Muito além do inverno – Isabel Allende

Da autora li vários livros: O caderno de Maya, Afrodite, Paula, Zorro, O amante japonês e A casa dos Espíritos. Isabel Allende é com certeza uma das minhas escritoras favoritas. “Muito além do inverno” aborda o tema da imigração ilegal. O relato da travessia e a permanência ilegal de Evelyn, uma guatemalteca, nos USA se mescla com um assassinato e as vidas entrecruzadas de Richard e Lucia. A questão da morte e das perdas dos personagens está presente em toda a narrativa. “Muito além do inverno” é um texto pesado, triste e penoso.

Selecionei este parágrafo que conta um pouco da crença de Evelyn e seu povo da América Central, sobre os rituais necessários para fazer a passagem da vida para a morte.

“Com muita dificuldade, tropeçando nas palavras, Evelyn conseguiu dizer que ao menos seus irmãos Gregorio e Andrés haviam sido enterrados com a devida reverência, embora poucos vizinhos tenham comparecido ao velório, por temor da quadrilha. Na casa de sua avó, haviam acendido velas e queimado ervas aromáticas, cantaram, choraram, brindaram com rum por eles, enterraram-nos com algumas das suas coisas para que não lhes faltasse na outra vida, e haviam sido rezadas missas por eles durante nove dias, como é o costume, porque nove são os meses que a criança passa no ventre da mãe antes de nascer e nove são os dias que o finado demora para renascer no céu. O túmulo de seus irmãos estava em terra consagrada, onde sua avó ia deixar flores aos domingos e levar-lhes comida no Dia de Finados. (p. 200)

Minha relação com a escrita e a leitura 1

Para 2019 apenas o que der prazer … um dos pedidos para o ano. Quando vi estava inscrita num curso online de Escrita Criativa. OK. Fui impulsiva, talvez. Verdade é que a ideia vinha me assuntando há tempo. E pq não? Depois de 8/10 anos das primeiras oficinas literárias, me parece adequado revisar conceitos e técnicas e atualizar conhecimentos. Meu primeiro curso online na vida. Já estou sentindo falta de conversar com meus colegas de curso. A turma é grande. Vou ter de me acostumar com a voz do professor e com as aulas às 13 horas de segunda-feira. Tem os temas também. E o  primeiro é este: Minha relação com a escrita e a leitura. Preparei 2 textos de 500 palavras cada. História demais pra contar. Por aqui, vou postar todos. Comente o seu preferido. Te respondo qual mandei para o professor.

[Vem de longa data minha relação com a escrita e a leitura.

Dos tempos do colégio de freira, os incentivos para ler e escrever eram grandes. As redações, sempre elogiadas. Professor Osvino gostava de como eu brincava com as vírgulas. As leituras eram obrigatórias: Dom Casmurro, Escrava Isaura, Senhora. Até eu descobrir Sidney Sheldon e O outro lado da meia noite … no fundo escuro e não recomendável da biblioteca das freiras. Veio a faculdade de Psicologia e a leitura de textos, livros técnicos e a redação de laudos, estudos de caso e avaliações. Aprendi a ser descritiva e objetiva para deixar meus pareceres claros e inteligíveis.

Mesmo tendo cursado Psicologia, flertei com o Jornalismo e as Letras a vida inteira. Um caso de amor platônico. Sabia que um dia, além das palavras ditas enveredaria pelo universo das palavras escritas.

Quando a vida me conduziu por um novo caminho, levei na mala os livros comprados ao longo dos anos, um laptop usado, canetas, cadernos e uma vontade imensa de escrever meu primeiro livro. Um ano longe do consultório me apresentou ao universo dos livros e escritores e a certeza de que havia perdido a desenvoltura com as palavras. Precisava reencontrar a menina que brincava com as vírgulas e pesquisava palavras no dicionário.

