A literatura em 2020

A literatura em 2020

2020 não foi um ano de muitas leituras, nem de muitas estripulias literárias. O curso literário para a Preparação do Romance, foi a meta do ano. Escrevi mal e porcamente, umas 30 linhas do dito romance, perdidas entre arquivos e pastas recheadas de assuntos e temas iniciados e abandonados. 

O ano foi, literalmente, de colocar a mão na sujeira e na bagunça. Na terra e na tinta. Nas lixas, enxadas e pinceis. Nas agulhas e sabão em pó. 

De qualquer forma, mantive sempre um livro na cabeceira. Às vezes, mais de um. A lista abaixo é a dos livros lidos. Acredito que se tivesse anotado os que comecei a ler, mas não terminei ou pouco evolui, teria mais uns 30 livros para citar.

Difícil indicar ou comentar qualquer um deles. De um jeito ou de outro, gostei de todos. 

  1. a bruxa não vai para a fogueira neste livro – amanda lovelace
  2. Vidas Provisórias – Edney Silvestre
  3. Drácula – Bram Stoker
  4. Hamlet – Willian Shakespeare
  5. Esboço – Rachel Cusk
  6. A sabedoria da natureza – Roberto Otsu 
  7. A garota do lago – Charlie Donlea 
  8. O talentoso Ripley  – Patricia Highsmith
  9. A Uruguaia – Pedro Mairal
  10. A hora da estrela – Clarice Lispector
  11. O reino do dragão de ouro – Isabel Allende
  12. Terapia do chocolate – Cathy Lamb
  13. Lavoura Arcaica – Raduan Nassar
  14. Os detetives selvagens – Roberto Bolaño
  15. A Paciente Silenciosa – Alex Michaelides
  16. O poder do jardim – Roberto Araújo
  17. A revolução dos bichos – George Orwell
  18. Respiração Artificial – Ricardo Piglia
  19. a princesa salva a si mesmo neste livro – amanda lovelace
  20. 1984 – George Orwell
  21. O conto da Aia – Margaret Atwood
  22. O tatuador de Auschwitz – Heather Morris
  23. Sontag – Benjamin Moser
  24. Não é mais como antes – Massimo Recalcati
  25. Intervenções críticas em psicoterapia – Haim Omer
  26. Mitologia Nórdica – Neil Gaiman
  27. Tristes, loucas e más – Lisa Appognanesi
  28. Mentiras Privadas – Frank Pittman
  29. O caderno de receitas de meu pai
  30. Tristes, loucas e más – Lisa Appignanesi
  31. O Ickabog – J.K. Rowling

Neste momento estou com vários livros na cabeceira, decidindo qual será o título que iniciará o ano. Pois, que seja. “O poder do Agora” de Eckhart Tolle é o primeiro candidato sério. Tem também “Banquetes Intermináveis” de Ruth Reichl, livro iniciado e parado na página 102. Sigamos. Que em 2021, muitos livros interessantes pululem no meu criado mudo, sejam lidos, refugados, interrompidos. A hora deles, certamente chegará.

20.000 livros

20.000 livros

Foi o que chamou minha atenção da biografia de Susan Sontag. Ela vendeu sua biblioteca a uma universidade norte-americana pelo valor de hum milhão de dólares. Dinheiro este, usado para a compra de um apartamento para seu filho. 20.000 livros é muita coisa.

Por isso, ao arrumar, limpar e reorganizar a biblioteca me vejo contando meu acervo literário. Mal comecei a epopeia (que deve durar ainda uns 3 dias) e me vejo já cheia de dúvidas: devo contabilizar os livros de meus filhos (requisitados e lidos), a enciclopédia Barsa que era de uso familiar, os livros de viagens, o coleção de Casanova que herdei de meu pai?

… ainda vou decidir. Tem uma fileira de livros de engenharia, livros de publicidade da minha filha, tem os “Onde está Wally?”, “Kalvin e Haroldo”, “Uma história por dia, da Disney”, enfim, o acervo de toda a família: muitos livros foram doados ao longo dos anos (principalmente leituras obrigatórias, livros escolares, atlas e dicionários). Grande parte do que restou, ou é meu, ou do meu marido. 

