Águas marinhas

Hoje o mar não estava para conchas,

estava para as águas marinhas. Estendidas e desovadas na areia.

Melhor assim.

Inofensivas, entumecidas e inchadas,

vibrantes cor de rosa, lilás e roxo. Azul claro,

de cauda azul marinho desfiada em pura maçaroca.

Ardidas ao sol. Doídas no desamparo da dura e seca areia da praia.

Melhor ainda, sob o olhar satisfeito de toda uma gente.

Também eu, sorri inebriada. Agradeci aos céus.

Sim, me senti horrorosa e maravilhosamente sádica.

Como dizem, vingança é um prato que se come frio.

Doí tempos atrás com a pegada displicente da linda, colorida e ardida água marinha.

Ardi numa dor traiçoeira sem saber do que, como, onde ou porque.

Chorei de dor.

Pois que ardam no calor do sol, na areia seca e no olhar satisfeito de toda uma gente.

Como dizem, vingança é um prato que se come frio. Me lambuzei.

Pêndulo

Ao pêndulo do relógio

dois extremos:

Esquerda, direita, esquerda, direita.

Tic tac. Tic tac. Tic tac. Tic tac.

Convertido ao centro, ele oscila.

Com as perdas por atrito, ele desregula.

Pra compensar variações, recomenda-se ou o peso ou a mola.

Por ora o Mecanismo não para.

Por ora, os extremos.

O tempo abrandará amplitudes e movimentos,

Resistências e esperanças.

Tic tac. Tic tac. Tic tac. Tic tac.

Morsas

A temporada está no olhar:

Morsas peludas e peladas,

brancas e rosadas espraiam-se na areia.

Olho-as com aquele olhar de quem entende:

o inverno foi frio e longo.

Vinhos, pastas e “fondues” aqueceram o corpo,

agasalharam a alma e saciaram o apetite por calor e amor.

E aí a primavera chegou, tá passando

e o verão acena sem meias verdades.

A verdade inteira é:

Dieta à vista.

“timming”

caminhando pela orla de jurerê

eis que encontro na areia, baiacus, tartarugas e pinguins.

mortos.

o mar os expulsou, ou simplesmente,

perderam o “timming”.

a onda voltou e eles ficaram a mercê.

gaivotas, urubus, caranguejos e fragatas

lembraram-me:

a cadeia alimentar é implacável.

sigo meu caminho.

A sobrevivência não admite vacilos.

Viagem no tempo nas minas gerais

Aportei em Ouro Preto e me transportei

para os séculos passados:

a escravidão nas minas, a crueldade portuguesa,

os amores, as artes … a eterna exploração

do país, do povo, dos costumes, de uma raça inteira.

Ouro Preto

Do passado fui direto ao futuro: Inhotim – em Brumadinho.

A arquitetura das galerias e o paisagismo envolvente

são arte consagrada e exportada mundo afora.

Já os artistas … prefiro não opinar. Hei de entender.

Cada um com seus gostos e conceitos…

Comprei o livro de 462 páginas: Inhotim.

Vou ler.

BH5

De lá adentrei o sertão norte-mineiro,

entre árvores retorcidas, ipês brancos e amarelos floridos

e o circuito Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas.

O tempo presente pouco passou daquele tempo distante.

A pobreza, o calor e o atraso de toda uma gente

me transportou para aquela velha Ouro Preto.

O passado aqui ainda se faz presente.

Refresco foi o Velho Chico.

BH6

Meditando

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Medito enquanto caminho na beira da praia,

Meus pés doem,

a areia é áspera. A água, gelada.

Distraio a mente e a dor observando gaivotas e quero-queros,

garimpando conchas e tatuíras.

Meu olhar se perde no horizonte entre ilhas e montanhas que me abraçam.

A magia amolece a alma que se arrasta,

amansa os pensamentos e o espírito belicoso.

Tranquilizo minha caminhada.

 

Comprei um livro por estes dias invernosos e chuvosos:

“As cartas do Caminho Sagrado” de Jamie Sams

– a descoberta do ser através dos ensinamentos dos índios norte-americanos –.

foi minha guru do barro que me adentrou pelo caminho.

Brincadeira de bruxa no meio do mato, entre o córrego, as orquídeas e os beija-flores.

O povo de Pedra tem me chamado: ele quer ser ouvido.

O Bastão que Fala também: anuncia que existem outros caminhos.

Medito.

Me acalmo.

Entrego, confio, aceito e agradeço.

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

 

Estrelas do mar

Domingo de sol e solidão.

Sol sereno. Solidão que acalanta.

Vou caminhar.

O mar ao longe, ruge ferozmente;

Ele cobra docilmente:

Por onde andei todos estes dias?

Perdida. De mim. De tudo e de todas as coisas.

Me perdoe.

Estive longe.

Estive na sinuosidade do rio que me viu crescer.

Mar 1

Ao acolher o que vejo, escuto e sinto,

um convite me instiga.

A maré ALTA engoliu tudo.

Nada de conchas. Nada de gaivotas.

Duas estrelas do mar repousam na areia endurecida.

Repousam?

Carrego-as comigo. Sequer questiono:

Estão vivas? Mortas? Estão como eu.

Adormecidas ou perdidas no leito endurecido que as acolheu.

Sei disso. Sinto. Pressinto.

Seu destino? Igual ao meu. Seco. Duro.

Um bibelô.

estrelas do mar