Neve, de Orhan Pamuk

A caminho de Santiago, do Chile, o livro de bordo foi “Neve” de Orhan Pamuk. Um livro antigo, começado e recomeçado tantas vezes, que nem a viagem a Oukland, e o eterno desconforto de carregar malas pesadas, me impediu de levá-lo e terminá-lo. Não queria correr o risco de esquecer o enredo se o deixasse em casa para ler no meu retorno. O tema central remete ao islamismo, e a passagem de Ka, um poeta turco radicado na Alemanha, por Kars, cidade a mais ou menos, 100Km de Istambul. Depois de uma nevasca, um golpe militar acontece na cidade, várias pessoas são assassinadas, e o poeta, se vê envolvido nas artimanhas políticas, típicas do fanatismo religioso e a eterna contradição entre o Oriente e o Ocidente.

Chamou minha atenção a forma como a história foi contada. Presente, passado e futuro, primeira e terceira pessoa, vão intercalando os capítulos do início ao fim. O texto, profundo e extremamente detalhista, mostra o quanto o autor conhece o islamismo e a realidade descrita em “Neve”.

Enfim, dos livros listados para uma releitura em 2017, mais um foi ticado. Continuam faltando Virgínia Woolf e Proust. 2018 os aguardam.

Mais Sêneca, menos Prozac

Faz tempo que não escrevo sobre os livros que ando lendo, nem sobre as ideias de outros autores. Também fazia tempo que não comprava nem lia livro de autoajuda. Um dos gêneros que mais me cansa. Considero-os repetitivos e apelativos. Numa das minhas últimas idas à livraria me deparei com o livro “Mais Sêneca, menos Prozac – para quem não quer mais sofrer” de Clay Newman. Folhando-o me deparei com várias ideias interessantes e não resisti. Aliás, tenho lido filósofos antigos e contemporâneos e me encantado. Li o livro de Clay Newman – especialista em psicologia transpessoal – com apetite e sede desmedida. Vou ter de relê-lo para digerir cada um dos 21 princípios ativos citados pelo autor, que se inspira nos valores promovidos pelo estoicismo, cujo representante máximo foi Sêneca – filósofo, escritor, político e orador romano, que viveu no ano 4 a.C. Muitos historiadores concordam que Sêneca foi um dos primeiros gurus especializados em desenvolvimento pessoal. Seus ensinamentos centravam-se em dotar as pessoas de recursos e ferramentas para que pudessem enfrentar seus próprios conflitos e problemas. É dele frases como “Por acaso somos perfeitos? Porque, então, exigimos perfeição nos outros?”, “Não podemos controlar o mar, mas podemos comandar nosso barco”, “Não há nada eterno e poucas coisas duradouras. Tudo que teve um início há de ter fim” …

Abaixo, um trecho do capítulo que aborda um dos sete princípios ativos que permitem ao indivíduo ir além de si mesmo, melhorando sua relação com a realidade.

“Você é muito mais predestinado do que pode imaginar. No universo nada acontece por acaso. O lugar onde você nasceu: a etnia a qual pertence; a genética que o condiciona; o signo do zodíaco que determina seu padrão energético; o modelo mental que determina sua personalidade; os pais que lhe couberam; a cultura e a religião que lhe inculcaram; o tipo de crenças que adquiriu. Absolutamente tudo que o constitui como ser humano foi traçado de forma perfeita para que, por meio de um processo de aprendizagem, você cumpra seu propósito nesta vida: ser feliz, estar em paz com os outros e amar a vida como ela é. Segundo a lei da correspondência, você gera as circunstâncias de que necessita para confrontar sua ignorância. Assim, tende a atrair aquilo que não compreende nem aceita. Só acontece com você aquilo que tem que acontecer. E o mesmo ocorre com o resto do mundo.”(p. 146. Mais Sêneca, menos Prozac – para quem não quer mais sofrer”de Clay Newman)

Lagarteando

Lagartos lagarteiam na praia de casa.

Lagartice e Lagartoso derem o ar da graça.

Expulsos e expostos pelo calor.

Expostos também estão

– Longe de tudo e de todos –

páginas e mais páginas infladas, navalhadas a foice e guilhotina.

No verão,

lagarteiam também parágrafos enxutos.

Textos, palavras, poemas.

Tudo magro. Leve e leviano.

– Os Elefantes Voam –

 tomam banho de drink e sol.

Tim tim.