Por enquanto estou contando. Cheguei em 780 livros, faltando os livros que estão na casa de Lajeado, o nicho não trabalhado, os livros de culinária, os emprestados … enfim, devo chegar aos 1000 livros. 

E 20.000 livros é livro demais. 

As pinhas e o Natal

Alguém mais adora pinhas para a decoração de Natal? Por mim, a árvore de Natal precisaria apenas de luzes e pinhas. Minhas pinhas são antigas e bastante usadas, do tempo em que eu vivia em Lajeado e fazia caminhadas quase que diárias pelo Bairro Carneiros, e trazia em cada mão, como se fosse um peso, uma bela e bem formada pinha caída ao chão. Percebo o quanto elas perderam o viço e a cor. Então, este ano resolvi dar um trato nelas: Carreguei o flit ( que uso para esmaltar cerâmicas) com óleo de peroba e pulverizei uma a uma, depois dei acabamento com pincel velho, deixei secar e elas ficaram assim: como se tivessem acabado de cair do pinheiro. Nada de verniz ou dourados. Pinha bonita é pinha in natura” com peroba.

Sala de jantar – um espaço cheio de história

Tudo começou com a mesa – presente de minha mãe. 

A mesa era da minha avó, mãe da minha mãe. O primeiro passo foi retirar a camada de tinta à óleo cor de laranja. Anderson foi quem fez (conheço o processo trabalhoso e extremamente tóxico de retirada da tinta). Com a peça livre de tintura, usei Osmocolor Natural para a base da mesa e tinta preta fosca para o tampo, judiado por cupins e lascas soltas de madeira. Após tratar e preencher os buracos e vãos com massa de preenchimento de madeira, o tampo foi lixado. Originalmente pensei deixá-lo ao natural como a base. Mas os remendos eram muitos. Algumas demãos de tinta garantiriam um acabamento melhor. A cor preta foi inevitável. Outros móveis e telas representam meu período sombrio e o preto reina absoluto na área social da casa. Preto, a cor da morte e do renascimento.

Originalmente, as cadeiras foram compradas para a copa da casa de Lajeado. Em Floripa, o cromado começou a ser atacado pela maresia, e ficava dia a dia mais enferrujado. Trazer as cadeiras de volta pra casa foi a melhor solução. O problema foi que as cadeiras ficaram baixas para a mesa antiga de minha avó. Antes de radicalizar e cortar alguns centímetros dos pés da mesa, preparei as almofadas com o tecido antigo da venda dos meus avós. A flanela quadriculada foi escolhida pela explosão de cores, que dariam vida ao ambiente sombrio da sala de estar. (E pensar que guardo até hoje uma calça feita com este tecido pela costureira Selma, de quando eu era adolescente.) O pingente na cor uva, feito em casa,  além de segurar a almofada à cadeira, deu um charme único a todo o conjunto.

As telas da exposição Diálogos do Inconsciente contemporizam com o acabamento do armário da tia avó Maria. A placa de madeira entalhada foi encontrada no velho porão, misturado com as lenhas destinadas a queimar no fogão à lenha ou lareira. Salva da fogueira, a placa foi lavada, secada ao sol, e depois, lixada ao estilo provençal. Optei por manter a cor envelhecida da placa, nada de aplicar camadas novas de tinta. O efeito ficou perfeito: do tempo da vovó.

O lustre preto foi a única peça comprada para este ambiente.

Visualizo ainda um velho armário para colocar cristais e louças antigas. O mimo está num galpão, e por enquanto, acomoda sementes, adubo e medicação veterinária. Este móvel era da minha avó paterna Liloca. Quem sabe, num futuro breve, ele venha compor com este ambiente. Depende da boa vontade do meu tio e dos meus primos. Outra possibilidade é trazer uma prateleira cromada, comprada na Tok Stok, cada dia mais enferrujada, sofrendo com a maresia de Floripa. O tempo dirá qual das duas possibilidades acomodará a louça antiga que servirá a mesa de jantar.

