Paris para um e outros contos – Jojo Moyes

Acabei de ler o quarto livro da escritora inglesa, cujo estilo é simples e divertido. A leitura, fácil. Dela li outros títulos, todos romances. No cinema, me emocionei com o “Como eu era antes de vc.

Quando comprei o livro de contos da autora, um dos objetivos era me motivar para escrever contos. Uma das metas literárias para 2019. Me surpreendi com o tamanho do primeiro conto do livro: “Paris para um” tem 97 páginas e 14 capítulos. Seria o conto o gênero literário para abarcar este texto? Após pesquisar sobre características do conto, a certeza de que não existe um número máximo de páginas. São outras as características que definem o texto como sendo conto ou não:

  • Enredo único: ao contrário de romances, os contos tendem a focar em um enredo que não se desdobra em tramas menores. Muitas vezes a história gira em torno de uma única situação.
  • Simplicidade: devido ao enredo único, os contos não costumam exigir grandes interpretações por parte do leitor.
  • Curto espaço de tempo: os contos costumam apresentar tramas que não se estendem por longos períodos. É comum, por exemplo, que a história se passe em um só dia.
  • Início próximo ao fim: geralmente os contos não dedicam tempo na introdução do ambiente e dos personagens, por isso, a história se inicia próxima ao clímax e ao desfecho.
  • Poucos personagens: por serem mais objetivos, contos costumam apresentar um número bem reduzido de personagens.
  • Final súbito: em contos, é normal que o fim aconteça imediatamente depois do clímax. Não há, portanto, uma fase da história em que podemos acompanhar as consequências da resolução do conflito.
  • Objetivo único: por não possuir desdobramentos, o conto busca causar um sentimento único no leitor (alegria, indignação, melancolia, etc) ou, simplesmente, contar uma história.

Quintana

Depois dos primeiros livros do ano, me debandei e fui ler poesia. Há quem diga que é fácil ler poesia; que rende, que a gente passa num revesgueio de olhos.

Projeto de Prefácio

“Sábias agudezas … refinamentos …

  • não!

Nada disso encontrarás aqui.

Um poema não é para te distraíres

Como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.

Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe

Um poema não é também quando paras no fim,

Porque um verdadeiro poema continua sempre …

Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te

[para a morte

não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!”

( Baú de Espantos – pg. 125)

Normalmente preciso reler cada poesia. Uma ou duas vezes. Comum me perder no raciocínio do poeta.

O último poema

“Enquanto me davam a extrema-unção,

Eu estava distraído …

Ah, essa mania incorrigível de estar

[pensando sempre noutra coisa!

Aliás, tudo é sempre outra coisa

  • segredo da poesia –

E, enquanto a voz do padre zumbia como

[um besouro,

Eu pensava era nos meus primeiros sapatos

Que continuavam andando, que continuam andando,

Até hoje

Pelos caminhos deste mundo.”

(Preparativos de viagem – pg. 68)

A poesia nos faz rodopiar por tempos e lugares no estalar de poucas palavras. Quando a gente vê, perdeu o fio da meada. Foi do tricô pro crochê, da lã pra tinta, do barro pro barbante. De Marte pra Babilônia. Do vento para o céu. Dos anjos para a infância direto para o leito de morte. Não é à toa que poesia é recomendado para os esquecidos desmemoriados e pobres de raciocínio. Quem lê sente a malhação cerebral. Talvez por isso tenha escolhido Mario Quintana, companheiro de piscina e verão. Logo ele! Deve estar se revirando na cova, sua última morada.

“A coisa mais natural da vida é a morte;

A coisa mais absurda da vida é a própria vida.”

(Velório sem Defunto – pg. 69)

Com os dias de calor e claridade infernais me coloquei a reler textos de Quintana. Encomendei alguns novos. É difícil encontrar Quintana nas livrarias. Bendita Internet! E assim, entremeadas no texto, algumas das muitas poesias e os quatro primeiros títulos lidos de Quintana. Outros e outras ainda virão.

(xii) Das Utopias

“Se as coisas são inatingíveis … ora!

Não é motivo para não querê-las …

Que tristes os caminhos, se não fora

A presença distante das estrelas!”

