Gatos

Não se fazem mais gatos como antigamente. Lembro dos gatos selvagens que viviam na minha casa, sobreviventes ao meu avô (o responsável para dar fim às ninhadas que se sucediam descontroladamente). Minos, Minas e Mingos comiam restos de comida, perambulavam pela casa antiga e fresca, de pé direito alto, e sesteavam debaixo das cercas vivas do jardim. Eram meus os escolhidos que eu conseguia separar da ninhada condenada. Meus peludinhos eram escondidos longe do olhar seletivo do meu avô, principalmente no porão atulhado de móveis antigos, baús, camas de ferro, sacos de sementes, batatas e cebolas, ferramentas e utensílios. Nesta miscelânea de histórias eles ficavam camuflados e muito bem protegidos. Depois de adultos, sumiam na noite e reapareciam na manhã. Um ou outro ficava dócil e domesticado e ganhava nome de gato: Mino, Mingo, Mina. Depois vinham as noitadas que aconteciam com certa discrição. Fazia parte da noite o miado histérico e o rosnado felino, o coaxar dos sapos, os assobios dos morcegos, o som único das corujas, o zunido dos mosquitos, o mugido das vacas à distância, algum galo perdido na hora, latidos de cães.  A música orquestrada da noite. Pela manhã, meus gatos apareciam aranhados, machucados e estropiados, sobreviventes da disputa pelos prazeres da noite. Eram medicados com banha de porco e deixados quietos a mercê das feridas e do tempo. Tornaram-se inesquecíveis. Muito, mas muito, muito depois, veio a Lucy e o Cooki, depois veio o Logan, e agora, a Nina. Meus gatos de adulta. Minha pretinha Nina cresce e amadurece diferentemente dos meus Minos e Minas. A orquestra noctívaga continua tocando morbidamente, mas é mais seguro mantê-la em casa. Noite passada, enquanto eu lia sossegadamente na luz tênue do meu  quarto, fui assustada por um miado arrepiante. Sob o batente do porta do meu quarto me deparo com dois gatos pretos. Um, eu conheço: Nina. O outro, um invasor. A janela que se abre pro jardim, o porta luz da minha gata, foi usado também por um gato nômade. Aconteceu outras vezes. Eles entram em casa sem delongas, não respeitam o espaço alheio, aterrorizam os limites e investem sem elegância. Se apropiam. Pulei da cama, iluminei a casa e nem sinal do invasor. Tateei por tudo e, nada. O desconhecido sumiu no portal, agora, permanentemente fechado à minha Nina. Depois do susto, ambas ficamos cambaleantes. Ela preferiu ficar a meus pés na cama, vigilante, assim como eu. Atenta, liguei todos os abajures da casa e, absolutas aos mínimos ruídos, adormecemos. A manhã, como todas as outras, simplesmente se instalou, como se nada tivesse acontecido. O portal, dentro e fora, foi definitivamente fechado. Em tempos modernos, é mais seguro manter os gatos dentro de casa.

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