Por enquanto, estou feliz pelo espaço criado. Anseio pelos almoços e jantares e noites de carteado, com o retorno dos amigos.

Momento de contemplação

Bom chegar em casa. E casa, para quem ainda não me conhece, é minha casa antiga, encalacrada no interior do RS. 

Depois de 40 dias em Floripa, retornei ontem. Uma passada rápida de 3 horas na casa de minha mãe e depois, o mergulho no meu xangrilá gaúcho. Quem me aguardava era um gato laranja garfinkeliano, postado feito esfinge sobre o portal de entrada da garagem. Não poderia haver melhor recepção. A casa que me acolhe há mais de 25 anos me inunda de paz, boas vibrações e muita energia. Nela encontro minha alma e quem verdadeiramente sou. Meu Santo Graal. É por isso que sempre retorno. Os próximos 7 dias serão de idas e vindas à casa de minha mãe, compras de Natal (reduzidas por conta da COVID19) e de nutrição uterina. Saio renascida daqui para qualquer canto, desencanto ou desafio. 

Há meses que escrevo pouco, mesmo surgindo temas e insights incríveis. Outros compromissos e interesses roubam minha atenção, os assuntos voam com o vento e se perdem nos dias atribulados e desassossegados. Até minhas leituras pontuais se perderam no decorrer do ano. O sono, as preocupações e a desatenção cobraram seu preço. A sutileza literária deixou suas marcas na lista dos livros lidos em 2020. Meu consolo é que li verdadeiros tijolões, livros recomendados da Oficina Literária e muita alta literatura. Pouca poesia, poucos best sellers e nenhum livro de beira da piscina. Minha erudição literária foi uma seriedade só. Tenho de melhorar isso. Pra 2021 tenho algumas ideias de leitura sérias – Proust, Virginia Woolf e Freud – e muito livro leve e muita poesia e muita receita de comida e muito assunto divertido e enxabido.

O ano, de fato, foi de organização, faxina e arrumação. Interna e externa. Exterior e interior. Iniciei pelo ap de Felipe em SP, em janeiro. Veio a exposição dos  “Diálogos do Inconsciente” no CIC, em Florianópolis, também em janeiro. Depois, veio a crise e a COVID19. Em março me mudei de mala e cuia pra fazer um período sabático no RS. Além da psicoterapia individual, usei o trabalho e a criatividade como terapias alternativas.

Tem épocas na vida, em que a gente precisa de um tempo pra reavaliar a jornada, definir ou confirmar os rumos da vida, pra depois seguir em frente, retroceder ou mudar de direção. Fazer arrumações, reciclagem e arte são uma excelente ferramenta para superar crises, deixar a poeira baixar e recomeçar … A vida precisa destas paradas e avaliações. Por isso, me embrenhei na casa de Lajeado, na casa de minha mãe em Colinas, no jardim da casa dela. E agora, pra finalizar, a casa de Floripa. 

Tenho de admitir que estou exausta de combater cupins, mofos e móveis ressecados e descoloridos; restaurar e sucatear móveis, lavar lustres, tapetes, cortinas, colchas e almofadas; selecionar louças, panelas e todo arsenal doméstico embutidos numa casa. Meus artelhos e unhas não suportam mais a química que desentoca a sujeira impregnada; minhas pernas andam bambas e desanimadas dos “steps” forçados pelo sobe-desce de escadas e escadarias. Cheguei à conclusão que para uma boa dona de casa sou uma excelente psicóloga. Desencavo até parafuso, ferrugem ou ponto de mofo. A ideia, tanto na psicologia como na arrumação das casas é livrar-se de tudo que não mais agrega nem faz bem. 

