A sala de estar

Já comentei sobre a Sala de Jantar e a Sala da Lareira. Recantos carregados de lembranças, velharias e muito aconchego. 

Mas o lugar que mais ocupo e gosto, no meu xangrilá gaúcho, é a Sala de Estar. É onde tomo café da manhã e vejo o sol nascer, onde leio e escrevo entre sonecas e devaneios, escuto música clássica e velhos LPs, onde telefono e recebo amigos, medito, converso sozinha, admiro a natureza e fico de olho nos gatos que vem mordiscar a ração comprada exclusivamente para eles. 

Gosto de me ver como a Mulher do Casarão, aquela que alimenta os gatos da vizinhança. Aquela que vem de vez em quando e retira a placa de VENDE-SE e se instala cheia de orgulho na casa abandonada, das gramas inçadas e descontroladas, cercada de lajes sujas e encardidas, arbustos fora de corte, palmeiras com galhos caídos, unhas de gato agarradas e largadas pelos muros. Pouco me importa o que pensam de mim ou da minha casa. A gente se gosta assim mesmo. E gosta também dos antigos vizinhos que vem saber das novidades. Tudo bem com vcs? Vão voltar? Já venderam a casa? Vai ficar quanto tempo. Vizinhos, que assim como nós, estão envelhecendo, com os netos chegando e as casas tentando se ajustar a novos tempos e rotinas. A gente se olha e se entende.

É deste ponto da casa que vejo o movimento do bairro: os carros que vão e voltam do centro, quem caminha, quem trabalha, as crianças que conheci e viraram adultos, os que engordaram, enfeiaram, ficaram mais bonitos, quem passeia com cachorros, quem vive ao meu redor…

Comigo chegam a faxineira, o jardineiro e o piscineiro. Juntos colocamos quase tudo no lugar, em um ou dois dias. Ou quase. Volta e meia cometo alguma extravagância e incremento com alguma novidade. Ou compro, ou restauro, ou pinto uma tela nova, ou troco tudo de lugar … faço algo acontecer pra dar vida ao lugar que ficou em silêncio por algumas semanas.

Pra remontar esta sala reaproveitei vários móveis antigos de uso próprio: panos foram trocados, o sofá recebeu assento de futton, as poltronas de rattan foram pintadas de preto, o lustre recebeu lâmpadas de filamento, a mesa de centro foi restaurada … e, por enquanto, as únicas peças de outros tempos, são a base do aparador e a cadeira preguiçosa da Velha Mári. O pé de uma máquina de costura antiga e perdida pelos porões da casa de minha mãe serviu muito bem para acomodar a prancha de madeira, comprada numa serraria da região, e meu velho aparelho de som. E a cadeira preguiçosa da Velha Mári dá o clima do lugar: preguiça e descontração.

Amo este espaço e tudo que ele me inspira.

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