Não vai dar tempo

Toda vez que organizo os livros da biblioteca de casa tenho a sensação de que não vai dar tempo de ler e reler todos os livros distribuídos pelas prateleiras e mesas de casa. Tem livros recomendados e anotados numa lista gigantesca de possibilidades para comprar. Tem livros que ainda nem foram lançados.

E aí me lembro de todos os cursos que quero fazer e coisas pra aprender e lugares por conhecer; vidas que gostaria de experimentar, pessoas pra rever, trabalhos pra concluir. São coisas demais.

Certeza de que não vai dar tempo. Certeza de que o tempo pouco se importa. Quando chegar a hora, o que tiver de acontecer, acontecerá.

Será que terei o bônus de uma vida extra de tempo?

Cuca Fundida

A noite foi de sono moído e por isso li até quase o dia raiar, mesmo sabendo dos vários compromissos e pendências da exposição Diálogos do Inconsciente, em Lajeado. Enquanto espero pela livreira Stela, meu olhar cruza com o livro “Cuca Fundida” de Woody Allen. A identificação foi imediata.

Do autor li o brilhante “Adultérios”.

“Cuca fundida” é estranho. Literatura fantástica estranha. Estranhamente, é só o que tenho a dizer.

A arte da guerra – Sun Tzu

“Sobre o autor

Considerado um dos maiores estrategistas bélicos, Sun Tzu foi um general chinês e profundo conhecedor de táticas militares, alcançando em sua carreira, inúmeras vitórias. As ideias de sua obra mais conhecida, A arte da guerra, foram adotadas por consultores e executivos das mais variadas áreas, por serem, até hoje, consideradas de grande importância nos campos militares e estratégicos. Apesar de não haver nenhuma biografia fidedigna de Sun Tzu, sabe-se que ele viveu na China por volta do século IV a.C.”

(A arte da guerra, pg. 95)

Da série : Vou ter de reler. O livro é recomendadíssimo.

Não que a vida seja uma guerra. Mas todos os dias somos colocados frente a uma série de escolhas e posicionamentos. A visão que Sun Tzu tem da guerra, ajuda a pensar formas alternativas para enfrentar situações estressantes e de conflito. Algo absolutamente necessário nos dias de hoje. Interessante perceber as diversas perspectivas e possibilidades que qualquer embate representa.

Em busca da verdade

Segundo livro da série “Talentos da Literatura Brasileira”, da Editora Novo Século. Comprei numa mega promoção por acreditar na literatura nacional. Tenho mais seis para ler. Um por mês. O primeiro que li foi “Não foi bem assim – verdades e cicatrizes de um julgamento” de Francisco Almeida Prado.

O romance “Em busca da verdade” é de Tânia Lopes e segue na linha do Cinquenta Tons de Cinza de E.L James e Totalmente Sua de Sylvia Day. Um nicho do mercado editorial, que espero, tenha se esgotado. Sobre o texto – ambientado em Balneário Camboriú, com alguns passeios por Indaial e Florianópolis, todos em Santa Catarina – senti falta da descrição e/ou impressões dos lugares maravilhosos por onde circulam os personagens.

Memórias, sonhos, reflexões – Carl Gustav Jung

Do analista junguiano li outros livros. Exigência da minha formação em Arteterapia, cuja teoria faz pano de fundo para todo entendimento arteterapêutico. Mas, diferentemente dos outros livros, o livro de Memórias de Jung mescla teoria, vivência, a infância, adolescência, os pais, a religião, a morte, o dia a dia, viagens, opiniões, dados sobre a família, cartas, etcetcetc. Quase uma autobiografia. Tudo muito espontâneo. A teoria que acompanha textos e comentários mais parece um processo cognitivo em busca de sentido. Algo como a construção de um entendimento a partir de ideias e lembranças, sonhos e devaneios … um eterno amadurecer, onde complementos são sempre bem vindos e adequações, idem. A obra de uma vida com gosto de obra inacabada.

