Harry Potter – Um adolescente qualquer

O texto que segue é um apanhado da parte teórica da monografia do meu curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica da Criança e do Adolescente, realizado na UNISINOS e concluído em 2004. O texto é longo (o original ultrapassou 38 páginas) e bem trabalhado. A nota foi máxima. Para quem se apaixonou por Harry Potter e quer saber mais sobre os adolescentes e a conexão com Hogwarts (a escola) vale a leitura, com calma e tempo. Depois de Harry Potter ao ler a Saga Crepúsculo, pude entender o porquê do sucesso estrondoso. Ambas as autoras foram brilhantes. Nas duas séries, nosso mundo inconsciente é bombardeado e estimulado. Talvez ao finalizarem a leitura deste texto teórico, fique mais claro a fascinação e o delírio coletivo que Edward e Bella despertam no mulherio adolescente e adulto. Uma boa leitura.

O presente estudo visa relacionar a história do personagem Harry Potter, que se tornou mundialmente famoso, com a história de todo e qualquer adolescente, de todo e qualquer tempo e lugar. Para tanto, além da leitura dos livros de J. K. Rowling, é feita uma relação entre a teoria do adolescente com os personagens dos livros de Harry Potter, podendo assim, visualizar no mundo mágico de Harry Potter  o mundo real do adolescente contemporâneo. Primeiramente, através da obra de Bettelheim (1980), “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, entender todo o fascínio e o sucesso que a série Harry Potter faz, através de um entendimento psicanalítico. Em seguida são apresentados aspectos gerais da teoria do adolescente, através do estudo de autores como Aberastury (1990), Osório(1992), Knobel (1990), Outeiral (2003), Kalina (1999), Levisky (1998), entre outros, de forma ampla porém direta, cujo objetivo maior será a compreensão global do processo adolescente. E por fim, de forma inusitada e diferenciada, como é o jeito de ser adolescente, será feita a relação entre trechos dos livros da série Harry Potter, referentes ao processo adolescente, o entendimento psicodinâmico segundo os autores citados anteriormente, e o comentário pessoal, com intuito de integrar a literatura à psicanálise.

INTRODUÇÃO

A história do órfão mágico Harry Potter fez enorme sucesso em todo o mundo, sendo vendido em 42 países e traduzido para 31 idiomas diferentes (Rowling,2000). Milhões de crianças, adolescentes e adultos leram os livros, assistiram aos filmes, e muitos se apaixonaram e vibraram com as aventuras do menino mágico. J.K. Rowling, autora de Harry Potter, escreve a história do desenvolvimento do menino mágico, através dos anos. O primeiro livro da série – Harry Potter e a Pedra Filosofal – apresenta Harry então com 11 anos. Ao longo dos quatro títulos seguintes, até agora publicados , ela vai desenvolvendo a história do menino. Cada título aborda um ano letivo na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Os anos retratados na história de Harry Potter, são os anos em que se desenrola a adolescência, ou pelo menos, aquilo que se delimitava como o período em que ocorria a adolescência. A obra, até agora publicada, é composta pelos seguintes títulos:

– Harry Potter e a Pedra Filosofal (2000);

– Harry Potter e a Câmara Secreta (2000);

– Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2000);

– Harry Potter e o Cálice de Fogo (2001), e

– Harry Potter e a Ordem de Fênix (2003).

Além das aventuras próprias do personagem, observa-se ao longo da obra, a construção da identidade de Harry, seus lutos, seus sonhos, seus conflitos, as oscilações de humor, os grupos, os objetos de identificação. Enfim, toda a “Síndrome da Adolescência Normal”. A análise da obra de J. K. Rowling tem por objetivo básico fazer uma leitura psicanalítica da adolescência, principalmente através do personagem principal, Harry Potter. Inevitavelmente, todo o entorno, como os amigos, professores, escola, família, o mundo mágico, vão fazer parte desta análise, porque assim como acontece com os adolescentes, o mundo externo acaba acompanhando todo este processo, muitas vezes sendo engolido por ele, se fundindo nele. Inicialmente será apresentada uma interpretação psicanalítica de Harry Potter através da visão de Betthelheim (1980), a fim de que se possa entender a profundidade e coerência com que a obra foi pensada e construída, e como têm sido assimilada por uma grande multidão de fãs, e que através da identificação com os personagens, parece elaborar e reviver sua própria adolescência, seus próprios conflitos. Posteriormente serão apresentados trechos extraídos dos livros do Harry Potter que retratam as vivências e conflitos de qualquer adolescente, seguidas por uma fundamentação teórica. Por último, será realizado um breve comentário, para relacionar a literatura e a teoria. Este estudo, além de satisfazer a um enorme interesse e desejo pessoal, pode ser útil para o trabalho em psicoterapia infantil e de adolescentes, pelo entendimento psicanalítico de uma obra consumida por milhões de crianças, adolescentes e adultos. De alguma forma, a identificação com a história do bruxo Harry Potter e com seus personagens desencadeou todo um processo psicológico, de características positivas, pois do contrário a obra não teria alcançado o sucesso que alcançou.

