Enfim, a Páscoa

Ano após ano, percebo o quanto me é difícil preparar a casa para a Páscoa. Sei que muitos mal sabem que existe decoração de Páscoa. Existe. E é tudo muito fofo e bonito. São ovos e coelhos de todos os tipos e tamanhos, materiais e opções. Mas, sempre, e em todo o tempo, nada comparável ao Natal. Enquanto tenho mais de 15 caixas de apetrechos natalinos, para a Páscoa tenho apenas 2 caixas. Alguns coelhos, ovos de avestruz, e se tiver sorte, um cheiroso e perfumado bouquet de chá de macela, colhido no mato e abençoado na manhã da sexta-feira santa. 

A Páscoa mexe com minhas emoções. 

Todo o calvário de Cristo – sempre encenado e lembrado no colégio franciscano em que estudei – tem cada vez mais significado e importância em minha vida. Se a história de fato aconteceu, não sei. O que cada vez mais sei é dos sacrifícios que pais e filhos, a humanidade inteira faz por conta de injustiças e incompreensões. 

O que ando lendo

Pouco. Muito pouco mesmo. Faz mais de mês que me arrasto com o livro de Scott Turow: “Heróis comuns”, sobre a Segunda Guerra Mundial. Meio livro lido. Mais de 200 páginas de um total de 420. Tenho lido vários livros sobre este período histórico. O objetivo é me preparar para ler a biografia de Hitler depois de 4 tentativas fracassadas. 

Se bem que, fevereiro também não foi um mês muito bom para a leitura.

1. “A consciência de Zeno” consumiu pelo menos duas semanas de leitura estafante, meticulosa e pouco atrativa. Se tivesse prestado mais atenção, teria começado lendo o último capítulo sobre a Psicanálise e só então iniciaria a leitura. Escrever o livro foi a prescrição psicoterapêutica feita pelo psiquiatra de Zeno para aplacar seu vício por cigarros. 

2. “Assim foi Auschwitz” de Primo Levi e Leonardo de Benedetti, conta o que foi o Holocausto e Auschwitz através de textos e testemunhos. Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, pouco se falava sobre o assunto dos campos de extermínio. Os dois escritores sobreviveramnos campos de concentração nazistas e tomaram para si a missão de quebrar o silêncio, documentar, escrever e publicar sobre o ocorrido, a fim de evitar que este horror aconteça novamente.

3. “Arte como terapia” dos filósofos Alain de Botton & John Armstrong é uma leitura muito interessante. Como arteterapeuta, foi o primeiro texto de arteterapia que li nestes últimos anos. O papel e a importância da arte como terapia, como símbolo e identidade pessoal, regional, nacional e internacional. Pra quem gosta do assunto, o livro apresenta obras de arte e projetos arquitetônicos conectados ao contexto histórico. 

4. “Clarice Lispector – Pinturas” de Carlos Mendes de Sousa – Vc sabia que Clarice Lispector também pintava? No livro aparecem fotos das obras de Clarice, seu interesse pela pintura, amigos artistas, reportagens e entrevistas e conecta a escrita e a pintura da escritora. 

PS. Sorry!!!! Além de ler pouco, tenho escrito pouco também. E o pouco que escrevo tem sido tipo “anotação”. Nada de grandes revisões. Tem valido mais o registro da vida que segue e acontece. Uma hora, quem sabe, talvez num passe de mágica tipo varinha de condão, se abra um portal e a literatura volte a aparecer.

A quinzena

Os dias passam, e cada vez mais, o cansaço me alcança. As pernas doem, a coluna reclama, os braços recusam a carga. Se me perguntarem o que quero, eu quero é dormir. Olhar TV desanima: só notícia ruim (é a COVID19, é a política, a corrupção, a inescrupulosa humanidade que tanto maltrata a natureza, os animais e seus semelhantes). Só notícia ruim. 

Duas semanas atrás me embrenhei, impetuosamente, no meu refúgio no RS. Precisava de silêncio, paz, sossego, leitura, música clássica, silêncio, a cama. O silêncio. O silêncio. Basicamente o silêncio. Era tudo o que eu queria. Me joguei na cama assim que cheguei. E lá fiquei por dois dias. 

Devagar fiz contato com o mundo, via telefone convencional, que aliás, pretendo manter.  Ele dá a medida perfeita da distância necessária pra me manter inteira. Aos poucos, dei sinal de vida e me coloquei à disposição. E cá estou eu, descarrilada de novo. Ao dizer “queres que providencie algo por aqui?” desabei ladeira abaixo: contratei um pintor e aluguei minha casa.  Meu refúgio, meu Xangrilá. Não tinha como não descarrilar!!!! Nem sempre o melhor ou o pior é o que nos deixa mais felizes. Muitas vezes é necessário agir, mudar, seguir em frente, desapegar.

