Empoderamento

“Resumidamente, empoderamento é a conscientização profunda de nosso status social, que nos permite criar estratégias individuais e coletivas, e assim, reverter o estado atual de coisas. Não podemos empoderar ninguém, como muitos erroneamente acreditam. Podemos, por meio do nosso empoderamento (promovemos o processo em nós mesmas), inspirar pessoas, para que elas, sozinhas, delineiem os próprios caminhos e, assim empoderem a coletividade pela soma de indivíduos. É um ato horizontal, jamais vertical; um processo que envolve muitas dimensões, como a afetiva, a política, a estética e a econômica.”

(Joice Berth, autora do livro O que é empoderamento, em artigo (Ponto Final) para a Revista Cláudia, edição de novembro/2018, p.174)

Placas = peixes, conchas, folhas e muito mais

O ano está terminando e com ele os materiais. Entenda-se: a argila (base para qualquer cerâmica) + os minerais usados na esmaltação das peças. Felizmente, todo e qualquer restolho de argila já trabalhado pode ser 100% reaproveitado. Por isso, catei trabalhos rejeitados e ainda não biscoitados e aparas de trabalhos finalizados. A junção de todo este material rendeu uma boa quantidade de argila pronta para o reuso.

A opção foi praticar mais a técnica da Placa Cerâmica.

Placa 3

À princípio parece a técnica mais fácil de todas, mas não é. Os trabalhos com placa trabalham durante as queimas, o que pode rachá-los, entortá-los ou até quebrá-los, no pior dos cenários.

Placa 26

Não tive bons resultados com as placas anteriores, possivelmente por deixá-las com espessuras finas demais. A espessura correta é essencial para que o resultado final seja satisfatório. Nesta segunda remessa de trabalhos com placa, optei por deixá-la mais encorpada.

Uma das grandes dificuldades da técnica é a eliminação completa das bolhas que surgem enquanto amassamos a argila. Estas devem ser eliminadas com agulha e alisadas com espátula plástica. Cada bolha que persiste é um risco para quebrar a cerâmica durante a queima.

Placa 22

O uso de algum tecido é fundamental durante o processo. O tecido garante que ao manusear a peça, ela não fique grudada (colada) na superfície de trabalho e deforme quando retirada.

O bom desta técnica é a quantidade de peças que podem ser produzidas em pouco tempo: em duas tardes de aula, produzi 11 peças. Acho que apenas a técnica do torno consegue ser mais eficiente. Mas a técnica do torno é projeto para 2019.

Com as primeiras placas fiz 3 suportes que poderão ser usados para servir “sushi” ou qualquer outro petisco seco, para acomodar velas + tantas outras possibilidades ainda não vislumbradas.

Placa 23

A placa também foi usada para fazer conchas cerâmicas. Usei um molde plástico, presente de um amigo. O molde plástico não é o mais adequado, devido à dificuldade de desformar a concha; a chance de deformá-la é grande; tenho controlado um tempo de 45 minutos a 1 hora, tempo em que a argila seca o suficiente para que a concha seja retirada do molde com menos riscos de sair deformada. Mesmo assim, já perdi várias conchas.

Placa 6

À princípio elas serão as casquinhas para servir siri. Conforme o resultado, poderão ser usadas como porta trecos/aperitivos. Porque conchas são sempre bem vindas e muito charmosas em qualquer canto.

Placa 20

Também fiz folhas com placas. Usei como molde uma folha de antúrio do próprio jardim do ateliê. Assim como as conchas, além de porta trecos, as folhas podem ser usadas como pequenas bandejas ou mesmo pratos.

Ou seja, existe uma infinidade de peças que podem ser feitas com placas. Uma mais linda que a outra. E eu, estou só começando …

Todos estes últimos trabalhos, devidamente acabados até 20/12/18, ficarão parados no ateliê durante o período de férias e só serão trabalhados novamente a partir de 03/2019. É quando vão para a esteira da esmaltação. Que venha 2019.

 

By by “siesta”

Viviane passando o aspirador de pó:

Pluf, fssslll, schssssss, paft, poft, zummmmmm, fssssllll.