Para me auxiliar nesta busca fui atrás de cursos de Escrita Criativa. A primeira oficina foi com a professora Noemi Jafe, na Casa do Saber. Depois veio o professor Gilson – de poesia – no Museu Lasar Segal e a constatação de que “é fácil escrever um livro, difícil é publicá-lo.” Encerrei o ciclo de oficinas de escrita criativa, em São Paulo, com as aulas de Ficção do professor Assis Brasil.

Não encontrei a menina das vírgulas. O conhecimento das técnicas de escrita, muitas vezes, tumultua meus momentos de inspiração e entrega literária.

Mesmo assim, publiquei o romance “Os segredos de Serena”. Um livro escrito por uma leitora. “Longe de tudo e de todos” é o romance escrito no período das oficinas de escrita criativa. São oito anos de revisões e abandonos. Neste meio tempo, criei o blog bysuzete.com onde pratico, brinco e publico. É escrevendo e lendo que vou me reencontrando.

Leio de tudo. De Paulo Coelho a Proust. De Danuza Leão a Isabel Allende. Ano após ano venho montando minha biblioteca. São livros indicados por revistas, professores e colegas. Muitos livros compro por impulso, pela vontade de conhecer novos autores, formas de pensar e escrever. E assim, vou colecionando “livros para os quais não estou pronta” e “abacaxis literários”. Por melhor que sejam os livros indicados, a subjetividade e o gosto pessoal definem quais livros e escritores vou ler e continuar lendo. Mesmo assim, guardo meus abacaxis e livros abandonados. Sei que em algum momento vou ler. A gente vai mudando, nossos gostos também. A maturidade literária acontece.

Decidi fazer o curso online de escrita criativa para rever conceitos e técnicas. E, se tudo der certo, publicar meu segundo romance.]

Maré alta

Manhã da cor do chumbo.

Quero-queros também. Eles caminham junto.

As corujas só observam. Giram-se atentas nesta manhã acabrunhada.

O céu floreado de cinza e branco. Bordado em azul.

O mar como espelho. Sujo, cinza, contido. Sentido.

Alguns banhistas chegam junto. Chego também.

Muitos não veem, não escutam, não falam.

São zumbis contemporâneos de celular na mão.

Cinzentos. Contidos. O mar à frente não encanta.

Está indeciso. Estamos todos nós.

Não sabe o mar, se jorra em ondas ou se contenta com a serenidade de lago.

Também não sabemos.

Foi trator e carregou a praia. Inclinado e desajustado ficou o caminho.

A corrente marinha leva e trás. Pra frente e pra trás.

Não sei o que é. Mas algo se passa nas profundezas do mar.

Também ele, hoje amanheceu errado.

Um espelho o mar de Jurerê.

 

 

Paris para um e outros contos – Jojo Moyes

Acabei de ler o quarto livro da escritora inglesa, cujo estilo é simples e divertido. A leitura, fácil. Dela li outros títulos, todos romances. No cinema, me emocionei com o “Como eu era antes de vc.

Quando comprei o livro de contos da autora, um dos objetivos era me motivar para escrever contos. Uma das metas literárias para 2019. Me surpreendi com o tamanho do primeiro conto do livro: “Paris para um” tem 97 páginas e 14 capítulos. Seria o conto o gênero literário para abarcar este texto? Após pesquisar sobre características do conto, a certeza de que não existe um número máximo de páginas. São outras as características que definem o texto como sendo conto ou não:

  • Enredo único: ao contrário de romances, os contos tendem a focar em um enredo que não se desdobra em tramas menores. Muitas vezes a história gira em torno de uma única situação.
  • Simplicidade: devido ao enredo único, os contos não costumam exigir grandes interpretações por parte do leitor.
  • Curto espaço de tempo: os contos costumam apresentar tramas que não se estendem por longos períodos. É comum, por exemplo, que a história se passe em um só dia.
  • Início próximo ao fim: geralmente os contos não dedicam tempo na introdução do ambiente e dos personagens, por isso, a história se inicia próxima ao clímax e ao desfecho.
  • Poucos personagens: por serem mais objetivos, contos costumam apresentar um número bem reduzido de personagens.
  • Final súbito: em contos, é normal que o fim aconteça imediatamente depois do clímax. Não há, portanto, uma fase da história em que podemos acompanhar as consequências da resolução do conflito.
  • Objetivo único: por não possuir desdobramentos, o conto busca causar um sentimento único no leitor (alegria, indignação, melancolia, etc) ou, simplesmente, contar uma história.

