Os deuses do tempo

Como muito bem disse Rubem Alves: “O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração”.

Na mitologia grega se encontravam vários titãs descendentes de Gaia. O caçula era Cronos, a personificação do tempo. Também existia Aión (ou Eón, para os romanos), o tempo eterno, em contraste a Cronos, como o tempo empírico dividido em passado, presente e futuro. Entre essas deidades temporais também tinha Kairós. Kairós é um conceito da filosofia grega que representa um lapso indeterminado em que algo importante acontece.

Aión era o deus das eras, das décadas e dos milênios. Representa o eterno ciclo do tempo e a evolução da humanidade. É a própria eternidade. Por ser o criador do tempo, e de tudo o que existe no universo, os gregos consideravam que a humanidade era filha de Aión, portanto, uma vez que é impossível fugir ao tempo, todos seriam mais cedo ou mais tarde, vencidos por ele.

Os gregos antigos tinham ainda duas outras palavras para o tempo: Cronos e Kairós. Enquanto Cronos faz referência ao tempo cronológico, sequencial, o tempo que se mede; Kairós é o momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, a experiência do momento oportuno.

Kairós, o deus da oportunidade, era filho de Zeus – o deus dos deuses e de Tykhé, a divindade da fortuna e prosperidade. Descrito como um belo jovem calvo com um cacho de cabelos na testa, ele era um atleta e tinha uma agilidade incomparável. Resplandecente e com a flor da juventude, Kairós tinha duas asas nos ombros e nos joelhos. Sempre sem roupas, ele corria rapidamente e só era possível alcançá-lo agarrando-o pelo topete, ou seja, encarando-o de frente. Depois que ele passava, era impossível perseguí-lo, pegá-lo ou trazê-lo de volta. Entre os romanos era chamado de Tempus, o breve momento em que as coisas são possíveis. Kairós tinha o poder do movimento rápido que podia passar despercebido aos olhos desatentos, tornando impossível recuperar a visão de sua passagem. Dada à sua natureza difícil, raramente proporcionava uma segunda chance. Na filosofia grega e romana é a experiência do momento certo e oportuno. Kairós era descrito como um jovem que não se importava com o relógio, o calendário e o tempo cronológico. Ele era o tempo que não podia ser cronometrado, o tempo que não pertencia a Cronos porque não previsível, apenas acontecia, por isso era chamado de momento ou oportunidade. Kairós é o tempo divino que o vento traz, a vida conspira, decide acontecer sem tempo, sem hora marcada, se manifesta instante a instante e permanece eterno. Kairós marca os momentos que se tornam eternos, ainda que tenham sido breves. Os gregos acreditavam que com Kairós poderiam enfrentar o cruel tirano Kronos.

Cronos era um titã que se tornou senhor do céu após destronar seu pai (Urano), e a partir desse acontecimento os titãs passaram a governar o mundo. 
O mito do Cronos ilustra temas como envelhecimento, mudança entre outros elementos relacionados ao tempo. “Chronos devora ao mesmo tempo que gera”. Essa é uma alusão ao mito que ele devorava todos os filhos assim que deixavam o ventre sagrado da mãe. De acordo com a mitologia ele temia uma profecia segundo a qual seria tirado do poder por um de seus filhos pois não queria que ninguém lhe sucedesse, além dos próprios filhos devorava os seres e o destino.

Cronos era descrito como o velho, o Senhor do tempo, das estações, da pressão das horas ordenadas pelo relógio e pelos dias, meses e anos determinados pelo calendário. Cruel e tirano, Cronos controlava o tempo desde o nascimento até a morte, aquele tempo comum, real, visível e rotineiro. O Tempo Cronos era o ditador da quantidade de coisas realizadas durante o dia, o tempo burocrático, o tempo humano, o tempo que nunca é suficiente, o tempo que escraviza, preocupa e estressa. Cronos deu origem ao cronômetro e aos medidores do tempo, o tempo dos homens. Vivemos no contexto de Cronos, do tempo linear, o tempo que corre sempre para frente. Observamos a nossa idade avançar, o desenrolar de acontecimentos, mudanças, declínios e ascensões. Estamos tão condicionados à necessidade de cumprir as expectativas do tempo imposto pelo relógio, que não nos permitimos ser naturais: tornamo-nos mecanizados pela força do tempo que exige de nós cada vez mais tempo. Cronos nos torna menos humanos e nos torna mais máquinas, porque está sempre ao nosso encalço exigindo pontualidade, estabelecendo ritmos e metas. Pagamos um alto preço para cumprir as normas do tempo.

Em nossa vida estamos sempre lutando contra o tempo tentando distribui-lo entre as nossas diversas atividades diárias. A sensação de estar perdendo tempo com alguma coisa, seja o trabalho, a faculdade, um relacionamento, um livro ou filme ruins ou pouco prazerosos, mostra a nossa preocupação com o tempo que escorre e nos deixa insatisfeitos. Porque para sermos felizes, é preciso mais do que usar o tempo com eficiência.

Kairós está relacionado à qualidade do tempo vivido, um tempo divino, presente nos momentos especiais e inesquecíveis, que não se perdem no tempo do calendário. Ele flui, vai e retorna, marcando os momentos emocionantes. Refere-se a um instante, ocasião ou momento, que deixa uma impressão forte e única por toda a vida. Por isso, Kairós refere-se a uma experiência atemporal na qual percebemos o momento oportuno em relação à determinada ação.