(Antologia Poética – pg. 50)

Sociedade do Cansaço

Livro comprado de balaio em promoção Black Friday. O título me fisgou. Cansaço, foi a palavra chave. Na primeira tentativa de ler, abandonei o livro na terceira página. Filosófico demais. Dias atrás, vi no Facebook, o comentário de uma amiga – colega de Escrita Criativa, dos tempos de São Paulo – que o livro era “um soco no estômago”. Busquei o livro na prateleira. Fui ler. Um cruzado de direita. Esquerda, talvez. Ou no centro: estilo soco na boca do estômago. Como o livro Amor Líquido de Zygmunt Bauman, vou ter de reler. O texto é denso e complexo. Repetitivo em alguns momentos – possivelmente pra frisar e gravar a essência do todo: na sociedade de desempenho em que vivemos, somos ao mesmo tempo o explorador e o explorado; o algoz e a vítima; o senhor e o escravo. Sobre a depressão, uma perspectiva atual, distante do olhar freudiano.

“Freud concebe a melancolia como uma relação destrutiva com aquele outro, que foi internalizada como parte de si-mesmo. Com isso, os conflitos originários com o outro são internalizados e transformados num autorrelacionamento conflitivo que levaria ao empobrecimento do eu à autoagressividade. Mas não há nenhuma relação conflitiva, ambivalente com o outro, que tenha se perdido, que preceda a enfermidade depressiva do sujeito de desempenho atual. Ali não há qualquer participação da dimensão do outro. O responsável pela depressão, na qual acaba desembocando o “burnout” é antes de mais nada a autorrelação sobre-exaltada, sobremodulada, narcisista, que acaba adotando traços depressivos.

O sujeito de desempenho esgotado, depressivo está, de certo modo, desgastado consigo mesmo. Está cansado, esgotado de si mesmo, de lutar consigo mesmo. Totalmente incapaz de sair de si, estar lá fora, de confiar no outro, no mundo, fica se remoendo, o que paradoxalmente acaba levando a autoerosão e ao esvaziamento. Desgasta-se correndo numa roda de hamster que gira cada vez mais rápida ao redor de si mesma. Também os novos meios de comunicação e as técnicas de comunicação estão destruindo cada vez mais a relação com o outro. O mundo digital é pobre em alteridade e em sua resistência. Nos círculos virtuais, o eu pode mover-se praticamente desprovido do “princípio de realidade”, que seria um princípio do outro e da resistência. Ali, o eu narcísico encontra-se sobretudo consigo mesmo. A virtualização e a digitalização estão levando cada vez mais ao desaparecimento da realidade que nos oferece resistência.

O sujeito do desempenho pós-moderno, que dispões de uma quantidade exagerada de opções, não é capaz de estabelecer ligações intensas. Na depressão todas as ligações e relacionamentos se rompem, também a ligação para consigo mesmo.”

(Sociedade do Cansaço – Byung-Chul Han, p.90-92)

Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos – Zygmunt Bauman

Acabo de ler o super indicado Amor Líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos de Zygmunt Bauman. O livro é tudo isso que falaram sim. Por isso vou ter de relê-lo num outro momento, porque na beira da piscina, com o sol martelando a cabeça e o calor sufocando o raciocínio, tenho de reconhecer que muitas passagens simplesmente passaram, apesar do apito estridente da importância do lido e não assimilado. Por isso o livro vai ficar quietinho ao lado do irmão “Modernidade Líquida”, do mesmo autor, para serem lidos juntos. Num outro momento. No inverno, talvez.

Entre os vários trechos riscados, páginas dobradas, cito o trecho da página 25 do capítulo 1. Apaixonar-se e desapaixonar-se:

“ Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua.

Tal como o desejo, o amor é uma ameaça ao seu objeto. O desejo destrói seu objeto, destruindo a si mesmo neste processo; a rede protetora carinhosamente tecida pelo amor em torno de seu objeto escraviza esse objeto. O amor aprisiona e coloca o detido em custódia. Ele prende para proteger o prisioneiro.”

É nesta toada que o livro segue denso e profundo, extremamente bem fundamentado e comentado, abordando temas atualíssimos como migração humana, verdade, amor, casamento, relacionamentos humanos, humanidade, globalização. Vale leitura e releitura.

Pq não finais felizes?

