Cenas da Infância

O primeiro trabalho do curso de Arteterapia: poderia ter ficado melhor (sempre pode). Quando a gente está focada e concentrada em muitas outras prioridades, o melhor é inimigo do bom – que já está ótimo. Em meio a uma laringite, tosse, febre, construção, viagem e amigos, o trabalho foi se apresentando acanhado, com cara de obrigatório. Por isso, deixei ele na categoria de projetos inacabados. Quando a inspiração verdadeira chegar, as cenas de Infância vão ganhar mais cor e detalhes. Agora é só seguir o caminho.

DSC08445Era uma vez

uma mãe que queria dar um presente muito especial

para a filha que viria ao mundo em poucos meses.

Ela queria algo que ninguém tivesse na região:

um nome único e exclusivo.

Quando ouviu o nome Suzete

  • nome dado à filha de uma grande amiga da época do colégio –

ela soube que tinha encontrado o presente.

Mesmo com a filha nascendo num 13 de maio,

dia da aparição de Nossa Senhora de Fátima,

a mãe preferiu o nome de origem hebraica,

Suzete,

invés do nome cristão, Maria de Fátima.

Suzete significa lírio, puro, gracioso e imaculado.

A mãe jamais soube disso.

A filha, Suzete, acabou de descobrir. DSC08448Mas Suzete combinava com chiclete,

Croquete, gilete, espaguete, canivete.

Ela detestava isso.

Vieram os apelidos carinhosos:

Susi, para a família e os amigos;

Tuti, para o primo;

Schtipatche (pedacinho de gente) para o vovô Eugênio;

Stzukahetszie (coraçãozinho de açúcar) para a tata Naia.

O apelido que ficou foi Susi.

Depois vieram Su. Amor. Mami. Mamute. GAMV. Suzinha.

DSC08449Cresci numa pequena cidade do interior onde tudo era calmo e tranquilo. A casa onde cresci era antiga, com pé direito alto, cisterna e porão enormes, construída pelo meu tataravô. Víviamos em relativa harmonia: meus pais, irmão, avós, bisavós, uma tia-avó, vários gatos e horrorosos sapos. Criei-me solta, brincando nos potreiros, chiqueiros e estábulos, nos porões e sótãos das outras casas velhas, nos matinhos, nas árvores, na rua. Brincávamos nos dias ensolarados e nas noites parcamente iluminadas. Os maiores perigos eram as cobras, e o rio que banha minha cidade natal, a maior tentação nos dias de calor insuportável do verão. Descia as corredeiras dentro de câmaras de pneu de caminhão, balançava nos cipós das árvores ribeirinhas até cair nas águas profundas do rio. Somente anos mais tarde meus pais souberam destas escapadas perigosas. Na época, não pareciam nada perigosas.

DSC08421Tive vários gatos:

Mini, Mina, Mino, Mila, Mia …

e mais uma penca de gatinhos xucros que não consegui domesticar, muito menos batizar.

Eles iam nascendo e crescendo pelas frestas e buracos da casa.

Meu cachorrinho foi o Boby.

Ele adorava meu pai.

Que também o adorava.

O Boby era do meu pai.DSC08424Meu avô plantou um pomar.

Lembro das laranjeiras e bergamoteiras de várias espécies

Tinha uma goiabeira imensa e várias ameixeiras brancas e vermelhas, todas azedas.

Mas a planta de que eu mais gostava era da estremosa.

Na lateral da casa, haviam várias estremosas cor de rosa.

Elas foram cúmplices e testemunhas

de vários acontecimentos marcantes na minha vida:

do roubo dos amendoins de Páscoa

até o primeiro beijo na boca.DSC08425Éramos uma família católica.

Meus avós e minha mãe

faziam parte da diretoria da Igreja e cantavam no canto coral.

(Ainda hoje minha mãe rege o coral e toca órgão na missa).

Meu pai até se esforçava,

mas ele preferia chegar com a missa em pleno andamento,

de preferência no

“Vamos em paz e o senhor vos acompanhe. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Amém.”

Assim, cresci religiosamente dividida.

DSC08427Adorava Lentilha!

Modo de fazer: cozinhe a lentilha com cebola e batata inglesa partida em cubos, óleo, alho e sal. Se quiser coloque também linguiça, cenoura e beterraba. Não cozinhe demais. O ponto é “al dente”.

com Bolinho de Batata.

Modo de fazer: Rale a batata no ralo grosso, acrescente ovo, farinha de trigo pra dar liga, tempero verde, cebola picadinha e sal. Frite em óleo quente às colheradas até ficarem douradas. Deixe escorrer em papel absorvente.