Quantos momentos Kairós deixamos de viver, por estarmos preocupados com o tempo Cronos: o primeiro sorriso de um filho, uma mão estendida no momento oportuno, o abraço confortante no momento de tristeza, um carinho que arranca a tristeza do coração em um momento de infelicidade. São muitos momentos Kairós, que apesar de breves, fazem a diferença. Quantos momentos Kairós são lembrados depois que alguém se foi e, independente do tempo Cronos que tenhamos vivido com essa pessoa, são os momentos Kairós que deixam as lembranças inesquecíveis. São as recordações dos momentos Kairós que nos fazem sentir saudade. Quando estamos vivendo os momentos Kairós queremos que Cronos permaneça imóvel, porque queremos que o tempo pare para eternizar o momento.

O momento passado é único, mas pode ser revivido quando se fecha os olhos para senti-lo novamente. E por permitir sentir novamente, ele também se relaciona ao ressentimento, que é a face negativa de Kairós.

Trazendo o mito de Kairós para o nosso passado, certamente iremos constatar que muitas vezes o tempo das oportunidades se fez presente e o deixamos escapar. Bons negócios, possibilidades de estudos e relacionamentos, chances de perdão e reconciliação, são algumas das aberturas que ocorreram, que poderiam ter atenuado a implacabilidade de Cronos.

Quando vivemos no tempo Kairós aumentam as oportunidades em nossa vida. Basta repensar como surgiram nossas melhores oportunidades: de certa forma, estávamos desprogramados das exigências do tempo cronológico. Para os gregos Cronos representava o tempo que faltava para a morte, um tempo que se consome a si mesmo. Por isso, seu oposto é Kairós: momentos afortunados que transcendem as limitações impostas pelo medo da morte. Sempre que agimos sob o tempo kairós, as coisas costumam dar certo porque sabemos a hora certa de estar no lugar certo. Por exemplo, quando estamos quase desistindo de algo e resolvemos dar um tempo para a pressão, do nada surgem as pessoas certas que nos ajudam com soluções reais e práticas.

Kairos é o tempo oportuno, livre do peso de cargas passadas e sem ansiedade de anteceder o futuro. Ele se manifesta no presente, instante após instante. Esse tempo mágico ou oportuno é um convite para nos despojarmos da razão exagerada, cronológica e voltarmos a brincar com o tempo e vivê-lo com leveza e intensidade.

Agir no tempo regido por Kairós é similar a um ato mágico.

 relogio-afundando

 

 

 

 

O fio Mágico

Era uma vez uma viúva que tinha um filho chamado Pedro. O menino era forte e saudável, mas não gostava de ir à escola e passava todo o tempo a sonhar acordado.

— Pedro, com o que estás sonhar a uma hora destas? — perguntava-lhe a professora.— Estava a pensar no que serei quando crescer — respondia ele.

— Sê paciente. Tens muito tempo para pensar nisso. Depois de crescido, nem tudo é divertimento, sabes? — dizia ela.

Mas Pedro tinha dificuldade em apreciar alguma coisa que estivesse a fazer no momento e ansiava sempre pelo que vinha a seguir. No Inverno, ansiava pelo retorno do Verão; no Verão, sonhava com passeios de esqui e trenó. Na escola, ansiava pelo fim das aulas, para poder voltar para casa; e, nas noites de domingo, suspirava dizendo: “Ah, se as férias chegassem depressa!” O que mais o entretinha era brincar com a amiga Lise. Era uma companheira tão boa como qualquer rapaz e a ansiedade de Pedro não a afectava nem ofendia. “Quando crescer, vou casar-me com ela”, dizia Pedro consigo mesmo.

Costumava perder-se em caminhadas pela floresta, sonhando com o futuro. Às vezes, deitava-se ao sol sobre o chão macio, com as mãos postas sob a cabeça, e ficava a olhar o céu através das copas altas das árvores. Uma tarde quente, quando estava quase a adormecer, ouviu alguém a chamar por ele. Abriu os olhos e sentou-se. Viu uma mulher idosa, de pé, à sua frente. Ela trazia na mão uma bola prateada, da qual pendia um fio de seda dourado.

— Olha o que tenho aqui, Pedro — disse ela, oferecendo-lhe o objecto.

— O que é isso? — perguntou, curioso, tocando o fino fio dourado.

— É o fio da tua vida — retrucou a mulher. — Não toques nele e o tempo passará normalmente. Mas, se desejares que o tempo ande mais depressa, basta dares um leve puxão ao fio e uma hora passará como se fosse um segundo. Mas devo avisar-te: uma vez que o fio tenha sido puxado, não poderá ser colocado de volta dentro da bola. Ele desaparecerá como uma nuvem de fumo. A bola é tua. Mas se aceitares o meu presente, não contes a ninguém; caso contrário, morrerás no mesmo dia. Agora diz-me, queres ficar com ela?

Pedro tomou-lhe das mãos o presente, satisfeito. Era exactamente o que queria. Examinou-a. Era leve e sólida, feita de uma única peça. Havia apenas um furo de onde saía o fio brilhante. O menino colocou-a no bolso e foi a correr para casa. Quando chegou, depois de se certificar da ausência da mãe, examinou-a outra vez. O fio parecia sair lentamente de dentro da bola, tão devagar que era difícil perceber o movimento a olho nu. Sentiu vontade de lhe dar um rápido puxão, mas não teve coragem. Ainda não.

No dia seguinte, na escola, Pedro imaginava o que fazer com o seu fio mágico. A professora repreendeu-o por não se concentrar nos deveres. “Se ao menos”, pensou ele, “já fossem horas de ir para casa!” Tacteou a bola prateada que se encontrava dentro do bolso. Se desse apenas um pequeno puxão, logo o dia chegaria ao fim. Cuidadosamente, pegou no fio e puxou. De repente, a professora mandou que todos arrumassem as suas coisas e fossem embora, organizadamente. Pedro ficou maravilhado. Correu sem parar até chegar a casa. Como a vida seria fácil agora! Todos os seus problemas haviam terminado. Dali em diante, passou a puxar o fio, só um pouco, todos os dias.

