Escolarize-se.

“Escola é uma coisa. Educação é outra. As duas nem sempre se sobrepõem. Estando ou não na escola, é sempre sua tarefa melhorar a sua educação.

Você tem de ser curioso com relação ao mundo em que vive. Confira. Investigue cada referência. Vá mais fundo do que qualquer outro – é assim que você irá em frente.

Dê um Google em tudo. Mesmo. Dê um Google nos seus sonhos, nos seus problemas. Não faça uma pergunta antes de você dar um Google nela. Você vai encontrar a resposta ou vai acabar esbarrando numa pergunta melhor.

Leia sempre. Vá à biblioteca. Há magia em estar rodeado de livros. Perca-se pelas estantes. Leia bibliografias. O negócio não é o livro com o qual você começa, mas o livro ao qual aquele livro te levará.

Colecione livros., mesmo que não planeje lê-los no momento. O cineasta John Waters falou: “Nada é mais importante que uma biblioteca não lida.”

Não se preocupe em fazer pesquisa. Apenas busque.” (KLEON, Austin – “Roube como um artista” p.27/28)

Camaleões humanos

E quem já não se sentiu plagiado ou roubado como ser humano?

Quando a própria identidade é o objeto a ser saqueado e tomado.

“Examinemos esse autêntico arquétipo que, esperamos, venha a figurar um dia nos manuais, constituindo uma nova noção psicológica, o zeliguismo, a exemplo do que ocorreu com o masoquismo (derivado de Sacher-Masoch) ou com o dom-juanismo (a partir do mito de Don Juan. O termo pode até soar mal, mas designa de forma apropriada uma realidade significativa.

Psicanalista de origem polonesa, Helene Deutsch foi pioneira na descrição de um tipo análogo de personalidade, que ela batizou de personalidade as if (“como se”). Nestes indivíduos a identidade é flutuante, mal-ancorada. Eles conseguem se estabilizar apropriando-se da imagem de um outro, espelhando-se de maneira mimética em pessoas próximas. Procurar agir, pensar e sentir como quem está diante deles dá a esses indivíduos uma consistência, um simulacro de coerência. Essa imitação extrema impede a experiência de ruptura, da errância, permite a eles unificar-se, integrar pensamento e sensação.

As personalidades as if nos parecem inconsistentes. São sede de uma energia não orientada que pode se traduzir em percepções estranhas: impressão de ser atravessado por correntes elétricas, sensação difusa de dor, etc. Essas personalidades não tem de fato objetivos, mas isto não está relacionado à dificuldade de assumi-los, que é uma dificuldade central nas neuroses. Imitar a imagem, as palavras, os gestos do outro, agarrar-se a um texto são modos de concentrar numa direção, canalizar um pouco estes fluxos e de dar a estes indivíduos uma coerência, preenchendo-os.

Helene Deutsch explica a superficialidade de suas emoções: “Aderindo com grande desenvoltura aos grupos sociais, éticos e religiosos, eles procuram mediante essa adesão, dar conteúdo e realidade à sua vida interior e estabelecer a validade da sua existência por meio de uma identificação.” Na qualidade de camaleões desprovidos de referências interna, eles se fundem ao cenário, não ferecem nenhuma resistência ao meio. Homossexuais entre os homossexuais, héteros entre os héteros, provisoriamente sadomasoquistas ou abstinentes segundo o contexto, esses indivíduos se moldam de acordo com os modismos, os gostos daqueles a sua volta, sem fazer valer uma posição diferenciada.”