DSC08428Momento embaraçoso,

foi quando,

brincando de cabra cega,

peguei na mão da minha amiga,

e levei o maior susto: pulei, rodopiei e gritei.

As mãos cheias de verrugas

a delataram.

Fiquei toda sem graça.

DSC08429Quando minha avó Anita morreu, chorei demais.

Ainda lembro como tudo aconteceu:

Depois de 10 dias internada, em coma, por causa de um AVC

– na época, a gente dizia derrame cerebral –

A freira do colégio onde eu estudava deu o recado: não lembro as palavras que ela usou

tipo, “Sua avó descansa agora no Reino dos Céus, está sentada à direita de Deus Pai todo Poderoso”, ou simplesmente, “sua avó acabou de falecer. Prepare suas coisas e vá pra casa”.

Só sei que saí de lá, peguei minhas coisas e fui.

Esperava pela morte, mas nunca estive preparada para ela.

Trancada no quarto, chorei, chorei, chorei, chorei, chorei, chorei .. Até não poder mais.

O corpo da minha avó

  • que era uma segunda mãe – chegou.

Ela foi velada e chorada na área de azulejos portugueses, na sala de jantar.

Era costume na época, as famílias velarem seus mortos em casa.

Nunca mais chorei a morte da minha avó.

Toda vez que sofro uma grande perda

Eu choro, choro, choro, choro, choro.

Me acabo de tanto chorar.

O choro acaba junto com a perda que se vai.

DSC08430Sempre fui bonequeira.

Adorava bonecas, roupinhas de bonecas, casinha de bonecas.

Também adorava a rua,

Brincar de pegar, de esconder, de carrinho de lomba, de caçador.

Adorava os matos, onde eu era a Jane.

Não lembro de nenhum Tarzan se esgoelando pelos cipós.

O cheiro verde de mato amassado

era o perfume da casinha na árvore,

onde, me parece, eu reinava absoluta.

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 Esconderijos nunca faltaram na minha infância.

Na casa onde cresci

tinha um porão enorme cheio de móveis e baús antigos,

tinha também outros porões menores cheios de sucatas,

uma loja cheia de armários e balcões.

Muitas camas de ferro e cortinas por toda parte.

Sem contar no jardim, no pomar

e na plantação de milho que só acabava quando começava o rio.

Conforme a situação, o melhor esconderijo era escolhido.

Gostava mesmo era do porão enorme

– cheio de sapos e morcegos –

com cheiro de mofo e velharia,

era lá que eu me sentia totalmente protegida.

DSC08433Amigos

Sempre tive muitos:

Minha melhor amiga foi a Angela.

A Vera e a Chica faziam parte do quarteto.

Estávamos sempre juntas, as quatro, em duplas.

Depois veio a Márcia, que foi bem-vinda.

Já a Cristina, passou por umas provas meio endiabradas:

a gente não queria ela no grupo.

Acabou aceita com severas restrições:

Ela precisava nos obedecer.

O Carlinhos era o xerife

  • queria mandar em tudo e todos –

Coitado, foi meu primeiro amigo de infância a morrer. Já adulto.

Infarto. Algo pior, segundo as más línguas.

Fui no velório dele e não o reconheci.

A infância lhe caía melhor. Chorei por sua adultez sofrida.

Depois vieram os amigos da adolescência, os amigos da faculdade, do trabalho, do marido, dos cursos.

Mas, amigos como aqueles da infância,

nunca mais.

DSC08434Tom e Jerry,

Papa léguas,

A Corrida Maluca,

Penélope Charmosa,

Os Jetsons,

Perdidos no Espaço,

Rim tin tin

e Tarzan

alegraram minhas tardes

em frente à telinha colorida

da TV Telefunken,

quadrada, enorme, preta.

Coitado do botão que selecionava os canais.

Tec-tec-tec-tectectectectectectec.

Não lembro de roupas preferidas.

Usava o que minha mãe dava.

Normalmente, shorts e calças compridas

pra acompanhar as brincadeiras do dia a dia.

Lembro apenas de um casaco preto de astrakan com forro verde que usava no inverno.

A vaidade foi chegando de mansinho.

Vieram também as saias: míni, mídi, máxi.

Era uma briga acertar a altura da barra

E quem levava sermão era a costureira Selma:

Para minha mãe, estava sempre curto demais

Pra mim, sempre comprido demais.

Aprendi a transformar mídis em mínis.

