Sob o sol

É difícil despedir-se de alguém quando este alguém é seu anjo da guarda de uma vida toda, mas está mais do que na hora da Ana ficar com a família dela e eu, de começar a viver a minha vida. Sem para-choques ou air-bags. Deixei-a no ônibus, me despedi e sai sem olhar para trás. Por mais segura e convencida que eu esteja de estar fazendo a coisa certa, é melhor assim. Odeio ver gente chorando. E em rodoviárias então, parece coisa de povão. Já chorei ao me despedir em aeroportos, mas virou povão também. Foram-se os tempos de glamour. E Ana chorando chega a ser bizarro. Ela consegue fazer a cara chorosa mais feia que já vi. Talvez porque o choro dela seja o mais sincero que existe. Talvez porque seja feio mesmo. Quando eu choro, como agora, acho que minha cara fica diferente. Sei fechar o choro atrás da minha máscara Gucci e ninguém percebe que estou desaguando lágrimas como uma torneira quebrada. Quem vê, pensa que estou apenas suando atleticamente. Prefiro que Ana não perceba como estou me sentindo, por isso, ao passar próxima do ônibus, baixo o vidro do meu carro e abano pra ela com um sorriso de palhaça e grito com uma voz esganiçada um “tenha uma boa viagem e muito obrigada por tudo”. Porcaria, esqueci de dizer mais uma coisa. E preciso dizer. Breco o carro e paro de qualquer jeito e corro até ela, abraçando-a. “Sempre que você e sua família quiserem, venham me ver e passar uns dias comigo. Você sabe que sempre vou adorar”. “Sei. Deixei lazanha, bifes à milanesa, e pudim de sorvete no freezer e sua geladeira está abastecida de comida saudável. Vê se não bebe muito nem come besteira, e por favor, não troque o dia pela noite. Você sabe o quanto o sol é saudável. E…….esquece. Você não vai fazer nada do que estou pedindo mesmo!  Agora vai. Preciso entrar neste ônibus, antes que eu desista e me mude para cá.” E assim, por mais que eu tenha tentado disfarçar e fingir o quanto sou forte e glamourosa, fiquei vendo o ônibus dar ré – tchh, tchh, tchh – e transformando meu Gucci em tiara, acima dos cabelos, abanei e chorei e gritei e fiquei feliz por Ana, enfim, ter ido embora. É engraçado como as pessoas olham para a gente quando destemperamos e agimos feito idiotas. Olhei a minha volta e vi gente rindo, se virando e se escondendo de mim. Devem ter pensado que sou uma vaca louca histérica de alta periculosidade. Baixei meus óculos rapidamente, endireitei meus brios enquanto via a traseira do ônibus da Ana sumir na curva, entrei rapidamente em meu carro estacionado a Deus dará, naquele meu momento bobo de povão escandaloso. Pensei sobre as recomendações de Ana e em como nos últimos trinta anos tive sempre alguém no meu cangote buzinando leis, limites, dicas saudáveis, críticas, mandos e desmandos. Por mais que doesse ver Ana partir, parecia que com ela ia todo o peso de uma vida. Senti-me aliviada, pois enfim, vou poder fazer o que bem entender.

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