O fogo de uma paixão

O dia ensolarado prometia ser quente, cheio de energia e alegria. Ao colocar seu vestido de seda com girassóis e calêndulas, Elisa imaginava descobrir o recanto mais romântico e exclusivo da cidade. Ouvira falar da privacidade e do ambiente intimista do pequeno bistrô recentemente inaugurado, com a ideiia de levar seu marido para passarem algumas horas num ambiente confortável e acolhedor, iluminado apenas por castiçais, velas e, se tudo desse certo, por um novo fogo na relação… Marco Aurélio adorava um bom vinho e boa comida. Elisa ressentia-se de mais romantismo na relação. Um jantar a luz de velas e uma esticada na noite poderiam aquecer a relação apagada de 20 e poucos anos.

Depois de horas rodando por bairros e ruas totalmente desconhecidas, Elisa avistou a residência antiga com janelas caprichosamente emolduradas por toldos cor mostarda. As belas poltronas de rattan conferiam sofisticação e aconchego aquele lugar de grama aparada, plantas bem podadas e gazebos . Elisa sentiu-se febril vendo-se ali com Marco Aurélio desfrutando dos prazeres da boa mesa e depois, bem, depois seria tudo hipersupermegamaravilhoso. O calor parecia aumentar e ardia por todo seu corpo só de imaginar a noite “caliente” com Marco Aurélio. Momentos antes tão comuns e rotineiros, que se perderam com os anos, os filhos, as carreiras, os compromissos.

Acordara disposta a esquentar a relação e estava convencida de que este bistrô simpático era o começo perfeito para a nova fase da vida conjugal.

Ao chegar, como ninguém a recepcionou, foi entrando e explorando os ambientes acolhedores, um a um, até chegar numa pequena saleta com poucas mesas e poltronas, com apenas uma mesa ocupada. Num primeiro instante a imagem pareceu difusa e desfocada, parecia apenas um casal de mãos dadas, gestos de carinho e sussurros típicos dos apaixonados. Elisa sentiu-se envergonhada bisbilhotando aqueles ambientes, quando algo chamou sua atenção. Voltou-se para a cena e reconheceu Marco Aurélio Fernandes Garcia Melo com, com … uma outra pessoa … outra mulher. Uma vaca. Vadia. Puta.

A cena se petrificou e a cimentou no pé 35 que a mantinha em pé. Mal conseguia respirar, imagina, pensar ou agir. O calor que antes irradiava deleite e arrebatamento estancou e virou gelo. A cena insistia em açoitar Elisa que se sentia colada com Super Bonder, dos pés à boca, muda, presa, anestesiada, paralisada e mortificada.

O que fazer agora? Sairia de fininho à francesa, para evitar escândalo? Partiria como um tsunami para estapear o casalzinho e dizer poucas e boas? Apenas se postaria frente ao dito cujo casalzinho, para que ambos soubessem que ninguém mais estava sendo enganado? Pegaria Marco Aurélio Fernandes Garcia Melo pelos cabelos, orelhas, pescoço, quem sabe pelos braços e o arrancaria daquela cena impensável e o levaria para casa, sem dizer nada? Poderia matá-los. Havia facas por todos os lados. Haviam tantas possibilidades. E depois. O que faria? Contaria aos amigos e familiares o que viu e teria de admitir e engolir enfim, o que todos diziam sobre Marco Aurélio: Que ele a traía há séculos, que era o maior roda presa da vida dela, um galinha imprestável? Ou ficaria quietinha no seu cantinho e na sua insignificância: ninguém jamais saberia daquele dia, daquele flagrante, daquele lugar. Nem os amigos, nem os familiares, muito menos Marco Aurélio. Quem sabe um dia, nem ela saberia mais.

O calor do dia e da emoção, por fim, a aqueceu. Da perdição à desgraça, Elisa fixou e fitou o casal adúltero, que só então notou sua presença.

Com o dedo em riste, a bolsa por sobre o ombro esquerdo Elisa lançou-se como uma labareda, e cuspindo dor, urrou:

– MARCO AURÉLIO FERNANDES GARCIA MELO …

Aquele fogo que Elisa tanto esperava ver renascer virou labareda e queimou tudo à sua volta.

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