Ai do Arnaldinho

Um misto de euforia e frustração tomaram conta de Júlia, naquela manhã de quinta-feira. Era dia de retirar sua BMW importada, vermelha, acabamento manual no volante e nos bancos de couro. Após meses de espera, seu marido não poderia acompanhá-la. Como de costume, nos últimos vinte e cinco anos, um imprevisto foi mais importante que ela. No mínimo, algum cliente reclamando…… Assim, ela foi sozinha, retirar seu presente de Bodas de Prata. Na saída da concessionária, embriagada com o cheiro inconfundível do couro e fascinada com os detalhes daquela joia alemã, Júlia tomou a segunda faixa à esquerda da Marginal Pinheiros, sem perceber a camionete, que para evitar bater, freou bruscamente cantando os quatro pneus. “Ops”. Júlia acariciou o volante do carro imaginando a tragédia que poderia ter acontecido. Olhou para trás pensando em fazer sinal para se desculpar e agradecer, mas o que viu foi a Toyota colada em sua traseira, fazendo sinal de luz e buzinando alucinadamente. Júlia deu a seta para sair da avenida movimentada e se afastar do mau humorado e impaciente motorista. Surpresa, viu que o dito cujo teve a mesma ideia, e antes de qualquer coisa, viu-se ultrapassada pela camionete, que além de cortar-lhe a frente, freou de forma tão assassina, que ela mergulhou livre e desimpedida em sua traseira. Saiu cambaleante de sua BMW e viu seu presente – com menos de 20Km rodados – amassado como papel e sucateado como ferro velho. O homem que saiu de dentro da Toyota estava encolerizado. “Sua barbeira, o que é isso? Comprou a carteira?” Ele a olhava e gritava um rosário de impropérios machistas, cercando-a como um felino, enquanto Julia, só tinha olhos para seu carro destruído, imaginando a cara do marido quando soubesse de sua proeza. “Moço, eu não tive culpa. Acabei de sair da agência…..nunca ando por estes lados …. Não percebi que o senhor estava do lado, tão pertinho….” “Tenha dó, né madame, acho bom a senhora chamar seu seguro ou seu marido. Se é que tem um.” “… Meu marido é quem deveria ter assinado e saí da agência………….sem seguro…. Céus, o Arnaldinho vai me matar”. “Ou eu, se a senhora não assinar, agora mesmo, um cheque pra pagar a despesa.” “Como?” “Pensa que sai por aí fazendo barbeiragem e fica por isso mesmo?” “Moço eu nunca bati….” “É? E esse carro metido a supositório na traseira da minha camionete é o quê?” “Foi o senhor que brecou deliberadamente para que eu batesse.” “Prova isso.” E antes que Julia pudesse pensar no que dizer ou fazer, o homenzarrão circulou o que restou do seu carro, deu chutes e pontapés na lataria antes acetinada, vermelha e brilhosa. “Nunca bateu, é? E esses amassados, o que são?” “Acho bom o senhor parar agora mesmo, porque estou chamando a polícia.” “Ótimo. A senhora sabe que quem bate na traseira é sempre o culpado.” “Vamos ver.” “Ficou valente, é? Se não sabia dirigir porque se meteu neste trânsito pesado?” Julia emudeceu. Olhava desolada sua BMW destruída, o coração batendo na cabeça prestes a explodir e a lembrança de tudo que ouviria: barbeira, imprestável, burra…. Arnaldinho tinha um jeito tão cruel de falar com ela, e agora, aquilo. Sem contar, aquele troglodita que passou a olhá-la enviezado com um sorrisinho debochado. Igual ao Arnaldinho. E a polícia que não chegava. E quando chegasse, certamente olhando a cena, diria que ela era a culpada, e junto com o troglodita e seu marido imprevisível e imprestável – que diferença fazia isso agora? – diria que era uma barbeira que deveria ficar em casa lavando panelas. “Como é que é, vai chamar o seguro ou o marido? No mínimo o maridão está muuuuuuito ocupado.” Julia mirou-o. Entre ele e o caminhão truck embalado – que se aproximava sinuosamente na pista ao lado – apenas alguns metros. Entre ela e ele, míseros centímetros. Em segundos, seu ódio desvairado empurrou o idiota da Toyota com tamanha força, que era exatamente o que faria com Arnaldinho da próxima vez que surgisse algum imprevisto. Ouviu o PLOFT com os olhos fechados e o corpo tremendo. Esparramou-se na calçada e esperou a calma e a polícia chegar. E ai do Arnaldinho se abrisse a boca e fizesse qualquer comentário.

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