Arrumação: apego ao passado ou medo do futuro?

Duas vezes por ano, normalmente antes do Natal e nas férias de inverno – há muitos e muitos anos – faço uma senhora arrumação em casa. Do tipo

  • esvaziar, limpar e reorganizar guarda-roupas, armários, gavetas, prateleiras;
  • revisar, colar, lavar, polir, pintar, lixar, envernizar ou passar óleo de peroba/betume em adornos e móveis menores ou de apoio;
  • lavar ou mandar para lavanderia roupas mofadas ou amareladas e para a costureira, roupas que merecem algum tipo de ajuste ou concerto (não tenho mandado nenhum calçado ao sapateiro, o custo benefício tem sido inviável.

Ou seja, viro a casa do avesso, e com ela, viro do avesso também. Ao longo dos anos, fui fazendo e aprendendo. Costumo dizer que sou algo bagunceira, algo indisciplinada e algo organizada. Em parte, pelo tanto que produzo (velas, cerâmica, scrap, mosaico, pintura, literatura) e pelo tanto que guardo (do fio ao pavio, folhas, botões, chaves velhas, papeis, adornos quebrados, etcetcetc). Tudo, absolutamente tudo, pode ser reaproveitado e transformado. Reciclado e estilizado no melhor estilo “fui eu que fiz”. Haja disposição, criatividade, dinheiro e tempo. Tempo é fundamental. Só comece se tiver tempo pra terminar. Por isso, estipule uma meta: Um fim de semana, uma semana, um mês. Aproveite para desintoxicar sua casa e reencontrar muita coisa. Mas termine o que começou. E já planeje a próxima etapa. Além de selecionar, limpar e colocar no sol pra ventilar roupas e demais artigos, pratique o desapego.

O DESAPEGO é a parte mais importante da arrumação. Do que vou me desfazer. O que vai pra doação? O que vai para o lixo?

A dificuldade de se desfazer de coisas que não usamos mais, pode ser decorrente do apego ao passado ou medo do futuro. Ambas podem governar o modo como nos relacionamos com coisas, e, pessoas. Trata-se de um padrão de funcionamento. Mantemos em nossas vidas apenas o que realmente queremos? Ou estamos entulhados de objetos, reféns de uma sociedade de consumo? Nos transformamos em acumuladores compulsivos e competitivos?

Como diz Marie Kondo, no livro A mágica da Arrumação – A arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida: “Há três maneiras possíveis de lidar com nossos pertences: encará-los agora, algum dia ou evitá-los até a morte. A escolha é sua. Acredito piamente que é bem melhor encará-los agora. Se reconhecermos o apego ao passado e o medo do futuro ao analisar com sinceridade nossas coisas, conseguiremos enxergar o que é realmente importante.”

Li o livro, enquanto reorganizava a casa.

Marie Kondo dá várias dicas interessantes para REALMENTE arrumar a casa. Não concordo com todas. Talvez porque seja psicóloga e o passado faz parte do meu fazer profissional. Talvez por ser arteira e qualquer caco pode ser reciclado e transformado. Talvez por ser ecologicamente correta, diminuir o consumo e reciclar é fundamental, enfim …

Para mim, organizar a casa é organizar a própria vida. Quando não estou bem, minha casa (de alvenaria, madeira ou pau a pique) e meu corpo físico (espírito, alma) também não estão. À medida que a casa fica arrumada e ordenada, me ajeito também. Ver as coisas limpas, organizadas e colocadas em seus devidos lugares dá tranquilidade e leveza. A casa – e a própria alma – se enchem de energia e alegria. Prontas para o próximo passo.

Dentre os apontamentos da autora, de mais de dois milhões de livros vendidos, achei interessante:

  • faz mais sentido classificar as pessoas – no quesito organização – por suas ações do que por seus traços de personalidade. Existem os que “não conseguem jogar fora”, os que “não conseguem colocar de volta no lugar” e 90% dos casos, os que “não conseguem nem jogar fora, nem colocar de volta no lugar”. Ufa, a grande maioria.
  • Há dois tipos de organização: a “diária” e a “organização como evento especial” (esta que estou fazendo agora). Ela sugere que se pegue cada peça/objeto e ao observá-lo, perceber se ele nos traz felicidade. Se sim, fica. Se não, descarta.
  • Além do valor material, existem outros fatores que atrapalham na hora do descarte: funcionalidade, informação, apego emocional e raridade.
  • É importante organizar (e descartar) por categoria. Junte tudo, retire do cabide, das prateleiras, das caixas. Jogue tudo no centro da sala ou do quarto. Olhe peça por peça, dialogue com ela. A primeira categoria a ser trabalhada são as roupas, depois vem os livros, papeis e documentos, itens variados, e por último, artigos de valor sentimental. Ao manusear artigos de valor sentimental e decidir o que descartar, você processa seu passado.
  • O tipo de organização chamado de “enviar as coisas para a casa dos pais” deve ser evitado. Despachar objetos para outro lugar é como varrer a sujeira pra debaixo do tapete.
  • O “clique do suficiente” é difícil de ser alcançado. O certo é que vivemos com mais coisas do que de fato, precisamos.

Ok. Preciso trabalhar alguns destes tópicos. Mas, nada de exageros.

Percebo como o menos tem me agradado mais. O quanto tenho descartado. Quão pouco tenho comprado. Encontrar nos armários, balcões, gavetas e caixas aquilo que gosto, os livros organizados, o ateliê idem, alguns móveis restaurados e reposicionados, tem trazido leveza à minha vida.

Ao descartar o que não mais me define, abro espaço para o novo.

De “novo, novo mesmo” pretendo adotar uma conversa diária com a casa que me acolhe, com os móveis que participam do dia a dia em família, com as roupas e calçados que me agasalham, com os livros, fotos e documentos que registram momentos e acontecimentos. Aos objetos descartados, agradecimento. Foram úteis, importantes, necessários. Também eles precisam seguir em frente.

Sabe aquele presente que você ganhou e não tem nada a ver com você, mas que você guarda assim mesmo? Desapegue. Ele já cumpriu a função dele: foi o presente que alguém escolheu pensando em você. É hora dele seguir adiante.

 

 

 

 

 

 

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