Sobre o Caminho

“Dançando na luz” abriu a maratona Shirley MacLaine. Depois li “Minhas Vidas” e agora “O caminho – Uma jornada do Espírito”.  O interesse pela autora é antigo e se conecta com o interesse dela por vidas passadas, esoterismo e misticismo. Nada a ver com religiosidade. “O caminho” – título do livro – é o caminho de Santiago de Compostela, que fiz (uma parte) em 2010. Ele anda acenando e me convidando a voltar. A caminhada completa, 30 a 40 dias de peregrinação, foi pensada junto a Santo Tiago na Catedral de Compostela. Pelo que lembro, nem ele nem eu, cumprimos o combinado.

Enquanto leio e relembro a caminhada, reflexões como esta, me instigam a repensar o combinado, e, quem sabe, me levem a refazer a caminhada.

“Toda a vida é uma lição de autoconhecimento. Quanto mais entendermos sobre nós mesmos, mais seremos capazes de lidar com qualquer coisa.

Os líderes do mundo atual são exemplo disso. Cada um deles sofre da falta de autoconhecimento, por isso tantos agem de maneiras destrutivas. Eles são, na verdade, autodestrutivos. Destroem não apenas a si mesmos, mas as pessoas que lideram – Clinton, Milosevic, Osama bin Laden, os mulás do Irã, os governantes da China, e assim por diante. Os líderes que eu conhecera que haviam estado na prisão em confinamento solitário – Gandhi, Nelson Mandela – tinham resolvido muito dos seus conflitos interiores por terem sido forçados ao isolamento. E todos afirmaram que aquele foi o período mais importante de suas vidas. Hoje, poucos dedicam tempo à busca interior, e disso vem o estado do mundo, que beira o desastre. Com certeza, as pessoas comuns em qualquer sociedade não tem tempo para a busca interior porque estão presas à competição pela sobrevivência, devido ao materialismo furioso. As pessoas no mundo parecem presas a uma esteira de sobrevivência, ignorando as alegrias da evolução que só poderiam conhecer se gastassem algum tempo para descobrir quem são.”

(O caminho – Uma jornada do espírito, Shirley MacLaine, p. 114/115)

Presente do mar

Anne Morrow Lindberg

O livrinho, pequeno em tamanho e gigantesco nas reflexões, foi originalmente escrito em 1955, e reeditado em 1975. A autora buscou na solidão de uma ilha e no contato com as conchas, um bálsamo para seus conflitos pessoais.

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“Pois ser mulher é ter interesses e obrigações que irradiam em todas as direções a partir de um núcleo materno central, como os raios que partem do centro de uma roda. O padrão de nossas vidas é circular em sua essência. Precisamos estar abertas a todos os pontos da circunferência: marido, filhos, amigos, casa, comunidade: tensionadas, expostas, sensíveis a cada apelo, como uma teia de aranha que balança a cada brisa que sopra. Como é difícil alcançarmos um equilíbrio entre tantas tensões contraditórias! E, ao mesmo tempo, esse equilíbrio é essencial para o funcionamento adequado de nossas vidas.” (p. 37-38)

“E aqui me confronto com um estranho paradoxo. Instintivamente, a mulher quer se doar; no entanto, fica ressentida por se dar em pequenas doses. Seria este um conflito básico? Ou eu é que estaria simplificando demais um problema muito mais complexo? Acredito que a mulher não se ressinta tanto por se dar em pequenas doses, mas por se dar em vão. Não receamos o fato de que nossa energia possa estar sendo escoada por pequenas brechas, mas que possa estar se perdendo pelo caminho. O problema é que não vemos os resultados de nossa doação de forma tão concreta, como acontece com o homem em seu trabalho.” (p. 53)