Bastava enrolar na cintura

Longe do olhar da minha mãe.

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Cresci com apenas duas regras:

1.Estar em casa na hora do almoço, e,

2. Estar em casa quando o sol se punha. Para todo o resto eu estava liberada.

Transgreções e consequências:

Lembro do meu irmão chantageando:

“Vou contar aquela coisa”.

Que coisa? Não lembro.

Levei cintada do meu pai por causa daquela coisa.

Continuo sem lembrar da coisa.

Implicância do meu irmão?

Repressão e negação?

Pode ser qualquer coisa.

A amnésia continua.

A maior doença foi o crupe:

Do longo período de internação e isolamento, lembro das freiras brincando de roda ao redor da enorme figueira em frente à janela do quarto do hospital. Alucinação ou delírio de febre?

Somente a lembrança linda de um tempo difícil.

A doença, perigosa e fatal, levara minha tia Nelsi, décadas antes,

antes da minha própria mãe nascer.

Sobrevivi ao crupe para ter ainda muitos tersóis,

Joelhos e cotovelos permanentemente ralados,

“Inzibida colorida come casca de ferida”.

Na farmácia de casa não podia faltar:

Para os machucados: Água oxigenada, mercúrio cromo, neomicina, gaze e esparadrapo (daquele que arrancava a pele na hora de tirar);

Para a garganta: lenço com álcool no pescoço;

Para as gripes: Fontol Infantil com chá de limão, mel e cachaça;

Para fortificar: gemada, Biotônico Fontoura e Bálsamo Alemão.

Pra acabar com vermes e lombrigas: pão com manteiga e alho cru.

E, de vez em quando

uma benzedura, quando nada mais funcionava.

O homem do saco atormentou minha infância.

Mas, o único homem com saco grande,

  • possivelmente uma hérnia –

Era o pai da minha melhor amiga. E dele eu não tinha medo.

Mas, como todas minhas amigas morriam de medo do homem do saco,

resolvi ter medo também.

Depois, falaram nos palhaços assassinos,

Resolvi ter medo também.

Depois, comentaram da mula sem cabeça

Resolvi ter medo também.

Aí cresci, e como nunca vi nenhum homem do saco, palhaço assassino, nem mula sem cabeça,

Resolvi não ter mais medo de nada.

Até que surgiu o fantasma do velho Otto.

E depois, o professor Henrique, a Madre Superiora, a primeira vez.

Os medos apenas mudaram de nome.

Fui passar um “kerb” na Linha São Caetano,

Precisava cruzar o rio numa balsa,

Os carros ficavam amarrados com cordas,

e eu, ficava olhando a correnteza que trazia troncos e fazia redemoinhos na água …

Fiquei tonta e passei mal.

A dúvida que ficou,

foi se eu havia comido

seis, nove ou uma dúzia de ovos cozidos

em conserva na beterraba.

Zonza, ainda corri pro outro lado da balsa.

Queria ver a mistura de ovos e rio.

E vi que os peixes tiveram seu próprio “kerb”.

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 Minha história preferida sempre foi a Gata Boralheira, transformada em Cinderela.

Abóboras, fada madrinha, príncipe e sapatinho de cristal.

O enredo perfeito para o

“E viveram felizes para sempre”.

Não é o que todos queremos?

A felicidade eterna?

Moacir era gay.

O primeiro gay que conheci.

Na época, me disseram que era veado.

Não entendi.

Veado não é um bicho?

Disseram-me que ele era bicha.

Continuei não entendendo.

Afinal, bicha não é um tipo de bicho?

O que eu entendia era que Moacir

era meu primo e eu o adorava.

Ele escovava e arrumava meus cabelos com carinho, fazia penteados e cachinhos cheios de presilhas e flores coloridas.

Era também, o estilista das minhas bonecas.

Elas viviam na moda da cidade grande.

Ele tinha um tique meio nervoso,

Piscava o olho e dava uma risadinha histérica a “La Mozart”.

Os outros o olhavam de lado, de soslaio. Brabos. Sérios.

Ele e eu fazíamos a maior festa,

com direito a xixi nas calças e lágrimas nos olhos.

Ele era a alegria no seu estado mais puro.

Ele era um ser intenso e iluminado. DSC08439

O que você vai ser quando crescer?

Primeiro eu quis ser professora,

Depois, aeromoça, manequim,

Escritora, jornalista.

Por fim, virei psicóloga.

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Pra mim

Ser adulto era ser independente

e livre pra conhecer o mundo: Paris era o sonho de consumo.

