Maria

– Maria, você viu minha caneca que eu trouxe da Califórnia?

– Não senhora, não vi nada.

– No mínimo, alguém quebrou.

– Não fui eu, Dona Larissa.

– Não estou dizendo que foi você.

Larissa já estava perdendo a paciência com Maria. Não fosse ela indicação da sogra, já a teria dispensado há tempo. A recomendação veio por escrito e só faltou uma estrelinha pra comprovar idoneidade e competência (mas o que dizer das taças de vinho, do vaso de cristal, do Chanel no. 5, que simplesmente apareceram quebrados? E agora, sua caneca preferida! )Isso sem contar no melhor cabeleireiro, na melhor doceira, a melhor agência de viagens, o melhor ginecologista, o melhor encanador…… Tragédia. Era o que cada uma destas indicações representava. E não era exagero: sua sogra, ou era ingênua, ou uma grande sacana.

– Maria, você viu ……

– Não vi nada, não senhora. A senhora tá querendo encontrar coisa que é pra me dispensar.

– Quem está pensando em dispensá-la, Maria? – Eis que chega o filho da guru dos desastres domésticos. O filho eternamente encantado pela mãe.

– Ninguém quer dispensar a Maria. Só estou perguntando por coisas que não encontro.

– Querida, é essa sua eterna bagunça. Se você fosse um pouco mais organizada, não perderia as coisas dentro da própria casa.

Larissa simplesmente se fez de surda.

– Acabei de passar na casa de mamãe pra tomar um cafezinho, e ela, indicou um ban-ban-ban em “fertilização in vitro”. O que você acha? Vamos tentar mais uma vez?

– Decidi que não quero mais ter filhos.

– E eu não tenho nada a ver com isso. E Maria sumiu pela cozinha.

 

Amanda

Há anos, Raquel frequentava o Salão Nobel. Era lá que fazia, esporadicamente, pé, mão e cabelo, e onde encontrava a maioria de suas amigas. Caras novas nos lavatórios, sofás e cadeiras do salão, eram raridade. Coisas de cidade do interior, onde todo mundo se conhece desde sempre. Até surgir a loira de um metro e oitenta, ancas largas, seios fartos, cintura fina, cabelos longos levemente encaracolados. A sensação do salão, tão logo se acomodou no sofá. Raquel a olhou com o canto do olho e foi logo pensando, na amante de quem, seria aquela prostituta de luxo. Amanda percebeu o olhar de Raquel e foi até a cadeira onde a manicure terminava de pintar suas unhas.

            – Quanto tempo Raquel? Não me reconhece?

            – Você deve estar me confundindo com alguém.

            – A Amanda. Do colégio. Fomos colegas na quinta-série….

            – Amanda? Nossa, você mudou muito!

            – É verdade. Foi pra melhor, não foi?

            – Com certeza. Precisa me passar a receita!

Raquel ficou imaginando as cirurgias plásticas e lipoesculturas que Amanda teria feito ao longo dos anos. Trinta anos? Certamente, colocara prótese de silicone, usara botox e devia levar uma vida muito fútil entre academias, shoppings e clínicas de estética.

– Você também está bem. O que tem feito?

Raquel viu-se de relance no espelho e sentiu-se desconfortável com a figura envelhecida de cabelos brancos mal cortados e ressecados, o excesso de peso, o olhar amargurado e severo.

– O que mulheres de bem fazem. Cuidar da casa, do marido, dos filhos, do cachorro…….E você, o que faz por aqui?

– Ainda estou decidindo o que fazer…… separei há pouco tempo……talvez fique por aqui.

E Raquel fechou a cara. Tudo o que ninguém naquela cidade precisava era de alguém como Amanda.

Me perdoa?

  • Amor da minha vida, tudo bem?
  • Tudo bem mesmo?
  • Hã, hã. Por que? Alguma coisa errada?
  • Errada?
  • É. Errada. O que está acontecendo?
  • Acontecendo? Nada.
  • Fala logo. Te conheço.
  • Tá. Liguei pra sua mãe.
  • E?
  • Pedi pra ela ficar num hotel. Eu não aguentaria conviver com ela um mês inteirinho, com você viajando o tempo todo. Você sabe como ela pega no meu pé. Critica tudo. Diz que minha comida é horrível, que parece uma lavagem, que não cuido bem de você. Vive cobrando netos e insinuando que sou estéril e egoísta. Ela me detesta. Você sabe disso, não sabe?
  • Você está exagerando.
  • Exagerando? Eu? Você é um insensível!É fácil falar quando se sai segunda-feira às oito horas e volta no sábado pela manhã. É fácil falar quando se é o filho perfeito e favorito…. o queridinho da mamãe.
  • Isso não é verdade.
  • É verdade e você sabe disso.
  • Em que hotel ela vai ficar?
  • No “Aconchego Inn”. Me perdoa?
  • Na pensão da dona Marcelina?
  • Foi o mais em conta que encontrei. É por um mês, lembra?
  • Mamãe vai me matar! Você tem coragem de me chamar de insensível?
  • Ela vai adorar. Você vai ver. Tem sempre uma fofoquinha….
  • Você já falou pra ela?
  • Mais ou menos. Ela sabe que reservei um hotel pra ela ter mais privacidade. Mas não disse que seria na pensão da Dona Marcelina. Me perdoa?

