Missão: caminhada na praia

É comum as pessoas que me conhecem e sabem que moro do ladinho do mar, comentarem comigo: “Que delícia. Poder caminhar, todo dia, na praia … “. Mal sabem elas que a logística deste simples ato é muito mais complicada do que parece. Ao acordar, abrir os olhos, erguer o corpo, colocar os pés no chão, ir ao banheiro, lavar o rosto, escovar os dentes e os cabelos, fazer um rabo de cavalo nos cabelos, passar e tomar um café preto + torradas e fruta, olhar as fênix, a jabuticabeira e as patas de elefante dos fundos de casa e não pensar em absolutamente nada, é o começo de tudo. Para que a caminhada saia da categoria intenção e torne-se realidade a regra básica é: não pense em absolutamente nada que tenha de ser feito. A única coisa importante é caminhar na beira da praia. Pronto. Se passar pelo primeiro e principal obstáculo que é a decisão de caminhar, é só levantar, abrir a porta de casa e sair sem olhar para trás sequer uma vez.

As pessoas não imaginam, penso eu, mas quem mora à beira mar, com raríssimas exceções, tem compromissos, contas a pagar, agenda a cumprir, metas, sonhos, serviços os mais diversos a dar conta … então, quando olharem para mim e pensarem “ela mora na beira da praia, que delícia, pode caminhar todos os dias a beira mar”, por favor, não deduzam nada … é tão difícil caminhar à beira mar quanto na ciclovia do bairro, na estrada de terra, na calçada. Porque caminhar não tem nada a ver com o lugar, e sim, com vontade e determinação.

Quanto a ser uma delícia morar à beira mar, não tenho dúvidas, apesar da maresia que acaba com os cromados e a umidade que mofa armários. Esta gostosura tem a ver com a certeza do rugido das ondas do mar, das gaivotas, fragatas e quero-queros que sobrevoam o bairro. Sim, as ondas me chamam. Me convidam. Mas quanto mais o tempo passa, menos as escuto. E isto, tende a piorar (segundo minha mãe já meio surdinha, meus avós e bisavós, todos, tiveram problemas de audição).

Talvez o tempo e suas dobras, invertam estas certezas.

Há de chegar o dia em que caminhar seja tão automático e prazeroso quanto arrumar a casa, lavar a roupa, ler, escrever, pintar, pagar contas, fazer aula de cerâmica, etcetcetcetc …

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