Depois da chuva

Depois da chuva, o sol.

Depois de frio, o sol. Com ele,

o convite para o dia, para a vida.

Caminho pela praia e recolho um abraço de conchas,

recolho também garrafas plásticas, tampinhas, canudinhos …

a seara de lixo encrustada pela chuva, pelo frio,

pela insensibilidade e falta de tato e jeito e tudo

que intoxica o mar. A vida marinha.

Meus olhos. Os teus.

 

Obrigada, marzão.

De nada, marzão.

Mais que morrer …

Quando eu era pequena perguntava ao meu avô se fazia mal misturar manga com leite, melancia com uva, comer ovo frito à noite, mergulhar nos buracos do rio… e ele, com toda calma do mundo, dizia: “mais que morrer não vai”. Até hoje, lembro das suas palavras. A morte, como ponto final para tudo e para todos, é tão certa quanto minha paixão por café. Diante desta inevitabilidade da vida, vou vivendo do jeito que posso e consigo, com a certeza de que “mais que morrer, não vou.”

O tempo da cerâmica

Quando comecei a fazer o curso de cerâmica em agosto de 2017, pensei que fosse fácil e rápido concluir as peças e levá-las para casa. Imaginava meus trabalhos espalhados pela casa, embalados em presentes de Natal. Passados doze meses (corridos, e não exatamente trabalhos) ainda não trouxe nada pronto para casa. Com exceção de fotos.

Um ano.

Impaciente e acelerada do jeito que sou em algumas questões, tive de aprender a domar minhas urgências e aguardar o tempo que a cerâmica precisa para ser trabalhada e finalizada. Em torno de 1 a 2 meses para criar e dar acabamento (conforme o tamanho da peça), deixar secar para biscoitar (é a primeira queima), pintar/esmaltar e queimar uma segunda vez. O somatório dá muito tempo. Haja tolerância à frustração e perseverança. Estou contando os dias que faltam pra trazer a primeira remessa de trabalhos prontos.

Além do tempo do próprio ateliê – que deixa acumular uma quantidade razoável de peças para serem queimadas juntas – tem o meu tempo, ainda limitado às 3 horas semanais de aula, para fazer. É neste tempo que aprendo a teoria desta arte milenar, o uso de diferentes tipos de ferramentas, as diversas técnicas, e também, é onde faço e desfaço peças. Tem peça que quebra. Tem peça que fica feia e desmancho. Tem peça que dá muito trabalho.

É neste tempo que posso e pretendo interferir, organizando meu próprio atelier, comprando ferramentas e me exercitando em casa. O que já estou providenciando. Enquanto isso não acontece, o jeito é aguardar. E, ter paciência.

Ontem contei as peças que trabalhei neste ano e que estão na esteira de acabamento. Foram 20 Kg de argila trabalhada e 34 peças produzidas. Segundo as entendidas, um bom trabalho.

Elementos

Venho de tantos lugares, tantos ares.

Mudei. Me mudei. Fui mudada.

Chegou a hora de fincar os pés,

onde a terra me é tão cara. Tão querida.

Onde o rio corre e serpenteia.

Feito veia. Feito caminho.

Feito sangue que nutre, que conduz à vida.

Onde a água abraça a terra.

E a terra, enfim, me toca. Me acolhe.

Me reconduz a meu verdadeiro elemento.

 

A terra que me deu raízes,

me convida a regressar e me replantar.

Saí menina ainda. Era a vida me convidando

a conhecer um universo chamado Terra.

Onde o ar, a água e o fogo me completariam.

Me tornariam inteira.

 

Escolhi a vida com meu elemento oposto.

O ar. Escorpião.

Os opostos que se atraem.

Se complementam. Se completam.

Meu homem. Meu ar. Minha sombra.

Meu eu. Terra.

 

As tempestades me esparramaram.

Me perdi. Perdemo-nos um no outro.

Me perdi de mim mesma.

E meu elemento, minha essência, enfim, cansou de ventos.

Quer repousar naquele leito de rio.

Quer o ar, apenas para respirar.

 

Água de rio, marrom-terra.

Gosto de mato. De pedra, cascalho. Infância.

O rio que me viu nascer e crescer, chama. Clama.

Me quer de volta.

Me quer parir outra.

 

O mar, que se avizinha, largo e imponente,

Vem e vai, num eterno balanço de ondas,

A terra-areia que me toca,

porosa e esfarelada, desgastada,

não me nutre.

