Acordando

E o bentevi não cansa de bicar a claraboia da casa.

– luz que irradia o sol de todos os dias –

Ele insiste em dar rasantes e bebericar na piscina,

fazer cocô em parapeitos e sacadas.

O danadinho tá se achando.

Bica, bica, bica.

Parece pipoca na panela.

Ploc ploc ploc ploc ploc

Assim como o piriri piriri piriri que desce calha abaixo.

Chuvica preguiçosa molha de pouco em pouco,

de tanto em tanto.

Outros pássaros arrulham. Bicam. Ploc ploc ploc.

A natureza berra no silêncio da manhã.

Meus ouvidos espicham-se. Querem entender.

Desisto. Fecho as janelas. Os olhos.

Escuto. Penso. Canso. Cochilo.

Ploc ploc ploc ploc.

 

Chata

Intoxicada

de farinha, açúcar, café, vinho; claridade, calor, cupins, casa grande; roupas apertadas, velhas e esfarrapadas; notícia ruim, política podre; ressentimentos, mágoas, inveja alheia.

Intoxicada

de noites mal dormidas e livros ruins; de listas intermináveis e afazeres a perder de vista; de dias atarefados de futilidades. Facebook e Whatsaap.

Intoxicada

de cara feia, críticas e reclamações, de música, da professora de cerâmica; empregada atrasada, cheia de filhos e desculpas; dúvidas, incertezas, medos, decepções, ansiedade e angústia …

Caraca.

Tô azucrinante. A vida, desgastante. Existir, incomodante.

Caraca.

Virei uma chata.

 

 

O vento

Da sala que vive em mim

vejo o capim elefante se agitando.

Nina adorava comer do pasto que nasce solto e esvoaça ao vento.

Vento que leva e traz.

Que açoita e tanto faz.

Seria este agito um convite?

O vento que me guie num adeus pra não mais voltar.

Da sala que vive em mim uma visita inesperada.

Outros gatos se avizinham.

Avizinharei com eles.

Submersa

O dia foi de sol e mar. Plácidos e serenos.

Maré baixa.

Nela, redescobri a cidade das conchas.

Uma cidade posta na orla exposta feito xadrez no tabuleiro.

Atlântida à beira mar a um braço do olhar,

fora do alcance da ligeireza do mar.

A cidade embaralhada. Meu olhar ali se perdeu:

Entre o ir e o vir das ondinhas;

Entre o ir e o vir das conchas.

Grandes e pequenas,

argonautas, conchas-lua/pera/aurora. Um banco de ostras.

Provisórias e passageiras, despedaçam-se. Acabrunham-se. Esparramam-se.

Se perdem e se reencontram na imensidão das águas.

Estou aqui por elas. Sedutoras,

me convidam a caminhar; me convencem a ficar.

Levo-as para casa, essas casas abandonadas.

Compomos um lar à beira mar.

 

O olhar

Acordei com o sol cegando o olhar.

Fui caminhar.

Distraída, vi no olhar dos caminhantes quatro golfinhos ao mar.

Me perdi na dança sincronizada. No espetáculo ensaiado.

Seria para nós? Seriam dois casais? Amigas? Amigos?

Ninguém parece se importar.

Olhamos todos, uns aos outros,

Inebriados uns com os outros.

E todos, seguimos em frente.

Eu, os caminhantes e os golfinhos.

O dia segue. Voltamos pra casa.

Perdi os golfinhos do olhar.

Maré alta

Manhã da cor do chumbo.

Quero-queros também. Eles caminham junto.

As corujas só observam. Giram-se atentas nesta manhã acabrunhada.

O céu floreado de cinza e branco. Bordado em azul.

O mar como espelho. Sujo, cinza, contido. Sentido.

Alguns banhistas chegam junto. Chego também.

Muitos não veem, não escutam, não falam.

São zumbis contemporâneos de celular na mão.

Cinzentos. Contidos. O mar à frente não encanta.

Está indeciso. Estamos todos nós.

Não sabe o mar, se jorra em ondas ou se contenta com a serenidade de lago.

Também não sabemos.

Foi trator e carregou a praia. Inclinado e desajustado ficou o caminho.

A corrente marinha leva e trás. Pra frente e pra trás.

Não sei o que é. Mas algo se passa nas profundezas do mar.

Também ele, hoje amanheceu errado.

Um espelho o mar de Jurerê.

 

 

Cocorocas ao mar

A água estava boa?

Estava muito suja. Digo eu.

Choveu demais, comenta o menino das cadeiras e guarda-sois.

O mar de Jurerê, cor de esmeralda tom de pedra aventurina.

Um xixi de mar calmo e límpido, num vai e vem de ondas comportadas. Sempre.

Elas podem até se erguer pra ver a restinga. Uma espiada marota.

Mas, nada de aflições:

um óculos perdido, alguns goles d’água, olhos avermelhados, cabelos ressecados. Mareados.

Marolinhas na imensidão do mar.

No calor da temporada, chuvaradas barulhentas assustam.

Porém, sujam de verde de mato o mar de esmeraldas.

Nestes dias quentes e sujos

mais peixes vem ver a estranheza do lugar.

Quando a gente vê, vê peixe caçando peixinho, peixe saltando,

xispando em disparada e surfando ondas junto da gente, assim:

a uma ondinha de distância.

O risco de atropelamento é grande. Sequer pedem desculpas.

Cutucos gratuitos. Meio alarmantes.

Se fosse em Boa Viagem, no Recife, haveria gritaria: tubarão na água.

Por aqui, a gente sabe: é cocoroca na água.

Saltitando feliz brincando de verão.

A gente brinca junto.