1 HARRY POTTER  –  UMA VISÃO PSICANALÍTICA

Na história de Harry Potter podemos encontrar razões conscientes e inconscientes que podem ter sido mobilizadas, suscitando toda a exaltação e  sucesso que a série tem feito. A história narra a trajetória de um menino, que após a morte dos pais, é levado a viver com os tios maternos. Passados muitos anos, percebe-se o tratamento diferenciado entre Harry e Duda, o filho natural da família Dursley, composta ainda pelo pai Valter e pela mãe Petúnia. Todos vivem na Rua dos Alfeneiros, nº 4, na Inglaterra. A história começa relatando a vida do menino na casa dos tios, que o rejeitam e o desprezam visivelmente. Tudo começa a mudar às vésperas do seu aniversário de 11 anos, quando inúmeras cartas são enviadas ao menino informando-o da sua aceitação para o ingresso na Escola de Magia e Bruxaria  de Hogwarts. A família Dursley se mobiliza a fim de que Harry não tome conhecimento do conteúdo das cartas, pois nela está o segredo da verdadeira identidade de bruxo de Harry, até então totalmente ocultada e abominada pela família Dursley. Esta passagem sugere a entrada na adolescência, por volta dos 11 anos. Aberastury (1990, p. 15) relata que “A adolescência é um momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento”. Segundo a autora ele, “mover-se-á entre o impulso ao desprendimento e a defesa que impõe o temor à perda do conhecido. É um período de contradições, confuso, ambivalente, doloroso, caracterizado por fricções com o meio familiar e o ambiente circundante” (1990, p.15-16). Ela ressalta que “ante a iminência das primeiras mudanças corporais e a ansiedade que estes provocam, o adolescente faz uma fuga progressiva do mundo exterior e busca um refúgio em seu mundo interno” (1990, p.227). Assim, de forma transitória, o adolescente foge do seu mundo exterior para um refúgio na fantasia, no mundo interno, com o aumento da onipotência narcisista, tão presente nesta etapa do desenvolvimento. Aberastury (1990, p. 229) diz que “em nossa fantasia inconsciente, levamos dentro um mundo formado sobre o modelo das pessoas que primeiro amamos e odiamos e que representam também aspectos de nós mesmos. Sua existência dentro de nós pode ser tanto ou mais real em nossos sentimentos inconscientes do que os acontecimentos exteriores”. Ela se refere a Melanie Klein, e sua Teoria das Relações Objetais, em que “essas pessoas de nosso mundo interno temo-las sentido e as sentimos individualmente como constituindo partes de nós mesmos; representam o que amamos, admiramos e ambicionamos possuir: constituem os bons e maus aspectos de nossa vida e de nossa personalidade” (1990, p.229). Para ela, a vida de emoções presente em nós desde o nascimento, está baseada num modelo simples: tudo é bom ou mau; nada é neutro. Tanto os acontecimentos, circunstâncias, objetos e pessoas, e sobretudo, os nossos sentimentos e experiências, os sentimos como essencialmente bons ou maus. Quando a criança busca sua independência rumo à adolescência, ela normalmente precisa atacar, confrontar, agredir os pais, para entrar em contato consigo mesmo e se diferenciar. No caso de Harry, ele deixa para trás uma família que o maltratou, o rejeitou, e encontrou na escola uma “família” que o acolheu. Assim sendo, Harry não teve de lidar com sentimentos de culpa, ao deixar para trás esta família. Pensando em Melanie Klein, o objeto bom é representado pela família de origem de Harry que é refletida no Espelho de Ojesed, no qual é projetado o desejo dele, ou seja, a família idealizada, que contribuiu para a formação do psiquismo de Harry, especialmente através de seus aspectos positivos, como o legado familiar, a identidade bruxa e a herança financeira como a garantia do futuro e prova do amor. O objeto mau é representado pela família substituta, a família Dursley, que o desvaloriza, o desqualifica, lhe nega seus desejos, necessidades e afetos. Segundo Betthelheim (1980, p. 165), “… não há objeto mais adequado para pensamentos de vingança do que a pessoa que usurpou o lugar dos pais: na estória de fadas, um pai substitutivo. Se damos curso a fantasias repreensíveis de vingança contra o usurpador malvado, não há razão para sentimentos de culpa, ou temermos uma retaliação, porque aquela figura claramente merece isto. Frente à objeção de que os pensamentos de vingança são imorais e de que a criança não deveria tê-los, devemos frisar que a idéia de que não se deve ter certas fantasias nunca impediu as pessoas de tê-las. Apenas baniu-se para o inconsciente onde o dano resultante para a vida mental é muito maior. Assim, a estória de fadas permite  à criança ter o melhor dos dois mundos: pode engajar-se e fluir integralmente das fantasias de vingança contra o pai postiço da estória, sem qualquer culpa ou medo em relação ao pai verdadeiro. ”Em todo processo de adolescência normal, existe o desejo ambivalente de pertencer e não pertencer. Ao mesmo tempo em que o adolescente ama ele também odeia, o que gera enorme conflito. Na história de Harry, isto é solucionado através da dissociação (objeto bom e objeto mau). A dissociação também aparece quando pensamos nos personagens centrais da história: Harry Potter e Lord Voldemort. Ambos retratam os dois lados, o bom e o mau. Para Bettelheim (1980, p. 107) “O conto de fadas nos ajuda a entendermo-nos melhor, já que na estória os dois lados de nossa ambivalência são isolados e projetados em personagens diferentes”. Assim, o personagem Harry Potter simboliza o lado bom, enquanto que o Lord Voldemort, simboliza o lado mal. Na história existe a dúvida e o mistério sobre o que une Harry a Lord Voldemort, pois as varinhas mágicas de ambos são as únicas feitas com a pena da mesma fênix, e ambos possuem poderes semelhantes. Harry sempre vence Lord Voldemort, desde bebê, mostrando-nos que o bem deve vencer o mal. É curioso pensarmos que, entre as personagens, ninguém ousa falar o nome de Voldemort, e sim, Aquele-Que-Não-Se-Deve-Nomear. Talvez sejam os objetos, sentimentos e afetos negativos, que tanto rechaçamos e reprimimos. Na vida real isto não tem como acontecer, ao menos conscientemente, pois o jovem precisa aprender a lidar com os aspectos bons e maus, seus, de sua família, do seu meio. Uma das tarefas básicas da adolescência é a busca de uma identidade, é como vamos nos apresentar ao mundo. Harry descobre seu passado e se projeta adiante, como um personagem que de uma hora para outra deixa de ser um menino rejeitado e passa a ser um menino com poderes especiais, um bruxo. Assim como na nossa realidade, o adolescente busca seu grupo de iguais para se auto-afirmar, incorporando falas, vestes, maneiras de ser e agir, também Harry Potter ao se identificar como bruxo, introjeta um novo padrão de comportamento compatível com seu grupo de iguais. Desta forma ele se fortalece, para prosseguir em busca de sua maturidade e identidade. Quando falamos na busca de uma identidade, podemos pensar na integração do nosso mundo interno. Dentro da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry pertence à Casa de Grifinória, que tem características próprias, diferentes das outras casas – Sonserina, Lufa-Lufa e Cornival. No seu grupo, Harry se relaciona basicamente com mais dois personagens: Rony e Hermione. Para Bettelheim (1980, p.131) “O número três nos contos de fadas parece referir-se freqüentemente ao que é encarado em psicanálise como os três aspectos da mente: id, ego e superego”. Na história pode-se pensar que cada um dos três personagens representam aspectos do nosso aparelho psíquico: Harry parece retratar o Id, com sua impulsividade, desatenção, superação, quebra de regras, etc.; Hermione representa o Superego, pois é ela quem conhece as regras, o certo e o errado, e é quem sempre questiona se deve ou não fazer determinadas coisas, é a certinha, a estudiosa; e Rony parece representar o meio termo, o Ego, é ele quem tenta conciliar as diferenças entre Harry e Hermione. O ser humano também necessita integrar estes aspectos, para que ele possa usufruir de uma boa saúde mental e relacional. O adolescente, cada vez mais cedo, começa a querer se mostrar como ele é, e isto implica em conciliar as exigências do id, ego e superego. O pensamento mágico, a realidade, os valores, o certo e o errado. Objetos bons e objetos maus. Todos estes aspectos precisam ser integrados, para que o jovem consiga enfrentar os seus obstáculos, os seus desafios, que tanto podem ser internos como externos. Isto tanto vale para o adolescente, como para a criança e porque não dizer, também para o adulto. Bettelheim  afirma que, “há uma concordância geral de que mitos e contos de fadas falam-nos na linguagem de símbolos representando conteúdos inconscientes. Seu apelo é simultâneo à nossa mente consciente e inconsciente, a todos os seus três aspectos – id, ego e superego – e a nossa necessidade de ideais de ego também. Por isso é muito eficaz; e no conteúdo dos contos, os fenômenos internos psicológicos recebem corpo em forma simbólica.”(1980, p. 46-47) Harry Potter pode ser classificado como um conto, pelos padrões definidos pelo autor citado, pois além de ser otimista, o conto de fada descreve uma integração do ego que permite uma satisfação apropriada dos desejos do id. Se pensarmos que o herói principal da história, o menino bruxo Harry Potter, parece representar o Id, e acompanhar a evolução de todos os desdobramentos, dos impulsos, sentimentos, emoções, e sobreviver ao final, como herói, parece ser de muita utilidade para quem lê a história. Afinal, podemos ser o Id o tempo todo e triunfar no final. Todos sabemos que a história é irreal, porém parece não ser falsa. Apesar de sabermos que os fatos vividos na história são impossíveis, ocorrem experiências internas que retratam de forma imaginária e simbólica passos que podem ser essenciais para o desenvolvimento psicológico e autônomo de qualquer ser humano. Para Bettelheim (1980, p. 161-16 “… o conto de fadas usa símbolos universais que permitem à criança escolher, selecionar, negligenciar e interpretar o conto de formas congruentes ao seu estado de desenvolvimento intelectual ou psicológico. Qualquer que seja este estado, o conto de fadas determina a forma como a criança pode transcendê-lo e o que pode estar envolvido na conquista do próximo estágio no seu processo para a integração madura”. Assim, incorporar e assimilar a história concreta e consciente do menino bruxo Harry, parece dar mais significado e importância aos processos internos que parecem ser ativados quando lemos tais histórias, pois quando nos identificamos com o personagem, podemos projetivamente elaborar conflitos internos. Quando pensamos que são as crianças e os adolescentes quem mais lêem estas histórias, pode-se ficar com a idéia de que enquanto Harry resolve seus conflitos, o mesmo fazem os seus leitores. Além da busca pela integração psíquica tão importante para a saúde emocional, poder acompanhar o menino Harry no seu processo puberal e adolescente, parece ser uma forma de junto com ele atravessar este período tão turbulento. Assim, vamos junto com Harry desbravar este período turbulento que é a “Síndrome da Adolescência Normal”.

