A infidelidade

Não importa a idade que temos. A infidelidade dói. Dói no corpo, no coração e na alma. Machuca o ego e dilacera a autoestima de qualquer um. Porque ser trocada ou dividida com outra pessoa estilhaça a imagem que fazemos de nós mesmos, de nossos parceiros e do nosso relacionamento. Pouco importa o tempo ou a seriedade da infidelidade. De repente, a verdade que conhecíamos tão bem, não existe mais. Aquilo que pensávamos existir e ser verdadeiro, na verdade não existe. Existia apenas em nosso desejo, em nossa fantasia. Frente à descoberta da infidelidade, um embate interior ganha força. Por um lado a negação: Como seria bom se tudo fosse mentira! Se aquela nossa verdade continuasse sendo a verdade! Mas como é difícil se enganar frente às evidências, frente à verdade nua e crua. Frente à realidade da infidelidade! Quando a imagem construída se destrói fica a sensação de perda, de vazio. O buraco criado pela descoberta da traição muitas vezes derruba quem somos ou o que fomos. Descobrir que nosso relacionamento não era tudo aquilo que pensávamos que fosse, que nosso parceiro não era aquele ser divino e maravilhoso, que nós não éramos tão amadas e indispensáveis como pensávamos ser, nos coloca frente a um sério questionamento. E agora? Durante toda minha vida, direta ou indiretamente, convivi com muitas situações de infidelidade. Independente de quem fosse o traído ou o traidor, da qualidade do relacionamento, da idade dos envolvidos, do tempo de duração do relacionamento ou mesmo, do tempo que durou a infidelidade. Independente de qualquer coisa, a descoberta da infidelidade é um evento catastrófico na vida da maioria das pessoas. Mesmo para aquelas que parecem não sentir ou demonstrar a dor, a traição gera um gosto amargo na boca e crava fundo no coração. As implicações e decorrências da infidelidade em nossas vidas como as brigas, a possibilidade de retaliação ou revide, a dor da perda, a depressão, o congelamento afetivo podendo levar ao divórcio, transtornam a vida pessoal e familiar. Cada pessoa encontrará a melhor forma de lidar com o que aconteceu, pois cada um reage e age à sua maneira, sua história e sua estrutura emocional ou até, sua estrutura financeira. Não existem melhores jeitos, não existem receitas prontas ou kits pós-traição. É engraçado como buscamos explicações e respostas para a infidelidade. Estas nem sempre existem. Quando existem, ou duvidamos ou não acreditamos nelas. Elas não se encaixam em nada, nem mesmo em nossas vidas. Não reservamos espaço para a traição e a infidelidade! Este espaço sempre é roubado, é tomado à força. Mesmo que estejamos vivendo num mundo onde as taxas de infidelidade são altíssimas, em nosso imaginário ela é uma intrusa, uma alienígena, uma visita indesejável. Para a qual nunca estamos prontas ou preparadas. Acreditamos estar imune a ela. Por mais que pensamos já nem amar mais tanto, saber que o outro amava menos ainda pode ser um golpe duro em nosso narcisismo egoísta. Nos faz repensar. Será que amávamos tão pouco? Ou será que esquecemos do nosso parceiro por estarmos centradas demais em nós mesmas? Infelizmente, nenhum relacionamento vem com garantia de lealdade e fidelidade. Beleza, riqueza, inteligência, relacionamentos estáveis e harmoniosos não tem garantia contra a traição e a infidelidade. Mesmo quando temos um relacionamento afetivo e harmonioso, quando amamos e somos amados, podemos trair ou ser traídos. Porque nem sempre é a falta de amor ou um mau casamento que leva à infidelidade. Então, como entender a infidelidade em nossas vidas, em nossos relacionamentos? Podemos encontrar respostas em nossos ancestrais, cujos machos necessitavam disseminar seus genes, a fim de garantir a perpetuação da espécie, ou nas fêmeas, que precisavam de um seguro-parceiro (ou seja, um companheiro extra para o caso do titular perecer em combate, caça ou doença). Podemos dizer que a monogamia não é natural, mas sim uma imposição social e moral, desrespeitada desde sempre. Podemos encontrar respostas em nossos modelos de identificação parentais, tidas como fracas ou infiéis. Ou, sabe-se lá qual o padrão de relação que construímos quanto aos nossos relacionamentos afetivos referentes a homem/mulher. Podemos encontrar respostas em nosso contexto social, onde parece que a infidelidade e o divórcio viraram moda. Ou acharmos que realmente merecemos alguém melhor do que o que temos, ou que realmente não somos dignas de fidelidade. Ou…………………….. Nenhuma resposta é capaz de amenizar a dor da traição, nem dar sentido a ela. Por mais justificativas e motivos que possam existir, a infidelidade sela a ruptura da confiança no outro e em nós mesmos. Ela sela um corte na forma de nos relacionar, inclusive com nosso entorno. Muitas vezes modificamos nossos vínculos com amigos, parentes, colegas, agora vistos sob a ótica da suspeita e da desconfiança.  Sentir-se enganado e traído pode nos jogar num profundo e escuro precipício, onde o sentimento é de confusão e desorientação totais. O consolo é de que isso passa (como tudo na vida) e que não acontece apenas conosco (muitos outros estão na mesma). E, passado o impacto inicial, algo será ou terá que ser mudado: Ou nosso casamento, ou nós mesmos, ou nossos parceiros, ou então, nosso estado civil. Em algum destes pontos a ruptura será total, e irremediável. Mesmo negando, perdoando, se culpando, ou encontrando justificativas para o parceiro, a confiança básica foi danificada. Em maior ou menor grau. É bom saber que, passado o impacto da descoberta da traição, os casais podem encontrar novos caminhos e alternativas para o relacionamento e para a própria individualidade. A impulsividade do traído, pode cobrar seu preço quando este reagir sem dar-se o tempo necessário.  A saúde pode fraquejar. A autoestima ruir. O mundo desabar. Para todas as coisas na vida, o melhor remédio é o tempo. É ele quem dará a melhor medida e a melhor saída.

                                                                        Los Canales, setembro de 2006.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s