Entretanto, logo se apercebeu que era tolice puxar o fio apenas um pouco todos os dias. Se desse um puxão mais forte, o período escolar estaria concluído de uma vez. Poderia aprender uma profissão e casar-se com Lise. Naquela noite deu, então, um forte puxão ao fio e acordou na manhã seguinte como aprendiz de um carpinteiro da cidade. Pedro adorou a sua nova vida, subindo aos telhados e andaimes, erguendo e colocando, à força de marteladas, enormes vigas que ainda exalavam o perfume da floresta. Mas, às vezes, quando o dia do pagamento demorava a chegar, dava um pequeno puxão ao fio e logo a semana terminava, já era a noite de sexta-feira e ele tinha dinheiro no bolso.

Lise também se mudara para a cidade e morava com a tia, que lhe ensinava os afazeres do lar. Pedro começou a ficar impaciente a respeito do dia em que se casariam. Era difícil viver, ao mesmo tempo, tão perto e tão longe dela. Perguntou-lhe, então, quando se poderiam casar.

— No próximo ano — disse ela. — Eu já terei aprendido a ser uma boa esposa.

Pedro tocou com os dedos a bola prateada dentro do bolso.

— Ora, o tempo vai passar bem depressa — disse, com muita certeza.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Passou o tempo todo agitado, virando-se de um lado para o outro na cama. Tirou a bola mágica que estava debaixo do travesseiro. Hesitou um instante, mas logo a impaciência o dominou, e ele puxou o fio dourado. Pela manhã, descobriu que aquele ano já havia passado e que Lise concordara afinal com o casamento. Pedro sentiu-se realmente feliz.

Mas, antes de que o casamento pudesse realizar-se, recebeu uma carta com aspecto de documento oficial. Abriu-a, trémulo, e leu a notícia de que deveria apresentar-se no quartel do exército na semana seguinte, para servir por dois anos. Mostrou-a, desesperado, a Lise.

— Ora — disse ela — não há nenhum problema, basta-nos esperar. Mas o tempo passará depressa, vais ver. Há tanto que preparar para nossa vida a dois!

Pedro sorriu com galhardia, mas sabia que dois anos durariam uma eternidade a passar.

Quando já se acostumara à vida no quartel, entretanto, começou a achar que não era tão má assim. Gostava de estar com os outros rapazes e as tarefas não eram tão árduas como a princípio. Lembrou-se da mulher que o aconselhara a usar o fio mágico com sabedoria e evitou usá-lo por algum tempo. Mas depressa voltou a sentir-se inquieto. A vida no exército entediava-o, com as suas tarefas de rotina e a sua rígida disciplina. Começou a puxar o fio para acelerar o decurso da semana, a fim de que chegasse logo o domingo ou o dia da sua folga. E assim se passaram os dois anos, como se fosse um sonho.

Terminado o serviço militar, Pedro decidiu não mais puxar o fio, excepto por uma necessidade absoluta. Afinal, era a melhor época da sua vida, conforme todos lhe diziam. Não queria que acabasse assim tão depressa. Mas deu um ou dois pequenos puxões ao fio, só para antecipar um pouco o dia do casamento. Tinha muita vontade de contar a Lise o seu segredo; mas sabia que, se contasse, morreria.

No dia do casamento, todos estavam felizes, inclusive Pedro. Mal podia esperar para lhe mostrar a casa que construíra para ela. Durante a festa, lançou um rápido olhar na direcção da mãe. Percebeu, pela primeira vez, que o cabelo dela estava a ficar grisalho. Envelhecera rapidamente. Pedro sentiu uma ponta de culpa por ter puxado o fio com tanta frequência. Dali em diante, seria muito mais parcimonioso no seu uso, e só o puxaria se fosse estritamente necessário.

Alguns meses mais tarde, Lise anunciou que estava à espera de um filho. Pedro ficou entusiasmadíssimo, e mal podia esperar. Quando o bebé nasceu, ele achou que não iria querer mais nada na vida. Mas, sempre que o bebé adoecia ou passava uma noite em claro a chorar, ele puxava um pouco do fio para que o bebé tornasse a ficar saudável e alegre.

Os tempos andavam difíceis. Os negócios iam mal e chegara ao poder um governo que mantinha o povo sob forte opressão e pesados impostos, e não tolerava oposição. Quem quer que fosse tido como agitador era preso sem julgamento, e um simples boato bastava para se condenar um homem. Pedro sempre fora conhecido por dizer o que pensava, e logo foi preso e lançado na cadeia. Por sorte, trazia a bola mágica consigo e deu um forte puxão ao fio. As paredes da prisão dissolveram-se diante dos seus olhos e os inimigos foram arremessados à distância, numa enorme explosão. Era a guerra que se insinuava, mas que logo acabou, como uma tempestade de Verão, deixando o rasto de uma paz exaurida. Pedro viu-se de volta ao lar com a família. Mas era agora um homem de meia-idade.

Durante algum tempo, a vida correu sem percalços, e Pedro sentia-se relativamente satisfeito. Um dia, olhou para a bola mágica e surpreendeu-se ao ver que o fio passara da cor dourada para a prateada. Foi olhar-se ao espelho. O cabelo começava a ficar-lhe grisalho e o seu rosto apresentava rugas onde nem se podia imaginá-las. Sentiu um medo súbito e decidiu usar o fio com mais cuidado ainda do que antes. Lise dera-lhe outros filhos e ele parecia feliz como chefe da família que crescia. O seu modo imponente de ser fazia as pessoas pensarem que ele tinha perfil de chefe. Possuía uma certa de autoridade, como se tivesse nas mãos o destino de todos. Mantinha a bola mágica bem escondida, resguardada dos olhos curiosos dos filhos, sabendo que, se alguém a descobrisse, seria fatal.

