De dez em dez anos

Tenho observado que a vida se desenvolve por ciclos que duram em torno de 10 anos. Às vezes mais, às vezes menos. Afinal, cada um tem seu próprio ritmo. Nos livros de psicologia fala-se de ciclo vital. É o que se espera que aconteça na vida das pessoas, do nascimento à morte. Parece um mapa assinalando por onde vamos passar. Mesmo para quem quer ser diferente – e não são poucos – acabamos passando por lugares por onde muitos já passaram, como se houvesse um roteiro a ser seguido. Às vezes parece um roteiro cultural – é o que a sociedade espera de nós. Outras vezes, um roteiro inato e pessoal – é o que nossas entranhas nos exigem. Cada um vive seu ciclo individualizado, no seu tempo e ritmo. A infância é um período mágico e inesquecível: as bonecas, os carrinhos, as brincadeiras, a ingenuidade, as descobertas, os pequenos compromissos, a segurança e o cuidado dos pais. Ela está mudando, está mais curta e mais compromissada, quando não mais castigada, abandonada e até explorada. Durava em torno de 10 anos. Chega a adolescência, e com ela, as mudanças físicas, os conflitos existenciais, o novo olhar sobre si mesmo sobre os pais e o mundo que nos cerca. Alguns sofrem mais, ficam mais perdidos, mais angustiados, mais revoltados. Buscamos uma nova identidade. Começamos a namorar, descobrimos o sexo e o outro. Vamos para a universidade em busca da nossa identidade profissional. Entramos no mercado de trabalho ainda tímidos e inexperientes! E de repente entramos nos eixos. São aproximadamente mais 10 anos. Aqueles que não conseguem, sofrem mais, mas continuam se buscando. Tornamo-nos adultos jovens, ou pelo menos somos vistos como tal. É o momento de aprofundar nossas buscas, de consolidar projetos e colocá-los em prática: sermos independentes financeiramente, ter nossa família, nossos amigos, nossos programas, nosso canto, nossa vida. E sem precisar dizer onde e com quem saímos e poder voltar quando acharmos que é hora, a nossa hora. Afinal, adulto deve saber dessas coisas, senão que adulto ele é? Com 30 anos, os projetos estão encaminhados, alguns dão certo e vingam, outros precisam de ajustes e muitos não saem do plano das idéias e da imaginação. Porque neste plano tudo é possível, enquanto que no plano real, nem sempre é. Aprendemos a conviver com sucessos e fracassos, alegrias e tristezas, ganhos e perdas, e assim, crescemos e amadurecemos. Alguns não conseguem chegar neste ponto, mas mesmo que retardatários, eles continuam tentando, continuam se buscando, e sofrendo talvez até mais, porque ainda não chegaram onde a maioria já chegou. Por volta dos 40 anos todos paramos. Os que pensam que chegaram e os que pensam que não chegaram. Stop! Ponto para questionamentos, avaliações e novas decisões! Será que onde estou é onde eu realmente quero estar? Será que é muito importante estar onde estou? Será que mudaram as minhas necessidades e preciso redirecionar a minha jornada, porque aonde cheguei não era tudo aquilo que vislumbrei aos 20 anos? Ou será que aos 40, pela ação do tempo e da própria vida, mudamos de foco e de necessidades? Aqueles que nunca chegaram neste ponto (quem sabe até chegaram) talvez se deem conta de que apenas adotaram rotas alternativas. Também viveram, tiveram seus sucessos e fracassos, suas perdas e seus ganhos, suas alegrias e tristezas. Viveram a vida de outra forma, em outro ritmo! Talvez percebam que o que buscaram durante toda a vida não é tão importante quanto imaginavam. E, assim como os outros, comecem a ver a vida com outro olhar e comecem um novo ciclo! Uma nova etapa de vida! Foram-se mais 10 anos!  (escrito em Los Canales, em outubro de 2006)

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