A ditadura das cesarianas, dietas e cirurgias plásticas

Esta crônica foi escrita na Venezuela em 2006.

Cheguei à conclusão de que existem procedimentos médicos que acompanham o ciclo de vida das mulheres. Pelo menos é isso que percebo quando o assunto é cirurgia plástica, dieta e cesariana. Aliás, existem doenças que também nos acompanham em determinadas fases da vida como o sarampo, a dor de cotovelo, as gastrites, os problemas cardíacos, o câncer de mama, etc..

Na época reprodutiva, enquanto estamos planejando e tendo filhos, a maioria das mulheres opta pela cesariana, ao invés do parto normal. Esta opção pode ser por uma necessidade real, em função do risco de vida da mãe ou do bebê, mas na maioria das vezes não é. Muitas alegam medo das dores, medo de que algo possa dar errado durante o parto, do bebê se machucar, dele não se encaixar ou trancar no canal vaginal e ser necessário o uso do temido fórceps. Os médicos preferem a cesariana porque conseguem encaixar o parto em sua agenda e não precisam esperar o momento em que o bebê quer nascer. Vários homens que conheço alegam que é muito sofrimento para suas esposas e não conseguem imaginar quão dolorido deve ser o parto normal. Assim, programa-se o dia e a hora do parto. Ninguém perde tempo, as dores são controladas e não existem surpresas inesperadas.

Com o passar dos anos, filhos nascidos e crescendo, o corpo da mulher vai se remodelando. Algumas planejam outras gravidezes, outras engravidam por acaso, outras nem uma coisa nem outra.  Engordam e emagrecem num eterno ir e vir de medidas: 38, 40, 42, 44, 46, 48 e por aí vai. Vamos nos encaixando nas tabelas de medidas. Pelo menos no meu armário tenho peças 42, 44 e 46. Conforme a fase que estou vivendo – mais ansiosa ou mais tranquila – engordo ou emagreço. Não faço de propósito, apenas é da minha natureza. Até os 30 anos era rápido e fácil perder aqueles quilinhos extras em poucos dias, para caber “naquela roupa”. Com o passar dos anos, os quilinhos foram se acumulando, e hoje, o que demora uma semana para perder, recupera-se em apenas uma refeição proibida. Culpa do metabolismo. Meu consolo é que 90% das minhas amigas sofrem do mesmo mal. Assim, os quilinhos extras que percebemos umas nas outras sempre tem uma boa desculpa para estarem lá. E nos solidarizamos nas mais diferentes modalidades de dietas e exercícios físicos. Tornamo-nos companheiras num processo de mútua-ajuda, estimulando-nos o tempo todo e fechando os olhos quando a balança revela que o esforço pouco valeu a pena. Sempre digo que estou de dieta, e sempre estou acima do peso ideal. Imagina se não estivesse de dieta!!! Tudo culpa do meu biotipo e minha descendência alemã.

Após uma infinidade de dietas, nutricionistas, endocrinologistas, aeróbica, musculação, horas e horas de caminhadas, centenas de abdominais, massagens estéticas, drenagens linfáticas,  terapias para controlar a ansiedade e a compulsão pelos doces, e tudo aquilo que se pode imaginar, surge a cartada final: cirurgia plástica, lipoaspiração, prótese de silicone. Sem contar os medicamentos para eliminar o apetite e controlar a ansiedade. Nunca fui adepta destes métodos. Por mais que exista uma indústria e médicos que apregoem que as medicações de hoje não causam dependência e que seu consumo é seguro, evito  usá-los. Até porque, uma coisa é perder peso. A outra é mantê-lo. Não é possível manter o peso sem uma reeducação alimentar, mudanças de hábitos e exercícios físicos. Muitas optam pelo caminho mais fácil e rápido, tornando-se reféns das “boletas” para controlar o apetite, emagrecer e manter o peso.