Sabe aquele filme que vc assiste, tá chato, mas vc continua assistindo, insiste, acredita que haverá uma reviravolta, o filme ainda não mostrou a que veio e, de repente, a imagem some, e mais de repente ainda, sobem os créditos do filme, e mesmo assim, você fica plantado no sofá acreditando que miraculosamente, algo inesperado ainda pode acontecer naquele finalzinho do finalzinho? Pois é, tem livro que também é assim. Você começa a ler um autor novo. É o primeiro livro dele. Você sente a insegurança nas palavras das primeiras páginas. Você insiste, acha que o autor promete. Embarca no enredo. Se envolve. Vc sente que está chegando no ápice e que em seguida virá , como disse minha norinha, uma epifania, uma reviravolta cinematográfica, onde os maus serão desmascarados, os bons recompensados … Vc sente, acredita, espera. Mas nada disso acontece. De repente, o autor apresenta um novo personagem, diminui a ação do personagem principal, outro enredo ganha forca, você imagina que mais adiante os dois enredos e os dois personagens irão se encontrar – eles até se encontram – mas o primeiro personagem principal muda tanto de comportamento, abandona a carreira de promotor público e o país, mergulha numa depressão profunda em Paris, onde uma prostituta, do nada, aparece e o convence a ir pra Nice. Lá ele trabalha como garçom/ carregador/ um faz tudo e conhece uma mulher madura maravilhosa e milionária, ambos se apaixonam, vivem dois meses do mais ardente romance, e do nada, ela diz que ele deve retornar ao Brasil. Ela vai embora. Ele também. Ela vai pra Paris retomar a vida de milionária e ele vai a Berlim, sem saber porque foi pra lá. Entra numa discoteca, bebe os dois drinks a que tem direito, aceita dois comprimidos de droga, surta e é pego pela polícia, que por uma infelicidade, o agride violentamente e Armando – o personagem principal – entra em coma. Um neurologista alemão tenta ajudá-lo. Ele está melhorando. Percebo as páginas do livro acabando. Ele recupera mais e mais a memória, a ponto de lembrar-se da sequência de números do cofre onde deixou sua mochila e seus documentos na estação central de trens de Berlin. Ufa, que alívio. O médico bonzinho irá ajudá-lo a voltar ao Brasil, penso eu. Mas aí vem o fim de semana, a polícia descobre quem é Armando e o extradita ao Brasil. Quando o médico alemão chega para atendê-lo na segunda-feira e não o encontra, fica muito nervoso e revoltado. Eu também. Armando não estava pronto para ter alta. Edu, grande amigo, o irmão para todas as horas, circunstâncias e situações se desencontra de Armando em Nice, por inexplicáveis dois dias. Edu se desespera pela falta de notícias do amigo. Chora desconsoladamente e retorna ao Brasil. O cara foi uma amigo sensacional durante toda a narrativa. Adoraria ter um amigo assim. Na última página do livro, Edu, a esposa e o filho vão jantar. Na saída do restaurante vêem, um mendigo deitado de lado num banco próximo. Edu pede que chamem o Samu e vai embora. O Samu chega, o paramédico examina o morador de rua e diz que está morto há 30 minutos. Ao revirar os bolsos em busca dos documentos, encontra um passaporte, que acredita seja roubado, a foto destruída por um líquido vazado, onde o socorrista lê as últimas linhas do livro:

“Paris – Arrivé – Charles de Gaule”

“Berlin – Abfahrt”

Não sei não; às vezes, não foi bem assim!

FIM

Vontade de afogar o livro na banheira. Rasgá-lo em mil pedacinhos. Sacanagem o que o autor fez com o personagem Armando. Ele não merecia nada disso. E sim, eu me identifiquei com o personagem principal. Vislumbrava para ele outro desfecho. À medida que novos personagens e situações foram atropelando a trama principal, comecei a ficar irritada. Armando perdeu força e entrou numa depressão profunda e se perdeu. O promotor de justiça mais prestigiado do momento, cometeu um erro, não se defendeu, foi injustiçado e banido, abandonou sua carreira, seus amigos, seu país, e no final, morreu como mendigo. A trama poderia realmente acontecer? Tem tanta coisa absurda acontecendo que não duvido de nada. Poderia. Seria o pior dos cenários.

