Entediada

Entediada, sem rumo pela casa. Sem hora pra dormir, acordar, levantar, comer, fazer. De repente, estar acompanhada aprisiona e paralisa. Dividir o carro antigo irrita. A privação do ir a qualquer hora e lugar, fazer nada e flanar sem satisfações a dar, uma perda. O atelier continua às moscas. Lá ficaram apenas as pastilhas de vidro pro mosaico inacabado e idiota largado ao léu. Virginia Woolf tem sido desestimulante e deprimente. Li, reli, li, reli “Entre os Atos” e continuo na página 44 há dias, perdida na história. Adorei o prefácio. Por enquanto e até agora. Antonio Bivar, membro do The Virginia Woolf Society of Great Britain conta um pouco da história da escritora e dos motivos que a levaram ao suicídio em março de 1941. “Virginia largou a bengala, enfiou pedras nos bolsos do casaco e entrou no rio….”. Vários motivos são apontados para o desfecho fatal. Por enquanto, simpatizo com a tese de Nigel Nicolson que acredita que um dos motivos tenha sido a insatisfação com o próprio romance “Entre os Atos.” Também tenho oscilado entre o desespero e a depressão ao lê-lo. Tenho pensado seriamente em largá-lo como o mosaico multicolorido e idiota do andar abaixo. Mas a caixa com as obras completas de Virginia me hipnotiza e me sugestiona a seguir em frente. Há de melhorar e eu amar a célebre inglesa deprimida. Talvez eu flerte com Lisa Appignanesi e entenda um pouco mais de Virgínia com seu “Tristes, loucas e más”. Pelo menos a cama é todinha minha, as horas e a luminária também. Livros monótonos e internet no modo operação tartaruga são a “pedida da madrugada”. A televisão continua muda. Nada de manchetes e sensacionalismo. Corrupção e violência. Apenas o silêncio e o vazio. O tudo do momento. Meus dias estão à mercê da agenda da filha-noiva, consultas médicas com a mãe e a balança do ponteiro engessado. Perdi a agenda e os compromissos na moleza e na bagunça de papeis, contas pagas e não pagas, revistas e documentos. Marcar e remarcar compromissos esgota tanto quanto o dia nublado e chuvoso. A vontade se perdeu dentro de casa, entre o ser e o não ser.

Parece lamento e lamúria. Mas não é. Sei e sinto o que é, mas não sei como dizer. E não é de todo ruim. É apenas uma transição incômoda exigindo espaço e buscando palavras para se definir.

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