Estrelas do mar

Domingo de sol e solidão.

Sol sereno. Solidão que acalanta.

Vou caminhar.

O mar ao longe, ruge ferozmente;

Ele cobra docilmente:

Por onde andei todos estes dias?

Perdida. De mim. De tudo e de todas as coisas.

Me perdoe.

Estive longe.

Estive na sinuosidade do rio que me viu crescer.

Mar 1

Ao acolher o que vejo, escuto e sinto,

um convite me instiga.

A maré ALTA engoliu tudo.

Nada de conchas. Nada de gaivotas.

Duas estrelas do mar repousam na areia endurecida.

Repousam?

Carrego-as comigo. Sequer questiono:

Estão vivas? Mortas? Estão como eu.

Adormecidas ou perdidas no leito endurecido que as acolheu.

Sei disso. Sinto. Pressinto.

Seu destino? Igual ao meu. Seco. Duro.

Um bibelô.

estrelas do mar

A loucura do amor

Você que me assassinou de todas as formas possíveis; Apunhalou meu coração, fuzilou-me infielmente. Estrangulou minhas palavras, sufocou minha alegria, dinamitou meu amor próprio, ridicularizou meu eu. Me fulminou inteira, sem deixar traços nem rastros.

Te amo, te odeio.

Me larga, me afasta.

Vá.

Esqueça-te de mim.

Perdoa-me. Prenda-me.

Sei que não me mereço.

Volte.

Me tome inteira.

Me mate de tanto me amar.

E vá. Vá sempre. Vá.

Mas jamais, jamais esqueça de voltar.

Esta sim, seria a mais violenta e perversa de todas as loucuras.

Depois da chuva

Depois da chuva, o sol.

Depois de frio, o sol. Com ele,

o convite para o dia, para a vida.

Caminho pela praia e recolho um abraço de conchas,

recolho também garrafas plásticas, tampinhas, canudinhos …

a seara de lixo encrustada pela chuva, pelo frio,

pela insensibilidade e falta de tato e jeito e tudo

que intoxica o mar. A vida marinha.

Meus olhos. Os teus.

 

Obrigada, marzão.

De nada, marzão.

Elementos

A terra que me deu raízes,

me convida a regressar e me replantar.

Saí menina ainda. Era a vida convidando

a conhecer um universo chamado Terra.

Onde o ar, a água e o fogo me completariam.

Me tornariam inteira.

 

Escolhi a vida com meu elemento oposto.

O ar. Escorpião.

Os opostos que se atraem.

Se complementam. Se completam.

Meu homem. Meu ar. Minha sombra.

Meu eu. Terra.

 

As tempestades me esparramaram.

Me perdi. Perdemo-nos um no outro.

Me perdi de mim mesma.

E meu elemento, minha essência, enfim, cansou de ventos.

Quer repousar naquele leito de rio.

Quer o ar apenas para respirar.

Água de rio marrom de terra.

Gosto de mato. De pedra, cascalho. Infância.

O rio que me viu nascer e crescer, chama. Clama.

Me quer de volta.

Quer me parir outra.

 

O mar que se avizinha, logo ali do lado, largo e imponente,

Vem e vai, num eterno balanço de ondas,

A areia que me toca, porosa e esfarelada,

não me nutre.

Ando tão faminta do barro, da argila, da terra vermelha, preta, marrom.

De terra que firme meus pés,

e me sustente.

 

Meu elemento água é o rio.

Sinuoso. Arterial. Denso.

Nada de precipícios e inconstâncias.

Nada de marés. No mar, a água se dispersa.

O vento se agiganta.

Preciso de terra pequena. Nada de crosta e costas.

Preciso de beira de rio à vista.

De terra molhada. De verde de mato.

 

Já pari meus filhos. A Terra agradece.

Minha eternidade. Meu melhor legado.

 

O fogo.

Meu último elemento.

Ronda sempre.

Acompanhado de inverno. De toco e lenha de mato.

Travestido de lareira, vinho e aconchego.

Fogo grande que hipnotiza e me funde inteira.

Quando me for de vez,

Que o fogo me consuma,

Que a água me leve,

Que o leito do rio me regenere.

 

Mas, enquanto estou aqui,

Hei de me parir outra.

Chove lá fora

Chove lá fora.

Também eu ando chovendo aos cântaros.

É tanta água à minha volta, que pressinto

o dilúvio se avizinhando.

Sinto na pele. No osso. Na raiz dos cabelos.

O branco. O nada. O vazio absoluto.

O silêncio vago que vaga …

entre pingos e respingos.

Escorro nebulosa,

entre raios e trovões.

Lavo o corpo, os cabelos tingidos de vermelho.

A alma sangra. Sabe que precisa sarar.

Mas o tempo … conspira.

Precisa de mais tempo.

 

Oh céus!

E essa chuva que não para.

Detalhes

É nos detalhes,

que nos surpreendemos com algumas grandes expressões.

O olhar que captura o instante,

captura também o objeto, o entendimento, o sentimento.

Minúcias e fragmentos do cotidiano

quase imperceptíveis e invisíveis ao olhar distraído, estão lá.

Basta aquele olhar enviesado e atrevido num lapso de tempo,

e a catarse dos desejos oprimidos encontra numa lasca de espaço

a mais genuína miudeza. Do pouco e do muito.

Os detalhes de cada um de nós.

cópia de IMG-2463

 

 

Tutu

Alguns passam a vida correndo atrás de bufunfa,

que passa a vida fugindo desses alguns.

Conheço alguns assim.

Outros passam a vida correndo atrás de sonhos

O dindin sossegado, fica rondando. Sem medo. Sem pressa.

Parece até que money e correria

não se entendem.

É com alguns que a grana

– definitivamente –

não se acerta.