Mar de outono

O rugido do mar me intimou.

Estive ausente. O ouvi quando cheguei ontem.

Dormi ninada e mimada por ele. Cantiga de ninar este mar que aprendi a amar.

Um sono embalado e cadenciado. Sonho bom.

Fui. Final de tarde. Final de verão.

O outono paira no ar. No mar.

As montanhas, ao longe, também.

Azul grafite. Marinho. Celeste. A água “tíbia”.

Nada de golfinhos, nem peixes . As ondas se desenrolam a meus pés.

Na areia nada de conchas. Apenas o reflexo do céu.

Espelho de cores e formas.

Amarelo, azul e branco pintado de peixes e gaivotas, estilizadas ao vento.

A noite cai rápido. O estranho agito na maré que sobe,

nos pássaros que se afastam, nos ciclistas e passantes que aceleram.

O dia finda. Arranco a roupa do corpo

me perco na noite a beira mar.

A água, continua tíbia.

Mixórdia de larica

Acordei com larica por sorvete e bala.

Apetite esfomeado de pura porcaria.

Meu filho é um geek moderno.

Deixou de ser um nerd às antigas.

Felizmente deixou a distopia

de ser um comunista capitalista,

um bastião indefensável,

em digressão

na ágora mais dista de se chegar.

Ou seja,

Acordei com uma vontade louca de comer porcaria, do tipo supérfluo engordante, tipo sorvete, salgadinho ou bala. Geek é nerd e todo mundo tem um destes em casa ou na família. Já a distopia é coisa complicada. Tipo o oposto de utopia. Menos complicado entender um defensor que abstrai porque demora a chegar na praça pública.

Uma mixórdia de bagunça.

Acordando

E o bentevi não cansa de bicar a claraboia da casa.

– luz que irradia o sol de todos os dias –

Ele insiste em dar rasantes e bebericar na piscina,

fazer cocô em parapeitos e sacadas.

O danadinho tá se achando.

Bica, bica, bica.

Parece pipoca na panela.

Ploc ploc ploc ploc ploc

Assim como o piriri piriri piriri que desce calha abaixo.

Chuvica preguiçosa molha de pouco em pouco,

de tanto em tanto.

Outros pássaros arrulham. Bicam. Ploc ploc ploc.

A natureza berra no silêncio da manhã.

Meus ouvidos espicham-se. Querem entender.

Desisto. Fecho as janelas. Os olhos.

Escuto. Penso. Canso. Cochilo.

Ploc ploc ploc ploc.

 

Chata

Intoxicada

de farinha, açúcar, café, vinho; claridade, calor, cupins, casa grande; roupas apertadas, velhas e esfarrapadas; notícia ruim, política podre; ressentimentos, mágoas, inveja alheia.

Intoxicada

de noites mal dormidas e livros ruins; de listas intermináveis e afazeres a perder de vista; de dias atarefados de futilidades. Facebook e Whatsaap.

Intoxicada

de cara feia, críticas e reclamações, de música, da professora de cerâmica; empregada atrasada, cheia de filhos e desculpas; dúvidas, incertezas, medos, decepções, ansiedade e angústia …

Caraca.

Tô azucrinante. A vida, desgastante. Existir, incomodante.

Caraca.

Virei uma chata.

 

 

O vento

Da sala que vive em mim

vejo o capim elefante se agitando.

Nina adorava comer do pasto que nasce solto e esvoaça ao vento.

Vento que leva e traz.

Que açoita e tanto faz.

Seria este agito um convite?

O vento que me guie num adeus pra não mais voltar.

Da sala que vive em mim uma visita inesperada.

Outros gatos se avizinham.

Avizinharei com eles.

Submersa

O dia foi de sol e mar. Plácidos e serenos.

Maré baixa.

Nela, redescobri a cidade das conchas.

Uma cidade posta na orla exposta feito xadrez no tabuleiro.

Atlântida à beira mar a um braço do olhar,

fora do alcance da ligeireza do mar.

A cidade embaralhada. Meu olhar ali se perdeu:

Entre o ir e o vir das ondinhas;

Entre o ir e o vir das conchas.

Grandes e pequenas,

argonautas, conchas-lua/pera/aurora. Um banco de ostras.

Provisórias e passageiras, despedaçam-se. Acabrunham-se. Esparramam-se.

Se perdem e se reencontram na imensidão das águas.

Estou aqui por elas. Sedutoras,

me convidam a caminhar; me convencem a ficar.

Levo-as para casa, essas casas abandonadas.

Compomos um lar à beira mar.