Cada vez tinha mais filhos, de modo que a casa foi ficando cheia de gente. Precisava de a ampliar, mas não dispunha do dinheiro necessário para a obra. Tinha também preocupações. A mãe estava a ficar idosa e, com a passagem dos dias, ia parecendo mais cansada. Não adiantava puxar o fio da bola mágica, pois isto só lhe aceleraria a chegada da morte. De repente, ela faleceu, e Pedro, parado diante do túmulo, pensou no modo como a vida passara tão rapidamente, mesmo sem fazer uso do fio mágico.

Uma noite, deitado na cama, sem conseguir dormir, pensando nas suas preocupações, achou que a vida seria bem melhor se todos os filhos já estivessem crescidos e com carreiras encaminhadas. Deu um fortíssimo puxão ao fio, e acordou no dia seguinte vendo que os filhos já não estavam em casa, pois tinham arranjado empregos em diferentes pontos do país, e que ele e a mulher estavam sós. O cabelo estava quase todo branco e doíam-lhe as costas e as pernas quando subia uma escada, ou os braços quando levantava uma viga mais pesada. Lise também envelhecera, e estava quase sempre doente. Ele não aguentava vê-la sofrer, de tal forma que lançava mão do fio mágico cada vez mais frequentemente. Mas, sempre que um problema não se resolvia, já outro surgia em seu lugar. Pensou que talvez a vida corresse melhor se ele se aposentasse. Assim, não teria de continuar a subir aos edifícios em obras, sujeito a lufadas de vento, e poderia cuidar de Lise sempre que ela adoecesse. O problema era a falta de dinheiro suficiente para sobreviver. Pegou na bola mágica, então, e ficou a olhar. Para seu espanto, viu que o fio já não era prateado, mas cinza, e perdera o brilho. Decidiu ir para a floresta dar um passeio e pensar melhor no significado de tudo aquilo.

Já fazia muito tempo que não ia àquela parte da floresta. Os pequenos arbustos haviam crescido, transformando-se em árvores frondosas, e foi difícil encontrar o caminho que costumava percorrer. Acabou por chegar a um banco no meio de uma clareira. Sentou-se para descansar e caiu num sono leve. Foi despertado por uma voz que o chamava pelo nome: — Pedro! Pedro!

Abriu os olhos e viu a mulher que encontrara havia tantos anos e lhe dera a bola prateada com o fio dourado mágico. Aparentava a mesma idade que tinha no dia em questão, exactamente igual. Ela sorriu-lhe.

— E então, Pedro, a tua vida foi boa? — perguntou.

— Não tenho a certeza — disse ele. — A sua bola mágica é maravilhosa. Nunca na minha vida tive de suportar qualquer sofrimento ou esperar por qualquer coisa. Mas tudo foi tão rápido! Sinto como se não tivesse tido tempo de apreender tudo o que se passou comigo; nem as coisas boas, nem as más. E agora falta tão pouco tempo! Já não ouso puxar o fio, pois isso só anteciparia a minha morte. Acho que o seu presente não me trouxe sorte.

— Mas que falta de gratidão! — disse a mulher — Gostarias que as coisas fossem diferentes?

— Talvez se me tivesse dado uma outra bola, em que eu pudesse puxar o fio para fora e para dentro também. Talvez, então, eu pudesse reviver as coisas más.

A mulher riu-se.

— Estás a pedir muito! Achas que Deus nos permite viver as nossas vidas mais de uma vez? Mas posso conceder-te um último desejo, meu tonto exigente.

— Qual? — perguntou ele.

— Escolhe — disse ela.

Pedro pensou bastante.

Ao fim de bastante tempo, disse:

— Gostaria de voltar a viver a minha vida, como se fosse a primeira vez, mas sem a sua bola mágica. Assim, poderei experimentar as coisas más da mesma forma que as boas, sem encurtar a sua duração. Pelo menos, a minha vida não passará tão rapidamente e não se parecerá com um devaneio.

— Seja — disse a mulher. — Devolve-me a bola.

Ela esticou a mão e Pedro entregou-lhe a bola prateada. Em seguida, ele recostou-se e fechou os olhos, exausto.

Quando acordou, estava na sua cama. A sua jovem mãe debruçava-se sobre ele, tentando acordá-lo carinhosamente.

— Acorda, Pedro, não vás chegar atrasado à escola. Estavas a dormir como uma pedra!

Ele olhou para ela, surpreendido e aliviado.

— Tive um sonho horrível, mãe. Sonhei que estava velho e doente e que minha vida passara como num piscar de olhos sem que eu sequer tivesse ficado com algo para contar. Nem ao menos algumas lembranças.

A mãe riu-se e fez que não com a cabeça.

— Isso nunca vai acontecer — disse ela. — As lembranças são algo que todos temos, mesmo quando somos velhos. Agora, anda, vai-te vestir. A Lise está a tua espera, não deixes que ela se atrase por tua causa.

A caminho da escola, em companhia da amiga, observou que estavam em pleno Verão e que fazia uma linda manhã, uma daquelas em que era óptimo estar-se vivo. Em poucos minutos, estariam a encontrar os amigos e colegas, e mesmo a perspectiva de enfrentar algumas aulas não parecia tão desagradável assim. Na verdade, ele não cabia em si de contente.

William J. Bennett
O Livro das Virtudes
Editora Nova Fronteira, 1995 (adaptação)

foto da internet
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Fechando mais um ciclo

Depois de quase 3 anos, enfim, o término de mais uma formação. A Arteterapia vivida neste período foi mais terapia do que curso. Meu artigo de conclusão (ainda em fase de estudos) é exatamente sobre este tema. E eu que criticava quem fazia formação em Psicologia invés de fazer terapia.

Nunca. Jamais diga Nunca. Jamais. É como Sempre. Jamais diga Sempre. Jamais diga Jamais.

