Aisha e eu

Li em apenas três madrugadas insones o livro “Marley e eu” de John Crogan. Adorei. Achei de uma leveza e de um humor incríveis. Mas do que mais gostei, foi de reconhecer e identificar situações vivenciadas por muitos donos de cachorros. Eu mesma, com minha filhote de pastor alemão, a Aisha, de 10 meses. Nossa filhote chegou em casa com apenas 40 dias, e num momento muito difícil. Tínhamos perdido a Weiss, uma pastora canadense branca, linda, educada, meiga e extremamente fiel. Foi morta por dois marginais que para conseguirem entrar em nossa casa teriam que primeiro dar fim a ela. Envenenaram-na. A morte da nossa Weiss abalou a todos: vizinhos, amigos, conhecidos. Estávamos todos chocados com a violência daquela morte.  E era apenas uma cachorra! Mas era a nossa cachorra e a amávamos de uma forma única. Perdê-la foi difícil, e mesmo passados vários meses, chorávamos ao ver alguma foto displicentemente esquecida em algum canto da casa. Foi nesse ambiente que a Aisha chegou. Ela tinha a difícil missão de substituir “a melhor cachorra do mundo”, ou como insistia minha assistente doméstica, “como a Weiss nunca mais”. Logo no segundo dia, após o assalto e a morte da nossa Weiss, um parente trouxe uma cachorra adulta para que nos sentíssemos mais seguras em casa. A Sasha. Mas a Sasha não convenceu, muito menos nos cativou. Liguei para vários canis na esperança de encontrar um cachorro com mais ou menos 2 anos. Esta era uma idade boa, segundo me diziam. Mas quando vi aquela bolinha preta de olho arteiro cor de mel, não resisti e a levei pra casa.  Com apenas 40 dias, e em pleno mês chuvoso e frio de agosto. Um dia depois da chegada da Sasha. Foi uma festa. Depois da dor da perda, aquele bebê de pêlo macio, patas acolchoadas, olhar meigo e infantil, latidos débeis e estridentes, todos ficamos mais felizes. Qual seria o nome dela? Não esperávamos por um cachorro novo e não tínhamos nada previamente escolhido. Para mim seria a Pilar, para minha assistente era a Pequena, meu filho disse que quem sabia nome de cachorro era a irmã, a esta altura residindo na terra dos cangurus. E prevaleceu o nome escolhido por ela: Aisha. Fim de questão. Para não causar uma crise de identidade acatei a maioria. Ficou Aisha, mesmo que achasse o nome estranho, não gostasse daquele “i” estridente e achasse Pilar muito mais bonito.   E a Aisha foi crescendo ao lado da Sasha que ficou conosco exatos 5 meses. Foi o tempo que aguentamos. As duas causavam a mesma destruição de um elefante. De dentro de casa ouvia as duas correndo e brincando como se fossem uma tropa de cavalos nos fundos de casa. Durante os 5 meses em que a Aisha e a Sasha ficaram juntas, nunca sabíamos quem havia feito a arte da noite anterior, da manhã, da hora atrás. Parecia que as duas estavam lá apenas para destruir o jardim. Das 5 bromélias imperiais, e das mais de 40 bromélias vermelhas, amarelas, tigradas, com espinho, sem espinho, apenas 1 sobreviveu. As outras apareciam diariamente na boca da nossa animada Aisha. Nossos “buxos” também foram vitimados, numa agradável tarde de verão, em meio a uma chuva torrencial. Sasha e Aisha pareciam duas crianças inocentes brincando na chuva e se jogando sobre os pobres coitados, que ficaram destroçados. Além das paredes brancas da casa, serem pintadas de marrom barro pelo pêlo das duas delinqüentes que eu estava criando. Talvez quem mais tenha sofrido neste período tenha sido a Sasha, pois a Aisha era incansável. Às vezes, imaginava que a Sasha estava tão quietinha e tão escondida pelo jardim para não ser notada pelo monstrinho, que a esta altura, mais parecia um “gremlin”, já que a metade da altura dela era por causa das orelhas enormes e desproporcionais ao seu tamanho. Quando a Aisha encontrava a Sasha jogava-se sobre ela, mordia as orelhas, puxava o rabo, mordia o focinho. Simplesmente infernizava a vida da Sasha que levantava e procurava um lugar mais tranquilo, que em pouco tempo, era novamente invadido pelo nosso monstrinho. Calçados, roupas, chaves de carro, controles, e