O texto, em alguns momentos agradável de ler, parece um diário. Em outros momentos, o texto é denso e pesado. Pulei algumas partes. Por isso, o livro continua na cabeceira pra ler o não lido, reler o esquecido, reconsiderar hipóteses, me aprofundar no imaginário de Jung e me inspirar em sua coragem.

Acompanhar a linha de raciocínio de Jung é inspirador. Imagino como era pensar e registrar os mais estapafúrdios pensamentos e ideias há mais de 100 anos, e mesmo assim, acreditar e perseverar. Lembro-me de quantas vezes pensei em soluções, ideias e projetos, cheia de energia e criatividade, para depois, ao perceber por onde andaram meu bom senso e racionalidade, acabar boicotando atitudes, textos e programações. Jung acatava as mensagens que vinham do seu inconsciente e não se importava com o que os outros iriam pensar, nem o quanto ele precisaria se desviar do que estava fazendo para implementar aquilo que lhe apareceu em sonhos, devaneios, observações e insights. São tantos os momentos em que Jung fez o que sentiu que deveria fazer que, se vivesse na atualidade, seria visto como pessoa disfuncional. A ideia da personalidade nº1 e nº2, onde a nº1 era objetiva e a nº2 absolutamente subjetiva, possivelmente seria considerada um distúrbio de personalidade. Dissociação. Jung não esconde suas fases depressivas e esquisitas, nem o quanto foi importante contar com a família, amigos e a própria arte como forma de superar estes períodos sombrios. Mesmo indeciso e inseguro com suas escolhas e ideias, seu inconsciente sempre lhe deu sinais – que ele considerou e levou à sério – para seguir em frente.

Pra variar vou ter de reler o texto. Ele vale. E o recomendo a todos que querem conhecer um pouco mais sobre Jung e se inspirar em sua coragem, foco e determinação.

Como sugestão:

  • Leia aos poucos.
  • Saboreie temas e frases.
  • Deixe-se levar.
  • Possivelmente Jung tenha sido o maior expedicionário e explorador do universo do inconsciente humano.
  • Não tenha medo.
  • Se entregue.
  • Entre em contato com seu próprio inconsciente. Escute-o. Dê-lhe espaço e atenção. Ele sabe muita coisa sobre você, que você nem desconfia.

Muito além do inverno – Isabel Allende

Da autora li vários livros: O caderno de Maya, Afrodite, Paula, Zorro, O amante japonês e A casa dos Espíritos. Isabel Allende é com certeza uma das minhas escritoras favoritas. “Muito além do inverno” aborda o tema da imigração ilegal. O relato da travessia e a permanência ilegal de Evelyn, uma guatemalteca, nos USA se mescla com um assassinato e as vidas entrecruzadas de Richard e Lucia. A questão da morte e das perdas dos personagens está presente em toda a narrativa. “Muito além do inverno” é um texto pesado, triste e penoso.

Selecionei este parágrafo que conta um pouco da crença de Evelyn e seu povo da América Central, sobre os rituais necessários para fazer a passagem da vida para a morte.

“Com muita dificuldade, tropeçando nas palavras, Evelyn conseguiu dizer que ao menos seus irmãos Gregorio e Andrés haviam sido enterrados com a devida reverência, embora poucos vizinhos tenham comparecido ao velório, por temor da quadrilha. Na casa de sua avó, haviam acendido velas e queimado ervas aromáticas, cantaram, choraram, brindaram com rum por eles, enterraram-nos com algumas das suas coisas para que não lhes faltasse na outra vida, e haviam sido rezadas missas por eles durante nove dias, como é o costume, porque nove são os meses que a criança passa no ventre da mãe antes de nascer e nove são os dias que o finado demora para renascer no céu. O túmulo de seus irmãos estava em terra consagrada, onde sua avó ia deixar flores aos domingos e levar-lhes comida no Dia de Finados. (p. 200)