A casa estava à venda há um bom tempo. E por mim ficaria assim ainda por um bom tempo … mas, andava cansada até do meu refúgio. Por isso, quando apareceram dois interessados – Ricardo e Marlon – para alugar, com possibilidade de venda futura, decidimos arriscar. Optamos por Ricardo. Imagina a viagem que foi preparar a casa de 27 anos, pra render uns trocos, reduzir o trabalho e praticar o desapego. Uma correria insana entre discussões contra e a favor de “isso joga fora”, “vou levar pra casa da minha mãe”, “vou levar pra Floripa”, “melhor deixar na casa”. Foi um leva e traz, empacota, contrata caminhão, acomoda apegos … enfim, fiz a minha parte e retornei à Floripa. 

Neste meio tempo, um acidente horrível, com a explosão de um caminhão carregado de combustível, interditou a ponte e atrapalhou enormemente minha rotina e de toda a cidade; aproveitei a volta pra Floripa e adiantei o implante dentário; chegando em casa, a triste notícia de que um pit bul mordeu o rosto da filha de 2 anos da minha assistente doméstica, ambas internadas. Me joguei na cama de novo. Cansada, aflita e revoltada.

Passados dois dias da minha chegada, ainda não descarreguei o carro. Tenho lido e escrito pouco. Comi todos os doces que encontrei pela casa + o proibidíssimo amendoim torrado = ansiedade máxima. Me refugiei no jogo de paciência Spider Solitarie no computador e nas mídias sociais.

É sábado e a ideia de caminhar na praia, tomar sol e retomar a organização da casa não vai acontecer. Acordei cedo demais – com o barulho da bomba de rebaixamento do lençol freático da obra da casa do vizinho.

Preparei meu coquetel de “levantar defunto”: vitaminas e antidepressivo. Para os sintomas, remédios.

O resto, o tempo ajeita. Tenho aprendido a me dar tempo e respeitar meu tempo. 

O consultório vai bem e ele me faz muito bem.

Assim como eu, tudo tem seu tempo. 

Há de chegar a hora em que o viver será mais brando.

Toda hora chega

Rodei o carro e o corpo. Rodei à baiana.

Foi preciso, mais que necessário.

Tem comentário e impertinência que merece a ira dos Deuses e o asco dos mortais.

Tem gracinha que alastra maledicência.

Subserviente não sou, não sei, não serei jamais.

Engolir sapos e trasgos. Arrrrrggggg Vomito. Estrebucho. Grito. Sapateio. 

Soco a pele delicada dos sentimentos.

Me afeto, me rasgo, me esparramo inteira. 

Retalhada, me arrasto em busca de colo e fala mansa.

Me remendo em pontos grandes e mal feitos.

A pele afetiva se emenda, se remenda, se regenera no sussurro das palmeiras, no pio dos bentevis.

Vou ficar de orelha em pé, nada de chorar as pitangas, nem andando de rédea solta, muito menos no cabresto, como dizem na minha terra.

Vou largar campo afora o que me desforra.

Por ora, espero a hora.

Um dia, toda hora chega.

Perdão

Quando lembro  

do que vivi; 

do que me aconteceu;

do que aconteceu aos outros;

do que tive de suportar;

do que tive de engolir;

do que tive de fugir;

do que permiti que fizessem comigo;

do que senti;

do que menti pra mim mesma;

do que menti para os outros.

Lembro 

da coragem que me abandonou,

do medo que me paralisou,

da vergonha que senti,

da indecisão que me confundiu,

da desesperança que me invadiu,

do ódio que ainda hoje me aleija e que me faz lembrar, 

de tempos em tempos, 

do que eu poderia ser ou ter sido. Quem sabe algum dia, ainda serei.

Quem sabe neste dia, quando olhar para trás,

entenda que tudo que aconteceu, tinha de acontecer.

E que do meu jeito, 

fiz o que pude de melhor.

Sem críticas. Sem comiseração. Sem culpa.

Por enquanto, 

deslembrar me desmembrando tem sido o caminho.

Minha verdade e vida.

Que meus filhos entendam e me perdoem.

Pois, jamais me perdoarei. 

Não existe perdão pra tamanha hesitação.

Raivosa

Acordei com a pá virada.