2 ASPECTOS GERAIS DA ADOLESCÊNCIA

Segundo Osório (1992), a adolescência se constitui em uma etapa evolutiva crucial para o desenvolvimento e desprendimento de todo ser humano. É na adolescência que todo o processo maturativo biopsicossocial atinge seu ápice. Assim sendo, não se pode pensar no processo adolescente de forma compartimentalizada, mas sim, de forma integrada, onde os aspectos biológicos, psicológicos, sociais e culturais são indissociáveis, e são eles que, com suas características próprias dão unidade ao fenômeno da adolescência. Para Aberastury (1990) a adolescência é um momento ímpar na vida de todo ser humano, constituindo-se numa etapa decisiva para o desprendimento. Ela aponta três momentos no ciclo de vida humana que se equiparam a semelhante momento, sendo o primeiro o nascimento, o segundo que surge ao final do primeiro ano com a eclosão da genitalidade, a dentição, a linguagem, a posição de pé e a marcha, e o terceiro momento acontece na adolescência. Kalina (1999) aborda a adolescência como um processo complexo, que se desenvolve por um período prolongado, com a presença de fenômenos progressivos e regressivos, que se produzem simultânea ou alternadamente e que abarcam todas as áreas da personalidade do jovem – corpo, mente e mundo externo. Para Osório (1992) a adolescência tem sido entendida, principalmente nas últimas décadas como um momento crucial do desenvolvimento do ser humano, por marcar não apenas a aquisição de uma nova imagem corporal como também a estruturação final da personalidade, com uma identidade própria. Knobel (1990) aborda a idéia de que esta busca por uma identidade adulta, faça parte de um processo evolutivo, visto que o adolescente já tem uma identidade adolescente, que é aquela que lhe permitirá prosseguir seu desenvolvimento. Segundo Osório (idem), até pouco tempo atrás, a adolescência era vista como uma etapa de transição, um meio do caminho,entre a infância e a idade adulta. Caracterizava-se este período como aquele em que se iniciavam as mudanças biológicas e com elas as psicológicas. “É uma idade não só com características biológicas próprias, mas com uma psicologia e até mesmo uma sociologia peculiar” (Osório, 1992, p.10). O autor afirma que o termo Puberdade é universalmente associado às mudanças corporais e biológicas enquanto que o termo Adolescência é associado às mudanças psicossociais . Mesmo que seja feita esta distinção é importante que ambas sejam entendidas e estudadas de forma integrada, e não dissociadas como dois fenômenos distintos. Até porque nem sempre a adolescência começa junto com a puberdade, podendo tanto precedê-la como sucedê-la. Osório (idem) assinala que a puberdade é um fenômeno universal, e que acontece com todos os povos do planeta. Em condições de normalidade física seu início cronológico é relativamente semelhante em todos os povos, com algumas exceções, como no povo pigmeu, em que os primeiros sinais da puberdade aparecem por volta dos oito anos de idade. O que determina as mudanças na puberdade são os hormônios, comuns a toda a espécie humana. Os hormônios são substâncias químicas que o corpo produz e que atuam não somente sobre os órgãos reprodutores, mas também sobre o cérebro” (Suplicy, 1988, p.19). Suplicy (1988) assinala que na entrada da puberdade, o hipotálamo envia uma mensagem à glândula pituitária ou hipófise, que passa a produzir dois hormônios: LH (Hormônio Luteotrófico) e o FSH (Hormônio Folículo Estimulante). Estes dois hormônios são os responsáveis pelo amadurecimento dos óvulos na menina, para a menarca, e para a iniciação da produção do esperma, para a primeira ejaculação do menino, bem como todas as outras mudanças físicas. Para Osório (1992) todas estas alterações físicas e hormonais, permitirão a meninos e meninas a capacitação biológica para as funções da procriação. Normalmente este processo tem seu início por volta dos 12 aos 15 anos, na média. Suplicy (1988) assinala que as mudanças físicas por que passam tanto meninas como meninos incluem: o crescimento repentino e acelerado; o desenvolvimento das características sexuais secundárias como os pêlos, os seios, a voz; mudança de cheiros e odores e a iniciação da capacidade de reprodução (menstruação e ejaculação). Estas mudanças acontecem em ordem e ritmos próprios, o que é perfeitamente compreensível, pois o fator genético é determinante, bem como as condições ambientais em que vive este jovem. Kalina (1999) também assinala que nem sempre a puberdade antecede a adolescência, pois muitas vezes acontece o contrário, ou seja, as mudanças psicológicas começam antes das mudanças corporais. Cita ainda as situações em que o processo adolescente pode acontecer muito tarde, e inclusive em algumas situações, nunca. Ele cita o caso das “crianças modelos”, obedientes, sem pensamento próprio e sem liberdade, que seguem o caminho que lhes é apontado, sem crises ou conflitos importantes, totalmente adaptados ao “sistema”, independente de qual sistema for. Kalina (1999) cita Peter Blos (1962) que classifica a adolescência em três grandes grupos, divididos por faixa etária:

a) Adolescência inicial: entre 11 e 13 anos até os 15 anos

b) Adolescência mediana: entre 15 e 17 anos;

c) Adolescência tardia: entre 17 e 20 anos.

Kalina (idem) ressalta que a classificação dos adolescentes por faixa etária deve ser entendida dentro de um contexto social, econômico e cultural. Embora tenha características próprias e bem peculiares a seu ambiente sócio-cultural, a adolescência é percebida universalmente com matizes culturais bem específicos, mas todos, em qualquer tempo e lugar, como lembra Osório (1992, p.12) “apontando na direção de um objetivo axial, que é o estabelecimento da identidade pessoal….”. Outeiral (2003) afirma que a adolescência é ainda um fenômeno bastante recente, fenômeno este que se situa e se inscreve no início do século XX, especificamente entre as duas Grandes Guerras Mundiais. O fenômeno da adolescência como visto atualmente, surgiu depois da Primeira Guerra Mundial. Naquela época os jovens soldados começaram a se perceber como uma classe distinta e explorada, que passou a desejar manter esta distinção e rebelião como forma de “autodiferenciação protegida”, uma maneira de se afastarem da geração mais velha que estava no controle (Áries apud Fishman, 1996, p. 6). Fishman (1996, p.6) diz que “a adolescência passou a existir para satisfazer uma necessidade. Ela é uma criação de forças sociais, operando na nossa cultura, e não pode ser considerada à parte de seu contexto social.” Vale ressaltar Osório (1992, p.12) que assinala, “a adolescência é um complexo psicossocial, assentado em uma base biológica” e define algumas características do processo de adolescer, como:

  1. A redefinição da imagem corporal; ativada pelas mudanças pubertárias;
  2. Concretização do processo de separação/individuação;
  3.  Perda da condição infantil;
  4. Estabelecimento de valores e ética próprios;
  5. Incremento no grupo de iguais;
  6. Padrão luta-fuga com os pais;
  7. Ritos de iniciação para o ingresso ao status adulto;
  8. Função ou identidade sexual em definição; (ibidem)

Knobel (1990) define a adolescência como uma fase evolutiva em busca de uma identidade adulta, que é conquistada através da internalização dos objetos parentais e de suas inter-relações e também de relacionamento com o ambiente circundante. Para ele, as características psicológicas próprias desta fase evolutiva constituem o que ele chamou de “Síndrome da Adolescência Normal” e podem ser assim descritas:

  1. Uma busca de identidade própria;
  2. Tendência grupal;
  3. Necessidade da fantasia e da intelectualização, como forma de pensamento;
  4. Crises religiosas;
  5. Crises de atemporalidade;
  6. Evolução da sexualidade;
  7. Atitude social reinvindicatória;
  8. Contradições condutuais;
  9. Separação progressiva dos pais;
  10.  Flutuações constantes no humor e estado de ânimo (Knobel, 1990, p.112).

Knobel (1990, p.114) nos relata sobre os lutos, as perdas infantis que o jovem adolescente necessita elaborar, na busca por sua evolução para o mundo adulto, resgatando as idéias levantadas por Aberastury:

  1. Luto pela perda do corpo infantil: devido à revolução hormonal, o corpo passa por um processo de mudanças totalmente incontroláveis e independentes da vontade do adolescente, deixando-o impotente frente a este processo, mas ao mesmo tempo, desejoso de que ele aconteça;
  2. Luto pela perda da identidade e papéis infantis: o adolescente não pode mais manter sua dependência infantil, nem tampouco, usufruir plenamente a independência adulta;
  3. Luto pela perda dos pais da infância: assim como o jovem, também os pais necessitam elaborar a perda da relação de submissão infantil de seus filhos, e aceitar o processo de autonomia deflagrado por ocasião deste período da vida de seus filhos.

O autor salienta que a todos estes lutos citados anteriormente, pode-se juntar um quarto luto:

  1. Luto pela bissexualidade infantil: devido à maturação e desenvolvimento dos caracteres sexuais, e por ocasião do processo de definição da sexualidade adulta se impõe à fantasia da bissexualidade (ibidem).

Kalina (1999, p.15) aponta para um quinto luto que seria o,

  1. Luto pela exogamia: este luto aponta para a necessidade do jovem ter que aceitar o tabu do incesto, e deslocando seus interesses sexuais para outros objetos.

