Sobre Famílias

Desde os mais remotos tempos, o homem sobrevive em grupos para suprir as necessidades básicas de seus membros. Exemplo da criança que necessita de uma figura materna para alimentá-la, protegê-la, ensiná-la. Durante milênios, a mulher dependeu do homem, principalmente por causa da sua força física. No período pré-histórico, ela dependia da caça que só o homem conseguia prover. Depois veio a colheita com arado, e durante toda antiguidade, a mulher foi dependente, por não ter condições de sobreviver no período de gestacional, parto e pós-parto. A Revolução Industrial, que desencadeou todos os progressos e facilidades que conhecemos hoje (energia elétrica, máquinas a vapor, eletrodomésticos, etc.) criou uma indústria moderna em que a força física já não é mais tão necessária. A mulher contemporânea pode manter-se e manter seus filhos.

Mesmo assim, é condição inata da espécie humana viver em grupos/sociedades. A menor unidade da sociedade é a família, entendida como o conjunto de ascendentes, descendentes colaterais e afins de uma linhagem, podendo ser do mesmo sangue e vivendo ou não, em conjunto. No decorrer dos séculos, a família sofreu profundas mudanças estruturais. No Ocidente, esta guinada começou a partir da década de 60, com a descoberta dos anticoncepcionais e da maior liberdade sexual e emancipação feminina. Surge o divórcio no Brasil em 1977. Com a separação do casal, a família se divide, novas famílias são formadas, onde os pais e os filhos de pais separados formam novas famílias. Modificações que levaram a uma extraordinária mudança de valores morais. Mas, a estrutura familiar se manteve, mesmo que alterada. É dela a função de proteção psicossocial, acomodação e transmissão cultural a seus membros. É ela a matriz da identidade, que modela e programa o comportamento e a identidade da criança. Para sobreviver, a família muda e se adapta na medida em que a sociedade muda. Por exemplo: ambos os pais trabalham fora, idosos são acomodados em asilos, as crianças em creches. São exigências familiares da sociedade atual.

Quando se pensa em famílias deve-se ter em mente que ela é um sistema sócio-cultural aberto e em constante transformação, necessária para a superação dos diversos pontos de estresses familiares, na transição do ciclo de vida. Exemplos:

            – saindo de casa – jovens solteiros

            – o casamento – novo casal

            – o nascimento dos filhos – ser pai/mãe

            – famílias com adolescentes

            – lançando os filhos e seguindo em frente

            – famílias no estágio tardio da vida

            – entrada (nascimento, adoção, casamento) e saída (somente a morte) dos membros

            – divórcio, doenças, desemprego, idiossincrasias, etc.

Para dar conta de todas estas transformações, a família se adapta às circunstâncias, modificando-se para manter a continuidade do desenvolvimento psicossocial de cada membro. Se a família não se adapta, disfunções se instalam.

A família é um sistema que opera através de padrões transacionais. Transações repetidas estabelecem padrões de como, quando e com quem se relacionar. Estes padrões reforçam o sistema, regulam o comportamento dos membros da família. O sistema familiar se diferencia através de subsistemas. Cada indivíduo forma um ou mais subsistemas familiares que podem ser provenientes de geração,sexo, interesse ou função. Exemplo: esposo/esposa, mãe/filho. Cada indivíduo pode pertencer a diferentes subsistemas, com níveis de poder e habilidades diferenciadas. Um homem pode ser filho, sobrinho, pai, marido, irmão, etc. Em cada subsistema ele deveria se relacionar de acordo com sua função, ou seja, filho age como filho, pai age como pai.

Relacionamentos exigem fronteiras. Elas são as regras que definem quem e como participa. Exemplo: a fronteira de um subsistema parental é definida quando a mãe diz ao filho mais velho “Você não é pai do seu irmão. Se ele estiver andando de bicicleta na avenida, diga-me, que eu o farei parar.” A função das fronteiras é proteger a diferenciação dos sistemas, pois cada subsistema familiar tem funções específicas.

Existem três tipos de fronteiras:

  1. Fronteira nítida que é a ideal;
  2. Fronteira difusa ou emaranhada;
  3. Fronteira rígida ou desligada.

Para o funcionamento adequado da família as fronteiras dos subsistemas devem ser nítidas. Exemplo: um sistema parental envolvendo avó e neto pode funcionar muito bem, desde que as linhas de responsabilidade e autoridade sejam nitidamente delineadas. No caso de famílias com fronteiras difusas pode-se dar o exemplo da família em que todo mundo manda, ninguém obedece, todo mundo é convidado a se intrometer em tudo… Nas famílias com fronteiras rígidas, a comunicação e o relacionamento são difíceis. Exemplo: a criação dos filhos a moda antiga. Quando a família funciona nos extremos fronteiriços (fronteiras difusa ou rígida) a família pode desenvolver patologias e o terapeuta – quando solicitado – terá de reorganizar as fronteiras.