Recentemente baixei toda minha biblioteca e revisei um por um, cada livro, em busca de poeira, traças e mofos – aproveitei e reli lombadas e contra-capas, e céus, se somar todos os livros não lidos que redescobri nas prateleiras, posso ficar sem comprar pelos próximos 10 anos. Aproveitei também e fiz uma contagem parcial, depois de ler que Susan Sontag vendeu sua biblioteca de 20 000 livros por 1 milhão de dólares. Faltando alguns nichos e prateleiras, cheguei a 780 livros. Devo me aproximar dos 1 000 livros. Pelos meus cálculos, sou a feliz proprietária de 50 mil dólares em livros. Óbvio que em terras tupiniquins, ninguém pagaria uma soma exorbitante destas. Pouco importa. Meus livros são companheiros, amigos para todas as horas. E estes, definitivamente não tem preço.

Lá fora agora, ouço o barulho irritante do cortador de grama e do podador das unhas de gato que recobrem os muros da casa. Coincidiu também da PML fazer a limpeza das ruas para o Natal. O barulho é infernal. Mal ouço o CD de Rimsky – Korsakov que toca no aparelho de som. Quem me acalma são os incensos de Alecrim que me cercam. E sei, reconheço e quero que o jardim tenha seus cuidados: gramas desinçadas e aparadas, galhos podados, plantas tratadas. O verão com o sol escaldante, temperaturas exorbitantes e chuvas torrenciais (assim espero) acenam para os próximos dois meses. 

Enquanto isso, olho à minha volta. 

Muito ainda por fazer e providenciar. Devo ter comentado, senão, comento agora: Tenho trazido para meu Xangrilá móveis e utensílios antigos, gastos e estropiados. A ideia é comprar o mínimo de coisas novas e reciclar, reavivar a história de toda a vida que faz parte deste lugar. Tem coisas para sucatear. O tampo de mosaico aguarda finalização. Algumas telas precisam vir para cá. Aqui é o lugar delas. Também aqui é o meu lugar. Como também é o lugar de muitas novas histórias que estão por vir.

 

 

 

Planos, sonhos, projetos, ou … delírios? Quem poderá saber.

Acordei mega motivada. Isso é bom. A vontade era de fazer tudo o que rondava minha cabeça. Adoro quando me empolgo com alguma coisa. É como paixão. Vai pipocando e ardendo até que não tem mais jeito. Tem que levantar da cama e começar. Qualquer coisa. Sei também que tudo que é demais ou exagerado e acaba não saindo do plano das ideias, acaba por me desmotivar. Acordei disposta a colocar a casa em ordem, a roupa pra lavar, fazer meus crochês, terminar o tampo de mosaico, escrever posts pro blog e começaria a programar uma ideia que vem me assuntando algum tempo. 

E se eu abrisse uma galeria de arte? 

Esta ideia vem me sondando desde que um imóvel de minha mãe ficou desocupado. Por que não? Poderia repaginar o espaço pra atender minha veia artística e também minha veia terapêutica. Ter um espaço pra me dedicar a duas das minhas paixões, a arte/escrita e a psicologia … mas, o que seria dos planos se não fossem os mas … tenho uma vida em Florianópolis, casamento, marido, casa, pacientes … como conciliar tudo isso? 

Um projeto. O sonho que existe. 

Talvez não seja o momento. 

Como fazer para conciliar duas vidas?

Delírio. Talvez.Quem sabe mais adiante.

Pra variar, andei perdendo anotações … faz parte

Como entender, e pior ainda explicar, que perdi o arquivo “Livros lidos em 2019”? Na beira da piscina, uma cervejinha gelada, distraída, salvei uma poesia na pasta pra postar. Substitui 48 títulos lidos por uma poesia. Ao longo dos anos perdi muitos arquivos e documentos com bobeiras assim. Pensei que estivesse blindada. Tentei reverter e acabei perdendo mais coisa ainda. Parei com tudo e forcei o computador a encerrar. Recuperei alguns arquivos abertos, mas a pasta dos livros lidos, não. Dizer o que: li quarenta e seis livros em onze meses e meio (dois inacabados: “Detetives Selvagens” de Bolãno e “Poesias” de alguém que esqueci o nome: Eliot?). Ainda não tinha definido meu livro favorito do ano: Memórias de Jung? 41 inícios falsos, de Janet Malcolm? Pedro Páramo? Certeza tenho dos dois últimos livros lidos e odiados: um útero do tamanho de um punho, de angélica freitas e A verdade é uma caverna nas montanhas negras, de Neil Gaiman. Deve ter sido castigo. Meti pau. Levei pau. Vou buscar na memória e nas prateleiras pra listar os títulos lidos e perdidos durante o ano.