Igual à pá dando patadas no terreno

da obra, eclodindo feito tempestade, do ladinho do quarto.

O dia mal surge por detrás das cortinas de linho 

acinzentado.

Salto da cama, tonta ainda.

O espelho confirma o temporal que se aproxima.

Os martelos se apresentam. 

Faço café e uma longa lista de afazeres.

“Pq vc não vai pra casa de sua mãe?” Fui. 

Seiscentos quilômetros de olhos esbugalhados,

Chorumela e raiva,

chego no meu refúgio. 

Ainda raivosa, descarrego o carro. Desabo inteira.

Abro portas e janelas. 

O silêncio me abraça. A brisa leve, afaga. O sol abranda e me embala.

Me acalmo. A longa lista de afazeres cresce.

Calmamente.

Ecologia caseira

Tenho um marido ecológico, como diria uma amiga, cujo marido é igual ao meu. Aposentado, é ele que insiste em ser o jardineiro da casa. Numa rápida avaliação diria que ele é ótimo com as gramas: no corte, poda e adubação. Com relação aos canteiros, uma lástima. Tudo que germina vai crescer e florescer. Desde as sementes defecadas e espalhadas pelos pássaros, até as plantas que brotam, crescem e se esparramam por todos os lados. Ninguém pode mexer. É a natureza. E assim, as fênix mais parecem buxos gigantes, as Costelas de Adão sobem paredes, os bambus viraram paliteiros no jardim, as experiências com plantas se reproduzem em escala industrial, as orquídeas viraram uma cidade de vasos, e, sempre, segundo ele (de vez em quando, segundo eu) tem uma orquídea raquítica florescendo. Tem os dinheirinhos e outros inços, que de vez em quando, são tirados à faca. Nossos amigos, quando vem nos visitar, sofrem pra chegar na área de entrada da casa: além da escada em V (um erro grosseiro de arquitetura) ainda precisam desviar das Costelas de Adão, pois é inevitável não roçar nas folhas gigantes da planta que avança sobre os degraus. Não sei exatamente o que aconteceu, pois fui eu quem comprei as Costelas de Adão, pensando que fossem do tipo mini: ou me enganaram/enganei com as mudas ou foi excesso de adubo. Só sei que minhas plantas favoritas são as Senhoras da Entrada da casa, postadas feito cavaleiros medievais em suas armaduras de aço. Depois de anos tolerando todos os excessos pelos quatro cantos da casa e abrindo mão de um dos grandes prazeres de estar e contemplar um belo jardim, dei um ultimato: ou meu marido  muda o jardim ou eu mudo. Dia a dia vou olhando com o rabo do olho todas as possibilidades e começo a projetar uma enorme reforma no jardim. De uma coisa, tenho certeza. A transformação vai acontecer. Ou muda o jardim, ou mudo eu. De casa.

Igualzinho à minha mãe

A gente passa a vida tentando ser diferente da nossa mãe, quando a gente vê, tá igualzinho a ela. 100% ainda não! Mas no caminho … 

Enquanto arrumava meu closet me peguei falando pra minha assistente:

  • Céus, este vestido deve ter uns 25 anos. Esse terno era do tempo em que eu clinicava, deve ter uns … 18 anos;
  • Este sapato comprei numa loja que eu adorava, a loja Tal, que pena que fechou. Lá, tinha tudo que eu precisava;
  • Comprei esta bolsa na viagem que fiz para o Chile fazem uns 15 anos. Vou guardar mais um tempo porque a moda de bolsa com franja vai voltar.
  • Esta blusa comprei pra festa de 1 aninho do Felipe.
  • Esta biju era da Fernanda, minha filha. Ela disse pra passar adiante. É uma pena, tão bonita esta biju. Guardei pra mim. Mas nunca usei. Uma pena passar adiante. Talvez um dia eu queira algo assim e não encontre. Volta pra caixa.

Igualzinho à minha mãe. Mudam os tempos, os elementos, mas a essência é a mesma. Chego à conclusão que meu closet e os armários da minha mãe, estão se transformando em Museus da Moda da Família. 

