Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente este miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”

(Histórias de cronópios e de famas – Julio Cortázar, p. 27)

 

Empoderamento

“Resumidamente, empoderamento é a conscientização profunda de nosso status social, que nos permite criar estratégias individuais e coletivas, e assim, reverter o estado atual de coisas. Não podemos empoderar ninguém, como muitos erroneamente acreditam. Podemos, por meio do nosso empoderamento (promovemos o processo em nós mesmas), inspirar pessoas, para que elas, sozinhas, delineiem os próprios caminhos e, assim empoderem a coletividade pela soma de indivíduos. É um ato horizontal, jamais vertical; um processo que envolve muitas dimensões, como a afetiva, a política, a estética e a econômica.”

(Joice Berth, autora do livro O que é empoderamento, em artigo (Ponto Final) para a Revista Cláudia, edição de novembro/2018, p.174)

“Conselhos esquisitos”

“Podem ser esquisitos mas dão certo … Imagine que é perfeitamente possível engomar anáguas aproveitando … a água em que foi cozido o macarrão. Também dá certo usar o mesmo líquido em tecidos mais leves: basta acrescentar mais água. Outra coisa bem esquisitinha é o modo de limpar faca enferrujada: basta fincá-la … numa cebola, lavando-a em seguida com sapólio. E se você nunca pensou nisso, vai estranhar: fubá de milho tira mancha de mofo. Ferva a roupa mofada num pouco d’água com duas colheres de fubá, e deixe quarar um pouco. No domínio ainda do estranho: esfregue as mãos manchadas de cera com sal de cozinha e sabão.” (Correio para mulheres, Clarice Lispector – p. 218/219)

Para quem não sabia, Clarice Lispector escreveu colunas para mulheres usando três nomes diferentes: Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares, entre os anos de 1959 e 1961. O livro com quase 400 páginas problematiza “futilidades” das mulheres da época, evidenciando embriões de contos, crônicas e romances. Temas que constituem em parte a base da ficção clariceana.

“Bolo e gelo: Conselhos de minha vizinha”

“Sabe como minha vizinha quebra gelo? Pois coloca o bloco sobre um pano limpo e bate com um martelo num prego cuja ponta fica pousada exatamente no lugar que ela quer dividir. Engenhoso, simples, sem perigo. Um dia desses vi, ela passando a ferro um vestido preto do seguinte modo esquisito: ela passava sobre papel de jornal molhado e torcido. Perguntei o que era aquilo. Respondeu: “Se eu não fizer assim, qualquer vestido de seda escura fica todo lustroso nas costuras.” Outra coisa que ela sistematicamente faz, ao assar um bolo: põe no forno, na prateleira de baixo, uma bandeja de folha de água. Diz que assim o bolo assa por igual.”(Correio para mulheres, Clarice Lispector – p.228)

Sobre o Caminho

“Dançando na luz” abriu a maratona Shirley MacLaine. Depois li “Minhas Vidas” e agora “O caminho – Uma jornada do Espírito”.  O interesse pela autora é antigo e se conecta com o interesse dela por vidas passadas, esoterismo e misticismo. Nada a ver com religiosidade. “O caminho” – título do livro – é o caminho de Santiago de Compostela, que fiz (uma parte) em 2010. Ele anda acenando e me convidando a voltar. A caminhada completa, 30 a 40 dias de peregrinação, foi pensada junto a Santo Tiago na Catedral de Compostela. Pelo que lembro, nem ele nem eu, cumprimos o combinado.

Enquanto leio e relembro a caminhada, reflexões como esta, me instigam a repensar o combinado, e, quem sabe, me levem a refazer a caminhada.

“Toda a vida é uma lição de autoconhecimento. Quanto mais entendermos sobre nós mesmos, mais seremos capazes de lidar com qualquer coisa.

Os líderes do mundo atual são exemplo disso. Cada um deles sofre da falta de autoconhecimento, por isso tantos agem de maneiras destrutivas. Eles são, na verdade, autodestrutivos. Destroem não apenas a si mesmos, mas as pessoas que lideram – Clinton, Milosevic, Osama bin Laden, os mulás do Irã, os governantes da China, e assim por diante. Os líderes que eu conhecera que haviam estado na prisão em confinamento solitário – Gandhi, Nelson Mandela – tinham resolvido muito dos seus conflitos interiores por terem sido forçados ao isolamento. E todos afirmaram que aquele foi o período mais importante de suas vidas. Hoje, poucos dedicam tempo à busca interior, e disso vem o estado do mundo, que beira o desastre. Com certeza, as pessoas comuns em qualquer sociedade não tem tempo para a busca interior porque estão presas à competição pela sobrevivência, devido ao materialismo furioso. As pessoas no mundo parecem presas a uma esteira de sobrevivência, ignorando as alegrias da evolução que só poderiam conhecer se gastassem algum tempo para descobrir quem são.”