Nada parece ser definitivo. Acabei fazendo Arteterapia como forma de terapia. Pois bem.

A Síntese é um dos últimos trabalhos do curso. O objetivo é juntar todos os trabalhos feitos durante a formação, dividi-los, em no mínimo, 8 grupos, nomeá-los (um a um) e encontrar um símbolo para cada um destes grupos. Esta foi a primeira parte da atividade.

Grupo 1

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Moles e Macios: São os trabalhos feitos com tecido, lãs, linhas e fitas.

Símbolo: uma manta de crochê. (aconchego, calor, proteção, cuidado)

Grupo 2

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Contidos. Continente e Conteúdo: O que o limite cria.

Símbolo: um caleidoscópio (beleza, luz, arte, objetivo atingido).

Grupo 3

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Microcosmo: a natureza dos sentidos, sentimentos, sensações através dos desenhos.

Símbolo: música + aroma + comida e bebida . Um pic –nic. (autenticidade, nada de crítica, ser o que se é)

Grupo 4

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Mistura Fina: trabalhos com desenhos + gravuras + outros materiais.

Símbolo: Uma vela (possibilidade de transitar pelos estados físicos da matéria além de aproveitar absolutamente qualquer coisa (transformação, reciclagem) na confecção da mesma.

Grupo 5

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Gravuras: trabalho de colagem usando apenas gravuras.

Símbolo: um Catálogo de fotos marcado com post its. (o belo, perfeito)

Grupo 6

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Riscos e Rabiscos: por onde tudo começa. Tentativas, erros, acertos, linhas e traços.

Símbolo: uma tela de Arte Moderna (várias camadas de tinta, várias tentativas até a arte final)

Grupo 7

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Duros e Resistentes: trabalhos feitos com materiais como pedras, arame, metais, sucatas, etc.

Símbolo: uma mandala de pastilhas de vidro e conchas usada como tampo de mesa. (durável, útil e  funcional)

Grupo 8

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Linhas e Direções: trabalhos essencialmente objetivos.

Símbolo: Um livro de mapas (como chegar onde se quer chegar).

Esta primeira etapa foi relativamente fácil. O difícil foi juntar todo material, colar o que descolou, dezamassar o que está amassado, arrumar o que estragou … para só então definir como dividir e categorizar os grupos. Um processo absolutamente subjetivo. Optei por dividir conforme o tipo de material usado. Os símbolos desta primeira etapa – com exceção do caleidoscópio – são objetos usados no meu dia a dia, alguns deles feitos por mim mesma. As etapas seguintes sugerem evolução e máxima sintetização. Dos oito símbolos, restarão quatro. Depois dois. E por último, 1 único símbolo que representará todo meu processo arteterapêutico.

Meus oito símbolos iniciais: uma manta de crochê, um caleidoscópio, um pic nic, uma vela, um Catálogo de fotos marcado com post its, uma tela de Arte Moderna, uma mandala de pastilhas de vidro e conchas e um livro de mapas. A partir destes surgiram os 4 símbolos seguintes:

  1. A manta de crochê + a Tela de Arte Moderna = 1 toalha de jogo americano trazido da Austrália. ( macio, prático, moderno e artístico);
  2. O caleidoscópio + o Catálogo de fotos marcado com post its + o livro de mapas = lanterna de cabeça ( a luz que ilumina e orienta);
  3. Pic Nic de sensações + vela = 1 tapete (aconchego, conforto);
  4. Uma mandala de pastilhas de vidro e conchas = Uma mandala de fotos de família (a solidez do que realmente importa).

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A síntese seguinte:

  1. Toalha de jogo americano trazido da Austrália + 1 tapete = Ursinho que ganhei de presente de uma paciente quando ainda atuava como psicoterapeuta (o macio, confortável e fofo);
  2.  Uma mandala de fotos de família + lanterna de cabeça = Bússola (o que me direciona e orienta).

E por fim, a culminância de todo o processo:

  1. Ursinho que ganhei de presente de uma paciente quando ainda atuava como psicoterapeuta + Bússola = a Psicologia, meu retorno ao consultório.

Como bem sabemos todos, nada acontece por acaso.

Todo o trabalho de síntese aconteceu no espaço do meu ateliê. Depois de organizar o material em grupos, confeccionar ou eleger cada um dos 8 símbolos, de forma explicitamente subjetiva, reduzir exponencialmente de 4 para dois, de dois para um um último símbolo, fecho assim meu processo Arteterapêutico. Quase de forma profética, o ursinho – presente de uma paciente em 1998 – é nomeado por ela como “o mensageiro “ursinho” não foi escolhido por acaso. Ele e eu temos algo em comum. Hibernamos. E agora, acordamos.”

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Passados quase 20 anos, também eu, percebo estar acordando e me espreguiçando (como disse dias atrás num encontro de psicólogas) de um longo período de 10 anos longe dos consultórios e da prática clínica, para retomar – com toda energia, afinco e dedicação – minha atividade profissional que tanto me faz feliz, me gratifica e me faz ser uma pessoa melhor.

 

 

 

Micros – cosmos

Um Universo chamado Pessoa.

Um microcosmo num macrocosmo maior.

Mergulhando, fisguei meu íntimo, infinito e inconsciente

de sensações, sentidos e sentimentos.

– Lembranças –

A vida, a morte, a ressureição.

Da sempre fênix em chamas pra leve e sagrada libélula.

A ansiedade comida em bocados etílicos gulosos.

O canto dos ventos, mares, florestas.

Pássaros e baleias do verde e fundo anil transcontinental.

O som que acalma.

O cheiro que nina.

É de infância, cozinha.

De plenitude. De vida transmutada.

Camaleônica.

Um pouco de tudo de uma vida abençoada.

Bom desenhar tudo isso.

