – e imagino que ela me adorava – soube como evitar e desviar dos seus botes. Porque ela não poupava ninguém. De todas as coisas que lembro é que a sopa dela, é até hoje, a melhor que já provei; a galinhada tinha seus dias divinos e o sagu era simplesmente de comer ajoelhada, retorcida e com colherão. O melhor sagu de vinho do mundo!!!! Sempre a admirei pela capacidade de receber qualquer um a qualquer hora, não importando o que estava planejado para o dia. Uma benção da idade, certamente. Ela recebia sem cerimônia nem exageros: um chimarrão e um prato com doces. Qualquer doce de pacote de padaria. Nada de luxos ou surpresas. 

Para ela isso bastava. E era o suficiente. 

Uma das suas frases marcantes era a de que Deus nos deu dois ouvidos: um para deixar entrar e outro pra deixar sair o que quer que fosse dito, falado, comentado, aventado, gritado, sugerido. Nada de engolir em seco, muito menos caraminholar ou surtar. Sei que ela usou este mantra durante toda sua vida. Ou me fez parecer que era assim que ela administrou sua vida afetiva, até se tornar venenosa. Ela soube se blindar e quando chegou na reta de chegada, seu aniversário de 90 anos, ela simplesmente entregou os pontos e jogou a toalha. Foi apagando feito luzinha de Natal até partir para o outro plano sem muito sofrimento, mas muito choro de familiares amigos, vizinhos e parentes. Entendi que todos a respeitavam e que ela faria falta.

Eu bem que tentei colocar em prática este mantra. Nunca me bastou. Talvez por ser de caraminholar tudo e todos e surtar de vez em quando. Não aceito nem permito que façam dos meus ouvidos uma privada. Enquanto psicóloga, sim. Enquanto ser humano, não.

Acredito que todos temos direito a opinar, aceitar e discordar. Ter ideias e sonhos próprios. Metas, ritmos e objetivos pessoais. Ser o que se é ou se quer ser.

Este tem sido meu mantra. Possivelmente não chegue aos 90 anos como minha sogra. Também não chegaria se fizesse como ela fez. 

Somos mulheres de outros tempos.

Percebo porém e aos poucos, que tornar-se sogra e por tabela, venenosa, é uma questão de tempo.  

Uma dádiva

Outono quente e barulhento em Jurerê.

Caminhar tem sido uma dádiva,

física e mental.

Pés na areia molhada, água gelada, olhos vidrados no mar.

Na maré baixa as conchas passeiam na orla, 

entre elas, 

um presente inesperado. 

Uma argonauta cor de laranja.

Me dobro em duas e a acalento nas mãos. Obrigada marzão.

Hoje, este marzão mais parece uma lagoa azul.

Os caminhantes são poucos, 

alguns de máscara,

outros não.

Todos atentos à direção e ao caminho.

Olhamo-nos. Desviamo-nos. 

Assim caminha a humanidade em tempos de COVID19.

O mar, a areia, os peixes, as conchas, as pedras, os pássaros … Estes

tem sido meus parceiros de caminhada.

Uma dádiva.

Quando estiver pronta

Manhã de sábado.

Acordo moída, doída. Dolorida.

A pernas mal suportam meu peso,

meus sonhos, projetos e devaneios, desejos e ensejos. Tanto ainda a fazer …

Vago sozinha pela casa.

Todos se foram. Vão voltar, sei disso. Hoje, amanhã.

Mais tardar na segunda-feira.

Volto pra cama. 

São 10 horas de uma manhã ensolarada.

Ouço o barulho do mar e 

os latidos estridentes dos quatro cachorros do novo vizinho. Coisa bem chata.

Nada que me atraia.

Nem mesmo o jardim recém repaginado nos fundos da casa,

as patas de elefantes e as fênix podadas; as espadas de São Jorge

eretas em vários tons de verde; nem as bromélias coloridas.

Nem mesmo os lírios da paz que se exibem na floreira da cozinha …

Nada, absolutamente nada, me convida a curtir o sol e o dia.

O quarto ainda está no escuro. Tá bom assim.

Tomo fluoxetina com leite quente e biscoito de maizena.

Abro as persianas.

A claridade do mês de maio, em pleno outono, 

é barrada pela cortina cinza de linho sintético.

Me embrulho no edredon, onde descubro o livro lido na madrugada

“O sol da meia-noite” de Stephanie Meyer. 

A história de Edward e Bella deve me confortar. 

A perspectiva é dele, Edward. 

Saber como homens pensam, me instiga.

Na cama e na penumbra lembro de coisas a fazer. 

Vou ler. Dormir. Sonhar.

Lá fora o mundo que dê suas voltas.

Quando der, ele que pare. 

Quando estiver pronta

Descerei.

Barulhos

Durmo com o rugir das ondas do mar, acordo com o rugir de serras e martelos.

Uma casa erguendo-se do fundo da cratera recém construída,

outra sendo demolida.

Depois reformada.

Vivo em meio a este inferno.

Barulhos demais onde outrora vivia o silêncio.

Há de chegar a hora do silêncio voltar a imperar.

Por enquanto, 

resta  acompanhar a evolução das obras barulhentas

e contar nos dedos os dias que faltam para isso acontecer.

Algo em torno de 550 dias. 

Um ano e meio.

À minha direita o gesso despenca e jaz em duas caçambas.

Ao fundo, as formas para a concretagem da cortina sobem em tons de amarelo madeira. Semana que vem, a concretagem. Já vivi esta fase.

Me assusta a demolição da casa da vizinha Cátia.