Dia dos Pais sem Internet

Difícil ficar sem. Ainda mais no Dia dos Pais. Não sei se o problema é geral ou particular. Será que tem zilhões de pessoas tentando contatar os pais e por isso o sistema está congestionado, colapsado, truncado? Quero acreditar que seja isso. Imaginar ter de chamar algum técnico da OI, TIM ou VIVO chega a me dar cólicas, ainda mais em tempo de pandemia, com uma semana cheia de compromissos, e a atendente, certamente vai marcar qualquer hora do dia. Das 8 as 18 horas e eu presa em casa esperando, esperando. Recém é domingo e pelos meus cálculos o melhor dia para perder será na quinta-feira. Talvez não seja nada disso e daqui a pouco o sistema se restabelece assim, magicamente. Seria demais. Improvável demais. Já cansei de tirar o plug da tomada, contar até 30, recolocar o plug na tomada, e, nada. Continuo sem internet. Às vezes,  uma enxurrada de notificações pinga feito pingo de chuveiro persistente. É o tempo de eu chegar ao telefone e então ele emudece, na maior covardia, e por mais que eu mexa nas configurações do aparelho nada acontece. Começo a ficar encucada que de tanto mexer nas configurações do meu aparelho, ele esteja irremediavelmente desconfigurado. Será caso de oficina? Um aparelho novo? Vou esperar pra depois das 22 horas. Quem sabe depois da meia noite, mas daí já passou o Dia dos Pais. Meu pai não liga pra este tipo de coisa. Já abracei o retrato dele hoje. Fazem anos demais que não o vejo, nem ouço sua voz. Chorei e me emocionei feito criança ao encontrar fotos 3X4 escondidas na minha carteira, entre cartões de apresentação antiquíssimos e desatualizadíssimos. Depois de uma devassa nas mídias sociais e a certeza de não ter nenhum álbum dele na casa onde estou passando a temporada, foi um alívio encontrar aquelas fotos. Quatro fotos antigas e de idades diferentes. A última a mais próxima da imagem que guardo com amor e carinho em minha memória. Foi minha mãe quem as deu ao longo dos anos. Com a separação conjugal, e depois, com a morte dele, volta e meia ela encontra objetos dele e pergunta se eu quero. Claro que eu quero. Aliás, minha última aquisição foi uma navalha de tirar a barba, Por algum motivo, e prefiro não ser freudiana nem Agatha Christi ou Sherlock Holmes a guardei no criado mudo. Vai que eu precise. Assim como guardar estas fotinhos 3X4 na carteira foi uma ótima ideia. Hoje eu precisei e lá estavam elas. Bom saber que tenho meu pai assim, na palma da mão. Tem dia que é tudo de que a gente precisa. Obrigada pai, por esta  eterna disponibilidade.

Souplats, souplats, souplats …

Então, este ano, sei não: ou monto uma lojinha ou todo mundo pra quem preciso dar presente de aniversário, dia das crianças, Natal e Reveilon (já que o dia das mães, das avós e dos namorados já passou) vão ganhar souplats de crochê. No final de 2019, ainda animada com as aulas de crochê e motivada pelas colegas, melhor dizendo, indo na onda delas, fiz uma compra substancial de fios para as aulas de 2020, que ainda não aconteceram, nem vão acontecer. Os fios, foram devidamente empilhados e organizados na prateleira do crochê, ou ensacolados, ou escondidos atrás das pilhas de roupas e não me fizeram esquecer da sua presença. Eles queriam ser algo além de possibilidades.