(Como Woody Allen pode mudar sua vida – Grandes lições de vida através da visão de um dos maiores gênios do cinema, Éric Vartzbed, p. 53/54)

O Natal de uma família diferente

Como se tivessem combinado, chegaram juntos, cada um com um pacote na mão, envolto em papel festivo. Renata, minha filha, beijou Celso e Ricardo, eles entregaram os presentes. Ricardo apresentou os dois jovens que tinham entrado junto.
– São amigos de faculdade, um de minha turma, outro do Celso. Moram fora de São Paulo e queriam conhecer meus irmãos.
Os dois apertaram as mãos, entregaram uma garrafa de vinho cada um, desejaram feliz Natal.
– Ainda que faltem alguns dias, mas vamos lá.
– Faltam sim uns dias, mas o almoço foi programado para hoje por um motivo forte. Único dia em que os irmãos podiam se juntar. Cada um está num lado, foi preciso armar com antecedência. Primeiro Natal que passam juntos!
Expliquei com um sorriso, porque eu sabia o que eles não sabiam.
O almoço foi servido, uma carne tenra de peru com salada de endívias. Os colegas de faculdade estavam curtindo o encontro dos irmãos.
A certa altura, surpreenderam-se quando Celso perguntou à Renata:
– E seu pai? Vem?
– Não sei ainda!
Os dois olharam para a Renata, olharam para Juliana, voltaram-se para mim. Afinal, não era eu o pai? Percebi a perplexidade. Não era uma reunião de irmãos? Almoço vai, almoço vem, Renata virou-se para Celso:
– Perguntou do meu. E o seu pai?
– Sabe que ele nunca vem. Desentendeu de vez com minha mãe, mudou-se de São Paulo.
Os dois colegas de faculdade se entreolharam perplexos como que perguntando: que irmandade é esta? Que pais são esses? Não resistiram:
– É ou não é um almoço de Natal entre irmãos? Que conversa é essa do seu pai, do pai dela? Uma brincadeira, pegadinha, o quê?
– Nada disso, comentou Ricardo, o mais velho de todos. Este almoço é especial Um almoço de Natal, dias antes do Natal, e há muito esperado. Somos irmãos não irmãos. Nos consideramos irmãos e vivemos como irmãos.
– Continuamos sem entender.
Todos riram. Renata entrou na conversa:
– Minha mãe é esta, a Juliana. Casou-se com meu pai aos 24 anos, e nasci. Um ano depois, meu pai se mandou. Dois anos depois, minha mãe casou-se de novo com o Rodrigo, este aqui na ponta da mesa, com quem vivo há 24 anos.
Portanto ele é meu pai, o homem que me criou, educou.
Ricardo pegou a deixa:
– Rodrigo é meu pai. Era casado com a Cássia, minha mãe. Quatro anos depois de eu nascer, eles se separaram. Meu pai ficou anos sozinho, até se casar de novo com a Juliana. Nossos Natais sempre eram esquisitos.
A ceia com minha mãe, o almoço do dia seguinte com meu pai. Então, minha mãe, a Cássia, se casou de novo com o Edu. E nasceram Celso e João.
Celso está aqui, o João está no estrangeiro. Meus irmãos por parte de mãe. Depois, Cássia e Edu se separaram, ele ficou um tempo, casou-se de novo, tem um filho, Marcelo. Que ainda vai chegar porque este encontro foi planejado. Assim teremos pais não pais e irmãos não irmãos. Um Natal diferente, porque nos uniu e estamos curtindo.
Os colegas de faculdade compreenderam, ainda que ressabiados. Porém sentiram o bom astral e ficaram em dúvida. Quem são os diferentes aqui? Nós, ou eles? Quem são os normais? Perguntaram rindo. É, o mundo mudou, mas o Natal continua Natal, unindo pessoas. E foram abertos espumantes frescos e delicados.