Sumiço

Enquanto organizava o armário, um fio de ouro com uma bolinha na ponta e uma argola na outra ponta, desapareceu bem diante dos meus olhos. O fio faz par com outro e ambos dão um toque especial em alguns brincos pouco especiais. É só encaixar o fio que o brinco se transforma. Tudo aconteceu quando retirei minha caixa de quinquilharias e bijuterias do esconderijo entre as caixas de mantas e cachecóis e bolsas de sair à noite. As bolsas são aquisições de mais de 30 anos, das ruas José Paulino e 25 de Março, em São Paulo, outras foram trazidas de viagens. Todas pequenas no tamanho, mas enormes no charme. A maioria, vintage. Os cachecóis seguem a mesma moda. Antigos, exclusivos, de boa qualidade e baratos. Especialmente, lindos. As caixas de quinquilharias, que é como as chamo, tem de tudo que cabe nos dedos, pulsos, garganta, cabelos e orelhas. São duas. Uma para o dia a dia, outra para eventos, ocasiões especiais, coisa tipo chick. É nesta caixa que estava meu fio de ouro com bolinha. Estendi um lençol sobre a cama e despejei braceletes, anéis, relógios, brincos e outros apetrechos tão abandonados quanto minha dieta. Fui limpando e conferindo o estado de cada peça. Selecionei as que ainda combinam comigo, separei e as recoloquei na caixa, agora limpa e refrescada com pano úmido e vinagre e arejada ao sol. Uma a uma fui realocando as peças que prometi voltar a usar, quando me deparei com apenas um dos fios com a bolinha na ponta. De tão pequeno e insignificante que é, imaginei que pudesse estar enroscado em algum bracelete ou brinco. Enquanto guardava as quinquilharias, fiquei de olho no fio sumido. Lembrei de um anel perdido, de brincos e tarraxas de brincos desaparecidos … Logo eu que sou atenciosa e cuidadosa com este tipo de peça de valor sentimental (lembro da vez em que levei um pingente de rubi, que na verdade era de acrílico, presente de primeira comunhão que ganhei da minha avó materna, para compor com uma pedra ametista, presente de uma grande amiga, numa joalheria reconhecida. Guardo esta peça até hoje e só a uso em ocasiões muito especiais.) Enfim, tem coisas que simplesmente somem, como se um buraco negro as engolisse. São meias, grampos e livros que somem como num passe de mágica. Quase conformada com este destino inevitável, vibrei ao encontrar o fio de ouro com a bolinha na ponta, agarrado na barra do lençol. É preciso ficar muito atento ao mexer com as quinquilharias de valor sentimental. Como num passe de mágica, elas podem sumir e reaparecer.

Feliz da vida, devolvi o fio a seu par. Devem estar felizes da vida, juntinhos agora, na caixa de quinquilharias e bijuterias.

Livros chatos

Ando cansada de ler livros chatos. Consegui a façanha de sequenciar dois livros chatos, depois de ler outros dois livros chatos. Fevereiro foi uma chatice em termos literários. Quatro livros chatos. Talvez seja eu a chata do mês. Felizmente o chato do verão está indo embora. Espero que a chatice de tudo e todos se abrace ao verão, pegue carona e suma. Só pra deixar claro: li quatro livros em fevereiro. Todos chatos.

Final de tarde

Enquanto lia “Clarice Lispector – Pinturas” de Carlos Mendes de Sousa,

o corpo cansado e dolorido descansava no estaleiro chamado cama.

O dia foi de arrumação e limpeza. Tipo excessivamente trabalhoso.

À minha volta, tapetes de caixas, roupas e calçados…

Deveria arrumar, sei disso. Mas, não dá. Blá-blá-blá, blá-blá-blá.

Vamos dar um mergulho? Caminhar? Sair de casa? Convida meu marido.

Levanto. A lombar grita. Os joelhos estralam …

Vamos. Vamos caminhar.

As pernas protestam. 

Os braços balançam abobalhados como eu. Eu e minha vontade.

Sim. Vamos. Vamos caminhar sim. 

Jurerê, terça-feira, 23 de fevereiro de 2021, 

em plena pandemia de COVID19, final de dia e temporada. 

São poucos os caminhantes,

poucos são os banhistas e turistas.

A maré está baixa. 

O mar cinza espelha o céu nublado e mal ondula no horizonte.

Caminhamos ao Il Campanário, um pouco mais … Regressamos. Suamos. Cansamos.

Jogamo-nos ao mar de águas mornas e ondas serenas.

Alguns peixes cambalhotam em volta, de olho num cardume de peixinhos em trânsito.

Compreendo as pinicadas e tropeçadas destes minúsculos seres,

devem estar apavorados com os peixões que nos cercam, batendo em retirada.

Batendo em nós também.

Me distraio com o sol que começa a baixar por entre nuvens e montanhas.

Sublime como todo por do sol,

o por do sol em Jurerê, com a Fortaleza de São José da Ponta Grossa,

  • vulgo forte da Praia do Forte – e a montanha, atiçam o olhar.

