Brincando com fogo

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Depois do horror de Santa Maria, onde tantos jovens perderam suas vidas, tantas famílias perderam seu rumo, o estado e o país acompanham boquiabertos e estarrecidos os funerais, os translados de corpos e feridos, a presença de voluntários, médicos, psicólogos, amigos, soldados … Estamos todos empenhados em minimizar a dor – impossível – e tentando retornar à normalidade da vida. Vai demorar algum tempo pra esquecer as imagens de pânico, aflição, desespero e tristeza. O horror na madrugada de sábado que sugou o domingo. Talvez nunca, seja o tempo para que esta catarse aconteça. Já me considerava uma pessoa precavida e cuidadosa antes, agora então, tenho de cuidar pra não virar uma neurótica. Principalmente com meus filhos, que ainda hoje, quando debaixo do mesmo teto, em vias de sair de casa, ouvem uma versão reduzida do antigo sermão da montanha, que acabou de ganhar um item inédito de “olhe sempre onde está a saída de emergência mais próxima, antes de se acomodar”. Orientar, a gente orienta. Se eles vão seguir as recomendações, é outra história. Mesmo assim, a gente orienta. Nem que seja pra acalmar a própria consciência.

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Adoro o fogo. Ao mesmo tempo, morro de medo dele. Por isso, o respeito e tomo todos os cuidados. Foi por acaso que nos deparamos com um palco improvisado, em Koh Phi Phi Island, na Tailândia, com dezenas de cadeiras no quadrado à sua volta, e sobre ele, vários garotos brincando com varas e bolas de tênis enroladas em gazes embebidas numa espécie de querosene ou álcool gel (não  sei ao certo) e inúmeros malabarismos com estes objetos ardendo em chamas, jogados ao alto (quanto mais alto, melhor), velocidade e sintonia entre mãos, pernas e corpos, numa tentativa evidente de impressionar e se superar. Frequentemente, as bolas ou as varas incandescentes fugiam do controle desses meninos que brincavam com o fogo, sendo desviadas dos turistas  com pés e mãos, e abafados com areia. Ficamos apreensivos e nos retiramos. Qual não foi nossa surpresa ao sairmos do local e vermos em todos os bares da praia, o mesmo tipo de show, ao mesmo tempo. Era só escolher. Da areia, numa distância segura, acompanhamos mais algumas apresentações e comentamos sobre os riscos e a falta de qualquer segurança durante a apresentação – mesmo a céu aberto – e sobre o quadro “Estamos de Olho” do Fantástico, que certamente mostraria o perigo, as autoridades sendo informadas e pronto, fim do show pirotécnico. E rimos, porque quem brinca com fogo, faz xixi na cama. Bando de enuréticos. E eis, que surge o horror de Santa Maria. Debaixo das nossas barbas. E ninguém de olho.

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