 

Carmen

Parece que estou ouvindo as palavras do Dr. Renato: “Nada de bebida alcoólica, nada de bebida com gás, nada de doces. Absolutamente nada. O que você pode comer está nesta lista. E faça pelo menos uma hora de exercício por dia. Se puder fazer mais, melhor. Nos vemos em um mês.” A lista que ele me deu é no mínimo uma sentença de morte por inanição. Ninguém consegue sobreviver comendo tão pouco e ainda se exercitar. Pelo menos ele receitou um remedinho pra segurar a minha fome. Senão eu já tinha morrido, ou, mandado o doutor e a dieta pro espaço.

Mas desta vez, eu vou conseguir. Preciso entrar naquele vestido de qualquer jeito, ou não me chamo Carmen. Prometi usá-lo nas minhas Bodas de Prata, e eu não vou fazer feio nas fotos. Preciso perder os dez quilos que me transformaram numa baranga baleia horrorosa. Isso mesmo. Uma baleia. Eu vou, eu preciso conseguir. Não existe outra alternativa: ou emagreço, ou emagreço.

O duro é aguentar minha TPM esculhambada, o Marquinho que está sempre viajando e reclamando, minha filha que não se contenta com nada e quer sempre mais, mais e mais. Até parece que dinheiro é capim. E eu, aqui, em frente ao freezer, encarando o pote de sorvete. Literalmente hipnotizada pela caixinha branca com tampa vermelha. Um Napolitano intocado. Quem comprou este pecado em forma de delícia? Já abri e fechei a porta do freezer não sei quantas vezes, mas é como se tivesse um ímã me puxando. Aí, lembro das palavras do Dr. Renato, do vestido, das Bodas. E agora, este sorvete. Meu Deus, eu amo, sou louca por sorvete! E depois, o Dr. Renato disse que dieta era de segunda à segunda. Nas minhas recaídas, eu faria o fim de semana. Tem quantos dias que estou sem comer nada de doce? Quatro ou cinco dias? Uma bola. Duas. No máximo. Que mal pode fazer?

Me sinto outra. Zero bala. Ainda posso sentir o doce gelado achocolatado mesclado com baunilha e morango, acariciando minha boca e me afagando inteira, por dentro e por fora. O mundo que se dane. Dr. Renato que se dane. Tudo que se dane, o Marquinho, as Bodas … E quer saber, baleias são seres muito interessantes. Amo as baleias. “Save de whales”.

Ana

Depois de horas rodando lojas, livrarias, perfumarias e butiques, Ana sentou-se no Starbucks para tomar um Café Latte e comer um Muffin de Mozarela e Tomate Seco. Precisava descansar, recuperar o pique e avaliar as compras. Faltavam os presentes das duas filhas, dos pais dela, dos pais dele, das amigas…… a lista era enorme e ela só tinha aquela tarde pra dar conta da empreitada. O único que ela encontrara foi o do marido. Certamente, o mais difícil de todos. Largou as sacolas com as roupas e sapatos que comprou para si – presentes mais que merecidos – ao lado do sofá e foi fazer seu pedido, sem tirar os olhos das sacolas. “São dezessete reais e quarenta centavos. Dinheiro ou cartão?” “Cartão. No crédito, pode ser?” “Pode.” Ana procurou seu Mastercard na carteira, na bolsa, nos bolsos e nada. “Onde foi que coloquei o cartão?” Nervosa com o sumiço do cartão pediu licença à atendente e foi juntar-se às sacolas. Como já havia feito uma busca preliminar, na fila do caixa, Ana esparramou o conteúdo da bolsa no puff em frente ao sofá, e começou a procurar entre propagandas, tickets, contas de água, luz, telefone, comprovantes do cartão de crédito, papeizinhos de bala, folheou rapidamente o livro “Comer, Amar, Rezar” e sua agenda, olhou dentro do envelope de fotos impressas, telefone, o presente de Adriano e nada. Abriu a carteira e continuou sua busca. As mãos arrancavam fotos, cartões de lojas e outros comprovantes socados nos bolsos da carteira, moedas, santinhos, dólares, euros, reais. Num gesto desesperado partiu para cima das sacolas de roupas e sapatos e retirando-os um a um, apenas aumentava a bagunça à sua volta, pois nada do cartão de crédito. Ana recostou-se no sofá e olhou apavorada a montanha que acabara de construir sobre o puff, e envergonhada, começou a recolher seus pertences deliberando internamente sobre “onde diabos se meteu aquele maldito cartão de crédito.” Ana avaliava a possibilidade de tê-lo perdido, esquecido em alguma loja, ter sido roubada, ou ainda, dele ter passado despercebido em sua busca, quando seu telefone tocou e ela, desmoronando a pilha a sua frente, pegou o aparelho e ouviu a voz autoritária e estressada de Adriano. “Em dez minutos te pego na saída D. Estão todos nos esperando em casa. Tudo certo com os presentes?