Parece que uma miríade de insetos foi convocada

pra respirar o pó e desassossegar o silêncio.

É um bate, trumbica e cai.

Lá fora um martelo bate, escadas também.

Batem todos onde e quando não deveriam bater.

Os carros cantam pneus, estão atrasados ou apressados.

A piscina imita o riacho entre pedras.

A corredeira programada movimenta a água azulejada azul caribe.

O jardineiro, felizmente perdeu a hora.

Certamente, vem amanhã de manhãzinha,

acordar a mamãezinha,

com aquele berro horripilante ao nascer do sol.

Aspiradores asperam as poeiras

da casa, do jardim, da vida da gente.

Asperam gente que só queria uma “siesta” silenciosa.

Xispem todos os aspiradores.

E voltem, voltem …

Somente, somente …

quando a poeira baixar.

Manhã de sol

O sábado amanheceu ensolarado, pedindo novas lentes e uma senhora caminhada. Verão após verão sobram óculos de sol esquecidos por amigos, conhecidos e conhecidos de amigos. Além dos familiares. Ficam como agradecimento dos dias à beira-mar entre nós. Uma doação muito bem-vinda a tantos outros amigos, conhecidos, conhecidos de amigos e familiares que chegam desprevenidos para os dias luminosos do verão. Existe um óculos de sol com uma lente que além de proteger os olhos, clareia e dá cor e vida a absolutamente tudo: à vida em si, as plantas, ao céu, ao mar. O mar de Jurerê fica mais verde, a areia mais clara … as pessoas mais alegres, as conchas mais exuberantes … a vida mais bela.

Quando posso – e tenho vontade – inverno ou verão – caminho com pés descalços na orla – onde o mar visita a terra e se recolhe em si mesmo.

mar de jurere

Hoje, ao avistar o mar, passeando pelo deck por sobre a vegetação nativa de Jurerê –  observo a maré alta no mar verde-água num movimento que, ora avançava sobre os banhistas e caminhantes, ora se recolhia expondo conchas e pedras. A orla umedecida, de tempos em tempos, apresentava conchas dos mais diversos tamanhos e cores. Perdi algumas conchas vistosas e oferecidas neste descompasso do ir e vir das ondas. Enquanto isso, no colarinho da maré alta, uma miríade de pequenas conchas pedia uma vassoura e uma pá. Ah, se eu pudesse ….

Desde que ancorei em Jurerê, as conchas me encantam. Desde sempre, existe da minha parte, uma certa reverência ao sagrado que é a casa marinha de tantos seres e frutos do mar. A maioria das pessoas mal percebe o presente que nos é ofertado, diariamente, pela natureza. Quando vejo alguém pisando e quebrando conchas, ouço o crac-crac-crac de uma casa despedaçada. Oh céus, oh mares … me transformo numa perdigueira implacável. Vou catando o quanto consigo carregar e me submeto. Me reclino perante o olhar dos outros. O ato de me curvar para recolher conchas tem algo de divino e, ao mesmo tempo, constrangedor. Que o diga minha lombar. A maioria vê no gesto, apenas a  pobreza daquele souvenir. Vejo simplicidade e agradecimento. E a sofisticação da casa à beira mar.

A coleta do dia rendeu duas mãos cheias. Elas vão iluminar a noite.

abajour

Depois de lavadas na água corrente, um molho perfumado de água sanitária e elas estão prontas para adornar a casa inteira.

Amigos e desamigos

Existem coisas ditas e não necessariamente entendidas e assimiladas de imediato. Às vezes, o coração precisa de um tempo maior para entender e digerir o que o cérebro já processou. Acho que foi isso que aconteceu.

Um casal de amigos veio nos visitar. Amigos de tempos antigos. Ele ,colega de trabalho do meu marido, engenheiro com pouca atividade profissional, não aposentado, esperando que a vida dê uma guinada nos negócios. Ela, a esposa, professora aposentada. A escolha por qualidade de vida os envelheceu precocemente, devido ao excesso de sol, ondas, instabilidade financeira, a perda de um filho e decorrentes questões emocionais. Às vésperas da temporada, decidimos nos encontrar o quanto antes, porque Floripa simplesmente lota, fica intransitável e quase afunda durante o verão.

