Janeiro em poesia

1. É noite de reveillon. 2014 se despede. 2015 se apresenta cheio de fogos de artifício, espumantes, lentilha, as indefectíveis sete ondinhas, rosas brancas pra Iemanjá, abraços, beijos, pedidos, desejos, brindes. Muitos brindes: ao que foi e passou. Ao que está por vir e virá. Aos sonhos possíveis e impossíveis. Cabe tudo na primeira noite do ano. Inclusive os tapa-ouvidos, tapa-olhos, se precisar até, tapa-sexo. Mais a música desenfreada, os sons exagerados, as luzes ofuscantes. Céus, só quero começar o ano com uma boa noite de sono. A manhã acordou e sorriu ensolarada.Um bêbado na beira da casa se acomodou. Outros tantos amanheceram esparramados pela praia. Uma noite desmesurada. O dia é de descanso. E assim, o ano começa.

2. No céu, o rajado das nuvens. Ao lado, a piscina que tenta – e não consegue – ser som de córrego sereno serpenteante, driblador de descidas, pedras, matos e montanhas. Lá longe, o mar. Verdadeiro e plácido, contenta-se em refletir o prateado nublado do dia. Três Pérolas Negras carregados de gente, escravas do sol e do mar, deslizam ao vento e mareiam nas férias.

3. Manhã preguiçosa. Visitas, jantares, carteados, bebidas, praia, areia, louças, comidas. Praia e férias tem disso … excessos … preciso aprender … ou não … não sei se quero … nem se devo … seria minha morte … perdição … ruína … férias eternas? Quero, não. O dia pede cama, café, livro. O corpo pede sossego. A alma, repouso. Talvez, um shopping à tarde. Sobreviverei na temporada.

4. É noite de lua cheia. E o ano, sabemos todos, ainda nem começou: só deu a largada. Amanhã, 2ª feira – pós-feriadão de réveillon – é dia de aquecimento. Depois do Carnaval, aí sim, a largada é oficial. O ano começa, a lua fica mais redonda, cheia de mais verdades e realidades. Talvez o ano até comece se alongando, mas que começa, começa. Por ora, a lentilha foi requentada, o pernil fatiado. Os espumantes, vinhos e frisantes exterminados. Amanhã, enfim, é a primeira 2ª feira de 2015. Aquecida para o ano? Nadica de nada. Vou me alongar mais um tempo.

 5. Ao vento, os podocarpos vergam e as bromélias ressecam ao sol. O limoeiro siciliano e a laranjeira japonesa observam serenas e submissas. De pouco em pouco e o tempo todo, carregam folhas, flores e frutos. Seria confusão territorial? Temperamento e temperatura conflitante com a piscina borbulhante? De tudo e todos, quem reina absoluta, se esgueira e domina de ponta à ponta, de alto a baixo, é o tapete verde de grama esmeralda. Possivelmente a mais à vontade por estas bandas. Sabe ela, que seu tempo é relativo e temporário. Ainda virão as fênix, cicas, patas de elefante, coqueiros, palmitos, ipês, flamboyants, alamandas, jasmins … bubines. Sabemos nós, da relatividade do nosso tempo?

 6. Hoje foi dia de ensacar o Papai Noel. E toda a parafernália natalina. A casa respira mais leve. O vermelho – que adoro – pesa e infesta o ar. Hora da cor amarelo-verão. Cheiro de grama cortada, piscina clorada, casa alvejada, pele dourada. Farejo, enfim, as férias de verão.

7. Banho salgado de mar. Banho doce de piscina. Banhando o dia até a noite chegar. Falta banho de chuva, chuveiro, mangueira … Bom, banhar a vida, lavar a alma, lanar o corpo, sarar o coração. Troveja lá fora, raios iluminam a noite … Só falta chover, gemer, morrer no sono.

 8. Poesia curta, dia longo. As horas engolem a vida, que acelera, ultrapassa, estaciona. Stop. Para. O tempo não brinca, nem espera. Ele passa. Eu passo. Sou passageira do tempo.