Um Universo chamado Eu.

Que animal te representa?

Quando criança adorava (e aindo adoro) gatos. Me criei salvando gatos da determinação do meu avô de evitar que as ninhadas sobrevivessem.

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O gato é um animal que simboliza a independência, a sabedoria, a sensualidade, a sagacidade, o equilíbrio. Além disso, esse animal místico representa a fusão do espiritual e do físico e seu simbolismo é muito diverso, oscilando entre as tendências benéficas e maléficas.

Já adulta passei a gostar muito de elefantes. O corpo gigante, o olhar meigo e a cultura familiar que norteia o funcionamento dos paquidermes sempre me cativaram.

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O elefante é símbolo da boa sorte. Simboliza também sabedoria, persistência, determinação, solidariedade, sociabilidade, amizade, companheirismo, memória, longevidade e poder.

Lá pelos 40 anos adotei a fênix como meu símbolo animal. O mito da Fênix me inspirava e me estimulava a sobreviver e renascer sempre que a vida impunha mudanças. Recomeçar e me reinventar eram quase um lema de vida.

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A fênix simboliza a imortalidade, os ciclos naturais de vida e morte, o renascimento e, até mesmo, a existência de uma vida pós mortem. Era tida como um símbolo de persistência, de transformação, de recomeço e, principalmente, de esperança, como se fosse uma vitória da vida sobre a morte. Acreditava-se – e ainda acredita-se em algumas culturas – que a fênix possuía uma força sobrenatural, permitindo-lhe carregar fardos excessivamente pesados, como até mesmo um elefante. Apesar dos diversos estudos já realizados, não foram concluídas teses sobre a fênix, e seu mito acabou se difundindo não apenas no Egito, mas também na Grécia e posteriormente em muitos outros países e culturas.

E agora, enfim, me identifico com a libélula. Ela era inclusive uma das criaturas que mais encontrava em casa. De tanto vê-la, e me alegrar com sua presença, acabei me identificando com ela.

libelula

A libélula é símbolo da elegância e leveza, assume um caráter positivo de rapidez e atividade e é símbolo da renovação após períodos de dificuldade.

No Japão, por sua vez, a libélula simboliza a coragem, a força e a felicidade. Trata-se de um símbolo imperial desse país, que também é chamado de “Ilha da Libélula” (Akitsu-shima) em decorrência do seu formato que, ao ser observado do alto por Jimmu-tennô teria dito que o Japão tinha o formato de uma libélula.

Maturidade e profundidade de caráter – a líbélula em quase toda parte do mundo simboliza a mudança. Mudança na perspectiva da auto-realização e do tipo de mudança que tem sua origem na maturalidade mental e emocional que é a compreenção do significado mais profundo da vida. A tradicional associação das libélulas com a água também dá origem a esse significado. O vôo da libélula correndo através da água representa um ato de ir além do que está na superfície e olhar para as implicações mais profundas no aspécto da vida.

Poder – O vôo ágil da libélula e sua capacidade de se mover em todas as seis direções exalam um sentimento de poder e equilíbrio – algo que só vem com a idade e maturidade. A libélula pode se locomover a incríveis 45Km/h, pairar como um helicóptero, voar para trás como um beija-flor, para cima e para baixo, além de ambos os lados, o que representa o sopro da mente. O aspecto inspirador é a forma como a libélula realiza os seus objetivos com a maior simplicidade e eficiência. A melhor parte é que a libélula faz isso com elegância e graça que pode ser comparado a uma bailarina veterana.

Derrota às auto-ilusões – A libélula expõe sua iridescência tanto em suas asas, como sobre o seu corpo. Iridescência é a propriedade de um objeto para se mostrar em cores diferentes dependendo do ângulo e da polarização da luz que cai sobre ele. Esta propriedade é vista como o fim das ilusões criadas por si mesma, transformando-se numa visão clara sobre a realidade da vida. A propriedade mágica de iridescência também está associada com a descoberta das próprias capacidades de desmascarar o verdadeiro eu e remover as dúvidas quanto a sua própria identidade. Diretamente falando, essa ação significa auto-descoberta e remoção das inibições.

Foco na vida e no momento – A libélula vide normalmente a maior parte de sua vida como uma ninfa, imatura. Ela voa por apenas uma fração da sua vida e geralmente não mais que alguns meses. A libélula adulta faz tudo nestes poucos meses e não deixa nada a desejar. Este estilo de vida simboliza e exemplifica a força do viver o momento e viver a vida ao máximo. é no viver do momento que você está ciente de quem você é, onde está, o que você está fazendo, o que você quer, o que não quer, além da possibilidade de fazer escolas com base no momento em que se vive.

Esta capacidade permite que você viva sua vida sem arrependimentos como uma libélula grande.

Um olhar que vai além – Os olhos da libélula possui uma capacidade de visão incrível e inspiradora. 80% do seu cérebro está voltado para a potencialização da sua visão, propriciando assim uma vista de 360° em torno de si. Esta visão global simboliza a visão desinibida da mente e a capacidade de ver além das limitações do ego humano. Simboliza também o abrir dos olhos do homem para o além do materialismo, ver na imensidão do universo e da mente humana a sua essência, o seu espírito.

Interessante esta assossiação entre animal simbólico e momento de vida. Símbolos tem me encantado muito. De certa forma, eles mostram como estamos vivendo, no que acreditamos, nossos conflitos, valores, momentos e dificuldades.

Já pensou qual o animal que te representa?

