Operação Lava Jato

Como todo mundo, tenho acompanhado os desdobramentos da Operação Lava Jato. Talvez a maior diferença seja o fato de conhecer alguns dos executivos presos e suas famílias, bem como, algumas empreiteiras do esquema. Quem ouve ou lê as notícias fica indignado com a postura dos executivos e empreiteiras. Quando foi comentado que era assim que se fazia obra no Brasil, todos ficaram revoltados e caíram de pau no advogado que disse a mais horrenda verdade. É assim que se faz obra pública no Brasil??? Obras de Infra-Estrutura, pontes, estradas, hidrelétricas, portos, aeroportos, etcetcetcetc? O que sei é que a verdade é sim, horrenda. Não conheço nenhum meandro, esquema, nome ou sobrenome, cifras e porcentagens. Apenas convivi e ouvi comentários feitos por engenheiros e executivos das ditas empreiteiras do Grupo da Propina. O que sempre esteve presente nas conversas com esposas e famílias era o número de funcionários, a necessidade de contratos para evitar demissões, os desafios de engenharia, as metas a serem alcançadas. E tem assunto – sei disso – que não se fala ao vento, nem em reunião social, nem com a esposa e filhos, nem com a  namorada.

Quando penso nos amigos/conhecidos presos, penso nos filhos que vi crescer. Penso nas esposas que, assim como eu, acompanharam o marido e se embrenharam em matos e selvas de pedra, abandonaram famílias e projetos próprios. Assim como eu, elas investiram nas próprias famílias e casamentos. Investiram na carreira do marido, enquanto criavam os filhos e faziam o pé de meia. Cada uma teve sua parcela de contribuição e sacrifício, e viu o marido ascender profissionalmente, por mérito ou competência, sorte ou relacionamentos políticos próprios, e, cada um, chegou onde chegou: presidentes ou vices, diretores, superintendentes, muitos chegaram ao topo. Outros sucumbiram, desistiram ou seguiram caminhos alternativos: a pressão por resultados, o ritmo alucinante de turnos alternados, 24 horas por dia, 7 dias por semana, as greves, as invasões pelos Atingidos por Barragens, os MSTs da vida … A vida em obra não é fácil, nem para o profissional, nem para sua família. A obra absorve e suga a todos. Rapidamente, nós mulheres, percebemos que acompanhar o marido, não significa que ele estará por perto quando mais precisarmos. Provavelmente ele estará percorrendo o canteiro de obras nas tardes de sábado e manhãs de domingo, e quando a escola requerer a presenças dos pais, ele certamente estará envolvido em alguma reunião de final de turno ou de resultados, ou preso ao telefone, atendendo fornecedores ou superiores. Rapidamente nos tornamos independentes e autossuficientes. Caso contrário, o casamento ou a carreira acabam. Muitas vezes ouvi que a maior riqueza das empreiteiras é seu material humano: profissionais de gabarito e de carreira, nos mais diversos níveis e competências, que suam sangue por seus projetos e funcionários.  Por suas empresas.

Hoje, estas famílias – esposas, filhos e, porque não dizer, os próprios profissionais  – ficam embasbacados com as notícias estarrecedoras que escutam e lêem envolvendo amigos/conhecidos e a firma que aprenderam a amar. Eles sangraram para o bem comum de toda uma sociedade, ergueram obras que facilitarão a vida e alavancarão o crescimento do país, trabalharam por um salário suado e digno no final do mês. Muitos estão ressentidos, trocaram o orgulho pela vergonha. Sabiam que existiam conchavos e acertos, que a política cobrava um preço pelo progresso e pelo emprego. Sempre houve. Certamente, não imaginavam os números que faziam o sistema funcionar.

Para os profissionais que chegaram ao topo, e tiveram o azar de estar envolvidos com obras públicas, acredito que tenha chegado a hora de dar um basta neste sistema perverso e corrupto e dar nomes aos políticos envolvidos. Estavam errados? Estavam. Acredito que a sociedade deve sim, punir o sistema. Não apenas os executivos e empreiteiras que faziam a roda girar. Mas também quem aprimorou e aperfeiçoou a roda em benefício próprio. Está mais do que na hora de fazer a coisa certa.

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