Ensaios Pornográficos

Li minha primeira cena sexual aos 14 anos. O livro era um bestseller de Sidney Sheldon, “O outro lado da meia-noite”, que retirei na biblioteca pública de minha cidade. Vi pela primeira vez uma Playboy aos 17 anos. Encontrei a revista entre os pertences de meu namorado. Assisti a meu primeiro filme pornográfico quando tinha 25 anos. Foi o segundo filme a rodar no nosso primeiro aparelho de vídeo-cassete. O primeiro filme a rodar foi “A história sem fim”. Nem preciso dizer quem escolheu cada filme, certo? Assisti a um show erótico pela primeira vez aos 31 anos. Em nossa primeira viagem à Europa nos encontramos com amigos alemães na cidade de Hamburgo. Lá nos disseram que íamos ao show mais quente de toda Europa. Confesso que fiquei curiosa, mas jamais poderia imaginar o que eu ia ver. Sobrevivi a uma peça de teatro de sexo explícito, a menos de 10 metros da mesa onde estávamos sentados. Recentemente assisti a um strep tease feminino e masculino. Ao longo dos anos aprendi que cada pessoa tem suas próprias zonas erógenas. Que cada pessoa é estimulada de forma diferente. Órgãos diferentes captam os sinais e os estímulos genitais. Aprendi também que a maioria dos homens adora filmes pornográficos ou qualquer tipo de estímulo genital visual. Enquanto que a maioria das mulheres detesta filmes pornográficos ou estímulos genitais visuais, preferindo as demonstrações de romantismo como um poderoso estímulo sexual. Obviamente que existem exceções. Mulheres que gostam de pornografia e homens que não gostam. Mulheres que desconfiam e ridicularizam demonstrações de romantismo e homens que se sentem estimulados. Também existem situações em que determinados estímulos podem ter o efeito contrário ao que sempre tiveram, fazendo com que uma mulher sinta-se excitada com um filme pornográfico quando normalmente este tipo de filme a aborrece e a irrita. Muitos dirão que estas preferências são culturais e aprendidas. Que desde cedo, nós mulheres, aprendemos a reprimir nossos desejos e fantasias sexuais e por isso não apreciamos filmes pornográficos, nem cultivamos fantasias sexuais. Muitos dirão que homens são estimulados pelo que veem, que os estímulos visuais são poderosos para o gênero masculino, não ocorrendo o mesmo com o gênero feminino, que prefere outras formas de estimulação. Acredito nas duas possibilidades. Ambas contribuem para haver ou não estímulo sexual. Ambas atiçam ou não nossos desejos. Depende de cada um! Infelizmente este saber pouco resolve o impasse entre homens e mulheres quando a questão é que, o que acende o desejo de um, tem o poder diametralmente oposto, de apagar o desejo do outro. Tanto a pornografia como o romance pode ter este mesmo efeito! Imagina o homem que está apenas a fim de sexo, e se vê enredado numa história romântica, numa relação de intimidade para a qual não se sente preparado. Ou uma mulher, que quer viver seu conto de fadas com seu príncipe encantado e é levada a assistir a um filme pornográfico. Pane geral! Com a facilidade e a quantidade de conteúdos pornográficos em nosso dia-a-dia, principalmente via internet (mas também em outros meios de comunicação), cada vez mais mulheres convivem com o olhar genital, aprendendo e desenvolvendo este lado reprimido do universo feminino. Cada vez mais mulheres têm recebido mensagens, piadas e fotos mostrando ensaios fotográficos sensuais com homens parcialmente ou totalmente nus, de frente ou de costas, valorizando bumbuns e pênis, nas mais diversas posições e situações. Confesso que alguns, ainda hoje, me deixam encabulada e até envergonhada. Afinal, esta ainda é uma área pouco explorada em nosso universo feminino. Durante muito tempo via este tipo de material nos micros de meu marido e filho. Obviamente, eram mulheres nestas mesmas condições, que eles exibiam orgulhosamente, indiferentes ao olhar recriminatório feminino da casa. Sempre que questionados sobre estes gostos e necessidades, escutávamos que eram “coisas de homem”. Parece que precisavam de constantes estímulos visuais para manterem sua libido em alta, sua sexualidade alimentada e valorizada. Diferentemente das mulheres que estão aprendendo a gostar destes ensaios fotográficos, a pornografia neles embutida, parece ser muito mais uma desforra, uma revanche. Do tipo, “se não pode com ela junte-se a ela”. Bela e brilhante saída! No entanto, e apesar de haver ganhos com esta evolução, temos sofrido um ataque maciço de dimensão planetária, uma overdose de estímulos genitais visuais via Internet, filmes, novelas e programas de televisão, revistas, músicas, entre outros meios de comunicação, que têm dado uma nova dimensão à sexualidade humana, vista cada vez mais de forma banalizada, descartável, reduzida apenas a um mero e insignificante objeto a ser usado, abusado e jogado fora. Ainda assim, têm surpreendido a selvageria e a promiscuidade dos filmes pornográficos atuais. Coisa quase inimaginável!!! Cada vez mais se percebe que neles existe uma coisificação sexual brutal. Infelizmente as maiores protagonistas das cenas deprimentes que vemos nestes filmes, são mulheres. São elas que comandam cenas de sexo animal. Sem qualquer limite físico ou orgânico. Parecem querer provar sua supremacia sexual frente aos homens, que apenas aparecem como meros coadjuvantes, acessórios necessários para que haja um “falo” em cena. Que não raramente falha em sua representação, tamanho o desempenho sexual feminino! Me entristece pensar que chegamos a este nível de competição com os homens. Por outro lado, vemos cada vez mais homens se prestando a ser objetos sexuais, fazendo a alegria de uma infinidade de mulheres. Pelo simples prazer de olhar, de admirar o que é belo, de se permitir fantasiar, de se excitar sexualmente. Mas parece que principalmente pela diversão que proporcionam. Talvez seja este o novo olhar feminino sobre a pornografia e a estimulação visual de sua sexualidade. Como os homens têm reagido a esta invasão, a este novo aprendizado feminino? Não sei quanto aos outros, mas os meus não estão gostando nem um pouco. Acho que esta nova revolução sexual feminina pegou os homens novamente desprevenidos. E a nós também.

                                                                                    Los Canales, outubro de 2006.

 

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