Família e Solidão

Uma das funções da família é dar a seus membros um sentido de individualidade. A experiência humana de identidade possui dois pontos importantes: um sentido de pertencer e um sentido de poder ser/estar separado. Quando pensamos no sentido de pertencer a um grupo familiar, pensamos que é condição humana estar inserido num grupo para garantir a sobrevivência e a perpetuação da espécie. As formas de ingressar e existir dentro do grupo familiar podem ocorrer através do nascimento, casamento ou adoção. É neste grupo que encontramos nossa história passada e vivida, costumes, mitos, padrões de funcionamento, linguagem e políticas próprias, que chamamos de bagagem familiar. Toda família se forma a partir de um sistema que se decompõe em vários subsistemas: conjugal, paternal, maternal, filial, fraternal. Estes subsistemas podem englobar várias gerações, fazendo com que cada membro grupo – de uma maneira ou outra – esteja sempre ligado a alguém. Os relacionamentos formados intra e inter membros/grupos, refletem a relação primária dos seres humanos: a relação entre a criança e a mãe ou mãe substituta. A base desta relação está no modo como a mãe se liga à criança, e o modo como isto acontece tem a ver com a própria bagagem familiar materna. Esta vivência pode acontecer de diferentes maneiras: uma delas pode reproduzir a relação simbiótica, onde a mãe vê no filho uma extensão do próprio EU, onde tudo o que o bebê faz, é visto como seu. Não há diferenciação entre mãe/filho. Pode também acontecer o oposto: a mãe não consegue se ligar ao filho, nem perceber suas necessidades. A diferenciação é extrema. Nem mãe, nem criança, conseguem se vincular, instalando-se o isolamento na relação primária. Independente do tipo de vivência que a mãe tenha com a criança, a presença do pai é fundamental, pois é ele quem trará para a relação, sua própria bagagem familiar, podendo servir de ponto de equilíbrio. As diferentes formas de relacionamentos familiares servem de modelo, pano de fundo para futuros relacionamentos. Assim, podemos viver numa casa sentindo-nos  pertencentes ao grupo familiar, ou ao contrário, nos sentindo sós e isolados.

A distinção entre o estado de solidão e a capacidade de estar só é importante.

O estado de solidão se caracteriza pela presença de sofrimento, angústia, ansiedade. É quando nos sentimos à margem do nosso grupo familiar, isolados, não compreendidos, não aceitos. Esta dificuldade no relacionamento pode ser individual ou própria do grupo familiar. Já “a capacidade de estar só” é alcançada com a maturidade emocional, quando desenvolvemos “a capacidade de ouvir a si mesmo”. É quando nos é permitido e nos permitimos estar com nossos pensamentos e sentimentos, independente do grupo familiar.

No nosso dia-a-dia, quantas vezes estamos sós porque queremos, ou estamos sós, por não termos outra opção?

Ambas são formas de estar no mundo. E ambas são necessárias para o desenvolvimento humano.

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