qualquer coisa que a  Aisha encontrasse, iam direto para a boca e eram estraçalhados. Como psicóloga justificava que ela era como um bebê, que estava reconhecendo o mundo a sua volta. Ela estava na fase oral, aquela em que as crianças colocam tudo na boca e assim descobrem o mundo. A diferença era que a Aisha tinha dentes de cachorro e os bebês, ou ainda são desdentados ou tem pequenos dentes de leite. Achávamos que ela já havia feito todo o imaginável até que em uma manhã de sábado ela conseguiu quebrar um belíssimo vaso marajoara de 1,20m de altura, “importado” do Pará. Fiquei desolada. Havia criado dois filhos sem maiores problemas, e agora, me via obrigada a encaminhar minha filhote ao canil para ser adestrada. Era como mandar um filho para um internato ou para uma casa de correção. Sentia-me uma fracassada. Como eu não tinha conseguido educar aquela cachorra? Como havia criado uma maluca sem limites, quase uma delinquente canina? Fomos ao canil ver as condições para deixar nosso filhote de seis meses. Tudo adequado, mas eu não conseguia imaginar nosso monstrinho bem naquele lugar. Ela era feliz demais, disposta demais, hiperativa demais, querida demais para ficar sozinha, presa em poucos metros quadrados e apenas algumas horas solta por dia. Aleguei que o adestramento era muito caro. E que ela estava crescendo, que iria melhorar. Acatamos algumas orientações do adestrador, que nos sugeriu deixá-la algumas horas presa, no canil de casa. Eu e meu marido nos olhamos e lhe dissemos que o canil havia se tornado o refúgio e o hospital das plantas massacradas por ela. Ou seja: a cachorra estava solta pelo jardim, e nossas plantas presas no canil. Parece piada? Mas não é. Observando o comportamento das duas cachorras, percebemos que a Sasha também aprontava e quem sempre apanhava e levava a culpa era a Aisha. O mesmo acontece muitas vezes com nossos filhos. Eles aprontam e: ou culpamos o maior ou o menor, e nem sempre (ou quase nunca) somos justos em nossos julgamentos. Decidi que era hora de afastá-las. Naquela mesma tarde, colocamos a cachorra na camionete e a levamos embora. Pelo menos com cachorros podemos fazer isso, com nossos filhos não!!!!! Sei que a Sasha está muito bem em sua nova família, enquanto a Aisha continua aprontando. Pelo menos 45 000 litros de água da piscina se perderam nesse processo de amadurecimento, mais duas cadeiras de jardim…. Mas nem se compara aos primeiros tempos. Reformei o jardim e o adequei a ela. Nada de bromélias tentadoras! Quem está numa batalha cerrada com ela são as “dracenas” vermelhas. Quanto mais ela morde e corta os caules, mais brotos aparecem. Quando as dracenas ficam altas e bonitas novamente a Aisha vai lá e corta. E novos brotos aparecem. Acho que ela encontrou alguém do reino da flora que pode com ela. Com o tempo ela vai aprender a respeitá-las. Hoje uma de suas artes favoritas é jogar-se contra a porta da frente de casa, e penso eu, aguardar efusivamente o momento em que a casa berra alto e o pessoal da segurança monitorizada aparece para se certificar de que não aconteceu nada.    Este é o preço cobrado por ela quando todos saem de casa. Talvez ela ainda se ache muito pequena para cuidar sozinha da casa e precise se certificar de que alguém virá caso ela precise de ajuda. A Aisha está prestes a fazer um ano. Está na latência. Aquele período de calmaria que acontece com as crianças, entre os cinco e os dez anos. Pelo que sei, cada ano canino equivale a 7 anos humanos. Então ela já está uma menina. Continua com a personalidade forte – que eu adoro -, muito ativa (já pensei na Ritalina pra ela) e a certeza de que ela só poderia ser do jeito que é. Hoje dizemos que como a Weiss nunca mais, e como a Aisha também não. Cada uma tem seu jeito e a sua personalidade. Ambas adoráveis. Não podemos comparar as duas, porque são incomparáveis.

Assim como todo e qualquer ser humano.

                                                                         São Paulo, novembro de 2008.

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