Medos

Tenho percebido que nossos medos vão se modificando com o passar dos anos. Estávamos na “Cueva del Guácharo” – na Venezuela – uma caverna escura habitada pelos pássaros guácharos, ratos, caranguejos e outros animais de hábitos noturnos que sequer vi, tamanho o breu da caverna. A única iluminação era a de um lampião carregado pelo guia, que volta e meia era desligada para observarmos o escuro da caverna. Andamos em torno de 1 km por uma trilha pouco iluminada. Fiquei surpresa com a minha reação e a das pessoas que conosco fizeram a expedição. Ninguém gritou quando camundongos e ratos brancos vieram correndo, nem reclamamos da escuridão ou dos morcegos e pássaros dando rasantes sobre nossas cabeças. Todos nos controlamos. Inclusive, TODAS as mulheres.

Quando crianças temos medo do escuro trovão sapo barata cobra boi vaca rato. Do homem do saco, do bicho-papão, de dormir e de ficar sozinha. Cada um sabe do que tem ou tinha medo! A lista pode ser extensa já que cada um aprendeu seus próprios medos. Quando adolescentes mantemos alguns medos e adquirimos outros. Será que vou ficar alta e bonita o suficiente, será que a turma vai me aceitar, será que vou arrumar alguém para ficar e namorar, como será uma relação sexual, será que vou gostar, será que vai doer, será que vou escolher a profissão certa? Apreensões, incertezas e questionamentos. Dúvidas que geram novos medos. Quando adultos o processo se repete. Caso ou não caso? Com o José, o Mário ou o Eduardo? Pânico de entrar na igreja no dia do casamento e se amarrar. Medo da gravidez e do parto. Será que vou saber cuidar de uma criança? Que vou fazer se ela ficar doente? Posso deixá-la com a “tata” ou na escola e sair tranqüila? Como será o meu primeiro dia de trabalho? Será que vou ser aceita? Será que vou fazer tudo certo no trabalho? Posso dar um carro para meu filho? Posso deixá-lo ir sozinho à praia? Será que meu marido tem outra? Será que ele ainda gosta de mim? Será que meu preventivo do câncer está normal? São novos medos, questionamentos e novas dúvidas.

Chega um ponto em que temos de escolher quais medos manter. Não tem espaço para todos. Ainda mais se pensarmos na violência, nas drogas, na impunidade que nos cerca. Os medos sempre existiram e são importantes para a preservação da nossa espécie. São eles que nos afastam dos perigos que podem nos destruir e aniquilar. Alguns são inatos e herdados dos nossos pais ancestrais. Outros aprendemos com o mundo que nos cerca. São medos culturais e contextuais.

Percebi que meu pavor por sapos se transformou em um não gostar de sapos. Meu pânico por ratos está na categoria de cada um pro seu lado: ele lá e eu cá. E assim vai. Amadurecendo percebi que tem coisa pequena demais capaz de me aniquilar e me destruir. Puro exagero. Quem se encarregou de dar as dimensões exageradas a eles fui “euzinha”.  Tenho tentado manter os medos próprios da minha idade, e olha que às vezes, me pego exagerando. Sei que daqui a pouco vou adquirir outros e novos medos: de doença, da morte, da solidão, do abandono……..Estou tentando sem exageros.

Por que o medo pode se transformar em um problema sério, em sofrimento e até doença.

Los Canales, outubro de 2006.

Um comentário sobre “Medos

  1. É, Suzete. Isso mesmo! Alguns medos são nossos, outros são impostos. Vivemos na sociedade do medo, medo de perder o emprego, de não ter sucesso na vida (ser um Looser), de violência. E por aí vai. Gostei quando você diz que há fases para diferentes medos. Pensar sobre, pode nos fazer exorcizar alguns deles.

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