9. Sono roncado, sereno, sublime. Sonhas com o que, amor da minha vida? Com a abélia, o jasmim, o hibisco. Seria com o lírio da paz? Paz … seus caminhos descansam nos sonhos deste sono? Ali no céu, as estrelas brotam, a lua rege as constelações. Aqui, ando constelando a realidade do dia a dia, dos filhos soltos pelo mundo, da faxineira que não veio, da violência, terrorismo, falcatruas e corrupção, da roupa que não serve mais, do trabalho parado, das contas a pagar, providências a tomar … Maldita e erudita insônia. Antes do dia abrir seus olhos e fechar os meus, com licença, poderia invadir seus mistérios? Ando afogada nos meus.

 10. E as horas voaram. Para onde será que foram?

 11. Acordei cedo. Cansada ainda. O corpo pedia mais cama. O espírito pedia rebeldia. Na dúvida, a cabeça levantou e sequestrou o dia. Coisas de domingo … Se os três entrassem num acordo, eu acordaria mais tarde.

 12. Adoro gente, mas não vivo sem abraçar a solidão. Da música da vida, o silêncio me preenche. Segundas-feiras são de ressaca, de imersão, nada de confusão. Só o pio dos pássaros, o rugir das ondas, a brisa suave do vento. Só quero uma rede pra balançar, um livro pra folhear, o céu azul pra perder de vista, o calor preguiçoso pra ver o dia passar.

 13. A coruja me encarou de frente, estando de costas. De frente, retribui o olhar, pregado de botão cinza.

 14. Perdi meu Gucci pra Iemanjá. Que a oferenda traga mais que ondas nervosas, raios e trovões pipocantes. O calor agradece Iemanjá. Agradeço cada dia, pelo quintal maravilhoso e refrescante dos fundos de casa: gentilezas do mar de Jurerê.

15. Um vagalume perdido na noite, tal qual estrela cadente. Quero-queros, sim, quero-queros – queus,queus,queus – insistentes e agudos. Gritam? Cantam? Cacarejam? Piam? O mar ruge ao som de Solaris Classical: Rhapsody on a Theme of Paganini. A noite, definitivamente, quer ser degustada.

16. Acho que na imensidão galáctica, nuvens gordas e estressadas andam desfilando, e na pressa de chegar – sabe-se lá aonde – chocam-se sem cerimônia, e sem pedir desculpas. Elas, tão nem aí. De encontrão em encontrão, vão clareando a noite, perfumada de mar.

17. Olhando fotos antigas percebi que o cansaço me engorda. Linda no início da viagem, um brucutu no final. Final da casa de Jurerê – uma das minhas maiores viagens – preciso descansar, descansar, desssscaaansarrrr. Estou exausssssssta, gooooooorda. Um brucutu.

 18. Abrindo caixas do atelier me encontrei em pinceis, tintas, papeis, tesouras, colas, pastilhas de vidro, telas, lãs, agulhas, ferramentas, máquinas … Andava tão distribuída. Tão bom se remendar por inteiro.

19. Espiei pelo teto solar e vi um gigantesco jacaré negro de patas rastejantes se esgueirando, se arrastando sobre mim. Ele foi se esparramando, se desfazendo em milhões de pingos e respingos. Virou arco-íris este jacarezinho de chuva.

20. Não sei que dia é hoje. Sei que é 3ª e estamos em janeiro de 2015. Que falta faz uma agenda!!!! Pensando bem, a vida está perfeita sem ela. Tirar férias da realidade, só sem agenda.

21. Meu corpo dói tanto, mas tanto, que não sabia que tanto podia doer. O cansaço faz doer tanto quanto a dor, a preocupação, a ansiedade. A massagem que fiz, acarinhou. Meu corpo agradece. Minha alma ressentida e magoada, também. Meu espírito dividido espia por detrás da tristeza e da decepção. A fadiga me esgota e prostra. Céus, preciso urgente de terapia … massoterapia, mandalas, velas, incenso, sexo, cama … uma taça de vinho. Para a mente, que também dói.

