Cadarços – Estudo de Caso

 

“Qualquer semelhança é mera coincidência.” Um estudo. Uma história. Não é minha. Não é sua, nem nossa. Se Bem que poderia ser.

I. CASO CLÍNICO

 George é um jovem de 16 anos, transferido para o hospital a partir de um centro de detenção juvenil, após uma séria tentativa de suicídio. De algum modo, ele atara cadarços de sapatos e tiras de tecido em torno de seu pescoço, causando prejuízo respiratório, sendo encontrado cianótico e semiconsciente. O jovem dera entrada no centro de detenção naquele dia e os funcionários haviam percebido que ele se mostrava bastante retraído. Na admissão, George relutou em falar, exceto para dizer que iria matar-se, e ninguém poderia impedi-lo. Entretanto, ele admitiu uma história de 2 semanas de humor deprimido, dificuldade para dormir, diminuição do apetite, menor interesse por tudo, sentimentos de culpa e ideação suicida. De acordo com seus pais, George não teve dificuldades emocionais até os 13 anos, quando então se envolveu com drogas, principalmente LSD, maconha e sedativos não-opióides. Suas notas caíram drasticamente, ele fugiu de casa em diversas ocasiões após discussões com seus pais, e fez um gesto suicida tomando uma superdosagem de aspirina. Um ano depois, após uma discussão com o diretor, foi expulso da escola. Incapaz de controlarem seu comportamento, seus pais fizeram com que fosse avaliado em uma clínica de saúde mental, sendo recomendada a colocação e um albergue de grupo.Ele, aparentemente, saiu-se bem ali, e seu relacionamento com os pais melhorou imensamente com aconselhamento familiar. Ele era bastante responsável, mantendo um emprego e freqüentando a escola, e não esteve envolvido em quaisquer atividades ilegais, incluindo o uso de drogas.

Seis meses antes da admissão no hospital, entretanto, George novamente começou a usar drogas e, ao longo de duas semanas, engajou-se em 10 arrombamentos, sempre sozinho. Ele recorda que na época estava deprimido, mas não consegue recordar se a alteração no humor ocorreu antes ou depois da volta ao envolvimento com drogas.

Então foi enviado para o centro de detenção juvenil, onde se saiu tão bem que recebeu alta e foi colocado sob a tutela dos pais 3 semanas antes. Um dia depois de voltar para casa, saiu impulsivamente com seus colegas em um automóvel roubado, para uma viagem ao Texas, sendo detido e readmitido no centro de detenção. A depressão de George começou logo depois, e, de acordo com ele, a culpa com o que fizera aos pais o levou à tentativa de suicídio.

  1. DINÂMICA DO CASO

Apesar de não haverem dados suficientes para formular um entendimento psicodinâmico detalhado, várias são as observações e reflexões possíveis, levando-se em consideração os dados conhecidos.

Segundo os pais de George, este não tivera nenhuma dificuldade emocional até os 13 anos. Foi somente após o envolvimento com o uso de drogas que houve uma mudança significativa no comportamento de George.

Como nada sabemos sobre suas relações familiares, sobre o seu grupo de amigos nem sobre seu desenvolvimento emocional anterior, pode-se pensar que a entrada na adolescência, um período normalmente marcado por mudanças físicas, psíquicas, familiares e sociais, possam ter despertado sentimentos tais que levaram o menino a buscar refúgio nas drogas.

Uma das tarefas básicas, senão a grande tarefa da adolescência é a busca de uma identidade. Para Kalina, esta é uma fase que pode ser marcada por muita angústia e desolação, e é quando o adito potencial busca formas de evitar este encontro consigo mesmo. Assim, vítima de sua fraqueza, ele não demora a descobrir que a vida além de oferecer gratificações, também oferece frustrações que podem ser sentidas como devastadoras.

Eduardo Kalina afirma que “O drogadito é sempre dominado por angústias e temores cuja qualidade e intensidade os transforma em sentimentos inteiramente insuportáveis para seu ego. A insegurança em si próprio e o medo de ser destruído demonstram, pela constância com que se evidenciam e a intensidade com que se apossam deste tipo de personalidade, que a estrutura de ego do toxicômano potencial é notavelmente fraca.”( texto p.78, do livro Drogadição Hoje)

Ou seja, para Eduardo Kalina existe um tipo de personalidade aditiva com características próprias, que justificam o envolvimento com as drogas e toda a destruição posterior, oriunda deste envolvimento. Para ele, “a maneira como o adito potencial sente esta fragilidade não é outra coisa que a vivência que, em última instância, tem de sua morte” (p. 78). Para este autor, o adito em potencial pré-sente o “alto grau de inconsistência de sua identidade”.