Plin plin.

Sobre criação e criatividade

Lasquinhas do excelente “ A história Secreta da Criatividade”, de Kevin Ashton. O livro é recomendadíssimo para todos aqueles que criam, inovam, estão começando algo novo, reformulando algo antigo, seguindo em frente. Tentando. Uma injeção de ânimo e teste de realidade para quem pensa que depende só da criatividade para fazer algo novo e absolutamente inédito.

“Vistas em conjunto, essas histórias revelam um padrão de como os seres humanos fazem coisas novas, um padrão que é ao mesmo tempo encorajador e desafiador. A parte encorajadora é que todo mundo pode criar … A parte desafiadora é que não existe momento de criação mágico. Os criadores passam quase todo o tempo perseverando, apesar da dúvida, do fracasso, do ridículo e da rejeição, até conseguirem realizar algo novo e útil. Não existem truques, atalhos ou esquemas para se tornar criativo de uma hora para outra. O processo é comum, ainda que o resultado não seja. Criar não é magia; é trabalho.” (pg. 18)

“O cartunista Hugh MacLeod levanta o mesmo argumento de modo mais pitoresco: “Todo mundo nasce criativo; todo mundo ganha uma caixa de lápis de cera no jardim de infância. Ser subitamente contaminado, anos mais tarde, pelo vírus da criatividade é apenas uma vozinha dizendo: quero meus lápis de cera de volta, por favor.””(pg 34)

“Não existem atalhos para a criação. O caminho é feito de muitos passos – nem retos nem sinuosos, mas como num labirinto … A criação não é um momento de inspiração, e sim uma vida inteira de resistência. As gavetas do mundo estão cheias de coisas começadas. Esboços inacabados, pedaços de invenções, ideias de produtos incompletos, cadernos com hipóteses formuladas pela metade, patentes abandonadas, manuscritos parciais. Criar é mais monotonia do que aventura. É acordar cedo e dormir tarde: longas horas realizando um trabalho que provavelmente irá fracassar – um processo sem progresso que deve ser repetido diariamente durante anos. Começar é difícil, mas continuar é ainda mais. Aqueles que procuram uma vida glamourosa não devem buscar a arte, a ciência, a inovação ou a invenção. A criação é uma longa jornada onde a maioria das curvas é errada e a maioria dos becos, sem saída. O que os criadores fazem de mais importante é trabalhar. O que eles fazem de mais importante. Também, é não desistir. O único modo de ser produtivo é produzir mesmo quando o produto é ruim. Esse é o caminho para fazer direito.” (pg 76)

“A definição da escritora Linda Rubright de “processo repetitivo” é: “Fracasso total. Repita.” Os criadores devem estar dispostos a fracassar e repetir até encontrar o passo que chega ao sucesso. Samuel Beckett disse isso do melhor modo: “Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor.” (pg 80)

“Os grandes criadores sabem que, com frequência, o melhor passo à frente é um passo atrás: examinar, analisar e avaliar, encontrar defeitos e falhas, desafiar e mudar. Não é possível escapar de um labirinto se só andarmos para frente. Às vezes o caminho para frente é para trás.” (pg 90)

A rejeição educa. O fracasso ensina. Os dois doem. Só a distração conforta. E, dos três, só a distração pode levar à destruição. A rejeição e o fracasso podem nos alimentar, mas o tempo desperdiçado é uma pequena morte. O que determina se teremos sucesso como criadores não é quão inteligentes e talentosos somos ou quão arduamente trabalhamos, e sim, como reagimos à adversidade da criação. (pg 99)