Queria ter filhos, uns três, e meu próprio príncipe encantado.

Uma família de comercial de margarina. Perfeita.

Queria uma casa – que não fosse improvisada – maravilhosa e confortável.

Queria ser rica, bonita e feliz.

Queria trabalhar e ser reconhecida.

O que eu queria mesmo

era viver meu próprio conto de fadas.

E tenho me esforçado para isso.

Não é o que todos queremos?DSC08441

O gosto pelas escolas foi imediato e automático.

Da escolinha rural ao colégio de freiras na cidade, o universo infinito se revelou.

Pouco a pouco. E sempre.

Primeiro foi o encanto pelos carimbos e lápis de cor. Depois vieram as letras que se transformaram em palavras e frases, devidamente ensaiadas no caderno de caligrafia. Até hoje, tenho horror aos ditados. Continuo trocando x por ch, s por z, e por aí vai. Os números vieram depois, pra complicar o valor de quase tudo. Eles são misteriosos e enigmáticos. Aprendi a conviver com tabuadas e fórmulas, mas nunca abri mão nem da “cola”, nem dos dedos pra conferir as contas. As provas mimeografadas, com cheiro de álcool, inicialmente assustadoras, mostravam-se enigmas dignos de Mata Harry ou Sherlock Holmes. Quando chegava no X da questão. Conheci o globo terrestre: a terra girando entre as mãos nas aulas de geografia. Atlas e mapas. O planeta e o mundo em recortes. Sonhava conhecer o mundo.

A história da humanidade. A história do Brasil.

Surge a paixão pelo Império Romano e a Grécia.

Literatura brasileira: leitura obrigatória.

Depois vieram a Física e a Química – nem me perguntem porque – e outras matérias e atividades, idem.

Qual minha escola preferida?

Todas.

Nelson Branchiere, foi sem dúvida, O Professor.

Ele interpretava a história do mundo

no palco em frente ao quadro verde.

Ele se transformava em Napoleão Bonaparte,

Hitler, Dom Pedro I, Princesa Isabel, Cleópatra,

em qualquer deus ou deusa grega.

Ele era um artista na arte de ser professor.

DSC08450De todos os presentes

  • das singelas joias, do violão, de todas as bonecas e brinquedos, do primeiro relógio de pulso …-

o presente mais inesperado e adorado,

foi a caixinha de música em laca preta,

com motivos chineses,

forro interno de veludo vermelho,

e uma bailarina a bailar,

no ritmo da corda:

Tema de Lara. DSC08443

Entra ano, sai ano, as festas se repetiam:

Aniversários pediam bolo de chocolate e negrinho.

Invariavelmente, eu ganhava bibelôs

(que eu odiava)

O que foi feito deles?

Um, eu sei que sobrou.

Páscoa era uma delícia por causa

do ovo colorido no papel crepon,

recheado de amendoim doce;

Dia dos Pais, era dia dos pais.

Tinha refrigerante, beijos e abraços.

Dia das Mães tinha presente, refrigerante, beijos e abraços;

Dia das Crianças tinha presente surpresa com bolo de laranja, refrigerante e negrinho.

Natal era tudo:

da decoração do pinheiro, com um sem fim de bolas coloridas,

– pequenas, médias e grandes –

pisca-piscas coloridos, algodão com cara de neve, laços, anjo ou estrela no topo da árvore;

– velas nos candelabros,

– a feitura do presépio, um cenário preparado com rochas de papel, grama de potreiro, o espelho com cara de lago, para receber o menino Jesus na manjedoura, Maria e José, os Reis Magos, a mula, o camelo, o burro, os patinhos, as ovelhas;

– os doces com glacê branco,

– as músicas natalinas, a missa, os presentes.

O Natal era completo. Era a festa mais esperada do ano.

Depois vinha o Ano Novo;

foguetes e lentilha na rodoviária,

onde todos se encontravam

e desejavam um Feliz e abençoado Ano Novo.

Cheio de festas e algumas poucas variações.DSC08442

Meu pai trabalhava tanto-tanto-tanto

Que – dizia ele – não tinha tempo pra sonhar.

Já eu, menina,

sonhei tanto-tanto-tanto,

mas não lembro de nenhum sonho

pra contar história.

Até hoje, adulta,

custa lembrar dos sonhos da noite.

Assim como meu pai, que tanto trabalhava

Talvez eu

– uma hiperativa funcional –

torne impraticável ao inconsciente

Tornar conscientes todos os sonhos

De uma mente pulsante e vibrante. DSC08444

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