Sabe-se lá como estava por dentro o que por fora parecia perfeito.

Me assusta a demolição. 

De qualquer demolição.

Não há contenção. 

Tudo cai, se espatifa no chão.

Que dele suba uma nova casa para os novos vizinhos.

Sobreviverei a tudo isso.

Insights

Tudo que eu queria era sair de onde estava, entrar no carro, engatar a marcha, voar pra casa, arrancar a roupa, tomar um banho e me esconder debaixo das cobertas. A sensação de pânico, de estar errada dos pés à cabeça, sinalizou que não faço mais parte deste cenário. Mais uma vez me senti a estranha no ninho. É chegada a hora de partir. De ir embora. Do contrário, serei uma prisioneira no tempo.

Por aqui ficam os Diálogos do Inconsciente.

Elis

Quem visse a rapariga magra, alta, de longas pernas e fios louros e lisos se espraiando pelos seios pequenos e bem delineados não imaginaria quão pesado era o fardo para manter o relacionamento com André, a sensação masculina da temporada na praia e nas academias. Bonito, rico, bem sucedido, e, ninfomaníaco. Ou melhor, viciado em testosterona injetável e num menu variável de mulheres. Elis, a rapariga, até se esforçava. No início, até ajudava a prospectar candidatas para uma noitada a três, quatro … e uma cama. 

Mas, o que era para ser exceção, virou regra. A fantasia colapsou e virou O Pesadelo. O relacionamento a dois tornou-se um relacionamento de  possibilidades, caras, bocas, peitos e bundas. Nada de “falos” a mais. Era André o aficionado por ménage trois e a ideia de que quanto mais mulheres juntas na cama, melhor. 

Pra quem não sabe, uma ménage trois não se limita apenas a dividir o parceiro de lençóis com mais pessoas. A transa não é exatamente um negócio ou um relacionamento. O troço se inicia muito antes do ato em si e se sustenta com infindáveis mensagens e fotos. É a preliminar do ménage. Fotos, papos, condições e indicações pipocam em todas as direções. E todos, absolutamente todos, precisam entrar em acordo para que o ménage aconteça. Questões sexuais, sensuais, logísticas e financeiras precisam fechar e caber na transação. Depois, espera-se, há de se gostar das escolhidas, de preferência com um tiquinho ou ticão de química. 

Para Elis, eram mulheres demais pra acomodar no relacionamento sexual de um relacionamento afetivo com pinta de futuro matrimônio. Eram diálogos soltos em bate-papos de whatsapp, nudes e sorrisos assombrando as noites solitárias após as noitadas apoteóticas regadas a sexo, álcool e drogas. Cenas e posições, visões e gemidos, sussurros e sorrisos num vai e vem frenético e descompensado. Nada disso fazia parte dos planos de Elis. E os sonhos dela transformaram-se num tormento só. 

Ela só queria experimentar uma vez e nunca mais. 

Queria apimentar a relação e mostrar o quanto era avançada e moderninha. Mas André, não só aprovou como provou da ideia e tornou-se um expert no assunto. Um viciado em ménage trois.

Elis passou da medida e a pimenta estragou a relação. 

Refúgio

Recomendo a todos que tenham um: 

ideal é quando tem portas e janelas;

se tiver história é ainda melhor.

A gente pode se refugiar no banheiro, 

debaixo das cobertas, debaixo da cama;

na casa da mãe, do pai, do irmão, da irmã.

na casa de um amigo ou amiga.

Às vezes, numa casa velha e abandonada;

Às vezes dentro do próprio coração.

Se refugiar é se proteger dos outros e de si mesmo.

Porque tem hora que a gente capota, rola montanha abaixo

e quando levanta,  não se reconhece mais.

A vida é mestra nestes acidentes.

Tem época que as capotagens são frequentes.

Grandes ou pequenas, 

quando a gente levanta 

existem mais que galos na cabeça.

De cipós retorcidos a unicórnios alados,

raças, planetas e biomas invadem a gente

berrando por atenção.

O ruído é tão grande e tanto e impreciso 

que tudo que se precisa é de silêncio e solidão.

Tem hora que os planetas alinham,

as raças se entendem e os biomas se adaptam.

Tem hora que a gente se reconhece.

E o refúgio, este vácuo da existência,

consegue ser caprichoso,

às vezes, desdenhoso. 

Sempre precioso.

Encontre o seu e o acalente.

Um dia, tenha certeza, ele vai te aconchegar.

Manhã de sábado

É manhã de sábado.

Deitada estou,

enrodilhada entre lençóis e sobre-lençóis, palavras e ideias. 

Chove lá fora. Descanso minh’alma,

sobre montanhas de almofadas e vontades.

Tento escrever. 

As palavras fogem. Estão cansadas. Escondidas.

O corpo dói.  

O sangue que circula dolorido de ponta à ponta, de alto à baixo,

carrega o peso dos últimos dias, semanas, meses. Anos talvez.

Não quero ser dramática. É dor demais.

É a dor que nos torna dramáticos. 

Temperamentais. Sentimentais.

Porque irracionais estamos todos. Sinto isso.

Assaltada sou, em meu silêncio, todos os dias.

São ruídos impacientes e emoções latejantes.

Irritada pelos excessos e pelas calmarias, ando eu.

Pelas urgências e desistências, pelo muito e pelo pouco.

Estranho este mundo estranho que vivemos.

Estranho porque quase posso ser quem sou. 

Como sempre fui.

Estranho está este mundo estranho que estranha 

as diferenças. 

E isso dói.