Combinamos de nos encontrar na nossa casa. Nada de restaurante, bar ou cinema. O reencontro seria à beira da piscina ao som das ondas, na presença irritante dos mosquitos, velas, vinhos e um despretensioso bate-papo. Conversa vem, conversa vai, o risoto de camarão salpicado com raspas de limão siciliano ficou pronto, trocamos o espumante por vinho tinto, comentamos sobre amigos em comum. Em meio à serenidade daquele ambiente, meu marido fez um comentário sobre a esposa de outro amigo comum daqueles tempos antigos: “fulana anda como as mulheres de 50 anos costumam estar nesta idade”. Ok, estamos todas – eu, minha convidada e a amiga em comum – na menopausa. Entendi nas entrelinhas as insinuações do comentário que pouco me mobilizou. Passaria como a brisa leve da noite à beira da piscina, não fosse o tom agressivo e desconectado da professora aposentada esposa do amigo do meu marido: “eu já te mandei tomar no cu esta noite?” A frase dita, com o corpo em riste, simplesmente se perdeu entre o vinho, as velas e o barulho gostoso do mar a apenas duas quadras de onde estávamos. O papo seguiu, preparei açaí com granola, um queijo brie com mel, e “alguém vai querer café ou chá?”

Passava das duas horas da madrugada. Não, ninguém queria nada. Queríamos apenas que o Uber chegasse logo e desse fim àquela noite esquizoide. Enquanto apagava as velas, recolhia os copos, desligava os abajures e fechava as portas, meu marido me perguntou o que eu havia achado do comentário feito pela esposa de seu amigo. “Que comentário?” questionei sonada e levemente(?) embriagada. “Aquele sobre eu tomar no cu.” Olhei para ele e só então processei o acontecido: “Fulana foi extremamente mal educada e deve ser assim que trata teu amigo dia a dia. Deve estar em crise … mal educada”.

Nestes últimos 3 anos, temos tido uma baixa substancial de amigos com os quais reativamos amizade. Alguns dos ditos amigos de antigamente devem ficar com as coisas de antigamente lá onde mora o antigamente.

A vida segue rumos que as amizades nem sempre conseguem acompanhar.

E, eu acho que adquirimos mais um casal de desamigos.

Aero Brush

Na última aula de esmaltação cerâmica aprendi a usar uma nova técnica. Lembrou da época em que usávamos o “Flit de Neocid” para espantar e matar moscas, mosquitos e demais insetos asquerosos e pestilentos. O conceito é o mesmo: coloca–se a composição mineral no reservatório plástico e aciona–se a bomba com movimentos rápidos e rítmicos. É importante mirar e acertar o objeto onde a mistura deve ser pulverizada uniformemente.

aero 2

Na cerâmica, o uso do Aero Brush permite que a esmaltação não apresente as possíveis marcas que os pinceis podem deixar.

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Depois de pulverizado, usa-se o dedo indicador num movimento leve e circular para terminar de preencher e conferir se a espessura de 2 mm de minério foi alcançada de forma parelha em toda a peça a ser esmaltada.

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Das três peças pulverizadas pelo Aero Brush, uma vai ser finalizada com “terra sigillata” ou argila líquida aplicada com pincel. Foi usado fita crepe para dividir o vaso em duas metades, cada uma com acabamentos diferentes.

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Como o tempo e o processo de execução e finalização de cada peça cerâmica é demasiado longo (devido a questões do ateliê/forno), optei por postar as fases em que as etapas vão acontecendo.

As peças que aparecem neste post foram produzidas há um ano. 

Emma

Me dá um certo nervoso quando depois de 15 dias, ainda não consegui terminar de ler  um  livro. Este não é livro pra desistir. É livro pra persistir. E insistir. “Emma” de Jane Austen tem me enervado. O ritmo lento, o enredo circular desprovido de ação e as letras miúdas do texto, tem me posto a dormir há duas semanas. Pelo menos, isso.