De rolo em rolo, de cone em cone, fui pegando um a um e encarnei a fazedora de souplats. Acho que inspirada, ou desafiada pela colega Isa, que fez mais de 200. Talvez porque foram os souplats o que mais gostei de fazer. Sei lá. Além dos puffs, que já foram presenteados a todo mundo que demonstrou interesse, fiz algumas flores e uma bolsa escroncha (onde guardo meus bonecos de ludoterapia). Ou seja, de tudo que aprendi, sobraram os souplats pra dar conta dos fios comprados.

Pelas minhas contas já dei uns 20 souplats de presente:

  • souplats para a amiga Dirce (pela atuação nos 80 anos de minha mãe. Sim, ela mereceu o mimo cor verde musgo que deveria ser da casa de Lajeado, por fritar rissoles e pasteis, servir as mesas, cortar o bolo, servir bebidas e lavar louças e limpar a cozinha.);
  • souplats dei de presente para minha ex-nora que ainda era minha nora na época  e que agora não é mais, agora os souplats são do meu filho porque minha ex-nora não queria saber de levar nada que a lembrasse do meu filho nem da família dele. Ou seja, os quatro souplats do apartamento do meu filho, e que, originalmente era pra ser da casa da praia por conta da cor azul espetacular e que minha ex-nora adorou e depois refugou, eu sei e já que fui eu quem guardei, estão no fundo do box da cama de casal e que provavelmente ele ainda não usou e conforme for minha futura nora, nunca vai usar.  Assim mesmo, pertencem a ele e quem com ele estiver.
  • souplats para minha mãe, e estes, sei que são usados diariamente, já que sou eu quem veste a mesa na casa dela, sempre que estou lá. Tenho como mantra de vida que a gente também come com os olhos e que uma mesa bem vestida alimenta 50% da fome. Louças, talheres e guardanapos também fazem parte do pacote. Eu garanto a porcentagem com o charme do souplat de crochê. E sei o quanto esta porcentagem representa!
  • souplats pra minha amiga Angela, que mora entre as araucárias e as ovelhas na serra catarinense e que está recomeçando a vida numa casa emprestada, e continua cheia de sonhos e projetos aos 66 anos, divorciada e falida. Achei que os souplats cor de nozes dariam algum tipo de aconchego a ela. Acho que ela gostou. Por precaução, levei de presente um creme para o corpo da Natura, porque naquele frio de renguear cusco, a pele resseca feito crosta de pão italiano.
  • Total de souplats dados = 20. Acho. Talvez alguns estejam perdidos entre amigos presenteados de improviso. Preciso preparar uma lista, vai que eu repita o presente. Se bem que, nunca é demais ter souplats a mais em casa. Acho eu.

Continuando com minhas contas devo ter ainda uns 10 souplats 100% prontos. E mais alguns em fase final. E fase final pra quem trabalha com fios sabe que é porque faltou uma quirelinha de linha pra terminar. Porcaria.E agora, cá estou eu definindo o que fazer com os ditos cujos souplats com 1 ou 2 carreiras faltantes:

1. Arremato com a mesma cor, que não é mais a mesma cor, já que a partida é outra. Pra quem não sabe o que é partida de linha, o número e a cor de um novo novelo/cone/rolo pode ser a mesma da que foi comprada anteriormente, mas a partida refere-se ao um novo tingimento que aconteceu em outro momento e não existe nenhuma garantia de que a cor seja exatamente igual à primeira, e óbvio, você que sabe deste detalhe, vai ver com a precisão de uma águia, a tonalidade diferente das duas partidas diferentes da mesma cor; ou

2. Faço o acabamento com uma cor totalmente diferente, tipo marrom com bege, vermelho com preto, azul com amarelo; ou

3. Desmancho o souplat e vou juntando as sobras de todas as linhas trabalhadas e monto souplats planejados com sobras de cores e carreiras planejadas?

A resposta é simples: Depende do trabalho que quero ter.