A trilha sonora da minha vida

Para o curso de Arteterapia tive de fazer um Sound Book. A regra era eleger 3 músicas que marcaram minha vida a cada 5 anos. A tarefa é muito mais difícil do que pode parecer. Inúmeras músicas ficaram de fora. Mas valeu o exercício de escolher e reviver tempos e momentos inesquecíveis perdidos no passado. O objetivo da atividade foi contar e entender a própria estória de vida através das músicas. Para as músicas de outros idiomas, a tradução é imprescindível. Acompanhando cada uma um trabalho artístico em folha A3 (ou meia cartolina) com cores distintas e símbolos/imagens que a música desperta. Ou seja 33 trabalhos. Haja inspiração, giz de cera, lápis de cor, tecido, papel, etcetcetc. As músicas que elegi como as mais representativas, seguem abaixo.

sound-book-1

Dos 0 aos 5 anos

  1. Roda Cotia
  2. Atirei o Pau no Gato
  3. Os Futuristas no jardim

Dos 5 aos 10 anos

  1. Noite Feliz
  2. O Bom Miguel (Moacir Franco)
  3. El Condor Pasa (Simon & Garfunkel)

Dos 10 aos 15 anos

  1. Vira (Secos e Molhados)
  2. Baby I love your way (Peter Frampton)
  3. Hole in the Sky (Buraco No Céu) (Black Sabbat)

Dos 15 aos 20 anos

  1. Somebody to Love (Alguém Para amar)(Queen)
  2. Tragedy (Tragédia)(Bee Gees)
  3. The way things are (O jeito que as coisas são)(Blue)

Dos 20 aos 25 anos

  1. Top Gun (Take My Breath Away) – Tire Meu Fôlego
  2. Pintura Íntima (Kid Abelha)
  3. Eu sei que vou te amar (Tom Jobim)

Dos 25 aos 30 anos

  1. Superfantástico (A turma do Balão Mágico)
  2. Barcelona (Freddie Mercury & Montserrat Caballé
  3. (Everything I Do) I Do It For Yo (Tudo Que Eu Faço) Eu Faço Por Você  (Bryan Adams)

Dos 30 aos 35 anos

  1. Tocando em frente (Almir Sater)
  2. Who wants to live forever (Quem quer viver para sempre) (Sarah Brightman)
  3. La Isla Bonita (A Ilha Bonita) (Madonna)

Dos 35 aos 40 anos

  1. It’s my life (É a Minha Vida) (Bon Jovi)
  2. The memory of the trees (Enya)
  3. I don’t want to miss a thing (Eu Não Quero Perder Nada) Aerosmith – Armagedon

Dos 40 aos 45 anos

  1. Lifted (Erguido) (Lighthouse Family)
  2. Californication (Californicação) (Red Hot Chili Pepers)
  3. Big Girls don’t cry (Grandes Garotas Não Choram) (Fergie)

Dos 45 aos 50 anos

  1. Poker Face (Cara de Blefe) (Lady Gaga)
  2. A Thousand Years (Mil Anos) (Christina Perry)
  3. You’re Beautiful (Você É Linda) (James Blunt

Dos 50 aos 55 anos

  1. Ojos Asi (Olhos Assim) (Shakira)
  2. Rolling in the deep (Rolando Nas Profundezas) (Adele)
  3. Love Me (Me ame) (Joss Stone)

Encontrei as músicas no You Tube e converti para pen drive. O processo é simples e fácil. O tutorial segue abaixo:

sound-book-2

Cores e símbolos que se repetem + a letra das músicas + a percepção dos fatos e acontecimentos da época dão a diretriz de todo o entendimento do Sound Book. O que mais me impressionou foi o fato de ter escolhido – na sua maioria – músicas de língua inglesa sem entender nem conhecer as respectivas letras. O que sempre me cativou nas músicas foi o ritmo e a vibração, o timbre de voz e a entonação. Com a tradução em mãos, descobri que elas retratavam o que eu vivia e sentia.

De todos os trabalhos feitos no curso, sem dúvida, este foi do que mais gostei. Reviver o passado e perceber minha evolução como ser humano, ou como dizem, minha Linha do Herói, foi bem esclarecedor. Saber o que norteia minhas escolhas, perceber e confirmar o que de fato importa na minha vida verificando que grande parte dos meus dilemas, conflitos e ilusões já estão integrados, me tranquilizou.

Independente da interpretação do Sound Book, escolher as músicas que marcaram a própria vida pode ser uma excelente atividade pra qualquer um. Que tal arregaçar as mangas e fazer esta seleção?

Cinderela, um Conto de Fadas – parte 1

Introdução

Cinderela, ou, A Gata Borralheira é o conto de fadas mais conhecido, e possivelmente, um dos mais apreciados em todo mundo. Existem mais de 300 versões do conto. As mais conhecidas são as de Perrault e a dos irmãos Grimm. O conto é antigo, sendo que uma das primeiras versões remontam à Elieno, orador e narrador romano, no século três. Outros atribuem as primeiras aparições do conto, à China do século nove, quando se falava da heroína dona de um incomparável pezinho. Pés pequenos para os chineses eram um sinal de virtude extraordinária, de distinção e beleza, sendo um costume na China antiga, enfaixar os pés das mulheres para torná-los extremamente pequenos, bonitos e delicados.

Qualquer conto de fada é a expressão mais pura e simples do psiquismo inconsciente da coletividade. Os contos são o esqueleto da psique. Eles tentam descrever um fato psíquico – normalmente complexo – de difícil representação quanto aos mais diferentes aspectos. A quantidade de contos e suas numerosas versões tornam-se necessárias para que possam penetrar a consciência, sem que o tema seja totalmente exaurido. Jung chama de SELF a totalidade psíquica do indivíduo, mas também, define o SELF como o centro regulador do Inconsciente Coletivo. Ou seja, indivíduos e grupos tem suas próprias formas de experienciar a realidade psíquica. Por isso, diferentes contos de fada retratam diferentes fases desta experiência individual ou coletiva.

