um começo sem título

“Tem certeza de que vai ficar bem? – Tenho. – Não quer que eu fique mais alguns dias? – Até poderia. Mas você precisa voltar e vou me virar. – Vou torcer pra que dê tudo certo. – Manda um abraço pro Pedro e pras crianças. – E pra sua mãe? – Também. – As meninas chegam quando? – Quando elas quiserem. Ana, me dá um abraço. Faça uma boa viagem e me liga quando chegar em casa.”

É difícil despedir-se de alguém quando este alguém é seu anjo da guarda a vida toda, mas sei que está mais do que na hora da Ana ficar com a família dela e eu, de começar a viver a minha vida. Sem para-choques ou air-bags. Deixei-a na rodoviária, na entrada do ônibus, me despedi e sai rapidamente sem olhar pra trás. Por mais segura e convencida que eu esteja de estar fazendo a coisa certa, é melhor assim. Odeio ver gente chorando. E em rodoviárias então, parece coisa de povão. Já chorei ao me despedir em aeroportos, mas virou povão também. Foram-se os tempos de glamour. E Ana chorando chega a ser bizarro. Ela consegue fazer a cara chorosa mais feia que já vi. Talvez porque o choro dela seja o mais sincero que existe. Talvez porque seja feio mesmo. Já eu, fecho o choro atrás da minha máscara Gucci e ninguém percebe que estou desaguando lágrimas como uma torneira quebrada. Quem vê, pensa que estou apenas suando em bicas. Prefiro que Ana não perceba como estou me sentindo, por isso, ao passar próxima do ônibus, baixo o vidro do meu carro e abano com um sorriso de palhaça e grito com a voz esganiçada um tenha uma boa viagem e muito obrigada por tudo. Porcaria, esqueci de dizer mais uma coisa. E preciso dizer. Breco o carro e paro de qualquer jeito e corro até ela, abraçando-a. – Sempre que você e sua família quiserem, venham me ver e passar uns dias comigo. – Sei. Deixei lazanha, bifes à milanesa, e pudim de sorvete no freezer e sua geladeira está abastecida de comida saudável. Vê se não bebe muito nem come besteira, e por favor, não troque o dia pela noite. Você sabe o quanto o sol é saudável. E…….esquece. Você não vai fazer nada do que estou pedindo mesmo! Agora vai. Preciso entrar neste ônibus, antes que eu desista e me mude para cá.”

E assim, por mais que eu tenha tentado disfarçar e fingir o quanto sou forte e glamourosa, fiquei vendo o ônibus dar ré – tchh, tchh, tchh -ergui meu Gucci acima dos cabelos, abanei, chorei, gritei e fiquei feliz por Ana, enfim, estar indo embora. É engraçado como as pessoas olham para a gente quando destemperamos e agimos feito idiotas. Olhei à minha volta e vi gente rindo, se virando e até se escondendo de mim. Devem ter pensado que sou uma vaca louca histérica de alta periculosidade. Baixei meu Gucci rapidamente, endireitei meus brios e minha coluna. E, enquanto via a traseira do ônibus sumir na curva, entrei rapidamente no meu carro estacionado a Deus dará, naquele meu momento bobo de povão escandaloso.

Pensei sobre as recomendações de Ana e em como nos últimos trinta anos tive sempre alguém no meu cangote buzinando leis, limites, dicas saudáveis, críticas, mandos e desmandos. Por mais que doesse ver Ana partir, parecia que com ela ia todo o peso de uma vida. Senti-me aliviada. Enfim, poderia fazer o que bem entendesse. Entrei no primeiro supermercado que encontrei e carreguei meu carrinho com balas, bombons, sorvetes, vinhos e muita Coca-Cola. Sei que a adega de casa está lotada com espanhóis, franceses e italianos premiados do meu falecido marido, mas o que eu quero mesmo, é vinho barato e vagabundo. Daqueles de fazer sagu. Quero tomar o maior fogo, o maior porre dos meus 30 anos e entrar de cabeça nesta nova vida, mesmo que amanhã minha cabeça exploda de dor e meu fígado se retorça agoniado. Quero que meu corpo sinta o que meu coração está sentindo. Dor. Muita dor.

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