“Na verdade, este é um dos momentos mais importantes de nossas vidas – quando estamos sozinhos. Algumas fontes começam a jorrar apenas quando estamos sós. O artista precisa ficar só para criar; o escritor, para elaborar seus pensamentos; o músico, para compor; o santo, para rezar. A mulher precisa de solitude para reencontrar sua verdadeira essência, núcleo indispensável a partir do qual será tecida toda uma gama de relações humanas. Ela precisa encontrar a quietude interior que Charles Morgan descreve como “a quietude da alma em meio às atividades da mente e do corpo, para que ela se torne tão serena como o eixo de uma roda em movimento.”(p. 57)

“As ondas ecoam atrás de mim. Paciência, fé, compreensão. É isto que nos ensina o mar. Simplicidade, solitude, intermitência … Mas há outras praias para se explorar. Há outras conchas para se encontrar. Este é apenas o começo.”(p. 127)

Escolarize-se.

“Escola é uma coisa. Educação é outra. As duas nem sempre se sobrepõem. Estando ou não na escola, é sempre sua tarefa melhorar a sua educação.

Você tem de ser curioso com relação ao mundo em que vive. Confira. Investigue cada referência. Vá mais fundo do que qualquer outro – é assim que você irá em frente.

Dê um Google em tudo. Mesmo. Dê um Google nos seus sonhos, nos seus problemas. Não faça uma pergunta antes de você dar um Google nela. Você vai encontrar a resposta ou vai acabar esbarrando numa pergunta melhor.

Leia sempre. Vá à biblioteca. Há magia em estar rodeado de livros. Perca-se pelas estantes. Leia bibliografias. O negócio não é o livro com o qual você começa, mas o livro ao qual aquele livro te levará.

Colecione livros., mesmo que não planeje lê-los no momento. O cineasta John Waters falou: “Nada é mais importante que uma biblioteca não lida.”

Não se preocupe em fazer pesquisa. Apenas busque.” (KLEON, Austin – “Roube como um artista” p.27/28)

Camaleões humanos

E quem já não se sentiu plagiado ou roubado como ser humano?

Quando a própria identidade é o objeto a ser saqueado e tomado.

“Examinemos esse autêntico arquétipo que, esperamos, venha a figurar um dia nos manuais, constituindo uma nova noção psicológica, o zeliguismo, a exemplo do que ocorreu com o masoquismo (derivado de Sacher-Masoch) ou com o dom-juanismo (a partir do mito de Don Juan. O termo pode até soar mal, mas designa de forma apropriada uma realidade significativa.

Psicanalista de origem polonesa, Helene Deutsch foi pioneira na descrição de um tipo análogo de personalidade, que ela batizou de personalidade as if (“como se”). Nestes indivíduos a identidade é flutuante, mal-ancorada. Eles conseguem se estabilizar apropriando-se da imagem de um outro, espelhando-se de maneira mimética em pessoas próximas. Procurar agir, pensar e sentir como quem está diante deles dá a esses indivíduos uma consistência, um simulacro de coerência. Essa imitação extrema impede a experiência de ruptura, da errância, permite a eles unificar-se, integrar pensamento e sensação.

As personalidades as if nos parecem inconsistentes. São sede de uma energia não orientada que pode se traduzir em percepções estranhas: impressão de ser atravessado por correntes elétricas, sensação difusa de dor, etc. Essas personalidades não tem de fato objetivos, mas isto não está relacionado à dificuldade de assumi-los, que é uma dificuldade central nas neuroses. Imitar a imagem, as palavras, os gestos do outro, agarrar-se a um texto são modos de concentrar numa direção, canalizar um pouco estes fluxos e de dar a estes indivíduos uma coerência, preenchendo-os.

Helene Deutsch explica a superficialidade de suas emoções: “Aderindo com grande desenvoltura aos grupos sociais, éticos e religiosos, eles procuram mediante essa adesão, dar conteúdo e realidade à sua vida interior e estabelecer a validade da sua existência por meio de uma identificação.” Na qualidade de camaleões desprovidos de referências interna, eles se fundem ao cenário, não ferecem nenhuma resistência ao meio. Homossexuais entre os homossexuais, héteros entre os héteros, provisoriamente sadomasoquistas ou abstinentes segundo o contexto, esses indivíduos se moldam de acordo com os modismos, os gostos daqueles a sua volta, sem fazer valer uma posição diferenciada.”