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                                                     Por Ignácio de loyola Brandão

Inácio de Loyola Brandão, 74 anos, é escritor e jornalista, tem 35 livros publicados entre romances, contos, biografias, crônicas, viagens e infantis. Cronista quinzenal do jornal O Estado de S.Paulo

Grandes avós

“Em todas as mulheres, sobretudo quando entram na maturidade, instala-se uma força subterrânea e invisível que se manifesta por meio de comportamentos inesperados, arroubos de energia, intuições perspicazes, ímpetos apaixonados: um impulso arrebatador e inesgotável que as impele obstinadamente rumo à salvação, à reconstrução de toda e qualquer integridade despedaçada. Como uma grande árvore que, quando ameaçada pela doença, golpeada pela intempérie, agredida pela fúria do homem, se recusa a morrer e, milagrosamente e com enorme dose de paciência e persistência, continua a nutrir-se através das próprias raízes, restaura-se e renasce para manter o próprio espírito vital de forma a poder gerar novos frutos, aos quais confiará esta herança inestimável.” (Estés, Clarissa Pinkola, A Ciranda das Mulheres Sábias, 1ª contracapa)

Mais Sêneca, menos Prozac

Faz tempo que não escrevo sobre os livros que ando lendo, nem sobre as ideias de outros autores. Também fazia tempo que não comprava nem lia livro de autoajuda. Um dos gêneros que mais me cansa. Considero-os repetitivos e apelativos. Numa das minhas últimas idas à livraria me deparei com o livro “Mais Sêneca, menos Prozac – para quem não quer mais sofrer” de Clay Newman. Folhando-o me deparei com várias ideias interessantes e não resisti. Aliás, tenho lido filósofos antigos e contemporâneos e me encantado. Li o livro de Clay Newman – especialista em psicologia transpessoal – com apetite e sede desmedida. Vou ter de relê-lo para digerir cada um dos 21 princípios ativos citados pelo autor, que se inspira nos valores promovidos pelo estoicismo, cujo representante máximo foi Sêneca – filósofo, escritor, político e orador romano, que viveu no ano 4 a.C. Muitos historiadores concordam que Sêneca foi um dos primeiros gurus especializados em desenvolvimento pessoal. Seus ensinamentos centravam-se em dotar as pessoas de recursos e ferramentas para que pudessem enfrentar seus próprios conflitos e problemas. É dele frases como “Por acaso somos perfeitos? Porque, então, exigimos perfeição nos outros?”, “Não podemos controlar o mar, mas podemos comandar nosso barco”, “Não há nada eterno e poucas coisas duradouras. Tudo que teve um início há de ter fim” …

Abaixo, um trecho do capítulo que aborda um dos sete princípios ativos que permitem ao indivíduo ir além de si mesmo, melhorando sua relação com a realidade.

“Você é muito mais predestinado do que pode imaginar. No universo nada acontece por acaso. O lugar onde você nasceu: a etnia a qual pertence; a genética que o condiciona; o signo do zodíaco que determina seu padrão energético; o modelo mental que determina sua personalidade; os pais que lhe couberam; a cultura e a religião que lhe inculcaram; o tipo de crenças que adquiriu. Absolutamente tudo que o constitui como ser humano foi traçado de forma perfeita para que, por meio de um processo de aprendizagem, você cumpra seu propósito nesta vida: ser feliz, estar em paz com os outros e amar a vida como ela é. Segundo a lei da correspondência, você gera as circunstâncias de que necessita para confrontar sua ignorância. Assim, tende a atrair aquilo que não compreende nem aceita. Só acontece com você aquilo que tem que acontecer. E o mesmo ocorre com o resto do mundo.”(p. 146. Mais Sêneca, menos Prozac – para quem não quer mais sofrer”de Clay Newman)

Forjando a armadura – Rudolf Steiner

“Nego-me a submeter-me ao medo

Que me tira a alegria da minha liberdade

Que não me deixa arrriscar nada.

Que me torna pequeno e mesquinho, que me amarra,

Que não me deixa ser direto e franco, que me persegue

Que ocupa negativamente a minha imaginação,

Que sempre pinta visões sombrias.

 

No entanto não quero levantar barricadas por medo do medo

Eu quero viver e não quero encerrar-me.

Não quero ser amigável por medo de ser sincero

Quero pisar firme porque estou seguro, e não para encobrir o meu medo.