Aberastury (1990) nos lembra que com a maturidade sexual, o jovem adquire a capacidade para a consumação do incesto e de satisfazer à antiga fantasia de ter um filho com o progenitor do sexo oposto. Levisky (1998) afirma que na “revivescência” da situação edipiana na adolescência ocorre muita confusão, surgindo angústias do tipo persecutório, com remorsos, culpa, crises depressivas e inclusive com atitudes de autopunição despertadas por estas fantasias. Para ele, no processo adolescente existe tanto a desestruturação como a reorganização estrutural da personalidade e da identidade, rumo à personalidade adulta. Os períodos de instabilidade próprios desta fase, vão diminuindo à medida que o jovem adquire maior clareza e aceitação próprios, elaborando suas perdas, sentindo-se aceito em seu meio. Neste processo de evolução e maturação da identidade psíquica, com a elaboração dos lutos, acontece a necessidade de também ser definido o papel funcional do adolescente, ou seja, além dele ter que definir quem ele deverá “ser” como ser humano único, ele deverá definir o que ele “fará” como ser adulto. Osório (1992) aponta para os grandes dilemas do adolescente contemporâneo, e enumera quatro: o dilema existencial (quem serei), o dilema vocacional (o que farei), o dilema sexual (opção sexual, elaboração edípica, anticoncepção) e o dilema tóxico (ilusão da liberdade). Todos estes importantes aportes teóricos podem ser identificados e pormenorizados na trajetória do bruxo Harry Potter, ou seja, no processo adolescente tão bem retratado na obra de J.K. Rowlig.

3 HARRY POTTER – RELAÇÕES E REFLEXÕES PSICANALÍTICAS

A história de Harry se inicia com o livro “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (2000). É o início do processo da adolescência. Às vésperas de completar 11 anos, Harry Potter vive na casa dos tios maternos. Órfão de pai e mãe, ele é um sobrevivente de um poderoso bruxo, Lord Voldemort. Harry não sabe nada sobre seu passado, que é totalmente negado e omitido pelos tios, que se envergonham e não aceitam o legado bruxo transmitido pelos pais de Harry – Lílian e Tiago Potter. No entanto, com esta idade o menino vem a descobrir sua origem bruxa, e quem realmente foram os seus pais. Inicialmente Harry fica totalmente surpreso, pois nada conhece sobre o mundo bruxo, sequer imaginava que pudesse haver um, e também, porque neste novo mundo, Harry é um mito, alguém muito famoso, amado e invejado, diferentemente do que acontece na casa dos tios, onde é visivelmente rejeitado. Harry toma conhecimento de sua identidade bruxa quando de forma inesperada, na véspera de completar 11 anos, conhece Hagrid encarregado de auxiliá-lo para ingressar na sua nova escola.

“- Vocês vão querer me dizer – rosnou para os Dursley – que este menino, este menino! Não sabe nada, de NADA?……..

Mas Hagrid dispensou-o com um abano de mão e disse:

– Do nosso mundo, quero dizer. Seu mundo. Meu mundo. O mundo dos seus pais.

– Que mundo?

Hagrid parecia prestes a explodir.

Tio Valter, que ficara muito pálido, murmurou alguma coisa ininteligível. Hagrid olhou alucinado para Harry.

– Mas você deve saber quem foram sua mãe e seu pai – disse. – Quero dizer, eles são famosos. Você é famoso!…………

– Eu sou o quê? – ofegou Harry.

– Um bruxo, é claro – repetiu Hagrid, recostando-se no sofá, que gemeu e afundou ainda mais -, e um bruxo de primeira, eu diria, depois que receber um pequeno treino. Com uma mãe e um pai como os seus, o que mais você poderia ser? E acho que já está na hora de ler a sua carta………

Ele puxou a carta e leu:

ESCOLA DE MAGIA E BRUXARIA HOGWARTS

Diretor: Alvo Dumbledore

(Ordem de Merlin, Primeira Classe, Grande Feiticeiro, Bruxo Chefe, Cacique Supremo, Confederação Internacional de Bruxos)

Prezado Sr. Potter,

Temos o prazer de informar que V. Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista de livros e equipamentos necessários.

O ano letivo começa em 1º de setembro. Aguardamos sua coruja até 31 de julho, no mais tardar.

Atenciosamente,

Minerva McGonagall

Diretora Substituta

(H.Potter e a Pedra filosofal, 2000, p.48-49)

 Assim, Harry descobre sua identidade bruxa que passa a ser construída ao longo dos anos, junto ao seu grupo, os bruxos da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Para ingressar na nova escola, Harry precisa estar equipado de tudo o que seu novo mundo requer, como: chapéu pontudo simples, livros de magia, roupas e capas pretas, varinha mágica, caldeirão, etc. Estes são alguns dos apetrechos que identificam um bruxo. Além do material básico escolar, existem outros itens que fazem parte do universo bruxo, e possuir tais “itens” torna-se importante para os jovens bruxos, pois denotam o status, o poder. São os objetos de desejo. Na história de Harry Potter, o animal de estimação está nesta categoria, assim como a varinha mágica especial, a melhor vassoura voadora, a capa da invisibilidade.

“-Só falta a varinha. Ah é, e ainda não comprei o seu presente de aniversário.

Harry sentiu o rosto corar.

– Você não precisa…..

– Eu sei que não preciso. Vamos fazer o seguinte, vou comprar um bicho para você. Não vai ser sapo, os sapos saíram de moda há alguns anos, todo mundo ia rir de você, e não gosto de gatos, eles me fazem espirrar. Vou-lhe comprar uma coruja. Todos os garotos querem corujas, são muito úteis, levam cartas e tudo o mais.”

(H. Potter e a Pedra Filosofal, 2000, p.74)

 A coruja Edwiges de Harry Potter, além de ser seu animal de estimação da moda, é amiga e confidente, e parece desempenhar o papel de meio de comunicação, tão importante para o adolescente. É ela quem o coloca a par de tudo o que acontece em seu mundo, levando e trazendo mensagens, conselhos, mexericos, servindo como mensageira para marcação e desmarcação de encontros. Paralelamente, o adolescente usa cada vez mais os atuais meios de comunicação como o telefone, a internet, o computador para ter este tipo de relação com seus pares e ambiente circundante. Através destes meios, o jovem consegue satisfazer sua necessidade de fugir dos pais para seu grupo de iguais, sem precisar sair de casa. Assim, a coruja Edwiges e os atuais meios de comunicação parecem atender a mesma necessidade do adolescente. Outro acessório muito importante no mundo de Harry Potter é a varinha mágica, símbolo fálico de poder e força.

“ – Estique o braço. Isso. – Ele mediu Harry do ombro ao dedo, depois do pulso ao cotovelo, do ombro ao chão, do joelho à axila e ao redor da cabeça. Enquanto media, disse: – Toda varinha Olivaras tem o miolo feito de uma poderosa substância mágica, Sr. Potter. Usamos pêlos de unicórnio, penas de cauda de fênix e cordas de coração de dragão. Não há duas varinhas Olivaras iguais, como não há unicórnios, dragões nem fênix iguais. E é claro, o senhor jamais conseguirá resultados tão bons com a varinha de outro bruxo.”

( H. Potter e a Pedra Filosofal, 2000, p. 76)

“Harry experimentou. E experimentou. Não fazia idéia do que o Sr. Olivaras estava esperando……….Harry apanhou a varinha. Sentiu um repentino calor nos dedos. Ergueu a varinha acima da cabeça, baixou-a cortando o ar empoeirado com um zunido, e uma torrente de faíscas douradas e vermelhas saíram da ponta como um fogo de artifício, atirando fagulhas luminosas que dançavam nas paredes. Hagrid gritou entusiasmado e bateu palmas e o sr. Olivaras exclamou:

– Bravo! Mesmo, ah, muito bom. Ora, ora, ora… que curioso… curiosíssimo….”

(H. Potter e a Pedra Filosofal, 2000, p. 77)

A vassoura voadora, outro acessório importante no universo bruxo, parece ser o equivalente simbólico do carro. O carro satisfaz a muitas necessidades do adolescente como meio de independência, rebeldia, fuga, mobilidade, de liberdade da coibição, de poder. Simbolicamente o carro pode ser representativo do corpo humano: na aparência externa representa a imagem do corpo que o adolescente desejaria ter e admirar; em sua mecânica e funcionamento interno, o funcionamento do corpo como máquina. Na fantasia adolescente, o carro pode ser um representante fálico, como expressão de controle, força, velocidade e potência. Pode também ser usado como expressão da agressividade e hostilidade, como arma penetrante. Mas acima de tudo, e o que é muito importante, o carro leva e traz o jovem para longe do adulto, proporcionando isolamento para experimentação sexual e para o estabelecimento de relações heterossexuais maduras.

“Harry teve dificuldade em esconder a alegria quando passou o bilhete para Rony ler.