Plásticas e lipos sempre foram assuntos nas rodas de amigas, inclusive entre pacientes de consultório. Um dia, já com 44 anos, resolvi marcar consulta com um cirurgião plástico para tirar dúvidas e saber quais as possibilidades, as alternativas para reformar meu corpo, e adequá-lo ao tipo de corpo valorizado neste momento. (Tenho uma amiga muito querida, que durante um passeio pelo Museu do Louvre em Paris, olhou para mim e disse em tom de brincadeira, que nós duas tínhamos nascido no século errado, que todas as telas expostas mostravam mulheres fartas, anjos barrocos rechonchudos retratando um período na história em que mulheres “normais” tinham medidas um pouco mais generosas. Assim como nós duas. Anjas barrocas.) É incrível o poder da mídia, da cultura e da sociedade. Incutem nas mulheres (eu diria em qualquer mulher) independente de raça, classe social, nível intelectual, estabilidade emocional, a necessidade de ser e estar bonita sempre. Parece que o mundo só será generoso se formos bonitas e desejáveis. As portas e os sorrisos se abrem, assim como o reconhecimento e a valorização. Mas, como pensar em mulheres de meia-idade, sem pensar no tempo e em suas marcas? A perda do viço da pele, o branquear dos cabelos, o corpo remodelado, os quilos a mais ou a menos, as manchas pelo corpo, as rugas no rosto e no pescoço. As marcas. As cicatrizes de uma vida.

A mulher jovem transforma-se naturalmente na mulher madura, que espelha suas experiências, suas dores, angústias, escolhas. Ela é o espelho do seu  tempo. Então, de repente, com os filhos fora de casa, a carreira engrenada, resta mais tempo para o companheiro e principalmente para nós mesmas! E então, de forma surpreendente, começamos a nos ver com os olhos dos outros, perdendo-nos de nós mesmas!

Saí do consultório médico com a certeza de que a maioria das mulheres esculturais e de corpo perfeito são obras de arte de escultores de corpos, os cirurgiões plásticos. Fiquei impressionada com o que a medicina estética é capaz de fazer para deixar um corpo detonado e mal cuidado num corpo escultural, ou no mínimo, bem bonito. Quero deixar claro que não sou contra a cirurgia plástica, muito pelo contrário, estou sempre na fila para fazer a minha, mas sempre vou deixando outras passarem na minha frente, porque acho que não estou pronta para este tipo de “milagre”. Vi muitos “Antes e Depois” de várias mulheres e fiquei realmente impressionada.

Mas uma frase que o médico disse me fez e me faz refletir até agora: “Você vai entrar um dia com um corpo e vai sair no outro dia, com um corpo bem diferente”.

Era tudo o que eu queria ouvir, parecia um sonho! Com um toque de mágica (ou melhor, com o toque do bisturi, cânulas e silicone) eu ficaria novinha em folha. Com o corpo há muito tempo desejado, batalhado e suado, enfim, do jeito que eu havia sonhado. Algumas horas nas mãos de um exímio escultor e eu me tornaria outra!! Confesso que marquei e desmarquei a cirurgia algumas vezes, e até agora não confirmei a data.

Comecei a avaliar o que a cirurgia plástica representaria em minha vida. Olhei para meu corpo com outros olhos. Ou melhor, com os meus olhos. Meu corpo é realmente tão feio assim, que precisa ser retalhado, sugado, costurado, enxertado, completado com peça de reposição, ou seja, 225 mg de silicone? Olhei para meus seios, bumbum (glúteos é o termo técnico adequado), pernas, braços, barriga, costas, mãos, pés, rosto, cabelos, dentes, pele…… Me olhei e me enxerguei no espelho de um jeito como há muito não me via. Simplesmente não tirava do tempo o tempo para me ver.

Dia-a-dia fazemos tudo de forma tão mecânica que nosso olhar fica meio turvo.  Vemos o que os outros querem que vejamos, que às vezes, ficamos míopes para nós mesmas. Com certeza nossos corpos mudam com o passar dos anos. É o natural. É o normal. Aceitá-lo é tarefa nossa. Nosso corpo é o espelho fiel que mostra quem e como somos. Podemos melhorá-lo, torná-lo mais bonito e mais saudável. Podemos simplesmente mudar nossos hábitos, nossa alimentação e a forma como nos vemos. Ou podemos radicalizar e nos remodelar nas mãos de um bom cirurgião plástico. O mais importante é aprendermos a gostar de nós mesmas, do jeito que somos. Importa muito vermo-nos com o nosso próprio olhar.

Estou aprendendo que não é fácil envelhecer. Mas só envelhece quem está vivo. Deixar a natureza seguir seu curso é o mais fácil e o mais difícil também.

A escolha entre fazer plástica e optar pela cesariana é um direito de cada mulher. Felizmente os avanços da medicina nos permitem estas escolhas.

                                                                                  Los Canales, agosto de 2006.

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