E quando me calo quero fazê-lo por amor e não por temer as

conseqüências de minhas palavras.

 

Não quero acreditar em algo só pelo medo de não acreditar em nada.

Não quero filosofar, por medo que algo possa me atingir de perto

Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável

Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim.

Por medo de errar não quero me tornar inativo.

Não quero fugir de volta ao vellho, o inaceitável. Por medo de não me

sentir seguro de novo.

Não quero fazer-me importante porque tenho medo de ser ignorado.

 

Por convicção e amor quero fazer o que faço e deixar de fazer o que

deixo de fazer

Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor

E quero crer no reino que existe em mim.” (Rudolf Steiner)

Uma poesia que poderia ser um mantra para a vida.

Pequeno tratado sobre a mortalidade do amor

Todos os dias morrem amores. Quase nunca percebemos, mas todos os dias morrem amores. Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina. Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Morre em uma cama de motel ou em frente à televisão de domingo. Morre sem beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com gosto de lágrima nos lábios. Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, cartas cada vez mais concisas, beijos que esfriam aos poucos. Morre da mais completa e letal inanição.

Todos os dias morre um amor. Às vezes com uma explosão, quase sempre com um suspiro. Todos os diasmorre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, relutemos em admitir. Porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso. De saber que, mais uma vez, um amor morreu. Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa. E esta é a lição: amores morrem.

Todos os dias um amor é assassinado. Com a adaga do tédio, a cicuta da indiferença, a forca do escárnio, a metralhadora da traição. A sacola de presentes devolvidos, os ponteiros tiquetaqueando no relógio, o silêncio ensurdecedor depois de uma discussão: todo crime deixa evidências.

Todos nós fomos assassinos um dia. Há aqueles que, feito Lee Harvey Oswald, se refugiam em salas de cinema vazias. Ou preferem se esconder debaixo da cama, ao lado do bicho-papão. Outros confessam sua culpa em altos brados, fazendo de pinico os ouvidos de infelizes garçons. Há aqueles que negam, veementemente, participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas de chat ou pistas de danceteria, sem dor ou remorso. Os mais periculosos aproveitam sua experiência de criminosos para escrever livros de auto-ajuda com nomes paradoxais como “O Amor Inteligente”, ou romances açucarados de banca de jornal, do tipo “A Paixão Tem Olhos Azuis”, difundindo ao mundo ilusões fatais aos corações sem cicatrizes.

Existem os amores que clamam por um tiro de misericórdia: corcéis feridos.

Existem os amores-zumbis, aqueles que se recusam a admitir que morreram. São capazes de perdurar anos, mortos-vivos sobre a Terra teimando em resistir à base de camas separadas, beijos burocráticos, sexo sem tesão. Estes não querem ser sacrificados, e, à semelhança dos zumbis hollywoodianos, também se alimentam de cérebros humanos, definhando paulatinamente até se tornarem laranjas chupadas.

Existem os amores-vegetais, aqueles que vivem em permanente estado de letargia, comuns principalmente entre os amantes platônicos que recordarão até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4a. série, ou entre fãs que até hoje suspiram em frente a um pôster do Elvis Presley (e, pior, da fase havaiana). Mas titubeio em dizer que isso possa ser classificado como amor (Bah, isso não é amor. Amor vivido só do pescoço pra cima não é amor).

Existem, por fim, os amores-fênix. Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência, das contas a pagar, da paixão que escasseia com o decorrer dos anos, da TV ligada na mesa-redonda ao final do domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada, ressuscitam das cinzas a cada fim de dia e perduram – teimosos, e belos, e cegos, e intensos. Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência. Alguns os chamam de amores-unicórnio, porque são de uma beleza tão pura e rara que jamais poderiam ter existido, a não ser como lendas. Mas não quero acreditar nisso.

Um dia vou colocar um anúncio, bem espalhafatoso, no jornal.

PROCURA-SE: AMOR-FÊNIX (ofereço generosa recompensa)

Alexandre Inagaki