– Uma Nimbus 2000! – Rony gemeu de inveja. – Eu nunca nem pus a mão em uma…..

Rony não conseguiu resistir.

– Não é uma vassoura velha qualquer, é uma Nimbus 2000. Que foi que você disse que tem em casa, Draco, uma Comet 260? – Rony riu para Harry. – A Comet enche os olhos, mas não tem a mesma classe da Nimbus.”

( H. Potter e a Pedra Filosofal, 2000, p.144)

 A capa da invisibilidade, herdada do pai, além de ser um fantástico apetrecho do mundo bruxo, parece traduzir todo o desejo e pensamento mágico, fantasioso e onipotente do jovem adolescente: do tudo poder, sem ser visto e sem conseqüências.

“Uma coisa sedosa e prateada escorregou para o chão onde se acomodou em dobras refulgentes. Rony soltou uma exclamação:

– Já ouvi falar nisso – disse em voz baixa, deixando cair a caixa de feijõezinhos de todos os sabores que ganhara de Hermione. – Se isso é o que penso que é, é realmente raro e realmente valioso.

– E o que é?

Harry apanhou o pano brilhoso e prateado do chão. Tinha uma textura estranha, parecia tecida com fios de água.

– É uma capa da invisibilidade – disse Rony, com uma expressão de assombro no rosto. – Tenho certeza de que é. Experimente…..

Rony admirava a capa.

– Eu daria qualquer coisa para ter uma dessas. Qualquer coisa

( H. Potter e a Pedra Filosofal, 2000, p.174)

Assim como no mundo de Harry Potter, o adolescente também necessita de apetrechos que o identifiquem, que o diferenciem. Segundo Calligaris (2000), os adolescentes se reúnem em grupos, mais ou menos fechados, mas sempre com uma identidade própria que os define, através de um estilo claro e definido. Desta forma, os grupos passam a apresentar um look comum (vestimentas, cabelos, maquiagem), preferências culturais (tipo de música, imprensa), comportamentos (bares, clubes, restaurantes). Assim, cada grupo impõe a seus membros uma conformidade de consumo bem definida. Praticamente todos os estilos adolescentes são bem-vindos, como os nerds, patricinhas, mauricinhos, skatistas, roqueiros, entre tantos outros, pois todos os estilos influenciam os modelos de consumo de muitos adultos. Segundo o autor “a adolescência, por ser um ideal dos adultos, se torna uma fantástico argumento promocional” (Calligaris, 2000, p.59).Esta também parece ser uma regra na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.Chegando à escola, num fantástico trem mágico, Harry descobre que existem regras e conhece parte do funcionamento da escola.

“- Bem-vindos a Hogwarts – disse a Profª Minerva. – O banquete de abertura do ano letivo vai começar daqui a pouco, mas antes de se sentarem às mesas, vocês serão selecionados por casas. A seleção é uma cerimônia muito importante porque, enquanto estiverem aqui, sua casa será uma espécie de família em Hogwarts. Vocês assistirão a aulas com o restante dos alunos de sua casa, dormirão no dormitório da casa e passarão o tempo livre na sala comunal.

As quatro casas chamam-se Grifinória, Lufa-lufa, Cornival e Sonserina. Cada casa tem sua história honrosa e cada uma produziu bruxas e bruxos extraordinários. Enquanto estiverem em Hogwarts os seus acertos renderão pontos para sua casa, enquanto os erros a farão perder. No final do ano, a casa com o maior número de pontos receberá a taça da casa, uma grande honra. Espero que cada um de vocês seja motivo de orgulho para a casa a qual vier a pertencer.”

(H. Potter e a Pedra Filosofal, 2000, p.101-102)

 Harry conhece o estranho Chapéu Seletor, que é quem escolhe os alunos que irão pertencer às quatro casas da escola, ou quatro grupos, cada qual com características próprias.

“Ah, vocês podem me achar pouco atraente

Mas não me julguem só pela aparência

Engulo a mim mesmo se puderem encontrar,

Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.

Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,

Suas cartolas altas de cetim brilhoso

Porque sou o Chapéu Seletor de Hogwarts

E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.

Não há nada escondido em sua cabeça

Que o chapéu seletor não consiga ver,

Por isso é só me porem na cabeça que vou dizer

Em que casa de Hogwarts deverão ficar.

Quem sabe sua morada é a Grifinória,

Casa onde habitam os corações indômitos.

Ousadia e sangue-frio e nobreza

Destacam os alunos da Grifinória dos demais;

Quem sabe é na Lufa-lufa que você vai morar,

Onde seus moradores são justos e leais

Pacientes, sinceros, sem medo da dor;

Ou será a velha e sábia Cornival,

As casas dos que têm a mente sempre alerta,

Onde os homens de grande espírito e saber

Sempre encontrarão companheiros seus iguais;

Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa

E ali fará seus verdadeiros amigos,

Homens de astúcia que usam quaisquer meios

Para atingir os fins que antes colimaram.

Vamos, me experimentem! Não devem temer!

Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!

(mesmo que chapéus não tenham pés nem mãos)

Porque sou único, sou um Chapéu Pensador!

(H. Potter e a Pedra Filosofal, 2000, p.104-105)

 Harry Potter passa a fazer parte da Casa Grifinória, devido às características que o identificam naquele grupo. Levisky (1998) nos diz que o processo identificatório é complexo e dinâmico. Pode ter seu início, com nossos ancestrais, com nossos pais, que projetam no filho aspectos de si mesmos. Desta forma, ninguém só é aquilo que é, mas sim o resultado de aspectos próprios, e da interação com o outro e com o meio circundante. Para Levisky, “O termo identificação tem um significado amplo na linguagem corrente. Do ponto de vista psicanalítico, ele ocupa posição central em relação ao desenvolvimento, à organização da personalidade e a constituição do ser como indivíduo. Esse processo decorre de um inter-jogo entre as diversas instâncias psíquicas, e também da inter-relação do sujeito com o objeto” (Levisky, 1998, p.69). Knobel (1990) afirma que toda a sintomatologia que configura a “Síndrome da Adolescência Normal” constitui-se na identidade do adolescente, e que é esta identidade que permite a ele alcançar uma identidade adulta, num novo processo evolutivo. Ele destaca que as mudanças pelas quais o jovem passa, fazem com que ele perca sua identidade infantil, o que implica na busca de uma nova identidade, tanto a nível consciente como inconsciente. Para Aberastury (1990), as mudanças psicológicas que acontecem neste período, e que são correlatas às mudanças corporais, levam o jovem a ter um novo tipo de relacionamento com os pais e com o meio, quando acontece a elaboração lenta e dolorosa dos lutos pela perda do corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação dos pais da infância. Nesse processo de lutos e perdas, o adolescente perde seu esquema corporal e sua identidade de criança, e vai construindo num plano inconsciente e consciente a necessidade de incluir os genitais adultos em seu esquema corporal. Esta experiência tanto pode ser dolorosa para o adolescente como para os seus pais, que temem o crescimento do filho, talvez pela angústia da eclosão da genitalidade e a explosão da personalidade que surge dela. As mudanças físicas incontroláveis podem ser vividas pelo jovem como extremamente intrusivas e invasivas.

“Era um garoto magricela, de cabelos pretos, a aparência macilenta e meio doentia de alguém que cresceu muito em pouco tempo. Suas jeans estavam rotas e sujas, a camiseta larga e desbotada, e as solas dos tênis se soltavam da parte de cima. A aparência de Harry Potter não o recomendava aos vizinhos, que eram do tipo que achava que devia haver uma punição legal para sujeira e desleixo, mas como ele se escondera atrás de uma repolhuda Hortência, esta noite ele estava invisível aos que passavam.”

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p.7)

O adolescente tenta diferenciar-se do adulto, em busca de sua identidade própria, e para tanto, pode ir por caminhos tortuosos como a toxicomania ou uma liberdade sexual exibicionista, ou adotar um vestuário esdrúxulo, cabelos compridos, dar pouca importância ao asseio corporal, uso de tatuagens ou piercings, ou qualquer outra forma de protesto contra a sociedade adulta.

“A Sra. Weasley e Gui requentavam a mesma discussão de sempre sobre o cabelo do rapaz.

-… está realmente passando dos limites, e você é tão bonito, ficaria muito melhor se os cortasse mais curtos, você não acha Harry?”

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p. 143)

Aberastury (1990) assinala muito bem que os pais vivem o conflito adolescente conjuntamente com seus filhos, numa espécie de vertente dupla. Tanto o filho como o pai precisam renunciar à imagem do filho criança e evoluir para uma relação com o filho adulto. Isto implica na renúncia do corpo infantil do adolescente, bem como de abandonar a própria imagem de ídolo e herói do pai, e aceitar um novo modelo de relação ambivalente entre pai e filho.