 

 

 

Sobre o fracasso

“Mas, que é, disse, um fracassado? Um homem que não tem, talvez, todos os dons, mas muitos, inclusive bem mais do que os comuns em certos homens de sucesso. Tem esses dons, disse, e não os explora. Ele os destrói.  De modo, disse, que na realidade destrói sua vida. Devo confessar, disse Tardewski, que eles me fascinavam. Todos esses fracassados que circulam, especialmente nos arredores dos ambientes intelectuais, sempre com projetos e livros por escrever, fascinavam-no, disse. Há muitos, disse, por toda parte, mas alguns deles são homens muito interessantes, principalmente quando já começaram a envelhecer e conhecem-se bem a si mesmos. Eu corria para eles, disse, naqueles anos de minha juventude, como quem procura os sábios. Havia um sujeito, por exemplo, que eu via muito. Na Polônia. Esse homem se eternizara na universidade sem jamais decidir-se a prestar os exames que lhe faltavam para se formar. Na realidade abandonara a universidade pouco antes de obter seu diploma de matemática, depois largara a noiva no dia do casamento. Não via nenhum mérito especial em realizar fosse o que fosse. Uma noite, me diz Tardewski, estávamos juntos e nos apresentam uma mulher que me entusiasma, que me agrada demais. Quando observa aquilo, ele me diz: Ah, como? Por acaso o senhor não olhou para a sua orelha direita? A orelha direita? Respondo-lhe. O senhor está louco, não me interessa. Mas vamos, dê uma olhada, disse-me ele, conta Tardewski. Dê uma olhada. Veja. No fim dou um jeito de ver o que ela tinha atrás da orelha. Tinha uma verruga horrorosa, enfim, uma verruga. Tudo foi-se por água abaixo. Uma verruga. Percebe? O sujeito era o demônio. Sua função era sabotar o ímpeto dos demais. Era um grande conhecedor dos homens. Tardewski disse que na juventude interessara-se muito por pessoas assim, por pessoas, disse, que pareciam sempre estar olhando em excesso. Tratava-se disso, disse, no fundo, de um modo particular de ver.”

(Respiração Artificial – Ricardo Piglia, p. 138)

Jardinando 1

A fase é de desbravamento. Ou, de reconhecimento.

Jardinagem, ou paisagismo, como preferir, é assunto antigo entre os temas de interesse. Lembro do meu gorjeio de menina moça, junto ao meu primeiro namorado (e ainda marido, 42 anos depois) do quanto gostava de plantas e jardins. Gostava sim. Não era mentira pra encantar nem fisgar alguém. Os anos passaram e com eles vieram outras  fases e interesses: os filhos pequenos, a faculdade, a carreira de psicóloga, o casamento, as viagens, a arte, o artesanato, a literatura, as crises, os conflitos, o dia a dia cheio de mistérios, metas, sonhos e realizações.

As constantes mudanças/transferências profissionais e a vida em apartamentos ou casas alugadas não me envolveram com a questão da porta para fora de onde eu e minha família vivíamos. Mantinha o que me era ofertado/alugado. Até nos mudarmos para nossa casa no interior do RS.

Nossa primeira casa, nosso primeiro jardim.