Segundo Marie-Louise von Franz “nossa tradição escrita data aproximadamente de 3.000 anos e o que é mais interessante, os temas básicos não mudaram muito.” (pg. 12) Constatou-se a aparição dos mesmos temas, em milhares de variações nos mais diferentes lugares, como: França, Rússia, Finlândia, Itália, etc. As diferentes versões do conto, sugerem diferentes versões das várias formas de Arquétipo, podendo tornar-se símbolo central de algum evento ou crença humanas.

Jung define o arquétipo como “ … possibilidades herdadas para representar imagens similares, são formas instintivas de imaginar. São matrizes arcaicas onde configurações análogas ou semelhantes tomam forma … Seja qual for sua origem, o arquétipo funciona como um nódulo de concentração de energia psíquica.” (Nise da Silveira, pg 68/69)

Assim, enquanto o inconsciente pessoal é decorrente de experiências e vivências individuais, o inconsciente coletivo é impessoal, comum a toda humanidade e transmitido hereditariamente.

Marie- Louise von Franz afirma que “ Um arquétipo é um impulso psíquico específico que produz seus efeitos como um único raio de irradiação e, ao mesmo tempo, um campo magnético expandindo-se em todas as direções.” (pg 11) Um arquétipo não é somente um pensamento padrão, mas também uma experiência emocional. Jung afirma, que se podem encontrar todas as Grandes Mães do mundo, todos os santos, e tudo que se possa imaginar, mas se não conseguirmos interligá-los à experiência afetiva do indivíduo, nada de substancial teremos. Afirma também, que todos os arquétipos acabam sendo contaminados, um pelo outro, no inconsciente.

Quanto à interpretação dos contos de fada, a autora afirma que “Interpretação é uma arte”, exclusivamente pessoal, tipo confessional. Segundo ela, pode-se interpretar o conto de fada, usando as quarto funções da consciência:

  • Tipo Pensamento: apontará a estrutura do conto e como todos os elementos se relacionam;
  • Tipo Sentimento: haverá uma busca por valores hierarquicamente mais importantes e valorosos;
  • Tipo Sensitivo: contenta-se em olhar e identificar os símbolos, para depois, amplificá-los;
  • Tipo Intuitivo: verá o conto em sua totalidade.

Possivelmente é o tipo intuitivo quem melhor entenderá o conto em sua totalidade, percebendo que o conto não é apenas uma história discursiva, mas, uma única mensagem com muitas facetas.

foto cinderela sapatos

Antes de apresentar a Análise Simbólica de Cinderela – num próximo post  é imprescindível apresentar o Conto (é só clicar na palavra Conto – em vermelho – para ir ao post com a estória completa de Cinderela, na versão dos Irmãos Grimm), listar os Capítulos, conforme temas específicos, a Estrutura Básica, os trabalhos artísticos, e só então, apresentar a Análise Simbólica (em processo de revisão). O Conto Pessoal, fechamento desta etapa da formação, aconteceu de modo imediato – quase instantâneo – no final de uma aula, alguns meses atrás.

Cinderela apresentação

Os Capítulos:

Onde tudo acontece: o mapa do conto.

Cinderela O mapa

  1. Era uma vez … Uma família feliz, com mãe e pai, atenciosos e carinhosos;

Cinderela Era uma vez

  1. A mãe adoece e morre… Mas antes, aconselha Cinderela a ser uma boa e piedosa menina;

Cinderela A mãe morre

  1. O pai casa novamente e Cinderela fica duplamente órfã… Cinderela é transformada em empregada da casa, pela madrasta megera. Surge a rivalidade das irmãs desleais;

Cinderela O pai casa novamente

  1. O pai dá presentes … Cinderela contenta-se com o galho de aveleira, que se transforma em árvore;

Cinderela O pai dá presentes

  1. O príncipe escolhe sua Princesa … São preparadas 3 noites de baile e o príncipe conhece Cinderela;

Cinderela Bailes

  1. A Procura … Quem é? O príncipe procura pela amada.

Cinderela A procura

  1. O Engodo … As irmãs – desleais – tentam enganar o príncipe, tentando de formas desesperadas fazerem caber o pé dentro do sapatinho;

Cinderela O engodo

  1. A Princesa é encontrada … O príncipe encontra Cinderela e casa-se com ela;

Cinderela A princesa é encontrada

  1. A cegueira das irmãs … No casamento, os pombos cegam as irmãs.

Cinderela a cegueira das irmas

A Estrutura Básica: Segundo minhas próprias observações e conclusões.

  1. Início: A morte da mãe – perda da imagem idealizada, mágica e irreal de si mesma
  1. Ruptura: O casamento do pai com a madrasta. Cinderela é transformada em empregada, as irmãs exigem vestidos e jóias, enquanto Cinderela, contenta-se com um galho de aveleira – a realidade e o pensamento mágico/etéreo impõe um Princípio de Realidade.
  1. Confronto: Cinderela vai aos três bailes, desafiando a proibição da madrasta;
  1. Superação de Obstáculos e Perigos: Cinderela foge do Príncipe, e de ser reconhecida, três vezes, pedindo ajuda aos pássaros e à mãe –
  1. Restauração: O Príncipe encontra Cinderela. O sapato serve como uma luva – A Identidade está quase definida.
  1. Desfecho: Cinderela e o Príncipe casam-se e as irmãs ficam cegas – A integração total do EGO.

Esta é a primeira parte – e a mais longa – do trabalho dos Contos de Fada. (Trabalho este que encerra o segundo ano da Formação em Arteterapia). É na Análise Simbólica (próximo post em Arteterapia) que estudamos os símbolos universais, integrando-os numa análise analítica (junguiana) para entender – não apenas o conto da Cinderela – mas também, futuros pacientes com suas produções artísticas e oníricas. Também seguem no próximo post, as Referências Bibliográficas que deram embasamento teórico à todo trabalho.