Biografias

Taí um gênero literário pouco explorado. Pelo menos da minha parte. Ao longo dos anos comprei algumas biografias e autobiografias. Pelo que lembro a primeira foi a biografia de “Ayrton Senna, sua vitória, seu legado” de Karin Sturm, pouco tempo depois de sua morte. O livro fez parte do meu processo de luto pela perda de uma das pessoas que mais admirei – e ainda admiro – em minha vida. Comprei a biografia de Hitler, de Joachin Fest, e devo admitir que já iniciei a leitura, no mínimo 3 vezes, e continuo com o livro inacabado. O texto e o tema são pesados demais. Mas a curiosidade em saber porque o povo alemão seguiu suas ideologias, desde sempre me inquietaram e aguçaram minha curiosidade. Comprei ainda “Uma biografia íntima – Madonna, de J. Randy Taraborrelli, presente de Natal para minha filha Fernanda (que ainda não li, o pedido foi dela, a curiosidade também, e a tietagem, idem) e, pra minha mãe, a biografia de Martha Rocha, (que li, num vapt vupt, mas prefiro não comentar, sob pena de incorrer em inverdades). Comprei – sem saber que eram autobiografias os livros de Danusa Leão, “Quase tudo, memórias” que adorei, e “Uma vida inventada, memórias trocadas e outras histórias” de Maitê Proença. So so, +ou-. Agora estou me esbaldando no “Rita Lee, uma autobiografia”, minha ídola adolescente. “Ovelha Negra” era assunto do dia naquela idade. De quem tenho alguma curiosidade é Hillary Clinton. Depois da derrota presidencial para Donald Trump, decidi esperar um pouco e ver se sai algum livro mais atualizado. Depois do caso Mônica Levinsky, fiquei curiosa sobre a reação de Hillary – uma das mais poderosas mulheres do planeta – frente à derrota retumbante à Casa Branca.

foto da internet
foto da internet

“A espiã” de Paulo Coelho entre outros

Pra ler num vapt vupt ou num piscar de olhos, como disse uma amiga sobre os tais micro-contos. A vida da espiã Mata Hari é o tema do mais novo romance do nosso mais famoso escritor. Particularmente gostei muito do relato histórico da vida de uma mulher que ousou viver sua liberdade sem limites nem convenções.

Minha última coletânea literária foi bem eclética, e certamente deve estar incompleta. Não acredito que tenha lido tão pouco desde o último post. Se bem que … ando patinando há semanas no clássico “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, tido como “o maior de todos os romances”. Antes dele li dois textos do guru indiano, Osho: “Vivendo perigosamente” e “Meditação para Ocupados”.

Duas releituras muito interessantes: “Homens que odeiam suas mulheres e as mulheres que os amam”, de Susan Forward e, “Perdas Necessárias”, de Judith Viorst. Livros de auto-ajuda que costumava recomendar para pacientes onde os temas violência doméstica e perdas/adaptação ao novo, faziam parte do seu momento de vida.

“O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares”, de Ransom Riggs; “O senhor das moscas” de Willian Golding e “Poder, Estilo e Ócio” de Joyce Pascowitch, animaram algumas noites e tardes chuvosas de inverno.

Não poderia deixar de citar o livro “Tomar a vida nas próprias mãos” de Gudrun Burkhard, que aborda a questão dos setênios e mostra como nossas vidas vão mudando(em períodos de 7 anos) conforme nossos objetivos, ritmos e necessidades.

 

Passiva/Ativa

E meu blog anda meio muito devagar. Quase parado. Tem dia que as ideias desfilam numa passarela imaginária de contos, crônicas ou poesias. Me encaram fazendo beicinho, acenando temas inéditos, engraçados, inteligentes. Perco o timming quando a estrutura gira e retorna por detrás de véus de tules e organzas, sumindo atrás das cortinas de veludo que separam a plateia do palco e da passarela. Nesse rodopio perco a inspiração. O desfile fecha. E não escrevo. Pelo menos estou agarrada num novo romance. “Ele e eu” está se desenrolando e se desenvolvendo em primeira pessoa. O texto pretende ser divertido e sensual. Leio e releio o texto e corto e recorto tanto o tempo todo, que preciso ler e reler de novo, mais uma vez. Agora o texto está descansando. Precisamos dar um tempo na nossa relação. Os caminhos que se apresentaram, parece, foram trilhados com carroça. Talvez haja um melhor jeito. Quem sabe na próxima semana uma Ferrari se apresente pra trilhar melhor a partir do capítulo 12. Foi onde perdi a direção e a conduão e segui em frente até o capítulo 20. Resolvi então, olhar pra trás. Não sei ao certo se o que vi foi neblina, serração ou um dia nublado e escuro. Era pra ser divertido, focado e sensual. Ficou novelesco, burlesco demais. Nesse meio tempo, li John Katzenbach (E o que vem depois) e “Caixa de Pássaros” de Josh Malerman. Dois thrillers psicológicos de tirar o fôlego e o sono. Como ainda tenho alguns dias pra reatar meu relacionamento com “Ele e eu”, baixei da prateleira “O analista”, também de John Katzenbach. Dele também li “A história de uma louca”. Livros – todos – recomendadíssimos.