A família e seu papel na sociedade atual

A menor unidade da sociedade é a família. Ela é fundamental para a formação do ser humano, cumprindo duas funções básicas:

  1. Garantir a sobrevivência da espécie, através da proteção psicossocial (alimento, afeto, moradia, vestimenta);
  2. Transmitir o legado e cultura familiar, promovendo a formação da identidade da criança, através da aprendizagem e comunicação familiar.

Identidade não é a mesma coisa que personalidade. Pode-se pensar em termos de Identidade Familiar. Como em qualquer organização social, também na família existem regras, politicas e padrões de funcionamento. Nem sempre estas regras são verbalizadas ou estão claras. Muitas vezes estão encobertas, e nem por isso, menos presentes. Pode-se transmitir muitas informações mesmo sem abrir a boca. Nosso silêncio pode ser tão importante quanto nossas palavras, pois pode transmitir a ideia de desinteresse, apatia, falta de amor, desinformação. Nossos comportamentos, pensamentos e atitudes transmitem nossas crenças e valores: assim, pais que batem nos filhos, mostram a legitimidade da violência e agressividade; pais que mentem, autorizam o filho a mentir. Chamamos a isso de Linguagem ou Comunicação Familiar. Ela se inicia tão logo entramos na família, o que se dá via nascimento, casamento ou adoção. A criança faz seu primeiro contato com o mundo através da família, primeiramente, através da mãe. Quem transmite `a criança como é feita a interação com o meio externo são os pais, são eles os modelos a serem seguidos, copiados e imitados vida afora. Sua forma de agir, pensar e viver são introjetados como corretos. Quando a criança sai do meio familiar e ganha o mundo, inicialmente através da escola, noções de limite, respeito e moral já estão presentes, tendo como base o modelo parental. Se em casa ela não aprendeu a respeitar as regras e os limites intrafamiliares, esta dificuldade repetir-se-á mundo afora. Numa família saudável, a separação entre gerações precisa ser bem demarcada e clara: pais e filhos não são iguais em termos de autoridade e responsabilidade. Os pais são a espinha dorsal da família e devem garantir a segurança de seus filhos. Isso não quer dizer dominação. Os filhos necessitam de segurança e proteção, que pais sensatos e seguros transmitem através de uma força, que os pais sabem que tem, eles não precisam provar nem para si próprios nem para o filho. Quando o papel de pais e filhos não está bem definido, café provável que os pais busquem na força física ou psicológica um forma de controle e dominação, para deixar bem claro quem manda em casa. Demonstram sim, insegurança para exercer a paternidade e disputam com os filhos o controle familiar. A família tem sofrido profundas mudanças em sua estrutura, assim como tudo que nos cerca. Nestes últimos 50/60 anos aconteceu uma verdadeira revolução mundial em termos de valores sociais e familiares. Para a família acompanhar estas mudanças precisar ser dinâmica a fim de absorver, evoluir e acompanhar todas as mudanças sociais em curso, como também adequar-se `as inevitáveis mudanças do ciclo vital porque passam todas as famílias. Convém fazer um parêntese com relação `as mudanças pelas quais a família passou ao longo da historia da humanidade. No decorrer dos séculos, o casamento era um acontecimento familiar com conotação comercial (o casamento era um negócio). Por volta do século XVIII , aproximadamente 85% das famílias vivia no campo e era o centro da produção econômica: era ela quem produzia quase tudo que consumia (crianças, adultos e velhos dividiam tarefas e trabalho). A criança era vista como um adulto em miniatura. Assim, todos os membros representavam mais um ativo do que um passivo econômico. O trabalho familiar acontecia no próprio recinto ou imediações da propriedade e vizinhança, criando uma convivência próxima. Nesta época quanto mais numerosa a prole, maior a produção econômica (não necessariamente a riqueza), maior a garantia de sobrevivência. Nesta época, não era a família que vivia e trabalhava para seus membros, principalmente em função das crianças, mas ao contrario, todos os membros viviam em função do grupo familiar, que protegia seus membros contra os riscos da existência. Como a família era vista como uma empresa, separação e divorcio não existiam, seria o rompimento desta empresa. Com a industrialização e a urbanização, a família evolui gradativamente, ate os modelos atuais. Vemos hoje, filhos sob a responsabilidade da sociedade, decorrente da desestrutura familiar. No ciclo vital de qualquer família vários são os momentos de crise que podem desestabilizar a homeostase (equilíbrio) familiar: nascimentos, casamentos, morte, divorcio, doença, desemprego … Algumas famílias conseguem crescer, se readaptar e unirem-se cada vez mais. Outras adoecem, focalizando a acentuando o problema, estagnando seu desenvolvimento. O que determina a saúde familiar não é a presença de crises (tidas como normais e necessárias para o amadurecimento familiar), mas sim, a intensidade, rigidez, o momento em que o sintoma aparece. Desestabilizada, a família se utiliza de recursos para recuperar o equilíbrio. Um destes recursos é a sintomatização de um dos seus membros (por serem mais frágeis, adolescentes e/ou crianças podem apresentar sintomatologia como dificuldade de aprendizagem, distúrbio de conduta, etcetcetc). Vale um novo parêntese com relação `a adolescência: o processo em si data de aproximadamente 100 anos, mais precisamente, depois da Primeira Guerra Mundial (1915). Segundo alguns estudiosos, os soldados começaram a se aperceber como uma classe distinta e explorada. Mantiveram esta distinção e rebelião como forma de auto diferenciação protegida, uma maneira de se distanciarem da geração mais velha que estava no controle. Portanto, a adolescência surgiu para satisfazer uma necessidade. Ela é a criação de mecanismos sociais, operando na nossa cultura, e não pode ser considerada fora do contexto social: na época das vovós, gravidez na adolescência X ocupação, geração canguru, etcetcetc. Cada vez mais, os problemas emocionais infantis e adolescentes, são tratados no âmbito familiar, pois é na família que o individuo interage, dando e recebendo influências. Nem todos os problemas emocionais e mentais tem origem na desestrutura familiar, mas importa frisar, que a família pode ser causa, como também, um meio de cura. A criança e/ou o adolescente sintomático não pode ser entendido apenas como vítima da desestrutura familiar. Ela também se beneficia do papel que desempenha nesta família, através dos ganhos secundários (atenção, cuidados, presentes …). Independente de tempo e lugar, a família sempre será de importância capital para a formação do ser humano. Ela vai mudar e se adaptar, vai continuar existindo da forma que for possível, para preservar e manter a espécie humana.

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