A vida nas prateleiras

Livros são uma excelente companhia! Sempre.

Ao longo dos anos fui aumentando minha biblioteca particular e hoje possuo uma quantidade razoável de livros. Sempre foi mais fácil escolher livros a roupas, sapatos ou bijuterias. Quando vou às compras, acabo levando vários de uma só vez, e assim, foram se acumulando. Digo que fiz um “rancho de livros”. Por isso, em minha biblioteca particular existem livros que nunca li. O tempo disponível para a leitura nunca foi suficiente para a quantidade de livros adquiridos ao longo dos anos.

É incrível como em todas as áreas da vida humana existe uma grande oferta de tudo para se comprar. O comércio que gira em torno de nossas preferências e sonhos de consumo é enorme e inesgotável. Muitas vezes evito entrar na livraria, pois sei do sacrifício que faço para não levar uma braçada comigo. Vários livros sorriem e se convidam para serem meus. Acabo levando.
Não sou uma compradora compulsiva, daquelas que saem às compras e compram tudo o que vêem pela frente, e que só sossegam quando não tem mais limite de crédito no cartão, na carteira ou na conta bancária.
Quando me permiti este período de pausa e reflexão – este exílio voluntário na Venezuela – defini algumas metas mínimas a serem alcançadas. Entre elas estava a leitura de vários livros há muito tempo comprados e esquecidos nas prateleiras.
Sempre tive o hábito de identificar meus livros com meu nome, mês e ano da compra. Assim, sei que estou lendo livros comprados há mais de 10 anos. São livros técnicos das mais diferentes correntes psicológicas, biografias diversas, romances, suspenses, crônicas, etc.
Quando começo a ler um novo livro vejo a data da compra e procuro lembrar o que eu fazia ou estava vivendo na época, para entender as motivações que me fizeram comprar determinado livro. Alguém um dia escreveu que não somos nós que escolhemos nossos livros, São eles que nos escolhem.
Tenho verificado na prática esta afirmação.
E assim tenho lido livros que já não me interessam mais, com conteúdos e temas ultrapassados, outros um tanto repetitivos. Alguns teriam sido muito importantes se lidos lá atrás, pois fariam diferença na minha forma de abordar determinados assuntos e pacientes. Outros teriam sido úteis para minha cultura, minha vida e conhecimentos gerais. Alguns continuam na ordem do dia, mas agora, o meu momento é outro.
De qualquer forma, tenho feito do meu hobby da leitura muito mais do que um mero passatempo ou estudo. Tenho feito vários resgates, revisões bibliográficas, reflexões teóricas e pessoais.
Dei-me conta do tanto que sei e do tanto que não sei. Da quantidade ilimitada de conhecimento existente. Das diferentes formas de abordagem, formas e estilos distintos.
O que mais tem me surpreendido é o quanto ainda tenho que aprender, o quanto ainda desconheço. O que me deixa desolada e estimulada ao mesmo tempo, obrigando-me a seguir em frente.
É revigorante saber que mesmo estando na meia-idade, tendo um vasto conhecimento e experiência, ainda sou virgem, inexperiente e inocente em muitas áreas do conhecimento e da vida humana.
Esta constatação tem sido um estímulo diário.
Ainda tenho muito que conhecer e aprender.
Principalmente, tem muita vida pela frente, tem muito a ser feito!
Não podemos perder as oportunidades, não podemos deixar a vida nas prateleiras para quando tivermos tempo.
Diferentemente dos livros que esperam nas prateleiras, a vida não espera.
Cabe a cada um de nós definir com que estilo, abordagem ou forma, escreveremos nossas vidas.
Los Canales, setembro de 2006.

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