22. Driblei meu marido nos dois tempos do jogo e na prorrogação da jornada a dois. Agora não tem mais jeito. É hora de confrontar e apreciar a nudez das nossas almas. Mostrar-se por inteiro. Travesso do avesso. O inverso. A vida quer que joguemos limpo, sem disfarces ou máscaras. Nada de estratégias e jogadas ensaiadas. Neste ponto do jogo, as barreiras definham, as regras caducam. O cinismo quer ser dispensado. A verdade quer ser convocada. E somos apenas um casal na meia-idade, uma mulher na menopausa, um homem aposentado. Crise sabática? Uma pelada básica de final de campeonato, sem fichas de substituição, sem cartões. Um trivial básico com cacife de Copa do Mundo. Alguma aposta?

23. A poeira de casa não me impressiona mais. Sequer incomoda. Não saber o que fazer, se deixar ou tirar, se partir ou ficar, se avançar ou recuar, isso sim, desatina minhas idéias, fraqueja minha coluna, põe em risco minha gravidade. Sob meus pés a poeira é uma dádiva. Ela marca minha passagem e lembra que existe chão.

24. Acordo com o dourado da manhã. O apito do trem e o badalar do sino da igreja. São seis horas. A bomba da piscina do vizinho começa a trabalhar. Pessoas conversam, carros roncam. O dia amanhece. Me espreguiço com a cantoria dos sabiás. Sinto o corpo curando na paciência do tempo e do repouso. Volto a dormir.

25. Estou há dias nessa casa desabitada, empoeirada, abandonada. Ando distraída com a vida que havia nestes espaços agora vazios. Sinto-me, estranhamente deserta de mim mesma – mãe, filha, amiga, profissional, esposa … – sou todas e também nenhuma. Mudei, fui mudada, transformada, atropelada. Não podia ficar congelada, estaqueada. O tempo não permite. Me impregno lentamente da antiga casa habitada, cheia de sons, cheiros e cores. Também havia poeira naquele tempo.

26. Como descrever a eternidade? Sendo tempo, espaço, luz e amor? Imiscuindo-me nos mistérios da natureza, nas profundezas dos mares rasos, na calmaria de lagos serenos, nos rios sinuosos que enfeitiçam. Nas montanhas, campos e desertos. Diluindo-me nas brisas e ventos. Sendo tempestade, raio e trovão. Confundindo-me na noite e no dia. No prazer de viver. Na felicidade do outro. Na simplicidade do abraço. No beijo ardente de quem ama. No sorriso doce e meigo de uma criança. Nos filhos que nascem de nós, tornando-se um nós novo e melhorado … Uma manhã com cheiro de café e bolo de baunilha. Um filminho com pipoca. Um passeio de mãos dadas. Um “Eu te amo” sussurrado ao ouvido … não tenho muita certeza quanto à eternidade. Sinto-me eterna assim. Como poderia ser diferente?

27. Sinto-me estranha assim tão estranha: solitária e silenciosa. Acuada e reservada. Protegida do mundo, imersa no próprio universo. Assim nasce minha suposta normalidade. Estranho. Muito estranho.

28. Dia de faxina. Dai-me vontade e força.

29. Revi minha tata. Um luxo. Saudades de quando alguém cuidava de mim. Ando muito precisada deste luxo.

30. Dia a dia defino-me melhor: não me prenda, não me segure. Apenas, deixe-me voar. Só assim para estar sempre aqui e ser eu mesma.

31. DREAM: If you can dream it, you can do it. Um presente de porta-retratos. Formatura da nora. Parabéns!!! Ela merece. Um sonho realizado. Também chegaram minhas 4 cadeirinhas de pensar: 4 assentos de sogra. Sonhos são sonhos.

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