Amigas de Infância

Em dezembro, cinco meses antes do meu aniversário, resolvi fazer uma festa para minhas amigas de infância. A ideia surgiu, quando às vésperas do Natal, encontrei casualmente uma amiga no cabeleireiro. Ambas queríamos estar lindas para o Papai Noel! Ela olhou para mim, e disse: “Susi, é tu?” “Sim, sou eu”. Claro que eu era eu, mas e quem era ela? Olhei-a com todo o cuidado e educadamente disse: “Não consigo me lembrar de onde te conheço”. “A Marilene! Lembra, fomos amigas na adolescência!” Céus! Há quanto tempo faz isso? Chegamos à conclusão de que não nos víamos há 27 anos. A última vez foi na festa do meu casamento. Em apenas cinco minutos colocamos em dia 27 anos de nossas vidas. Foi o tempo que restava para a tintura fazer efeito e cobrir nossos cabelos brancos. Saí do cabeleireiro felicíssima. Havia reencontrado uma amiga de um tempo maravilhoso de minha vida. E ela continuava linda e magra. Como é que eu não a tinha reconhecido? Também, depois de 27 anos, com os cabelos melecados de tintura, pedaços de papel alumínio envolvendo parte da cabeça, e vestindo um aventalzão(ou seria uma capa?) como eu poderia reconhecê-la? Milagre foi ela ter me reconhecido! Cheguei em casa radiante por ter reencontrado aquela amiga e em pouco tempo decidi fazer um encontro com amigas que não via há, bem, 30 anos. Todos em casa acharam a ideia muito boa, e meu marido disse todo sorridente: “Assim posso conferir se fiz a escolha certa”. Engraçadinho! Passados Natal, Ano Novo, Carnaval, achei que já poderia chamar minhas amigas à realidade, e no final de fevereiro nos encontramos. Passei algumas horas das minhas férias localizando-as, afinal, em trinta anos, eu tinha amiga morando até em Cascavel, no Paraná. O simples contato telefônico com todas elas por si só, já valeu a pena. Era ótimo ouvi-las, saber como estavam, e principalmente, perceber que todas também queriam se ver. Ainda éramos “a turma”. Cheguei a delirar quando ousei pensar que poderíamos criar um Orkut com a nossa turma. A nossa própria comunidade. Sim, porque quando eu pedia algumas informações do tipo, telefone, endereço, celular, e.mail, a resposta que mais ouvi foi: olha, liga para minha casa porque meu celular muitas vezes está sem bateria; ou, eu não escuto ele na bolsa; ou, quem mais usa o meu celular é a minha filha, então para não correr o risco de ficar sem o recado, é mais garantido ligar para o telefone residencial. Quanto ao e.mail não foi muito diferente. Pior até. Ou, eu não tenho e.mail próprio e não adianta mandar para o do meu filho que ele não vai me mostrar; ou, não sei mexer muito no micro, me atrapalho toda e tenho medo de estragar, então é melhor ligar aqui para casa; ou, não lembro qual é o meu “site”. Cheguei à conclusão de que a nossa não é, definitivamente, a geração da informática. Para não dizer que a decepção foi geral, das nove convidadas, duas sabiam usar bem o micro, o celular, a internet. Esses bichos modernos. Mas como eu também tenho minhas próprias pendengas com estas inovações tecnológicas, relevei e mantive meu ânimo. Uma semana antes do encontro, liguei para o telefone residencial de todas elas e falei com todas pessoalmente para confirmar que viriam. Nada de deixar recados com filhos adolescentes. A chance que temos de receber tais recados talvez, sendo bem otimista, chegue aos 50%. Crianças menores então, só lembram que “alguém ligou e queria falar com a mamãe”. Com o número de convidadas confirmado programei o que seria servido: torta de mousse, docinhos, salgadinhos, sorvete, frutas, chá gelado, refrigerante e espumante, para brindar ao encontro. Repensando o menu, na véspera, decidi reduzir o tamanho da torta, cortar os docinhos, aumentar a quantidade de frutas, priorizar os refrigerantes ligth e aumentar a quantidade de espumantes. Se todas estivessem como eu, estaríamos todas de olho na balança e um pilequezinho entre amigas, em pleno sábado à tarde, seria uma extravagância à altura dos nossos velhos e bons tempos. O tão esperado dia começou muito cedo. Na rodoviária. A primeira convidada passou a noite amassada num ônibus comum para não perder a oportunidade de rever a galera. A cena dela descendo os degraus do ônibus se mantêm viva em minha memória. Minha amiga estava linda. Nem parecia a menina magrela, sardenta, de cabelo ruivo encaracolado. Ela estava um mulherão. Aliás, no decorrer de todo o dia, vi que todas nos tornamos mulherões. Felizes, sorridentes com nossos filhos, companheiros, trabalhos, sonhos, projetos. Decepcionadas. Esperançosas. Com a vida vivida até então. Tudo devidamente documentado pelo fotógrafo da casa que não perdeu a oportunidade de se certificar quanto a escolha feita há tantos anos atrás. Foi o único da turma do Bolinha que compareceu ao encontro das Luluzinhas. O que as fotos revelaram foi 100% alegria, só sorrisos. Fizemos uma terapia grupal. Nos fizemos muito bem. Continuamos a nos fazer bem. E ficou uma certeza: mesmo tendo mudado fisicamente e tomado caminhos distintos, continuávamos as mesmas. Características de crianças e adolescentes mantiveram-se em cada uma de nós: a mais brincalhona, a mais reservada, a mais estabanada, a mais séria, a mais falante, a mais reclamona. As mais. Como naquela época mágica, a que brindamos alegremente naquela tarde, continuávamos as mesmas. Ainda éramos “a turma”. Decidimos não esperar mais tanto tempo para nos reencontrar. Sabe-se lá o que a vida nos reserva.

Quanto à conclusão de meu marido?

Ele preferiu não revelar. Sorte a dele.

Lajeado, abril de 2007

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