De repente, num virar de corpo e piscar de olhos

surge, rente ao horizonte, a um dedo do agora, mar azul petróleo, gaivinas do mar anãs.

Quem sabe são gaivinas de faces brancas ou gaivinas de asa branca, 

talvez gaivotas do bico preto. 

Não sei ao certo. Sou péssima conhecedora de pássaros. 

Se tem penas, bico e asas é pássaro. Qualquer pássaro.

Mas, que pássaro seria aquele, que, em bando, vários bandos,

mais de vinte bandos, pareciam regressar, em bandos, para um mesmo lugar?

Continuei pesquisando que pássaro era aquele. Tem penas, bico e asas … (Descobri que eram talha-mares, conhecidos também como corta-água, talha-mares-pretos, corta-mar, bicos-rasteiros, gaivotas-de-bico-tesoura ou paaguaçus. Ou, como diriam no Pantanal, taiamãs).

O que sei, de verdade, é que tanto eles quanto nós, precisavam retornar.

Voltar pra casa foi o espetáculo daquele final de tarde.

Voltar pra casa deveria ser sempre um grande espetáculo.

Também nós retornamos.

10 anos de bySuzete

Bom gravar esta data: 25/02/2021. 

10 anos de bySuzete

+ de 1080 posts. 14 categorias + 9 sub-categorias. 

Um projeto de curto/médio prazo que se tornou projeto de longo prazo. Assim como tantos outros projetos, o BySuzete.com nasceu com um propósito, que se renovou e se adaptou a novas necessidades e objetivos. De exercício literário transfigurou-se naquilo a que, de fato, ele se destina: um diário. Um espaço que registra tudo aquilo que importa na passagem do tempo. Abandonei-o durante alguns meses quando se abriu uma cratera em minha vida. Percebi o quanto era importante ter este espaço de escrita e o reativei. 

Não escrevo sempre. Escrevo sobre o que gosto, sobre o que faço questão de um dia lembrar. Escrevo sobre arte e artesanato. Psicologia e poesia. Me diversifico nas miniaturas e ideias alheias. Gosto de refletir sobre a vida e meu cotidiano. Gostaria de ter mais tempo e escrever mais. Me diversifico neste temp, quase sempre curto, e exploro curiosidades. Quando releio posts antigos, resgato o que vivi, senti, sonhei, pensei ou fiz, num outro tempo e lugar. Alguns textos mais pessoais, nem sempre caem neste caldeirão bysuzete.com. Melhor assim. Eles que fiquem guardadinhos e seguros onde estão. Às vezes, a poesia os nomeia e os define muito bem. Passa a emoção e o afeto, feito café, e tudo fica bem. 

Do alto dos seus 81 anos, minha mãe, sem saber exatamente o que é um blog,  me aconselhou a fazer um diário. Aconselhou também minha filha, neta, sobrinha e amigos para registrarem suas vidas. Segundo ela, como ela gostaria de lembrar de mais coisas que viveu, fez e sentiu. Muito do que aconteceu  se perdeu com o passar dos dias, semanas, meses e anos. “Minha vida poderia ser um livro” comenta ela. 

A vida de todos nós poderia ser um livro. 

E o Bysuzete.com é este livro digital com cara de diário, ficção autobiográfica, exercício.

Um espaço para existir. Um caminho a seguir.

Intruso

Maltratadas, maltrapilhas, usadas, sujas,

amareladas com sardas cor de laranja,

pretas de pele acinzentada, esbranquiçadas.

Camisetas, jeans, bermudas, pijamas e jaquetas, sapatos e bolsas de couro, carteiras, toalhas e fronhas, lençóis, acolchoados, paredes, prateleiras, armários …

O olhar acerta o alvo. Expiro. Os olhos coçam. Arrasto tudo ao sol.

Me vou junto e me espreguiço por entre as cadeiras

que acomodam de tudo um pouco.

Quem vê de fora e de longe

vê um circo em dia de desmonte, casa alagada em dia de enchente.

Vejo fungos mascarados por toda parte,

resistentes e resilientes, vem e vão, ano após ano,

faxina após faxina.

O tempo passou, ninguém reparou

  • ou cansou de reparar –

À beira mar, a maresia e a brisa que vem do mar, ali, pertinho do olhar,

andam futricando com o bolor e o mofo.

Esta intimidade e fecundação e procriação 

me exasperam.

Se ajudasse, mergulhava a casa inteira no mar.

Não dá. Nem posso.

Resigno-me a expulsar este ilustre intrometido.

Ele volta. Sempre volta. 

Maldito mofo.