O começo de tudo

 Difícil precisar quando surgiu a idéia de escrever. Desde menina as palavras e os livros sempre me encantaram e fascinaram. Eles sempre me transportaram para lugares exóticos, tempos distantes, realidades futuristas, culturas e costumes diversos, sem jamais precisar sair do lugar. Vivi suspenses e romances como se fossem meus. Fui estimulada e desestimulada, aticei minha curiosidade e minha imaginação. Muitos livros me fizeram rir e chorar. Outros ampliaram minha visão de mundo, alargando meus horizontes, desejos e anseios. Cada um, a seu modo, fundiu-se em mim tornando-me em parte quem sou.

Quando menina sonhava ser escritora. Mas a escolha profissional se deu entre ser psicóloga ou jornalista. Por algum motivo, o conhecimento pela alma e pelo comportamento humano foi mais forte e fui ser psicóloga. Desbravei antes o território feminino. Fui ser namorada, amante, esposa, mãe, dona de casa. Tornei-me mulher cedo demais.  Aos 17 anos. Obra do destino? Da casualidade? Do descuido? Ou, uma simples escolha inconsciente e inconsequente? Como tantas meninas adolescentes do final da década de 70, fui uma grávida jovem cheia de planos e sonhos.

Minha primeira filha nasceu cedo demais, com seis meses e meio de gestação. Ambas sempre fomos precoces, impacientes e apressadas. Aos 26 anos, nasceu meu segundo filho. Sentia-me realizada com o casamento, dois filhos e a formação acadêmica concluída. Mas, com o passar dos anos e as conquistas pessoais e profissionais na bagagem, algo começava a me inquietar. Sentia novamente nascer o desejo de criar, de gerar algo novo, com minha cara e meu jeito de ser. Um novo filho. Só que diferente. Minha criação deveria englobar tudo que era importante para mim. Minha vida, meus relacionamentos afetivos, minha experiência, meu conhecimento técnico e teórico, minhas opiniões e percepções. Sentia que estava concluindo uma etapa e iniciando outra.

Aquele antigo e velho sonho voltou e a idéia de escrever um livro ficou mais presente. Paulo Coelho diz que “o universo conspira a nosso favor” e sempre concordei com estas palavras. A vida nos dá oportunidades que nem sempre identificamos. Muitas vezes vemos problemas onde existem oportunidades, imprevistos onde estão novos desafios. Após dois anos gestando a idéia de escrever um livro, o exílio voluntário e temporário na Venezuela (e inicialmente muito doído), se mostrou a oportunidade que a vida me dava. Poderia finalmente concretizar meu sonho de menina: ser escritora. Poderia escrever e usar todo meu tempo, dedicando-me integralmente ao processo criativo.

Como psicóloga e terapeuta de casais e de família, ao longo de 15 anos, atendi centenas de pacientes. Homens e mulheres, crianças, adolescentes, idosos, casais, famílias, grupos. Gente muito rica e muito pobre. Gente com sérias perturbações emocionais, outras nem tanto. Conflitos pessoais e inter-relacionais. Aprendi com todas estas pessoas maravilhosas, e me conheci melhor enquanto os ajudava a fazer o mesmo. Também aprendi muito com meus filhos, amigos, familiares e com meu eterno e querido companheiro. Quando convivemos e nos relacionamos com as pessoas e com o mundo que nos cerca – nossa sociedade e cultura – sempre aprendemos algo novo e nos transformamos como resultado desta interação.

No princípio, este livro e este tempo seriam relativos aos três meses em que estive exilada no exterior. Mas estas primeiras crônicas tornaram-se pessoais demais. Preferi deixá-las de molho, apurando o gosto e engrossando o caldo. Concluí que ainda era uma novata inexperiente para falar sobre um tema tão intenso e profundo como o ninho vazio. Recém estava engatinhando num terreno em que muitas já corriam maratonas ou o triatlo. Eram doutoras e PhDs em ninho vazio. Com o passar do tempo, estas impressões continuam em franco processo de mudança e transformação, pois é assim que a vida é: um eterno vir a ser. Aprendi que o tempo e a paciência são os melhores remédios. Pensei em deixá-las marinando por alguns anos. Queria que o caldo engrossasse cada vez mais e ficasse impregnado da cor e do sabor da meia-idade. Dez anos seria o período ideal. Afinal, já que dividiria minhas crônicas pessoais, esperaria pacientemente que elas adquirissem mais consistência, profundidade e principalmente, maturidade.

Mas a cobrança de amigos e a sensação de que já havia pelo menos conteúdo suficiente, me fizeram antecipar a produção de “Um ninho para chamar de seu – Reflexões na meia-idade”. Até porque detesto deixar coisas inacabadas e era esta a sensação que tinha toda vez que relia ou escrevia novas crônicas. Sem contar que muitas coisas podem acontecer no período de dez anos. Decidi não arriscar, e optei por dividir uma fatia generosa de quatro anos de reflexões, questionamentos e tesouradas, ao invés dos míseros três meses iniciais.

O que se ganha ou se perde com esta ampliação do tempo são crônicas de estilos e humores variados. Pensava que elas não tinham personalidade, nem estilo, nem meu jeito de ser. Até perceber que elas refletiam exatamente o momento de vida pelo qual estou passando. Pura transformação e redefinição. Assim, não espere uma linha de pensamento coerente ou um estilo literário personalizado com identidade própria. Existem apenas hormônios e humores afetados demais ao longo de todas as páginas. Uma a uma formando um imenso quebra-cabeças de emoções, sentimentos e informações, cujo maior objetivo é o de compartilhar, fazer pensar e sentir este período de vida pelo qual a maioria de nós passa, e que na correria dos dias e dos compromissos, fica renegado à coisa de mulher que não tem o que fazer, pensar ou com o que se preocupar. É assim que muitas nos sentimos ou somos interpretadas. Raramente compreendidas. Ao escrever pensei apenas em expressar o que sentia com a emoção e o sentimento de quem se vê embrenhada e embrulhada nesta fase.

Percebi que o ninho vazio é mais extenso do que supus – diariamente continuo constatando isso – pois não só a mulher sofre com as mudanças desta fase, mas toda a família. Os pais dos pais, os pais e os filhos. Terceira idade, meia idade e adulto jovem. Três gerações vivendo etapas distintas no mesmo estágio da vida. Todos num mesmo caldeirão de emoções fortes e muitas vezes conflitantes vivendo momentos críticos de escolhas e de decisões vitais.

Gostaria sinceramente que todos encontrassem o caminho para seu novo ninho. Pouco importa quais mudanças e transformações ocorreram. Importa ser pleno e satisfatório. E único em seu ser.

Los Canales/Lajeado/ São Paulo, 2007 – 2011

2 comentários sobre “O começo de tudo

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