(O caminho – Uma jornada do espírito, Shirley MacLaine, p. 114/115)

Presente do mar

Anne Morrow Lindberg

O livrinho, pequeno em tamanho e gigantesco nas reflexões, foi originalmente escrito em 1955, e reeditado em 1975. A autora buscou na solidão de uma ilha e no contato com as conchas, um bálsamo para seus conflitos pessoais.

conchas 2

“Pois ser mulher é ter interesses e obrigações que irradiam em todas as direções a partir de um núcleo materno central, como os raios que partem do centro de uma roda. O padrão de nossas vidas é circular em sua essência. Precisamos estar abertas a todos os pontos da circunferência: marido, filhos, amigos, casa, comunidade: tensionadas, expostas, sensíveis a cada apelo, como uma teia de aranha que balança a cada brisa que sopra. Como é difícil alcançarmos um equilíbrio entre tantas tensões contraditórias! E, ao mesmo tempo, esse equilíbrio é essencial para o funcionamento adequado de nossas vidas.” (p. 37-38)

“E aqui me confronto com um estranho paradoxo. Instintivamente, a mulher quer se doar; no entanto, fica ressentida por se dar em pequenas doses. Seria este um conflito básico? Ou eu é que estaria simplificando demais um problema muito mais complexo? Acredito que a mulher não se ressinta tanto por se dar em pequenas doses, mas por se dar em vão. Não receamos o fato de que nossa energia possa estar sendo escoada por pequenas brechas, mas que possa estar se perdendo pelo caminho. O problema é que não vemos os resultados de nossa doação de forma tão concreta, como acontece com o homem em seu trabalho.” (p. 53)

“Na verdade, este é um dos momentos mais importantes de nossas vidas – quando estamos sozinhos. Algumas fontes começam a jorrar apenas quando estamos sós. O artista precisa ficar só para criar; o escritor, para elaborar seus pensamentos; o músico, para compor; o santo, para rezar. A mulher precisa de solitude para reencontrar sua verdadeira essência, núcleo indispensável a partir do qual será tecida toda uma gama de relações humanas. Ela precisa encontrar a quietude interior que Charles Morgan descreve como “a quietude da alma em meio às atividades da mente e do corpo, para que ela se torne tão serena como o eixo de uma roda em movimento.”(p. 57)

“As ondas ecoam atrás de mim. Paciência, fé, compreensão. É isto que nos ensina o mar. Simplicidade, solitude, intermitência … Mas há outras praias para se explorar. Há outras conchas para se encontrar. Este é apenas o começo.”(p. 127)

Escolarize-se.

“Escola é uma coisa. Educação é outra. As duas nem sempre se sobrepõem. Estando ou não na escola, é sempre sua tarefa melhorar a sua educação.

Você tem de ser curioso com relação ao mundo em que vive. Confira. Investigue cada referência. Vá mais fundo do que qualquer outro – é assim que você irá em frente.

Dê um Google em tudo. Mesmo. Dê um Google nos seus sonhos, nos seus problemas. Não faça uma pergunta antes de você dar um Google nela. Você vai encontrar a resposta ou vai acabar esbarrando numa pergunta melhor.

Leia sempre. Vá à biblioteca. Há magia em estar rodeado de livros. Perca-se pelas estantes. Leia bibliografias. O negócio não é o livro com o qual você começa, mas o livro ao qual aquele livro te levará.

Colecione livros., mesmo que não planeje lê-los no momento. O cineasta John Waters falou: “Nada é mais importante que uma biblioteca não lida.”

Não se preocupe em fazer pesquisa. Apenas busque.” (KLEON, Austin – “Roube como um artista” p.27/28)

Camaleões humanos

E quem já não se sentiu plagiado ou roubado como ser humano?

Quando a própria identidade é o objeto a ser saqueado e tomado.

“Examinemos esse autêntico arquétipo que, esperamos, venha a figurar um dia nos manuais, constituindo uma nova noção psicológica, o zeliguismo, a exemplo do que ocorreu com o masoquismo (derivado de Sacher-Masoch) ou com o dom-juanismo (a partir do mito de Don Juan. O termo pode até soar mal, mas designa de forma apropriada uma realidade significativa.

Psicanalista de origem polonesa, Helene Deutsch foi pioneira na descrição de um tipo análogo de personalidade, que ela batizou de personalidade as if (“como se”). Nestes indivíduos a identidade é flutuante, mal-ancorada. Eles conseguem se estabilizar apropriando-se da imagem de um outro, espelhando-se de maneira mimética em pessoas próximas. Procurar agir, pensar e sentir como quem está diante deles dá a esses indivíduos uma consistência, um simulacro de coerência. Essa imitação extrema impede a experiência de ruptura, da errância, permite a eles unificar-se, integrar pensamento e sensação.

As personalidades as if nos parecem inconsistentes. São sede de uma energia não orientada que pode se traduzir em percepções estranhas: impressão de ser atravessado por correntes elétricas, sensação difusa de dor, etc. Essas personalidades não tem de fato objetivos, mas isto não está relacionado à dificuldade de assumi-los, que é uma dificuldade central nas neuroses. Imitar a imagem, as palavras, os gestos do outro, agarrar-se a um texto são modos de concentrar numa direção, canalizar um pouco estes fluxos e de dar a estes indivíduos uma coerência, preenchendo-os.

Helene Deutsch explica a superficialidade de suas emoções: “Aderindo com grande desenvoltura aos grupos sociais, éticos e religiosos, eles procuram mediante essa adesão, dar conteúdo e realidade à sua vida interior e estabelecer a validade da sua existência por meio de uma identificação.” Na qualidade de camaleões desprovidos de referências interna, eles se fundem ao cenário, não ferecem nenhuma resistência ao meio. Homossexuais entre os homossexuais, héteros entre os héteros, provisoriamente sadomasoquistas ou abstinentes segundo o contexto, esses indivíduos se moldam de acordo com os modismos, os gostos daqueles a sua volta, sem fazer valer uma posição diferenciada.”

(Como Woody Allen pode mudar sua vida – Grandes lições de vida através da visão de um dos maiores gênios do cinema, Éric Vartzbed, p. 53/54)