Uma viagem a dois

Vivendo e convivendo com muitos casais, percebi a grande dificuldade que é conciliar diferenças; de opiniões, de valores, de princípios, de regras, de necessidades, de interesses. Diferenças pessoais que ao invés de somar na relação, acabam por dividi-la. E essa ruptura ou rachadura relacional acaba sendo exposta e nos expondo a um julgamento muitas vezes interminável. Gosto muito da teoria de Susan Campbell que compara o relacionamento conjugal a uma viagem. Escolhido o parceiro de jornada, cada um leva consigo sua própria bagagem repleta de valores, pensamentos, princípios, regras e crenças familiares. Durante a viagem o peso começa a incomodar tornando-se necessária a seleção do que deve ou não continuar na bagagem. É nesse momento, muitas vezes tumultuado, que o casal define o que regerá a vida a dois, e posteriormente a vida familiar. Susan traça um roteiro pelo qual todos os casais irão passar. Para ela todos passamos pelos mesmos estágios no relacionamento conjugal: Romance, disputa de poder, estabilidade, compromisso e co-criação. Cada um destes estágios é acompanhado pela tarefa específica e sua ilusão correspondente. A duração de cada estágio é variável, pois cada casal é único. Cada estágio é vivido de maneira própria, podendo ser superado ou não, evoluindo ou não para os estágios mais avançados. De todos os estágios da jornada do casal, o que mais leva casais à terapia é o estágio de disputa pelo poder. É a tão propagada “Guerra dos Sexos”. A disputa por espaço e poder tornou homens e mulheres adversários em muitos campos de atuação. Tanto na esfera afetiva como na profissional. São os chamados machos e fêmeas alfa. São os membros dominantes do grupo, aqueles que exercem autoridade e controle sobre os demais. No entanto, esta necessidade de provar quem é o mais forte na relação, quem tem a razão e quem decide, acaba por fragilizar o relacionamento. A competição dentro do próprio relacionamento cria o distanciamento e o esfriamento da relação. Não há entrega. Muitos cultivam a desconfiança e a delimitação do espaço físico e emocional extremados como uma segurança e garantia pessoal, inviabilizando a intimidade e a plenitude da vida a dois. Vivem o que chamo de relacionamentos defensivos. Ambos posam de fortes e autossuficientes, como se fosse uma ofensa pessoal ou uma má estratégia revelar medos e fragilidades ao outro. Ao longo dos anos observei o quanto este tipo de relação desgasta a vida a dois. Não raro, relacionamentos fixados nesta etapa acabam em ruptura e divórcio. É complicado definir em que estágio do relacionamento estamos quando chegamos na meia-idade. Mas normalmente podemos situar entre a disputa de poder e o compromisso. Porque com toda certeza o romance não resiste a períodos tão longos de realidade! Ou estamos nos sentindo exauridos por uma vida inteira tentando modificar nosso parceiro para adequá-lo às nossas necessidades e expectativas, ou, aprendemos a aceitá-lo como é, amando-o e odiando-o, sabendo que isto não significa o fim do relacionamento. Aprendemos que podemos questionar e ser questionados, sem que isto evolua para uma disputa acirrada de poder. Encontramos soluções criativas e eficazes para nossos conflitos. A ilusão da interdependência e da unicidade é extinta. Surge a certeza da importância da individualidade no relacionamento conjugal. Mesmo para os casais que evoluem para os estágios mais avançados existem armadilhas pelo caminho que podem colocar em risco o relacionamento. Tenho observado a fragilidade de todo e qualquer relacionamento afetivo e dos cuidados que precisamos dispensar a ele durante toda vida. Na meia-idade as crises conjugais, a infidelidade e o divórcio são lugar comum. Diria que todos passaremos pelo menos pela crise conjugal. Talvez pela infidelidade. Ou pelo divórcio. Aliás, os três muitas vezes estão ligados, e podem ser a evolução um do outro. Não precisamos passar necessariamente por toda a evolução. Da crise conjugal mal resolvida podemos evoluir, ou não, para a infidelidade conjugal, e então como saída, o divórcio. Ou não. Outra alternativa é melhorar o relacionamento afetivo. Após o tumulto da crise, o casal pode redescobrir o relacionamento que se perdeu com os anos, com os cuidados aos filhos, aos pais, à carreira, aos afazeres domésticos, às próprias necessidades individuais. Às vezes nos surpreendemos com o que descobrimos. Muitos casamentos podem estar empoeirados, fora de forma ou até atrofiados. Mas com o devido tratamento (cuja essência é o amor, o cuidado, a dedicação e o carinho) pode se revelar um belo e rico tesouro. Que vale a pena ser resgatado!

                                                                  Lajeado, maio de 2007.

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