A verdade é que todos gostamos de um final feliz para filmes, livros, para a própria vida. O livro me lembrou em como podemos nos deprimir e nos destruir. O processo de se desvencilhar de tudo e de todos é leve e insidioso, e quando nos damos conta, entramos num caminho sem volta. A volta – sempre possível – é cada vez mais difícil e trabalhosa. A energia e determinação cada vez mais volátil. Histórias como a de Armando acontecem diariamente a nossa volta. Não as vemos. Nem lhes damos atenção. A morte como fim é misericórdia do autor. Porque muitos, morrem em vida. Perdem-se de si mesmos e viram zumbis humanos. Drogados, alienados, bêbados. Órfãos da sociedade, da família, de sonhos. Quantas vezes não é assim que nos sentimos? Lembro de uma professora de literatura que dizia que pouco importava o que era escrito. Importava como era escrito. E que boa arte, boa literatura tinha de chocar. Choquei!!!! O livro “Não foi bem assim – verdades e cicatrizes de um julgamento” de Francisco Almeida Prado é muito bem escrito e envolvente. Se vc tiver baixa tolerância à frustração, passe longe. Caso contrário, ótima leitura.

Caixa de Pássaros – não abra os olhos

Bird Box foi o filme escolhido na Netflix para assistir no sábado à noite. Rapidamente o filho e a nora juntaram-se a nós, falando das críticas positivas do filme. Eles também queriam assistir. À medida que o filme ia passando, lembrei que havia lido o livro. Quando? Não lembro. Um ou dois anos atrás. Tirando a questão das vendas nos olhos de todos os personagens, não lembrava de quase nada do que havia lido. Assisti o filme até o fim. Quando o filme terminou busquei meu exemplar e o reli.

Ao longo dos anos, vários livros foram transformados em filmes: “O Senhor dos Anéis”, A saga “Crepúsculo”, “Harry Potter” e tantos outros. “O menino do pijama listrado” talvez tenha sido um dos filmes mais fidedignos ao livro que já assisti. O filme Bird Box me fez entender o livro Caixa de Pássaros de Josh Malerman. Relendo o livro percebi que sua essência foi mantida. Várias passagens e personagens foram alterados, possivelmente para dar mais dinâmica ao filme. Outro filme que me fez entender o livro foi “A vida íntima de Pippa Lee” de Rebecca Miller.

Recomendo ambas as leituras. Ambos os filmes. Comece vendo o filme. Depois, leia o livro. Fica mais fácil. Mais compreensível.

Sobre as interpretações psicanalíticas, li de tudo um pouco e concordo com um pouco de tudo. Depressão e suas variações tem sido a tônica. A venda nos olhos me remete à negação. Não ver nem tomar conhecimento, nos mantém a salvo dos outros e de nós mesmos. Tem sido estressante conviver com pessoas que pensam diferente da gente. Tem sido estressante o simples ato de falar, porque tudo pode ser mal interpretado e mal entendido. Ver o sucesso e a realização do outro, tão propagado nas mídias sociais, mexe com nossos fracassos e incompetências. Com a inveja e a vaidade. Nossa e a alheia. Sem contar no tanto que tem sido mostrado: corrupção, crueldade, violência, absurdos e bizarrices de uma raça inteira seduzida pelo mundo mostrado na palma da mão. Melhor não ver. Melhor não saber. Uma questão de sanidade mental.

Os tempos tem sido difíceis. Conviver numa sociedade desesperançada, paranóica, egoísta e desprovida de bom senso e humanidade poder ser realmente, muito perigoso. O uso de vendas, às vezes, faz-se necessário.

Rupi Kaur

Li num tapa – num final de semana – os dois livros da poetisa indiana Rupi Kaur.

“Outros jeitos de usar a boca” preencheu minha insônia de sexta-feira e “O que o sol faz com as flores” foi leitura entre as sonecas de domingo à tarde. O projeto gráfico era exatamente o que eu imaginaria para um livro de poesia: poesia forte e contundente + ilustrações do próprio punho da artista. Igualmente fortes e contundentes.

“Outros jeitos de usar a boca” é intenso e explícito. Temas como a pedofilia, o relacionamento sexual e afetivo entre homem e mulher, o rompimento e o resgate pessoal encontram na poética de Rupi Kaur, leveza e profundidade. A fisgada é imediata. A identificação, idem.

“O que o sol faz com as flores” amplia o espectro e aborda a luta dos pais imigrantes num país estranho, a dor, o amor, o abandono, as decepções e a crença em recomeços.

Ambos os textos são divididos em ciclos bem definidos: luta/perda/sofrimento, aceitação/recomeço e resgate da autoestima.

São livros de poesia. Poderiam ser livros de autoajuda. Aliás, excelentes livros de autoajuda.