O novo velho ninho

Adorei a forma como a psicóloga Iara Camaratta Anton aborda a necessidade de se criar um novo ninho quando os filhos saem de casa, em seu livro “Homem e mulher – seus vínculos secretos”. Para ela, são necessárias novas aberturas, pois não existem mais espaços no velho ninho, tornando-se indispensáveis para nossa segurança e sobrevivência, assim como para o desenvolvimento e crescimento pessoais. Quando meus filhos saíram de casa me dei conta que nosso velho ninho teria que ser mudado. Não pensei na troca de móveis ou reaproveitamento de espaços. Estas constantes mudanças sempre foram muito corriqueiras no espaço físico do nosso ninho.Troca de funções, móveis ou adornos não preenchem este novo espaço vazio que se cria no universo familiar. Comecei a perceber o espaço emocional e afetivo que começava a se abrir e a se agigantar em meu universo. Após anos atendendo e servindo os filhos desempenhando o papel de babá, motorista, professora, conselheira, cozinheira, faxineira, enfermeira, passamos de repente a ser apenas suas amigas, suas mães. Abre-se uma brecha, uma cratera em nossas vidas e em nossas agendas. Mesmo trabalhando em período integral, a mudança de compromissos e obrigações gerou um estranho sentimento de que estava fácil demais, tranqüilo demais, monótono demais. Ter todo o tempo do mundo para suprir as próprias necessidades passou a ser inquietante. Poder ir ao supermercado sem pressa, porque ninguém está esperando para ser levado ao inglês ou à natação. Poder sair do trabalho sem se preocupar se tem pão em casa para o lanche. Poder acordar somente 30 minutos antes de ter que sair para o trabalho, sem se preocupar com o horário da escola, ou com o café da manhã dos filhos. Poder comprar e comer apenas aquilo que gosto, sem precisar levar uma montanha de guloseimas torturantes para casa. Poder andar somente de calcinha pela casa. Fazer topless na piscina de casa. Estes são apenas alguns dos pequenos luxos e prazeres sempre sonhados, e de repente, tão estranhos e sem sentido, quando nossos filhos se mandam e saem de nossas casas. Quando não de nossas vidas. Todas sabemos que um dia isto vai acontecer, que criamos eles para o mundo. Mas quando eles se vão, vemos que não estávamos suficientemente preparadas. Cria-se um buraco em nossas vidas e em nossas rotinas. Anos atrás uma amiga me contava orgulhosa sobre a compra de um filhote de labrador, e de todo o enxoval comprado para o canino, que incluía cama, travesseiro, cobertor e roupas!!! Referia-se ao filhote como se fosse seu novo filho, tamanho o cuidado e dengo a ele dispensado. Pensei que jamais chegaria a este ponto! Não que eu não goste de bichos, muito pelo contrário, adoro animais, mas cada um no seu canto. Na nossa casa, lugar de cachorro sempre foi do lado de fora. De repente me vi olhando e pesquisando raças de cachorros ou gatos. Seria o gato Paco ou a cachorra Dakota. Começava a imaginar como seria meu novo companheiro me esperando sorridente e feliz quando chegasse à noite, me acompanhando pela casa toda, dormindo aos meus pés, assistindo televisão comigo. Passado o primeiro momento, comecei a me deprimir com a idéia. Sabia que esta não seria a solução para meu vazio. Passei a mexer na casa. Entrei na fase de modernizar nosso espaço. Repaginar o jardim. Adotamos comida mais natural e vegetariana em casa. Comecei a fazer dança do ventre, sair com amigas, ir ao cinema. Inventei. Experimentei coisas novas. Mas nada preencheu aquele espaço vazio. Meu ninho não era mais o mesmo. Quanto mais mexia nele, mais deformado e esquisito ele ficava. Aquilo não se encaixava no meu universo afetivo. Precisava aprender a ser uma mãe diferente num ninho diferente. Ainda estou aprendendo, volta e meia dou uma derrapada braba, fico chateada comigo mesma, mas sei que neste novo processo, esses escorregões acontecem, fazem parte do processo. Conviver com filhos independentes e auto-suficientes é fantástico, mas assustador ao mesmo tempo. Ter uma vida pessoal independente e auto-suficiente é maravilhoso. Quando nos permitimos e podemos canalizar nosso afeto e energia para nós mesmas, para nosso casamento/relacionamento, para amigos e demais familiares, para projetos humanitários, descobrimos que podemos criar muitos novos filhos, que podemos ver nascer e crescer novos frutos e projetos em nossas vidas. Independente de como são nossos filhos, são o nosso grande projeto de vida. Mas não podem ser os únicos. Outros projetos precisam de nós.

                                                         Lajeado, fevereiro de 2007.

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