 Diariamente todos temos a consciência de nossas limitações como seres humanos. Mas em geral quanto maior a fragilidade egóica, maior o desejo de ser poderoso. Kalina afirma que sob o efeito da droga, “a sensação de fragilidade é substituída por um sentimento de extraordinária consistência e força”.

A Síndrome de Popeye, reflete este pensamento. A droga seria o equivalente simbólico do espinafre de Popeye. Quando o indivíduo se droga, ele vive de forma parcial ou total a ilusão de ser Popeye. A droga – espinafre – lhe permite viver a ilusão transitória de ser outro: forte, perfeito, invejado, etc. É a onipotência do tudo querer e tudo poder do adolescente.

No entanto, o efeito da droga é transitório. Logo o adito se dá conta da realidade, e sua intolerância à frustração, cresce numa proporção direta à satisfação que a droga oferece. Isto prossegue até que a dose da droga não dá mais o prazer buscado, quando então, existe o risco da overdose, para atingir o mesmo bem estar, o mesmo prazer.

Kalina afirma que ”no clímax de seu desespero, o drogadito descobre que não há tóxico mais eficaz contra o risco de morte que a própria morte”. (p.84) A morte surge como a melhor alternativa para acabar com a incerteza, a angústia e o risco opressor da frustração sem limite. Para este autor, o adicto constrói um projeto de morte, claramente suicida, cujo objetivo final e radical é acabar com o sofrimento e com todos os problemas, o que reflete uma conduta abertamente psicótica. A morte é então vista como o saldo de um extermínio implacável ao qual o jovem se submeteu desde o momento em que iniciou o consumo de drogas, e mesmo antes disso.

Mas o que leva um adolescente de 13 anos, a enveredar por um caminho tão destrutivo, tão suicida?

Várias são as causas da etiologia do abuso e dependência de substância. As teorias iniciais, segundo Kaplan & Sadock, nasceram dos modelos psicodinâmicos. Posteriormente foram incluídas as variáveis comportamentais, genéticas e neuroquímicas. Atualmente, acredita-se que todas estas variáveis podem estar presentes.

A escolha das drogas usadas por George, o LSD ( um alucinógeno), a maconha (psicoativo) e sedativos não-opióides, podem sugerir que George buscava algo para se afastar dele mesmo, das suas angústias, incertezas, inseguranças, para se anestesiar das suas dores (físicas?, psíquicas?), para fazer parte e ser aceito por um grupo de amigos, para se diferenciar do todo, para ser reconhecido e visto como único, para experimentar o proibido. Na adolescência vários são os atrativos que a droga oferece. Bem como, várias podem ser as funções da droga para o adolescente.

Segundo Kaplan& Sadock, “ O início de um transtorno de humor na adolescência pode ser difícil de diagnosticar quando visto pela primeira vez, caso a adolescente tenha tentado automedicar-se com álcool ou outras substâncias ilícitas. Em um estudo recente, 17% dos jovens com transtorno de humor buscaram atendimento médico primeiramente como abusadores de substâncias. Apenas depois da desintoxicação os sintomas psiquiátricos puderam ser adequadamente avaliados e o diagnóstico correto de transtorno de humor pôde ser feito”. ( 1997, p.1041).

Pensar em George como um jovem depressivo parece justificar o seu comportamento de humor deprimido, dificuldade para dormir, diminuição do apetite, menor interesse por tudo, sentimentos de culpa e ideação suicida.

Da mesma forma, Kaplan&Sadock afirmam que “Na adolescência, um comportamento negativista ou francamente anti-social e o uso de álcool ou outras substância ilícitas pode estar presente ou justificar os diagnósticos adicionais de transtorno de oposição desafiante, transtorno de conduta e abuso ou dependência de substância.”(1997, p. 1040)

Sukhamani K. Gill e colaboradores,relatam que enquanto as crianças e adolescentes estiverem deprimidos, eles sofrem habitualmente das seqüelas como desempenho escolar insatisfatório e comprometimento das relações interpessoais, como também risco elevado de suicídio, pensamento homicida, fumo, abuso de álcool e de outras substâncias, gravidez precoce, etc.

