Comida é o novo sexo

Esta frase de Bruna Lombardi, do filme “Onde está a Felicidade”, tem martelado minhas ideias e compreensões, desde que sai do cinema, no último sábado. Companhia diária e voraz, fica fungando minha nuca espreitando minhas escolhas alimentares. Na noite em que a adotei, logo aconchegou-se no meu colo e exigiu espaço em meu olhar. Depois do filme fomos no Galeto’s alimentar o corpo de branco e verde. Prato bonito e saudável.Ao lado, uma família procurava fazer o mesmo. Um avô debochado, pai e mãe obesos e uma filha magra desertada. Apenas seu prato indicava sua presença. Mas aquela presença ausente inundou a mesa. Sob o olhar sorridente do avô a irritação atingiu a obesidade dos pais em cheio. Frente aos pratos nus, aquele transbordante delatava a deserção da filha. Olhares aflitos aguardavam impacientemente sua chegada, celular mudo, os pais levantam-se para sumir do olhar sarcástico do avô e do prato sorridente a sua frente. Vão em busca da fujona consumista. Neste meio tempo, eis que surge a menina. O avô apenas comenta da aflição dos pais, com olhar sarcástico. Entre uma garfada e outra do verde saudável, ela localiza os pais. Já está na mesa com o avô, é toda sorrisos e satisfação. Os dois não tardam a chegar. Desmontam sobre suas cadeiras. O olhar perscrutador revela o instinto assassino e sanguinário frente a filha independente e o prato recém tocado. Além de independente a menina revela-se muito inteligente. Com gestos suaves e olhar tranquilo ela descarrega seu meio frango desossado no prato do pai, sua porção de creme de espinafre no prato da mãe. O avô, antes sorridente, se cala. Começa a mexer nos casacos, mostrando sua pressa ante o prato vazio. Percebeu que a neta não o calaria com comida. Ele não merecia, afinal foi um mero espectador do teatro familiar. Assim como eu. Saímos antes do “gran finale”. A cena cimentou a frase. Comida é prazer, descoberta, fuga, companhia, perdão, obsessão. Preenche qualquer falta qualquer corpo qualquer necessidade.Saindo da Praça de Alimentação bisbilhotei outras mesas, restaurantes, cafés e lanchonetes. O olhar e o corpo repousado depois da orgia consumista e gastronômica era só sorrisos, satisfação, sensualidade e provocação. A energia libidinal era palatável e transmitia uma saciedade civilizada. Desviei meu olhar voyer e numa busca inocente por sinalização para dar o fora dali, me deparei com as placas de Praça de Alimentação. Poderíamos chamá-las de Motel Tentação ou Prazer A Qualquer Hora ou Preliminares Doces E Picantes ou……….Sirvam-se. Sentadinha no carro, com o estômago satisfeito e a cabeça cheia de ideias, pensei na noite propriamente dita. Cama e sexo? Ou apenas o relaxamento sensual e provocante e o sono gostoso dos prazeres satisfeitos?
Tenho que me livrar dessa adoção urgentemente.

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