Quando Ana chegou

Quando Ana chegou, Marta simpatizou com sua expressão serena, a frente dos olhos pretos carregados de desespero e apreensão. O corpo e o olhar sinalizavam algo que o tom de voz e a escolha das palavras tentavam omitir. Será que ela sabia que Marta sabia, mesmo ela não dizendo nada? Ana preferia acreditar nas próprias palavras. Elas lhe davam esperança. Queria que fosse a verdade. A realidade. Para Marta, aquelas palavras davam a certeza de que algo muito sério estava acontecendo. Ana precisava de ajuda. Por algum motivo, Marta decidiu ajudá-la.

Ana saiu de Apiaí, sul de São Paulo, com a cara e a coragem, 3 filhas pequenas – a menor com 5 meses incompletos – o irmão de 22 anos e toda a mudança que coube no Gol emprestado. Basicamente roupas e brinquedos das pequenas. Katia (7anos) e Kelly (6 anos) demorariam algum tempo para entender como, da noite para o dia, estavam morando numa casa sem reboco, na servidão de um bairro pobre, num quarto e sala com banheiro e mini lavanderia, alguns móveis e eletrodomésticos usados à exaustão, uma geladeira pifada, colchões mofados e puídos jogados rente às paredes igualmente mofadas e fedorentas. Quando chegou, Ana disse a Marta, a si mesma e às crianças, que o pai viria próximo ao Natal, tão logo finalizasse a colocação do porcelanato para o qual foi contratado.

Que mãe abandona casa, marido, o pai e os irmãos, cunhadas e cunhados, e sai no lusco fusco de uma noite no final de novembro, numa viagem cuja única certeza é o nome de onde quer chegar? Um lugar que não sabe de sua chegada. Um lugar onde não existe nem casa, nem emprego, nem amigos, nem dinheiro pra começar o que for possível começar. O troco miserável enrolado no bolso de trás de uma calça jeans esgarçada é tudo o que aquelas 5 pessoinhas terão, até que ela ou o irmão arranjem um trabalho, um bico, uma faxina, um emprego. Uma ajuda. Um troco recolhido às pressas, escondido em esconderijos improvisados como xícaras, fundos de gavetas, bolsos de calças e casacos. Um troco surrupiado em momentos de pavor, quando na incerteza da vida, a certeza da sobrevivência gritou a plenos pulmões.

Foi assim que Ana chegou. Magra feito varra. Pesada como os escombros de um prédio demolido. Aos poucos, fragmentos ganharam voz: a morte precoce da mãe, um câncer não levado à sério, noites mal dormidas, o casamento abandonado. Neste abandono, o marido se aconchegou nos braços da pedra. Nada de outra mulher. Melhor e mais fácil seria. Ele preferiu o conforto do crack. Neste conforto, Ana viu seu carro sair da garagem e nunca mais voltar, a campainha tocar fazendo ameaças, a pilha de avisos de cobrança crescendo feito sua barriga de 7 meses de gravidez, a inquietação do marido mouco de olhos espetados de terror, circulando entre os últimos móveis em busca de algo que não existia mais. Ana reconhecia naquele marido irreconhecível, alguém que nunca lhe deixara faltar nada, e que agora, transformava a própria vida e das pessoas que mais amava, em nada. Apavorada, suscitava lembranças de outros tempos, quando ele ouvia vozes e via coisas, que ela não ouvia nem via. Você sabe o que é telepatia? Pediu ela a Marta, um dia. Ele achava que era um telepata. E ela, naquele princípio de tudo, acreditara nesta versão da loucura do marido. Depois, levou-o ao médico. Em menos de cinco dias, ele jogou os comprimidos no lixo e disse que não era louco, que não precisava de ajuda nem de ninguém. Saiu de casa e voltou dois dias depois, com a roupa rasgada, hematomas por todo corpo e olhos banhados em sangue. Foi quando ela percebeu que o inferno do marido começava a queimar seus próprios pés e lhe agarrava as pernas com línguas de fogo. Sabe, disse ela, ele ainda não está no fundo do poço. Uma amiga me disse que quando ele chegar no fundo ele vai ter duas chances: ou ele salta pra fora do poço ou vai se afogar dentro de uma réstia de água. Pode ser, disse Marta. Então, só me resta esperar. – Ana olhou desolada para a patroa, torcendo o pano de chão. – Sei que ele vai morrer. Ele é mole demais pra sair de um poço destes. Depois de passar o pano, o que mais que a senhora quer que eu faça? Vá pra casa. Fique com suas crianças. Amanhã a gente termina. Ana abraçou Marta, suada e suja, os olhos cheio de lágrimas. Obrigada. A senhora entende porque eu o abandonei? Entendo. Quero acreditar que seu marido consiga sair do fundo do poço e venha ajudar a cuidar e criar as crianças.

A senhora é muito boa, Dona Marta. Não conhece o olho vermelho do demônio. Eu vi. Dentro dos olhos do meu marido. Ele já está no inferno.

2 comentários sobre “Quando Ana chegou

  1. Márcia Saatkamp

    Ameii!!! Profundo ,uma delicada e dolorida narrativa… retrata a realidade de tantas mulheres! Parabéns pelo maravilhoso e muito bem escrito conto!

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