“Durante quase cinco anos pensar em seu pai havia sido uma fonte de consolo, de inspiração. Sempre que alguém dizia que ele era igual ao pai, ele se iluminava intimamente de orgulho. E agora… agora sentia frieza e infelicidade ao pensar nele.”

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p. 530)

Para Aberastury (1990, p. 16), “o conflito estala, pois, quando aparecem as primeiras modificações corporais e se define o papel procriador. Agora, o filho é duplamente rival. Pode assumir a paternidade e a maternidade biológicas. Converte-se em um sério competidor na situação incestuosa porque já tem o instrumento para consumá-la. É aqui que começa o verdadeiro drama edípico”. “O adolescente não quer ser como certos adultos que ele conhece em seu mundo imediato, e busca então outros adultos, aos quais tende idealizar. Seu mundo interno, construído sobre as imagens parentais, é o modelo sobre o qual ele vai eleger e do qual vai receber o estímulo necessário para construir sua nova identidade. É este mundo interno o que lhe vai permitir enfrentar o mundo externo e adaptar-se a ele em uma forma mais ou menos feliz” (Knobel, 1990, p.113). Assim sendo, Knobel (1990) acredita que quando há uma boa introjeção de imagens parentais e de um mundo externo favorável, o adolescente consegue elaborar de forma adequada suas crises internas, bem como suportar situações penosas que podem ocorrer neste período de vida. Ele também destaca a importância que a cultura parece desempenhar no processo adolescente, tanto no que diz respeito às características externas como as internas, mas que, apesar de tudo, as dinâmicas intrínsecas do adolescente permanecem as mesmas. Para o autor a sociedade é quem em última instância parece determinar não apenas as pautas condutuais, como também a maioria das possibilidades e tipos de identificações, definindo inclusive o esquema final da estruturação da personalidade em determinadas culturas. Quando Harry Potter descobre sua descendência bruxa, começa a construir uma nova identidade – visto que no ambiente da família Dursley ele era um estranho rejeitado – e passa a se identificar com seus semelhantes. Alguns personagens da história parecem desempenhar esta função parental, como o Professor Dumbledore, a Professora McGonagall, o gigante Hagrid, o padrinho Sirius Black, o Sr. e a Sra. Weasley,  entre outros. Estes passam a ser os novos modelos de identificação de Harry Potter. Levisky (1998) assinala que no processo de reestruturação da nova identidade, o jovem para se auto-afirmar como um ser independente, pode agredir e desvalorizar seus pais, não por não gostar ou não precisar mais deles, mas sim, para “assassinar inconscientemente” os pais de infância que carregam dentro de si. Busca assim novos modelos de identificação, como artistas, pensadores, religiosos, líderes, atletas ou seus próprios colegas, para através deles encontrar novos modelos, valores e características afins. Muitas vezes a aproximação com um adulto, é em parte temida, pois o jovem teme perder sua individualidade, e assim nesta procura, é comum o jovem buscar no grupo este modelo de identificação. Knobel (1990) assinala a forte tendência grupal como uma característica tipicamente adolescente. O adolescente passa a funcionar de acordo com as características do grupo, onde aparentemente ele se sente mais seguro, compreendido, e identificado com o Ego dos outros. Além disso, no grupo ele pode adotar papéis cambiáveis, compartilhar condutas, responsabilidades e a culpa com o grupo. Osório (1992) assinala que “o grupo de iguais” seria quase como uma caixa de ressonância, um continente para as ansiedades e angústias adolescentes. Com a finalidade de cristalizar sua identidade adulta e autônoma, o adolescente busca novos modelos de identificação no seu grupo de iguais. É lá que o adolescente encontra um clima propício para a troca e confronto de idéias, pensamentos, sentimentos, bem como uma melhor percepção do limite entre o eu e o outro. Lesvisky (1998) salienta que os grupos se formam pois todos estão a procura de si mesmos. No grupo existe uniformidade, os adolescentes vestem-se de maneira parecida, usam uma mesma linguagem – a gíria -, podem fumar, beber, podem usar droga (geralmente a maconha). Podem reunir-se em atividades sociais ou culturais. No grupo, os adolescentes se parecem uns com os outros, e isto os conforta. Servem de modelos para si próprios, sofrem de angústias e ansiedades semelhantes. A Casa Grifinória, pelas suas características, coloca Harry em contato com seus maiores amigos: Rony e Hermione. Além deles, os irmãos Weasley, Gina, Neville. Este é em parte  o grupo de Harry Potter, com quem ele vive, briga, se identifica, e com quem divide suas angústias e conflitos adolescentes. Na história de Harry, o universo estudantil da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, reflete o universo escolar de todo o adolescente. Suas vestimentas, os objetos de desejo (varinha mágica, vassoura voadora, a capa de invisibilidade), o jogo de quadribol (esporte bruxo), o uso da cerveja amanteigada, as diferenças e rivalidades grupais, além de todo o inter-relacionamento com os professores, que passam a ser os representantes simbólicos das figuras parentais. Como nos diz Outeiral, “Os pais e professores deverão saber, por outro lado, que estes últimos serão os“recipientes” de impulsos, fantasias, emoções e pensamentos mais ou menos conscientes que os adolescentes têm em relação aos próprios pais. Amor e agressividade, originalmente dirigidos aos pais, serão “transferidos” para os professores” (Outeiral, 2003, p. 5). Levisky aborda a solidão do adolescente. Segundo ele, “Há períodos em que o jovem se refugia na solidão, isola-se de tudo e de todos, ainda que esteja entre amigos ou numa turma. Vive o mundo em sua imaginação, e tudo pode ser controlado, a partir dele, em suas fantasias e desejos. O presente, o passado e o futuro podem se aglutinar e se discriminar em seu pensamento, evidenciando o subjetivismo e a onipotência de seus sentimentos. Ou o fracasso, numa alternância que pode surpreender a ele e aos que o cercam” (Levisky, 1998, p. 57). Além da solidão citada por Levisky (1998), o adolescente se utiliza de outros mecanismos para enfrentar este período do ciclo vital, onde as incontroláveis mudanças corporais podem ser sentidas como invasoras. O retraimento, o refúgio em seu mundo interno, a impulsividade, a atemporalidade são mecanismos adaptativos ou defensivos nesse processo, como também, o pensamento do adolescente que tende então a um manejo onipotente das idéias. Para Knobel (1990), o adolescente pode utilizar-se da intelectualização onipotente como forma de se reorganizar quanto à perda do corpo infantil e pela falta de uma personalidade adulta. Esta intelectualização onipotente pode ser expressa através de símbolos, idéias, desejos de reformas políticas, sociais e religiosas, rebeldia. Desta forma o jovem consegue lidar com seu sentimento de impotência e insegurança frente às mudanças corporais e psicológicas típicas desta fase.

“Dentro havia uns cinqüenta distintivos, de cores diferentes, mas todos com os mesmos dizeres: F.A.L.E.

– Fale? – estranhou Harry, apanhando um distintivo e examinando-o. – Que significa isso?

– Não é fale – protestou Hermione impaciente. – É F.A.L.E. Quer dizer, Fundo de Apoio à Liberação dos Elfos.

………

Ela brandiu um rolo de pergaminho para os garotos.

– Andei pesquisando minuciosamente na biblioteca. A escravatura dos elfos já existe há séculos. Custo a acreditar que ninguém tenha feito nada contra ela até agora.

– Hermione, abra bem os ouvidos – disse Rony em voz alta. – Eles. Gostam. Disso. Gostam de ser escravizados!

– A curto prazo os nossos objetivos – disse Hermione, falando ainda mais alto do que o amigo e agindo como se não tivesse ouvido uma única palavra – são obter para os elfos um salário mínimo justo e condições de trabalho decentes. A longo prazo, os nossos objetivos incluem mudar a lei que proíbe o uso da varinha e tentar admitir um elfo no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, porque  eles são vergonhosamente sub-representados.

(H. Potter e o Cálice de Fogo, 2001, p.180-181)

As condutas rebeldes e as reivindicações políticas funcionam muitas vezes como um mecanismo adaptativo, num mundo que acaba se beneficiando desse comportamento adolescente. Osório (1992, p.10-11) assinala que “não é sem razão que se afirma que todas as grandes mudanças culturais da história da humanidade ocorrem no limiar entre a adolescência e a idade adulta! ”Outra característica marcante da adolescência são as flutuações constantes no humor e no estado de ânimo, decorrentes tanto da revolução hormonal, como de todo o processo de mudanças bio-psico-sociais pelas quais o adolescente vê-se obrigado a passar.