Sabe-se que as porcentagens de depressão maior na população jovem têm aumentado na última década e as taxas de suicídio entre adolescentes quadruplicaram na última metade do século( Lafer, Almeida, Fráguas & Miguel, 2000, p. 241)

Solomon afirma que “ A depressão e o abuso de substâncias formam um ciclo. Os deprimidos abusam de substâncias numa aposta para se livrarem da depressão. Elas perturbam suas vidas a ponto de ficarem deprimidas pelo dano causado. “ (2002, p.201) Para ele “4% de adolescentes que tiveram depressão na infância cometem suicídio. Um enorme número tenta o suicídio, e tem altas taxas de quase todo tipo de problema grave de ajuste social. A depressão ocorre entre um bom número de crianças antes da puberdade, mas chega ao auge na adolescência. Nesse estágio, é quase sempre combinada com abuso de substância ou transtornos de ansiedade” (p. 174)

III. DIAGNÓSTICO

Pelos dados do caso clínico em questão surge um questionamento:

O que aconteceu antes: um comportamento depressivo como gatilho para o abuso de substância, ou, o início do abuso de substância levando ao conseqüente comportamento depressivo. Segundo os pais, George nunca apresentara dificuldades emocionais antes do início do uso de drogas; o que não é difícil acontecer numa família drogadita, pois os pais tendem a negar as dificuldades do filho, e vêem o ingresso no mundo das drogas com estupefação.

Vários são os sintomas encontrados que nos remetem a pensar num quadro depressivo grave para George, como o humor irritável e deprimido, agressividade, condutas anti-sociais, comportamento destrutivo, insônia, baixa auto-estima, isolamento, recusa escolar, baixo rendimento escolar, tentativa de suicídio, etc.

George apresenta características de um adolescente envolvido em drogas com comportamentos claramente anti-sociais. No entanto, estes comportamentos podem estar associados ao quadro depressivo de George, e estarem funcionando como defesa para a personalidade frágil de George.

Pela gravidade dos sintomas e principalmente pelas tentativas recorrentes de suicídio, pode-se pensar num quadro depressivo maior.

  1. INDICAÇÃO TERAPÊUTICA

Como George está internado devido à sua séria tentativa de suicídio, é importante que ele permaneça internado, a fim de que possa ser melhor avaliado e observado, de forma a poder controla-lo e conte-lo, devido às ameaças de consumar o suicídio. Assim pode-se auxilia-lo a conter seus impulsos, aliviar sua culpa e preservar sua vida.

Penso que o tripé para o acompanhamento para George seja o acompanhamento psiquiátrico medicamentoso, psicoterapia individual e acompanhamento familiar.

O acompanhamento psiquiátrico medicamentoso deve ser, neste momento, o carro-chefe, devido à sintomatologia depressiva e ao risco sério de suicídio.

A psicoterapia individual mostra-se necessária devido ao estado confusional de George, seus sentimentos de culpa, sua desestrutura e fragilidade psíquica, sua desesperança. O tipo de psicoterapia utilizada pode ser variável podendo num primeiro momento ser psicoterapia de apoio, cognitivo-comportamental num segundo momento, e, por último uma psicoterapia psicodinâmica. Cada uma num momento distinto do processo de recuperação e reestruturação de George. Cada qual com seus objetivos e foco de alcance.

O acompanhamento familiar é sempre uma conduta terapêutica adequada, principalmente por se tratar de um paciente adolescente. Além de poder auxiliar os pais com relação ao quadro psicopatológico de George, também poderá auxilia-los a lidar com a adolescência deste filho, sua recuperação, como também poder ver, de que forma, a sintomatologia do filho pode estar a serviço de outros conflitos familiares encobertos.

V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.  DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Trad. por Dayse     Batista. 4ª ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.

  1. KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamin J.; GREBB, Jack A. COMPÊNDIO DE PSIQUIATRIA – Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica Trad. por Dayse Batista. 7ª ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
  1. KALINA, Eduardo.   Drogadição Hoje Texto: cap. 5 “ O significado do corpo e da               morte na experiência drogaditiva.
  1. KALINA, Eduardo.   Clínica e Terapêutica das Adicções. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
  1. LAFER, Beny; ALMEIDA, Osvaldo P.; FRÁGUAS JR., Renério; MIGUEL, Eurípedes C. Depressão no Ciclo da Vida Porto Alegre, Artes Médicas, 2000
  1. SOLOMON, Andrew.   O DEMÔNIO DO MEIO-DIA – Uma anatomia da depressão.   Rio de Janeiro, Objetiva, 2002.

 

 

 

 

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