Nininha

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Nina, Chanel, Chanelita,

Nininha, Bebê.

Era menina peluda

negra, brilhante.

Jeito de gatinha manhosa, meiga e mimosa.

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Chegou pequenina miando solto.

olhou o olho amarelo no meu,

e ficou.

Nos encantamos.

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Meu olho azul e meu coração apaixonou.

Dormia junto. Ao lado. Aos pés. À volta.

O espaço era felino e afetivo.

Fingia acordar quando acordava – eu.

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Descia escada, quando descia – eu.

Sinal de o dia começar.

Ela e eu a zanzar.

Queria ter também – ela – sua privacidade.

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Debaixo do pinheiro, da roseta,

no banho de sol na floreira,

no sofá da sala,

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na invisibilidade do dia, do tempo, do espaço,

ela sumia.

Ronronava ao toque,

espreguiçava gostoso, feito iogue.

Miava comida.

Miava rua.

Miava colo.

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Miado cessado.

Nina voltou pra casa.

Voltou pra eternidade.

– onde vez ou outra se refugiava, desconfio –

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Ela não esperou por mim.

O tempo dela era diferente do meu.

Perdi ela pra sempre.

Ela – agora – se esconde em mim.

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Chove

chove lá fora!

a grama cresce. eu escuto.

os pingos caem. eu sinto.

 folhas se amassam no vento que canta.

cães latem, gatos miam.

as nuvens escuras da noite se chocam.

estrondam

como carros que deslizam nas pedras da noite,

molhadas e lavadas

– na prata da luz –

brilhosa e lustrosa.

rebrilham sussurros perdidos

e,

sons esquecidos.

chove na noite que cai.

no sono que vai.

Nina pula na minha cama.

Brincadeira

Olho redondo

Ágata dourada

Pupila negra

Espiralando em rodelas

Maiores ou menores

“Quer brincar?

Quer brigar?”

Nina me engole com o olhar

Suga o instante

A ágata vira ônix

Granada de puro atrevimento

O olho

Agora negro como petróleo

O pelo

Preto cintilante da noite.

O rabo batendo no compasso.

Ela quer arranhar.

Ela quer brincar.

Ela quer ser minha.

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A arte felina

Sempre que assisto a leões espreitando zebras, impalas ou gnus, lembro do meu sumido Logan. A pose felina agachada se esgueirando silenciosamente, os ombros marcados ao alto, as pupilas dilatadas fixando o alvo, a concentração máxima, a preparação para o bote, a explosão nas quatro patas, a surpresa do desprevenido e distraído, a presa na boca. Uma cena cruel e, ao mesmo tempo, linda. Apenas o instinto e a sobrevivência do mais forte. Nada de regras. Apenas a continuidade da vida e a força da natureza. Logan era um exímio caçador de passarinhos. Dava prazer ver sua arte. A Nina, não. Nada de passarinhos. Sua arte é seu carinho sem medidas, sua doação plena e gratuita. Quando muito, um salto. Moscas e mosquitos, presas modestas para esta grande e generosa alma animal.