Quem inicialmente se envolveu com o jardim foi meu marido, para quem, jardinagem era sinônimo de força. Força para carregar pedras e terra e plantar o gramado e todo tipo de plantas. Deste primeiro jardim, lembro-me dos crisântemos roxos, do Buganvile cor de rosa, das Unhas de Gato, das árvores frutíferas (bergamoteira, jabuticabeira e bananeiras) e da cerca viva de cipreste. Felizmente a carreira de engenheiro e de jardinista/jardineiro/paisagista não se conciliaram. Fui autorizada a assumir o jardim. Tão logo foi possível, contratei uma renomada paisagista (mas nem tanto, já que esqueci o nome da dita cuja). Com ela veio a equipe de jardineiros, dois caminhões de plantas, terra, pedras e seixos rolados e cinco dias de muito esforço. Para eles. Coube a mim a agradável tarefa de acompanhar o andamento dos trabalhos. Desta época sobraram as pedras, as Dracenas, o Croton vermelho e as Strelitzas. Os Bambus Mossôs, as Moreias, os Rabos de Gato e as Bromélias Imperiais sucumbiram ao clima, à cachorra Aisha e ao passar do tempo.  Com a reforma dos pisos e a troca da pedra São Tomé, na beira da piscina, veio a terceira versão paisagística, sob a tutela da amiga Marlise, proprietária de um dos maiores e mais belos viveiros de plantas do RS: a Floricultura Toque Especial.  Foi ela quem trouxe as Fênix e as Cicas. Os Aspargos, as Dracenas Verdes e as Gramas Pretas. Mais pedras e o remanejamento das Dracenas Rosas. E os maravilhosos Kaizucas. Surgia então a ideia de um jardim perene, de pouca manutenção e alta resistência. Com o passar do tempo veio a última versão do jardim, com o acréscimo dos Cactos, das Orquídeas em alguns recantos e as Algarves na sacada dos fundos de casa. E este jardim tem se mantido bem nos últimos 12 anos, que, além das podas frequentes e do corte da grama Esmeralda, requer agora uma pequena repaginação. Com a adubação anual (realizada entre maio e junho) as plantas agigantaram, os cactos tomaram conta dos seus  e de outros espaços e as orquídeas tombaram junto com os xaxins que as acomodavam.

Pensei em adequar o jardim. O primeiro passo seria contratar um jardineiro 4 horas por semana para dar novos contornos aos quatro cantos do jardim. Ele veio apenas uma vez. Choveu, choveu, surgiram outros compromissos, desisti. Do pouco que fizemos foram retirados os excessos de cactos e a arrumação do antigo canil/hospital das plantas. A poda e adubação da bergamoteira e da jabuticabeira. E a redução substancial do bananal. Foi o que deu para fazer neste momento.

Hoje preparo um outro jardim, num outro lugar, para outra vida.

Porque assim é a vida. Um eterno e constante vir a ser.

Sobre os bonsais

“O bonsai despreza a juventude. Um tronco lisinho, esguio, sem marcas do tempo, nada vale. É admirado exatamente aquele que tem em suas formas uma história para contar. Sinais que falem dos ventos que sofreu, da disciplina com que foi moldado, do que o tempo fez com ele. Se a gente aprendesse só esta lição com os bonsais, quanta angústia seria evitada: é a velhice que merece ser admirada e valorizada.”

“O bonsai é o resultado de um ser humano brincando de Deus, testando limites e tentando dominar a natureza enquanto procura a si mesmo. Com todo o respeito pelos admiradores desta arte, eu acho que todo bonsai é triste. Como se a alma de um velho estivesse presa num corpo de criança, apenas para satisfazer a vaidade humana.”

( O poder do jardim – Roberto Araújo, pg 46)

O Cambará

Andando pela plantação de alfafa – serena e tranquila, eu – o olhar perdido nas videiras podadas e amarradas (pobrezinhas), nas araucárias solitárias e imponentes, feito povo em pé, entre ovelhas e caixas de abelhas, o avistei de longe.

Parecia um lutador de box.

Com luvas fofas e arredondadas de vermelho,

ou laranja, amarelo ou verde.

Conforme eu rodava, o Cambará também rodava,

e rodavam as cores e as formas. Rodava eu também, encantada.

Zanzei de cá pra lá e de lá pra cá, o dia todo, e ao por do sol, pé ante pé, a memória do olhar, ainda tamborilando, conduziu-me a olhar de perto, quem pela manhã me seduziu.

O Cambará.

A árvore de casca grossa e alma antiga, ostentando seus galhos secos, quebrados e retorcidos pelo tempo, pelo frio, pelos ventos, geadas e nevascas, calorões infernais e sol inclemente. Ele sabe. Ela sabe. A natureza sabe ser implacável e cruel, e o cambará, de dias contados, resiste heroicamente. Sabe do seu tempo.

Sabe da imprevisibilidade do tempo e da vida.

Enfeita-se de colares, anéis e braceletes de bromélias coloridas. Um Cambará perua. Quem diria.