(Como Woody Allen pode mudar sua vida – Grandes lições de vida através da visão de um dos maiores gênios do cinema, Éric Vartzbed, p. 53/54)

O Natal de uma família diferente

Como se tivessem combinado, chegaram juntos, cada um com um pacote na mão, envolto em papel festivo. Renata, minha filha, beijou Celso e Ricardo, eles entregaram os presentes. Ricardo apresentou os dois jovens que tinham entrado junto.
– São amigos de faculdade, um de minha turma, outro do Celso. Moram fora de São Paulo e queriam conhecer meus irmãos.
Os dois apertaram as mãos, entregaram uma garrafa de vinho cada um, desejaram feliz Natal.
– Ainda que faltem alguns dias, mas vamos lá.
– Faltam sim uns dias, mas o almoço foi programado para hoje por um motivo forte. Único dia em que os irmãos podiam se juntar. Cada um está num lado, foi preciso armar com antecedência. Primeiro Natal que passam juntos!
Expliquei com um sorriso, porque eu sabia o que eles não sabiam.
O almoço foi servido, uma carne tenra de peru com salada de endívias. Os colegas de faculdade estavam curtindo o encontro dos irmãos.
A certa altura, surpreenderam-se quando Celso perguntou à Renata:
– E seu pai? Vem?
– Não sei ainda!
Os dois olharam para a Renata, olharam para Juliana, voltaram-se para mim. Afinal, não era eu o pai? Percebi a perplexidade. Não era uma reunião de irmãos? Almoço vai, almoço vem, Renata virou-se para Celso:
– Perguntou do meu. E o seu pai?
– Sabe que ele nunca vem. Desentendeu de vez com minha mãe, mudou-se de São Paulo.
Os dois colegas de faculdade se entreolharam perplexos como que perguntando: que irmandade é esta? Que pais são esses? Não resistiram:
– É ou não é um almoço de Natal entre irmãos? Que conversa é essa do seu pai, do pai dela? Uma brincadeira, pegadinha, o quê?
– Nada disso, comentou Ricardo, o mais velho de todos. Este almoço é especial Um almoço de Natal, dias antes do Natal, e há muito esperado. Somos irmãos não irmãos. Nos consideramos irmãos e vivemos como irmãos.
– Continuamos sem entender.
Todos riram. Renata entrou na conversa:
– Minha mãe é esta, a Juliana. Casou-se com meu pai aos 24 anos, e nasci. Um ano depois, meu pai se mandou. Dois anos depois, minha mãe casou-se de novo com o Rodrigo, este aqui na ponta da mesa, com quem vivo há 24 anos.
Portanto ele é meu pai, o homem que me criou, educou.
Ricardo pegou a deixa:
– Rodrigo é meu pai. Era casado com a Cássia, minha mãe. Quatro anos depois de eu nascer, eles se separaram. Meu pai ficou anos sozinho, até se casar de novo com a Juliana. Nossos Natais sempre eram esquisitos.
A ceia com minha mãe, o almoço do dia seguinte com meu pai. Então, minha mãe, a Cássia, se casou de novo com o Edu. E nasceram Celso e João.
Celso está aqui, o João está no estrangeiro. Meus irmãos por parte de mãe. Depois, Cássia e Edu se separaram, ele ficou um tempo, casou-se de novo, tem um filho, Marcelo. Que ainda vai chegar porque este encontro foi planejado. Assim teremos pais não pais e irmãos não irmãos. Um Natal diferente, porque nos uniu e estamos curtindo.
Os colegas de faculdade compreenderam, ainda que ressabiados. Porém sentiram o bom astral e ficaram em dúvida. Quem são os diferentes aqui? Nós, ou eles? Quem são os normais? Perguntaram rindo. É, o mundo mudou, mas o Natal continua Natal, unindo pessoas. E foram abertos espumantes frescos e delicados.