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Gatos

Não se fazem mais gatos como antigamente. Lembro dos gatos selvagens que viviam na minha casa, sobreviventes ao meu avô (o responsável para dar fim às ninhadas que se sucediam descontroladamente). Minos, Minas e Mingos comiam restos de comida, perambulavam pela casa antiga e fresca, de pé direito alto, e sesteavam debaixo das cercas vivas do jardim. Eram meus os escolhidos que eu conseguia separar da ninhada condenada. Meus peludinhos eram escondidos longe do olhar seletivo do meu avô, principalmente no porão atulhado de móveis antigos, baús, camas de ferro, sacos de sementes, batatas e cebolas, ferramentas e utensílios. Nesta miscelânea de histórias eles ficavam camuflados e muito bem protegidos. Depois de adultos, sumiam na noite e reapareciam na manhã. Um ou outro ficava dócil e domesticado e ganhava nome de gato: Mino, Mingo, Mina. Depois vinham as noitadas que aconteciam com certa discrição. Fazia parte da noite o miado histérico e o rosnado felino, o coaxar dos sapos, os assobios dos morcegos, o som único das corujas, o zunido dos mosquitos, o mugido das vacas à distância, algum galo perdido na hora, latidos de cães.  A música orquestrada da noite. Pela manhã, meus gatos apareciam aranhados, machucados e estropiados, sobreviventes da disputa pelos prazeres da noite. Eram medicados com banha de porco e deixados quietos a mercê das feridas e do tempo. Tornaram-se inesquecíveis. Muito, mas muito, muito depois, veio a Lucy e o Cooki, depois veio o Logan, e agora, a Nina. Meus gatos de adulta. Minha pretinha Nina cresce e amadurece diferentemente dos meus Minos e Minas. A orquestra noctívaga continua tocando morbidamente, mas é mais seguro mantê-la em casa. Noite passada, enquanto eu lia sossegadamente na luz tênue do meu  quarto, fui assustada por um miado arrepiante. Sob o batente do porta do meu quarto me deparo com dois gatos pretos. Um, eu conheço: Nina. O outro, um invasor. A janela que se abre pro jardim, o porta luz da minha gata, foi usado também por um gato nômade. Aconteceu outras vezes. Eles entram em casa sem delongas, não respeitam o espaço alheio, aterrorizam os limites e investem sem elegância. Se apropiam. Pulei da cama, iluminei a casa e nem sinal do invasor. Tateei por tudo e, nada. O desconhecido sumiu no portal, agora, permanentemente fechado à minha Nina. Depois do susto, ambas ficamos cambaleantes. Ela preferiu ficar a meus pés na cama, vigilante, assim como eu. Atenta, liguei todos os abajures da casa e, absolutas aos mínimos ruídos, adormecemos. A manhã, como todas as outras, simplesmente se instalou, como se nada tivesse acontecido. O portal, dentro e fora, foi definitivamente fechado. Em tempos modernos, é mais seguro manter os gatos dentro de casa.

Nina e a conversa das coisas

A gente se comunica e se trumbica o tempo todo. Mais experiente, começo a suspeitar que tudo acontece por algum motivo, e que nada acontece por acaso. Clichezaço!!!! Mas começo a suspeitar da comunicação da matéria. Dias atrás, usei um vestido comprado (um ano antes) para a formatura do meu filho, depois que minha assistente queimou “sem querer” a gola da camisa de seda, comprada na véspera, para ser usada com uma calça rendada. Depois de um ano, o vestido ficou com cara de muito “senhora”  e a dupla camisa de seda + calça rendada estava infinitamente melhor cotada. Pra completar, minha costureira teve problemas de saúde e estava impossibilitada de costurar e reformar, e eu, sem alternativa, tive de cumprir a promessa de um ano antes: usar o vestido verde rendado. Simplesmente um complô cósmico materialista. Só mencionei esta “coincidência” pra falar, de novo, da minha gata Nina.

Minha gata é uma grande tagarela. Como passo um período afastada, minha assistente é quem fica atenta e me repassa o que minha gata quer e pede. Rapidamente, assimilo a simbologia dos miados, poses e atitudes. Tem o miado do “estou com fome”, o miado do “quero colo”, o miado do “quero sair e passear”. A cabeça sobre o notebook ou sobre o livro deixa claro quem deveria estar em primeira opção de atenção e dengo. O arranhar dos sofás, a correria por entre as cadeiras, o se esconder e se deitar de barriga, deixa claro a hora da brincadeira. O ronronar e os grunhidos quase inaudíveis, demonstram o prazer de estar junto. Na noite passada, ela veio de mansinho e se deitou no travesseiro ao meu lado. Normalmente ela fica nos pés ou mais afastada, mas na noite passada, ela literalmente se apossou do travesseiro do meu lado. Fiz chamego nela e deixei-a curtir o momento, já que no dia seguinte eu não estaria mais com ela. Ela ronronava e dormia placidamente. Decidi lhe dar as costas pra continuar lendo. Em segundos escutei um grunhido forte, me virei pra ver o que era e lá estava ela, com a cabeça virada, olhos fixos nos meus, como quem diz “que história é esta de me dar as costas?”. Me revirei e ela voltou a fechar os olhos e dormiu. Ela disse tudo. Aliás, essa gata só falta falar.