Cocorocas ao mar

A água estava boa?

Estava muito suja. Digo eu.

Choveu demais, comenta o menino das cadeiras e guarda-sois.

O mar de Jurerê, cor de esmeralda tom de pedra aventurina.

Um xixi de mar calmo e límpido, num vai e vem de ondas comportadas. Sempre.

Elas podem até se erguer pra ver a restinga. Uma espiada marota.

Mas, nada de aflições:

um óculos perdido, alguns goles d’água, olhos avermelhados, cabelos ressecados. Mareados.

Marolinhas na imensidão do mar.

No calor da temporada, chuvaradas barulhentas assustam.

Porém, sujam de verde de mato o mar de esmeraldas.

Nestes dias quentes e sujos

mais peixes vem ver a estranheza do lugar.

Quando a gente vê, vê peixe caçando peixinho, peixe saltando,

xispando em disparada e surfando ondas junto da gente, assim:

a uma ondinha de distância.

O risco de atropelamento é grande. Sequer pedem desculpas.

Cutucos gratuitos. Meio alarmantes.

Se fosse em Boa Viagem, no Recife, haveria gritaria: tubarão na água.

Por aqui, a gente sabe: é cocoroca na água.

Saltitando feliz brincando de verão.

A gente brinca junto.

Quintana

Depois dos primeiros livros do ano, me debandei e fui ler poesia. Há quem diga que é fácil ler poesia; que rende, que a gente passa num revesgueio de olhos.

Projeto de Prefácio

“Sábias agudezas … refinamentos …

  • não!

Nada disso encontrarás aqui.

Um poema não é para te distraíres

Como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.

Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe

Um poema não é também quando paras no fim,

Porque um verdadeiro poema continua sempre …

Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te

[para a morte

não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!”

( Baú de Espantos – pg. 125)

Normalmente preciso reler cada poesia. Uma ou duas vezes. Comum me perder no raciocínio do poeta.

O último poema

“Enquanto me davam a extrema-unção,

Eu estava distraído …

Ah, essa mania incorrigível de estar

[pensando sempre noutra coisa!

Aliás, tudo é sempre outra coisa

  • segredo da poesia –

E, enquanto a voz do padre zumbia como

[um besouro,

Eu pensava era nos meus primeiros sapatos

Que continuavam andando, que continuam andando,

Até hoje

Pelos caminhos deste mundo.”

(Preparativos de viagem – pg. 68)

A poesia nos faz rodopiar por tempos e lugares no estalar de poucas palavras. Quando a gente vê, perdeu o fio da meada. Foi do tricô pro crochê, da lã pra tinta, do barro pro barbante. De Marte pra Babilônia. Do vento para o céu. Dos anjos para a infância direto para o leito de morte. Não é à toa que poesia é recomendado para os esquecidos desmemoriados e pobres de raciocínio. Quem lê sente a malhação cerebral. Talvez por isso tenha escolhido Mario Quintana, companheiro de piscina e verão. Logo ele! Deve estar se revirando na cova, sua última morada.

“A coisa mais natural da vida é a morte;

A coisa mais absurda da vida é a própria vida.”

(Velório sem Defunto – pg. 69)

Com os dias de calor e claridade infernais me coloquei a reler textos de Quintana. Encomendei alguns novos. É difícil encontrar Quintana nas livrarias. Bendita Internet! E assim, entremeadas no texto, algumas das muitas poesias e os quatro primeiros títulos lidos de Quintana. Outros e outras ainda virão.

(xii) Das Utopias

“Se as coisas são inatingíveis … ora!

Não é motivo para não querê-las …

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

(Antologia Poética – pg. 50)