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                                                     Por Ignácio de loyola Brandão

Inácio de Loyola Brandão, 74 anos, é escritor e jornalista, tem 35 livros publicados entre romances, contos, biografias, crônicas, viagens e infantis. Cronista quinzenal do jornal O Estado de S.Paulo

Grandes avós

“Em todas as mulheres, sobretudo quando entram na maturidade, instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados: um impulso arrebatador e inesgotável que as impele obstinadamente rumo à salvação, à reconstrução de toda e qualquer integridade despedaçada. Como uma grande árvore que, quando ameaçada pela doença, golpeada pela intempérie, agredida pela fúria do homem, se recusa a morrer e, milagrosamente e com enorme dose de paciência e persistência, continua a nutrir-se através das próprias raízes, restaura-se e renasce para manter o próprio espírito vital de forma a poder gerar novos frutos, aos quais confiará esta herança inestimável.” (Estés, Clarissa Pinkola, A Ciranda das Mulheres Sábias, 1ª contracapa)

Mais Sêneca, menos Prozac

Faz tempo que não escrevo sobre os livros que ando lendo, nem sobre as ideias de outros autores. Também fazia tempo que não comprava nem lia livro de autoajuda. Um dos gêneros que mais me cansa. Considero-os repetitivos e apelativos. Numa das minhas últimas idas à livraria me deparei com o livro “Mais Sêneca, menos Prozac – para quem não quer mais sofrer” de Clay Newman. Folhando-o me deparei com várias ideias interessantes e não resisti. Aliás, tenho lido filósofos antigos e contemporâneos e me encantado. Li o livro de Clay Newman – especialista em psicologia transpessoal – com apetite e sede desmedida. Vou ter de relê-lo para digerir cada um dos 21 princípios ativos citados pelo autor, que se inspira nos valores promovidos pelo estoicismo, cujo representante máximo foi Sêneca – filósofo, escritor, político e orador romano, que viveu no ano 4 a.C. Muitos historiadores concordam que Sêneca foi um dos primeiros gurus especializados em desenvolvimento pessoal. Seus ensinamentos centravam-se em dotar as pessoas de recursos e ferramentas para que pudessem enfrentar seus próprios conflitos e problemas. É dele frases como “Por acaso somos perfeitos? Porque, então, exigimos perfeição nos outros?”, “Não podemos controlar o mar, mas podemos comandar nosso barco”, “Não há nada eterno e poucas coisas duradouras. Tudo que teve um início há de ter fim” …

Abaixo, um trecho do capítulo que aborda um dos sete princípios ativos que permitem ao indivíduo ir além de si mesmo, melhorando sua relação com a realidade.

“Você é muito mais predestinado do que pode imaginar. No universo nada acontece por acaso. O lugar onde você nasceu: a etnia a qual pertence; a genética que o condiciona; o signo do zodíaco que determina seu padrão energético; o modelo mental que determina sua personalidade; os pais que lhe couberam; a cultura e a religião que lhe inculcaram; o tipo de crenças que adquiriu. Absolutamente tudo que o constitui como ser humano foi traçado de forma perfeita para que, por meio de um processo de aprendizagem, você cumpra seu propósito nesta vida: ser feliz, estar em paz com os outros e amar a vida como ela é. Segundo a lei da correspondência, você gera as circunstâncias de que necessita para confrontar sua ignorância. Assim, tende a atrair aquilo que não compreende nem aceita. Só acontece com você aquilo que tem que acontecer. E o mesmo ocorre com o resto do mundo.”(p. 146. Mais Sêneca, menos Prozac – para quem não quer mais sofrer”de Clay Newman)