“As coisas continuaram neste ritmo durante três dias inteiros. Harry sentia-se invadido por uma energia excessiva que o impedia de se concentrar em qualquer coisa, momentos em que caminhava pelo quarto furioso com todo mundo, por deixarem-no remoendo seus problemas sozinho; essa energia se alternava com uma letargia tão absoluta que era capaz de ficar deitado na cama uma hora inteira, olhando atordoado para o teto, sofrendo só de pensar, apavorado, na audiência no Ministério.”

( H. Potter e a Ordem da Fênix,2003, p. 40)

“A pequena chama que se acendera em seu peito ao ver os dois maiores amigos se apagou e uma coisa gelada inundou a boca de seu estômago. De repente – depois de ansiar o mês inteiro para ver os dois – ele sentiu que preferia que Rony e Hermione o deixassem sozinho.”

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p.56)

Além de Harry, também seus amigos vão demonstrando no transcorrer da história, uma mudança significativa no estado de humor – do eufórico, alegre para o depressivo, triste, irritabilidade, impaciência, mudanças no estado de ânimo. A transição da infância para a adolescência é habitualmente dolorosa, tanto para o jovem como para os adultos. Outeiral (2003) faz uma relação entre a arrumação do quarto de um adolescente (ou a forma com que recheia sua mochila escolar) que nos dá uma dimensão bastante aproximada de seu mundo interno, certamente bastante confuso e desorganizado.

“O quarto do garoto era certamente muito mais desarrumado que o resto da casa. Confinado nele havia quatro dias, de muito mau humor, Harry não se dera o trabalho de arrumá-lo”

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p. 46)

Os adolescentes por vezes demonstram que gostariam de ser adultos de forma súbita, ou ao contrário, não crescer nunca. O mesmo acontece para os pais, que oscilam entre empurrar ou deter o crescimento de seus filhos, o que gera muitos conflitos para ambos, pais e filhos.

“- Ele não pertence à Ordem de Fênix! – contrapôs a Sra. Weasley. – Tem apenas 15 anos e…

– E já teve de enfrentar tanto quanto a maioria dos participantes da Ordem e mais do que alguns.

– Ninguém está negando o que ele fez! – disse a Sra. Weasley erguendo a voz, os punhos tremendo nos braços da cadeira. – Mas ainda…

– Ele não é mais criança! – retrucou Sirius, impaciente.

– Tampouco é adulto! – disse a Sra. Weasley.

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p. 76-77)

Levisky (1998, p. 52-53) assinala que, “com o desenvolvimento do corpo e com o aparecimento dos caracteres sexuais secundários, o aparecimento da menarca e das primeiras ejaculações, a definição da sexualidade adulta se impõe à bissexualidade.” Knobel (1990) enfatiza que o jovem recupera o sexo perdido da bissexualidade infantil que desfrutava, através da masturbação, numa tentativa de negação desta perda, bem como de redescoberta e exploração destes, visto que, com as mudanças hormonais, os genitais adquiriram novas características. Para o autor, na adolescência acontece uma repetição do que acontece na segunda metade do primeiro ano de vida, quando a criança descobre os seus genitais, e busca simbolicamente a união do sexo oposto, através de atividades lúdicas. Na adolescência, a busca pelo parceiro genital, aponta para a perda da fantasia da bissexualidade, com sua elaboração e evolução para um funcionamento sexual adulto.

“Ela o aguardava ao lado da porta de carvalho, muito bonita com os cabelos presos atrás em um bonito rabo-de-cavalo. Os pés de Harry lhe pareceram grandes demais para o seu corpo enquanto caminhava ao encontro dela, e de repente tomou consciência dos seus braços e como deviam parecer idiotas balançando dos lados.

– Oi – disse Cho ligeiramente sem ar.

– Oi – disse Harry.

Eles de olharam por um momento e Harry então falou:

– Bom… ah … então vamos?

– Ah… claro…

Os dois entraram na fila de alunos a serem liberados por Filch, seus olhos se encontrando ocasionalmente, dando sorrisos esquivos, mas não conversaram. Harry sentiu alívio quando chegaram lá fora, achando mais fácil caminharem em silêncio do que ficar parados constrangidos.

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p.454)

O feminino e o masculino começam a se reconhecer e a se estranhar. A insegurança egóica de quem ainda não está plenamente estruturado, construído, demonstram a insegurança, a timidez, o retraimento, muito típicos na adolescência.

“- E por falar em Miguel e Gina… e Cho e você?

– Como assim? – perguntou Harry depressa.

Foi como se a água estivesse fervendo e subisse rapidamente dentro dele: Uma sensação escaldante que fez seu rosto arder no frio. Será que fora assim tão óbvio?

– Bom – disse Hermione com um leve sorriso -, ela simplesmente não conseguia tirar os olhos de você.

Harry nunca apreciara antes como a vila de Hogsmeade era bonita”

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p.289)

Knobel (1990) lembra que a sexualidade do adolescente se desenvolve progressivamente e em decorrência das mudanças físicas da puberdade, quando o corpo adquire características diferenciadas, o jovem necessita reconhecê-lo, estudá-lo como o meio para vivenciar um relacionamento sexual. Desta forma, o jovem toma posse do seu corpo com características adultas, o que lhe permite abandonar seu esquema corporal infantil. Para Aberastury (1990, p. 28) “A inserção no mundo social do adulto – com suas modificações internas e seu plano de reformas – é o que vai decidindo sua personalidade. Seu novo plano de vida lhe exige estabelecer o problema dos valores éticos, intelectuais e afetivos; implica o nascimento de novos ideais e a aquisição da capacidade de luta para consegui-lo”. Para tanto, a autora frisa a necessidade do jovem se distanciar do presente, e projetar-se no futuro, independizando-se do “ser com e como os pais” (p.28). Na realidade dos adolescentes, além de ser imprescindível o encontro de sua identidade pessoal, a identidade vocacional também impera, por ser um modo de se independizar, do jovem ter o seu fazer. Erikson afirma que a sociedade oferece ao adolescente uma moratória social. Seria o tempo necessário que o jovem necessitaria para se adaptar às mudanças corporais porque passa, e que o obrigam a abandonar sua identidade infantil para adquirir sua identidade adulta. Levenfus (1997) lembra a idéia de Aberastury de que se exige que o adolescente defina sua vocação, mas que, ao mesmo tempo estas primeiras tentativas são reprimidas. Essas tentativas têm o mesmo significado das primeiras tentativas na vida genital, e que geralmente não são valorizadas. Para a autora, além de todas as turbulências internas típicas da adolescência, nas sociedades tanto primitivas como modernas, o jovem seja submetido a algum ritual para alcançar a condição adulta, para ser reconhecido como tal. Estes rituais têm a função de marcar a ruptura dos jovens de seus laços domésticos e familiares, e demarcarem a passagem para a vida social e comunitária. No sociedade atual, o vestibular pode ser considerado como um ritual de passagem, pois obedece a alguns requisitos próprios dos rituais, como ser uma provação marcada pelo formalismo, pela solenidade, pelo cerimonial, pela observância de prática e normas prescritas, a fim de avaliar a capacidade do jovem para enfrentar sua nova situação de vida. Levenfus (1997, p.200) lembra que o ritual do vestibular “ tem início cerca de um ano antes dos exames, marcado pela intensificação do preparo para os exames – cursinhos especializados em vestibular, aulas particulares…..”. Também na Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts, os N.O.M.s acontecem como um ritual de passagem, semelhante ao vestibular, e são vistos pelos alunos com muita ansiedade, pelo fato de serem avaliativos.

 “- O que vocês precisam se lembrar – disse o pequeno Prof. Flitwick, com sua voz de ratinho, encarrapitado como sempre em uma pilha de livros para poder ver por cima do tampo da mesa – é que esses exames podem influenciar o seu futuro durante muitos anos! Se vocês ainda não pensaram seriamente em suas carreiras, agora é o momento de o fazerem.”

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p. 214)

“Não foi surpresa para ninguém que a Profª Sprout começasse a aula fazendo uma preleção sobre a importância dos N.O.M.s. Harry gostaria que todos os professores parassem com aquilo; estava começando a sentir ansiedade e contorções no estômago cada vez que se lembrava da quantidade de deveres que tinha a fazer, uma sensação que piorou dramaticamente quando a Profª Sprout passou para os alunos mais um trabalho no final da aula.”