Ando tão faminta do barro, da argila, da terra vermelha, preta, marrom.

De terra que firme meus pés,

e me sustente.

 

Meu elemento água é o rio.

Sinuoso. Arterial. Denso.

Nada da profundidade e da inconstância do mar.

Onde meu elemento se perde. Se afasta.

Onde o vento se agiganta.

Preciso de terra pequena. Nada de crosta e costas.

Preciso de beira de rio à vista.

De terra molhada. De verde de mato.

Onde vejo e sinto o que semeio.

 

Já pari meus filhos. A Terra agradece.

Minha eternidade. Meu melhor legado.

 

O fogo. Meu último elemento.

Ronda sempre. Acompanhado de inverno.

De toco e lenha de mato.

Travestido de lareira, vinho e aconchego.

Fogo grande que hipnotiza. Que me funde inteira.

Quando me for de vez,

Que o fogo me consuma,

Que a água me leve,

Que o leito do rio me regenere.

 

Mas, enquanto estou aqui,

Hei de me parir outra.

Chove lá fora

Chove lá fora.

Também eu ando chovendo aos cântaros.

É tanta água à minha volta, que pressinto

o dilúvio se avizinhando.

Sinto na pele. No osso. Na raiz dos cabelos.

O branco. O nada. O vazio absoluto.

O silêncio vago que vaga …

entre pingos e respingos.

Escorro nebulosa,

entre raios e trovões.

Lavo o corpo, os cabelos tingidos de vermelho.

A alma sangra. Sabe que precisa sarar.

Mas o tempo … conspira.

Precisa de mais tempo.

 

Oh céus!

E essa chuva que não para.

Preparando a esmaltação

Devagar, devagarinho estou chegando lá. As primeiras peças biscoitadas, foram lavadas e deixadas a secar ao sol. O objetivo é abrir os poros da argila e retirar qualquer resquício de poeira que comprometa o processo.

ceramica 3

Depois de secas, as peças foram guardadas em sacos plásticos limpos e recolocadas na prateleira. O próximo passo é a esmaltação.

ceramica 1

São pratos, bowls, descansa-colheres, luminárias, porta-incensos, potes …

ceramica 2

Além destas peças, outras estão indo ao forno para serem biscoitadas (é a queima a 900 graus). Depois da esmaltação, outra queima está agendada.

Sobre o Caminho

“Dançando na luz” abriu a maratona Shirley MacLaine. Depois li “Minhas Vidas” e agora “O caminho – Uma jornada do Espírito”.  O interesse pela autora é antigo e se conecta com o interesse dela por vidas passadas, esoterismo e misticismo. Nada a ver com religiosidade. “O caminho” – título do livro – é o caminho de Santiago de Compostela, que fiz (uma parte) em 2010. Ele anda acenando e me convidando a voltar. A caminhada completa, 30 a 40 dias de peregrinação, foi pensada junto a Santo Tiago na Catedral de Compostela. Pelo que lembro, nem ele nem eu, cumprimos o combinado.

Enquanto leio e relembro a caminhada, reflexões como esta, me instigam a repensar o combinado, e, quem sabe, me levem a refazer a caminhada.

“Toda a vida é uma lição de autoconhecimento. Quanto mais entendermos sobre nós mesmos, mais seremos capazes de lidar com qualquer coisa.

Os líderes do mundo atual são exemplo disso. Cada um deles sofre da falta de autoconhecimento, por isso tantos agem de maneiras destrutivas. Eles são, na verdade, autodestrutivos. Destroem não apenas a si mesmos, mas as pessoas que lideram – Clinton, Milosevic, Osama bin Laden, os mulás do Irã, os governantes da China, e assim por diante. Os líderes que eu conhecera que haviam estado na prisão em confinamento solitário – Gandhi, Nelson Mandela – tinham resolvido muito dos seus conflitos interiores por terem sido forçados ao isolamento. E todos afirmaram que aquele foi o período mais importante de suas vidas. Hoje, poucos dedicam tempo à busca interior, e disso vem o estado do mundo, que beira o desastre. Com certeza, as pessoas comuns em qualquer sociedade não tem tempo para a busca interior porque estão presas à competição pela sobrevivência, devido ao materialismo furioso. As pessoas no mundo parecem presas a uma esteira de sobrevivência, ignorando as alegrias da evolução que só poderiam conhecer se gastassem algum tempo para descobrir quem são.”

(O caminho – Uma jornada do espírito, Shirley MacLaine, p. 114/115)