O Subsistema Conjugal – refere-se ao casal que se une com o propósito de formar uma família. Ambos colaboram com aspectos positivos e negativos. O casamento deveria ser uma troca em que homem e mulher entram e selecionam sua própria história e bagagem familiar (cultura, crenças, mitos, valores) e definem o que fará parte de sua vida conjugal. Diz-se que “para casar é preciso primeiro se separar”, dos pais e do modelo familiar anterior ao casamento, para poderem criar seu próprio modelo familiar. O casamento não é apenas a soma de duas pessoas. É o casamento de duas famílias. O casal deve aprender e formar fronteiras que o proteja dos outros subsistemas, criando um território psicossocial próprio, no qual possam dar apoio emocional um ao outro. O tipo de fronteira adotado é muito importante, pois, fronteiras rígidas podem distanciar este casal dos outros, ficando isolados; se criarem fronteiras difusas ou frouxas, outros subgrupos, como filhos e parentes afins, podem se intrometer na vida conjugal.

O Subsistema Parental – Com o nascimento do primeiro filho um novo nível de formação familiar é atingido. O subsistema conjugal deve se diferenciar para abrigar e atender ao filho, sem perder suas características de casal. Alguns casais se entendem bem a dois, mas não conseguem êxito quando o grupo se amplia para 3, 4, ou mais membros. Em algumas famílias, o filho acaba invadindo o subsistema conjugal. À medida que a criança cresce e suas exigências emocionais aumentam, novos arranjos e mudanças pressionam o subsistema parental. A paternidade é um processo difícil. Ninguém o desempenha a seu inteiro contento e ninguém o atravessa sem problemas, erros e acertos. Ser pai é aprender durante a vida, para e com os filhos. A paternidade sempre requer o uso de autoridade. É essencial que se entenda que para os pais educarem seus filhos, é necessário que eles possam proteger e guiar. Os filhos não podem crescer e se tornarem individualizados, se não puderem rejeitar e atacar. O funcionamento eficiente requer que pais e filhos aceitem o fato de que o uso diferenciado de autoridade é um ingrediente necessário para o subsistema parental. Este se torna o laboratório do treinamento social para as crianças aprenderem como negociar em situações de poder desigual.

O Subsistema Fraternal – No mundo dos irmãos, as crianças aprendem a negociar, competir e cooperar. A importância deste subsistema é observado claramente quando ele não existe. Exemplo: filhos únicos que se acomodam ao mundo dos adultos demonstrando desenvolvimento precoce, podendo apresentar dificuldades no desenvolvimento de sua autonomia (tornando-se inseguros) e na capacidade de compartilhar, competir e cooperar com os outros. As crianças, à medida que crescem, vão tendo necessidades diferentes, o que deveria ser respeitado e apoiado. Estimular a autonomia dos filhos não é minimizar os direitos dos pais.

Família e adaptação – A família é sujeita à pressão interna e externa. O estresse no sistema familiar pode provir, basicamente, de quatro fontes:

1. Contato estressante de um membro com forças extrafamiliares. Exemplo: um marido que está sob stress no trabalho, chega em casa e briga com a esposa, que pode revidar a briga ou acomodá-la; também pode brigar com os filhos, ou pode ir para a bodega beber até se tornar alcoólatra, ou pode arranjar uma amante mais compreensiva que sua mulher.

2. Contato estressante de toda família com forças extrafamiliares. Exemplo: depressão econômica. Mudança de residência, de poder aquisitivo. Os estrangeiros que devem se adaptar a um novo país;

3. Estresses em pontos de transição na família: existem muitas fases na evolução natural da família que exigem a negociação de novas normas familiares. Novos subsistemas devem aparecer e novas linhas de diferenciação adotadas. Neste processo, surgem conflitos que podem ser resolvidos por negociações e a família se adapta com sucesso. Exemplo: mudanças evolutivas dos próprios membros da família (adolescência) e por mudanças na formação familiar (via entradas e saídas).

4. Estresses em torno de problemas idiossincráticos: situações anormais que levam a família a reagir. Exemplo: um filho deficiente, gravidez na adolescência, doenças incuráveis. A forma de reação familiar pode definir entre a saúde ou a doença familiar.

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