A morte de Lola

Ato III

Lola não sobreviveu. Foi decapitada, trucidada e atropelada. Mataram-na como personagem. Na autópsia, verificou-se resquícios de laudo e perícia psicológica. Ela não se sustentou com palavras pouco expressivas, e, sem ação, confundiu-se numa descrição de possibilidades, sentimentos e obviedades totalmente dispensáveis. O que complicou a sobrevida de Lola foi a prescrição de antidepressivos ao invés de carbolítium. Talvez, se a medicação estivesse adequada, sua morte pudesse ser evitada. E como ninguém viu a bipolaridade de Lola, mas sim, uma personagem confusa, sem uma persona forte e definida, concluiu-se que o melhor para seu futuro, seria a morte. Também os sonhos, loucuras e clichês, onde Lola foi ambientada, foram considerados ambientes inóspitos, não recomendados e proibitivos no universo literário em questão. Assim, no obituário de Lola aparecerão mais algumas considerações: o texto precisaria se bastar, com início, meio e fim (embora criado para dar continuidade a um projeto considerado promissor); a primeira frase deste texto precisaria – necessariamente – ser estratégica (é nela que Lola deveria cativar por sua graça e complexidade; e ela fracassou retumbantemente), sem contar que ela precisaria ser percebida como um ser ativo e objetivo, e não como um ser sensitivo e subjetivo. Tenho de reconhecer que esta morte fez-se necessária, mas não será em vão. Lola foi fruto de outra formação e função. Psicologicamente falando, um excelente estudo de caso. Literariamente falando, nasceu fantasma sem jeito e sem estrutura. Teve que morrer.

Lola

ATO I

Lola acordou de mais um de seus pesadelos. Já devia estar acostumada, afinal, toda noite era a mesma coisa. Tinha consciência de que os pesadelos começaram um pouco antes do seu aniversário de 50 anos. E por mais que soubesse que o motivo para tê-los era muito bobo, não conseguia evitar. Ainda trêmula, pegou o cigarro no criado mudo e arrastou-se até a sala. Era lá que recuperava um pouco do equilíbrio e se acalmava. Sobre a mesa empoeirada, cheia de jornais velhos, copos e xícaras usadas e cinzeiros lotados de bitucas de cigarro, Lola encontrou seu conforto diário: álbuns de fotografias. Aninhou-se no sofá puído e mofado e ainda abalada pelo impacto do pesadelo, pegou, abraçou e abriu um dos álbuns da pilha sobre a mesa. Era gostoso abraçar os que não mais estavam com ela. Era doloroso acordar e estar sozinha. Olhar as fotos também podia ser doloroso, mesmo assim, as olhava todos os dias, pois representavam os troféus de sua vida. Desde seu divórcio e da saída de Joana, Lola vivia num ioiô de emoções. A festa de 50 anos era apenas a ponta do iceberg. Sentia-se uma velha decadente e inútil. Aposentada por invalidez, traída pelo marido, a filha que preferiu mudar para um república, os poucos amigos. E pra piorar, seu salário congelado há séculos, mal dava pra pagar o aluguel e os antidepressivos que era obrigada a tomar. Pelo menos as fotos lhe lembravam outra época, outros momentos e outros sentimentos. Havia cor, vida e energia nos rostos sorridentes e felizes que posavam nas fotos. Havia viagens, jantares e passeios. Eram lembranças suas, que ninguém podia levar ou roubar. Fechou o álbum, colocou-o cuidadosamente sobre os outros, olhou satisfeita a bagunça da mesa e da sala, amassou o cigarro no cinzeiro e foi tomar uma ducha. Colocou tênis e agasalho, tomou café preto, em pé, na bancada da cozinha, olhou curiosa a correria na rua em frente. Respirou fundo e pensou em alto e em gargalhante bom som: “Como não tem ninguém pra me encher o saco, vou assistir a nojenta da Ana Maria Braga. Todos ouviram?”