Terapia de salão

Dias atrás fui no meu cabeleireiro. Gay assumido – e muito querido – ele me olhou sem fazer nenhum comentário. Nos conhecemos há anos. Ele percebeu que eu não estava bem. Percebi que ele percebeu. Fiquei quieta. Apenas me olhei, calada, naquele imenso espelho de parede inteira – que eu odeio – e vi o que ele, certamente, viu. O olhar cansado, o corpo rechonchudo e encurvado, a pele ressecada, cabelo idem, roupa velha, desbotada, descombinada. Pra que falar quando o reflexo no espelho grita?

  • Tudo bem com você?
  • Não. Tô muito cansada.
  • Trabalhando demais?
  • Me incomodando também. Saudades do meu tempo de consultório. Até do meu tempo de dondoca sinto falta.
  • Tu tá mal mesmo. O que vamos fazer?
  • Pintar o cabelo de roxo?
  • Vermelho. Combina mais com você.
  • Queria mudar meu visual.
  • Roxo, não. Cor de velha.
  • Me sinto uma velha de cem anos.
  • Mas, vermelho vai te deixar com uns … cinquenta anos. Loba bonita.
  • Vermelho, então. Borgonha, nada cereja demais.

E lá se vai meu amigo massageador de ego, todo espevitado, preparar algum misancê pra restabelecer meu desbotado e deprimente vigor em frangalhos. Giro a cadeira. Prefiro olhar o nada, invés de ver meu reflexo triste no espelho. Triste de miserável! Nada a ver com tristeza. Meu amigo volta, sobe a cadeira, olha pro meu reflexo deplorável no espelho, pega o pente e divide com precisão meus cabelos e começa a benzutar meus fios descoloridos e grisalhos.

  • Tem umas roupas em promoção na lojinha do Marcel, depois dá uma olhadinha. Acho que tem um macacão que é a sua cara.
  • Tem tamanho 50?

Ele se afasta, me olha fundo nos olhos, gira minha cadeira como quem aprecia uma obra de arte, examina todos os ângulos … para a cadeira e me põe de frente ao espelho.

  • Precisa de um Vertix?
  • Uma Fluoxetina com vinho branco, um Big Mac e um ombro amigo … uma cama, uma noitada de sexo, um mês de ferias … e pra me tontear, precisa me girar muito mais.
  • O macacão é um 44. Se cortar o Big Mac, você vai ficar uma diva de cabelos vermelhos, costas de fora e um bundão digno dos seus cinquenta anos, sua tonta linda que eu adoro. Deixa de ser fresca e levanta este astral. Seu marido sessentão é ainda muito gato pra se contentar com uma mulher mulambenta, mal cuidada e mal humorada.

E assim, deixei de ser um verme desprezível e rastejante e me transformei numa diva estonteante. Não comprei o macacão (era um indecente tamanho 38). Comprei foi um “sauvignon blanc”, uvas e morangos e fui pra casa namorar, vestida de lençóis e penumbras.

Maldita menopausa!

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