(H. Potter e a Ordem a Fênix, 2003, p. 219)

Além dos N.O.M.s, a escola de Harry Potter também oferece a Orientação Vocacional, numa tentativa de auxiliar os alunos a definirem suas escolhas profissionais.

 “Como se quisessem enfatizar a importância dos exames, agora próximos, um pacote de panfletos, folhetos e avisos, abordando as várias carreiras para bruxos, apareceu nas mesas de Torre da Grifinória pouco antes do término das férias, ao mesmo tempo que um aviso no quadro dizia o seguinte:

ORIENTAÇÃO VOCACIONAL

Todos os quintanistas deverão ter uma breve reunião com a diretora de sua casa durante a primeira semana do trimestre de verão para discutir suas futuras carreiras. Os horários das consultas individuais estão listadas abaixo.

(H. Potter e a Ordem da Fênix, 2003, p.531-532)

“- Bom, não estou interessado em ser Curandeiro- declarou Rony na última noite das férias. Lia concentrado um folheto que tinha na capa um osso e uma varinha cruzados o emblema do St. Mungus. – Diz aqui que preciso no mínimo de um “E” nos N.O.M.s de Poções, Herbologia, Transfiguração, Feitiços e Defesa Contra as Artes das Trevas. Quero dizer…caracas…não estão querendo nada, não é?

– Bom, é uma profissão de muita responsabilidade, não acha? – falou Hermione distraída. Ela examinava atentamente um folheto rosa e laranja intitulado: “Então você acha que gostaria de trabalhar em relações com os trouxas?” – Parece que não é preciso muita qualificação para fazer a ligação com os trouxas; só pedem um N.O.M. em Estudos dos Trouxas: Muito mais importante é o seu entusiasmo, paciência e um bom senso de humor!”

(H. Potter e a Ordem a Fênix, 2003, p. 532)

A escolha profissional, segundo Levenfus (1997 p.97) “é uma tarefa evolutiva, resultado de um longo processo que se inicia na infância e se transforma conforme o desenvolvimento da personalidade. ”Para a autora o estabelecimento de uma identidade profissional seria um dos marcos que assinalam a passagem da adolescência para a vida adulta, pois seria uma prova do desenvolvimento e integração da personalidade. O término da adolescência, segundo o Comitê sobre a Adolescência (EUA, 1968) considera os seguintes critérios:

1. Separação e individuação dos pais;

2. Estabelecimento da identidade sexual;

3. Aceitação do trabalho como parte integrante do cotidiano da vida;

4. Construção de um sistema pessoal de valores morais.

5. Capacidade de estabelecer relações duradouras e de amor sexual, terno e genital, nas relações heterossexuais;

6. Regresso aos pais numa nova relação baseada numa igualdade relativa.

A história de Harry Potter publicada até agora, nos coloca diante de um jovem adolescente, agora com 15 anos, às voltas com sua sexualidade e com suas escolhas profissionais. Muitos lutos já foram elaborados, outros estão em processo. Harry já consegue se identificar como bruxo, já se vê e se sente como tal, assim como, muitos dos milhões dos leitores, já conseguem espreitar uma identidade própria com a elaboração dos seus lutos, mas todos, o conseguirão  conforme a sua própria história.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS – UMA PERSPECTIVA PESSOAL

Harry Potter é um personagem fictício e irreal muito mais real do que poderíamos imaginar, apenas lendo suas aventuras, ou o vendo como um mero personagem de uma história muito criativa e fantasiosa. Quando pensamos no enorme sucesso que Harry faz, os motivos que justificam os porquês deste sucesso certamente intrigam, tanto pela ingenuidade das histórias como pela magia e irrealidade das mesmas. Bettelheim (1980) consegue nos responder afirmando que cada um encontra aquilo que está procurando ou necessitando, a fim de elaborar e integrar seu mundo interno. Isto pode acontecer ao lermos os contos de fadas, qualquer um, pois os contos de fadas, por usarem símbolos universais, prestam-se para auxiliar neste processo interno de integração e elaboração. Harry Potter desperta em cada um de seus leitores, os mais variados sentimentos e reações. Acompanhar Harry nos seus desafios e em seu desenvolvimento pessoal, é uma forma lúdica e terapêutica de trabalhar com nossos próprios desafios e desenvolvimento pessoal. Assim como Harry se torna vitorioso no final, também nós, ao acompanharmos a trajetória dele percebemos que por mais terríveis que possam ser nossos obstáculos e desafios, se ele, um menino órfão foi capaz de vencer obstáculos tão terríveis, também nós, crianças, adolescentes e adultos, seremos capaz. Nos dois últimos anos, durante o desenvolvimento do curso de Especialização em Psicoterapia Psicanalítica da Criança e do Adolescente, temos estudado a criança e o adolescente sob os mais diferentes aspectos: neurológicos, psicológicos, psicopatológicos, sociais, familiares, etc. Todos estes aspectos foram focados por diferentes teorias psicanalíticas, passando por Anna Freud, Mellanie Klein, Winnicott, Antonino Ferro, entre tantos outros autores, alguns desconhecidos, outros muito conhecidos. Parece que colocamos a infância e a adolescência sob o microscópio, e aprendemos, ou fomos levados a aprender ou a ver, as entranhas destas fases do desenvolvimento humano de forma científica e teórica. Como psicoterapeutas de crianças e adolescentes precisamos disto, pois é na esteira destes conhecimentos científicos e teóricos que poderemos exercer nossa atividade profissional, e auxiliar nossos pacientes crianças e adolescentes a prosseguirem em seu desenvolvimento. Talvez o que poucos de nós percebemos, foi que, durante estes dois anos em que estudamos crianças e adolescentes, nós também tenhamos elaborado e integrado nossas partes infantis e adolescentes. Alguns mais, outros menos, mas todos, conforme a própria necessidade. Esta conquista pela integração teórica e pela integração do self do terapeuta aconteceu por etapas, cada uma com obstáculos, dificuldades, ganhos e perdas. Todos finalizamos nossa história nesta especialização; assim como  Harry Potter.  Poder ler, estudar, entender, vibrar, sofrer com Harry, também faz parte de um processo de integração e elaboração pessoais. Faz parte de uma viagem mágica, de um resgate do mundo infantil e da conquista do mundo adolescente. Meu primeiro trabalho do curso de Especialização foi “Harry Potter – Uma Visão Psicanalítica”, feito em grupo, e reapresentado no primeiro capítulo desta monografia. Foi o contato com o mundo infantil, da fantasia, da magia. É o começo de todo processo de desenvolvimento humano. É a entrada no mundo infantil. Vários trabalhos se seguiram nestes dois anos, e a conclusão da especialização, após muitas dúvidas, idas e vindas, foi retomar Harry Potter. Mas por quê? Este questionamento só foi clareando na medida em que eu desenvolvia o Harry Potter adolescente. Poder retomar as histórias do menino bruxo, a infância, identificar o início da puberdade e da adolescência, os lutos pela perda do corpo, pelos pais e pela identidade infantil, revisar teoricamente todo o desenvolvimento adolescente normal, observar Harry se questionando profissionalmente, enfim, ver Harry se integrando e se estruturando satisfatoriamente rumo à maturidade adulta, permitiu concluir esta integração do personagem, como também a conclusão da integração das crianças e dos adolescentes do terapeuta. A função de Harry Potter para minha formação como terapeuta está concluída, pois na história dele, pude ver e entender todo e qualquer adolescente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. 16.ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980.

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COMITÊ SOBRE ADOLESCÊNCIA DO GRUPO PARA O ADIANTAMENTO DA PSIQUIATRIA (E.U.A.) Dinâmica da Adolescência. São Paulo, Editora Cultrix, 1968.

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LEVISKY, David Léo. Adolescência – Reflexões Psicanalíticas. 2.ed. São Paulo, Casa do Psicólogo, 1998.

LOURO, Guacira Lopes; NECKEL, Jane Felipe; GOELLNER, Silvana Vilodre Corpo, Gênero e Sexualidade – Um debate contemporâneo na educação. Petrópolis, Editora Vozes, 2003.

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ROWLING, J.K. HARRY POTTER e o Prisioneiro de Azkaban. Rio de Janeiro, Rocco, 2000.

ROWLING, J. K. HARRY POTTER e o Cálice de Fogo. Rio de Janeiro, Rocco, 2001.

ROWLING, J. K. HARRY POTTER e a Ordem da Fênix.  Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

SUPLICY, Marta. Sexo para Adolescentes. São Paulo, FTD, 1988.

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