Retalhos

Meu período sabático foi marcado por várias experiências. Entre tantas, decidi que era hora de aprender coisas novas. Olhando álbuns antigos decidi que precisavam de uma reforma urgente. Muitos estavam amarelados e enferrujados. Fotos estavam faltando, e milhares estavam apenas gravadas. Com a chegada das câmaras digitais, nossas fotos de papel escassearam e sempre que queremos recordar nossos momentos inesquecíveis precisamos abrir nossas pastas virtuais. Decidi que era hora de imprimir fotos, restaurar e recuperar álbuns de família. Foi e ainda é uma tarefa hercúlea. Muitas fotos apenas foram recolocadas em novos álbuns, mas como a idéia era aprender coisas novas, descobri o scrapbooking. Para quem não sabe, scrapbooking é uma técnica de decoração de álbuns. Scrap quer dizer resto, pedaço, refugo, fragmento, algo que vai para o lixo. Então juntei pedaços de tudo – ingressos, tickets, folders, propagandas, papéis, rendas, botões, jornais, mapas, guardanapos, bilhetes, adesivos, cartas, diários, boletins escolares, etiquetas, lembrancinhas – e tudo que se pode imaginar que guardamos de lembranças de viagens, momentos, festas e situações. Objetos guardados durante muito tempo, e que, naquelas faxinas selvagens e inescrupulosas, decidimos que é sucata e colocamos no lixo. Fiquei feliz, pois ainda encontrei muitas destas sucatas guardadas em caixas e pastas, que saíram ilesas de minhas arrumações. Impressionante como juntamos uma infinidade de cacarecos e lembranças, desde o umbigo ressequido de nossos filhos até convites de sua formatura do jardim de infância à universidade. Que via de regra, acabam ficando esquecidos em caixas. A idéia do scrapbooking é juntar tudo isso e mais um monte de papel apropriado e fotos e fazer álbuns divinos e exclusivos, carregados com todas estas sucatas e lembranças, cujo destino – mais cedo ou mais tarde – será o lixo. Quando digo que a tarefa é hercúlea, não estou brincando. Porque a quantidade de objetos que juntamos e que podem enriquecer cada página de nosso álbum é enorme, e a tarefa de recolher, organizar e aplicar cada peça é bastante demorada, exigindo criatividade, planejamento e muito trabalho. Para ter uma idéia, meu recorde foi de seis horas para fazer apenas uma página de um dos álbuns. A média de páginas por álbum é de quarenta folhas. É só fazer a conta do trabalhão que dá (mas a diversão e o resultado final valem todo minuto gasto). Felizmente a maioria das páginas podem ser concluídas em bem menos tempo. Em 2008 fiz quatro destes álbuns. Em 2009 fiz dois e meio. Digo que são livros familiares, porque a quantidade de informação, fotos e lembranças, retrata de maneira estupenda e exclusiva nossas viagens, festas e porque não dizer, nossas vidas. Outra novidade foi o patchwork. Assim como o scrap, também é um trabalho de retalhos. Tecidos, linhas, fitas, botões, etc., etc. Apesar de adorar as peças de patch, descobri que não é minha praia. O mosaico foi a última das minhas descobertas, e assim como o scrap, passaram a ser meus hobbies favoritos. Aprendi a fazer peças belíssimas com pastilhas de vidro, azulejos, pedras, vidros e peças de porcelana quebradas. Tudo pode ser recortado e encaixado num verdadeiro quebra-cabeças feito de cacos, restos e sucatas. Na reforma que fiz em casa, adaptei um ateliê para acomodar todo meu material “artístico”, e toda sucata aproveitável em meus trabalhos. Aliás, quando ajeito as coisas, e encontro pratos e xícaras quebrados, rendas, bilhetes, etc., etc., etc., etc., sinto-me a verdadeira “Rainha da Sucata”. Mas como me arrependi de ter colocado no lixo verdadeiras preciosidades e relíquias, decidi guardar em latas e caixas aquelas peças que marcaram a história de nossa família, e que ou estão lascadas, quebradas ou desbotadas. Qualquer dia encontro algo em que elas vão ficar perfeitas. Mexendo em todo este material fui tomada pela nostalgia e saudade de outros tempos. Reencontrei a participação de nascimento e convite de um aninho dos meus filhos (hoje com 30 e 21 anos), convite dos meus 15 anos, resto da renda do meu vestido de noiva, roupinhas de bebê, brinquedos e sapatinhos, ingressos e folders de lugares maravilhosos que conheci ao longo dos anos, etc.etc.etc.etc. Além de muitas, muitas fotos. Muitas vezes parece que estou numa máquina do tempo. O botão de iniciar esta viagem são as pequenas lembranças que guardamos e resgatamos. E a única condição para que esta viagem  aconteça é estar aberta e receptiva, por que tudo que vivemos continua em nós. Relembrar e recordar o doce e o amargo de nossas vidas, juntar os cacos e os retalhos, perdidos no tempo e na história são um jeito lúdico de atravessarmos esta etapa de nossas vidas, de preferência, orgulhosos ou vaidosos com nossas escolhas (mesmo por aquelas más escolhas). Afinal, estamos onde estamos graças a elas. E se não estamos como gostaríamos de estar, relembrar e recordar pode nos dar uma nova dimensão ou direção a seguir.

                                                                                          Lajeado, fevereiro de 2010.

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