Diálogos do Inconsciente

Meu primeiro contato com a arte da pintura aconteceu em 1996.

Durante 4 anos pintei em ateliê de pintura

fazendo releituras de artistas conhecidos e famosos.

Passados 15 anos,

retomei a pintura, com a certeza de não frequentar nem escola, nem professor,

nem estudar técnicas de pintura.

Em 2013, fiz sem-saber-sabendo-apenas-sentindo, minha primeira drip painting.

O resultado?

Absolutamente a minha cara. Amei.

Se domino a pintura hoje? Não, ainda não.

Somos – a pintura e eu – complexos demais.

Tenho, assim como Pollock teve, dúvidas:

“Isto é uma pintura?”

Perguntou Pollock a Lee Krasner,

influente pintora expressionista abstrata da segunda metade do século XX.

Cada uma das 30 telas pintadas nestes últimos 4 anos, refletem exatamente quem sou.

Como estou. Como me transformei. Como continuo mudando.

As mais de trinta telas produzidas, são

Diálogos do Inconsciente.

Num belo dia de sol, numa semana qualquer, um grito surdo quer ser ouvido:

uma lona preta estendida, várias telas esparramadas, latas, bisnagas e restos de tinta, tubinhos de xadrez líquido, cola, pinceis, varetas, água, thinner, frascos

e um universo esperando por cores,

formas diluídas, desconexas e

infinitamente harmoniosas.

A cor sempre se apresenta.

Na hora de pintar as cores se sobrepõe e se absorvem.

Elas brincam entre si e eu com elas.

Ao movimentar a tela, movimento a tinta, movimento o corpo

e a força escorre líquida.

Ela envereda por cumes e precipícios.

Escorre de lado a lado, de cima a baixo,

até encontrar

o ponto estranho de deformada simetria.

A forma perfeita.

Como sei disso?

Não sei. Apenas sinto.

Relance

Já falei sobre a conversa das casas e

a curiosidade da matéria.

Das coisas que vem e vão.

Das coisas escondidas e camufladas.

Lembram do quanto e quando

foram desejadas. Suspiradas. Amadas.

Hoje, contentam-se com a surpresa do olhar fortuito,

a lembrança do relance .

Muitas se aconchegam em fundos de baús e armários,

em fundos de bolsos, bolsas e gavetas,

acompanhadas de míseros centavos, clips enferrujados, botões caídos, chaves perdidas;

Transitam entre móveis  e roupas

amareladas pelo tempo, encolhidas pela vida;

Misturam-se  com bibelôs lascados e louças rachadas, fotos, músicas e livros.

O museu da vida da gente.

Também eu, não sou mais quem eu era.

Manhã de caminhada

Bom amanhecer com o pé na areia e o olho no mar.

O mar manso, espelho para nuvens, chuva e sol.

Algumas ondas e conchas, miúdas.

Quero-queros, pombos, gaivotas. Alguns.

Andarilhos, caminhantes, atletas. Poucos.

O dia recém mostra sua cara que começa a acontecer:

no mar, o retrato do céu de outono começa a invernar,

tatuíras mergulham de ponta-cabeça na areia molhada,

a chuva se aproxima, as nuvens escurecem, o sol se esconde. Os pássaros voam.

Apresso o passo.

A chuva cai.

Volto pra casa.

Lá, o sol, encabulado, me aguarda.

Amanhecer 2

Viajar

Viajar é ótimo. É tudo de bom.

(tô chovendo no molhado. sei disso. todos conhecemos e usamos este clichê)

Viajar cansa. Estressa. Irrita.

(e a gente finge que não sabe ou prefere esquecer certos detalhes:

porque tem sempre uma cama desconfortável, um amigo chato,

o pior lugar do avião, a roupa errada,

o café frio e fraco,

a comida trocada,

o tempero enjoado,

o programa de índio, enfim …

todos conhecemos este script inconfesso)

Pernas exaustas, exauridas e doloridas

Pés inchados, machucados e cheio de bolhas.

(um horror.

e quanta dor.

alguns míseros comentários.

porque na volta, tudo vira história

pra cortar e gargalhar)

Quem sabe um creminho de cânfora,

alguns travesseiros extras: pernas ao alto.

(e uma caixa inteirinha de Band Aid

+ a desculpa perfeita pra comprar um novo par de tênis.

Se for do tipo Sketch melhor ainda.

Eu recomendo.

Foi o que me salvou nesta nossa última aventura torturante)

Pra quem pensa que ser turista é fácil

não sabe o quanto o corpo padece.

pra ir e vir, de cá pra lá , de lá pra cá.

(a revista Caras, a National Geographic e tantas outras,

deveriam ser processadas:

comentam sobre mosquitos, subidas íngremes,

estradas empoeiradas e esburacadas,

pousadas e hotéis exóticos do tipo muquifo ¼ de estrela,

comidas e personagens imperdíveis,

dignos do mais amarelo dos sorrisos com os quatro caninos à mostra,

prontos pro ataque.

entre tantas outras extravagâncias,

nem sempre (ou quase nunca)

são do agrado daqueles que querem apenas passear,

conhecer lugares legais, comer bem.

Um simples e honesto programa de turista.)

Ombros e coluna também capengam.

Mochilas e bolsas carregadas de tudo,

amanhecem como passarinhos,

anoitecem feito elefantes.

(aconchegam celular, máquina fotográfica,

água, chicletes, grãos, biscoitos, balas,

chapéu, boné, documentos,

cadernos de anotações, mapas, folders, óculos de soldepertodelonge,

souvenirs, camisetas, lembrancinhas

+ tanta coisa que ninguém acredita que precisa, mas carrega.

Vai que precisa.

E mulher que se preza precisa estar prevenida e valer por duas!!!!

Se não for pra valer por duas,

que seja pra não se sentir pelada)

E a cabeça?

Perdida entre o fuso horário e o admirável mundo novo,

que o dia a dia, de hora em hora, impõe.

(haja neurônios pra lidar com a rotação da terra,

com sono de menos e comida demais,

com um inglês, sorry, can you speak slowly? aulas do yázigi?

tanta coisa pra ver e conhecer e comprar e experimentar .

tem sempre alguém chamando, apressando e fazendo confusão sobre

o que precisa e não precisa,

o que é bonito e o que é feio.

vamos ou não vamos? vai levar ou não?

enfim,

escolhas de manhã à noite + dúvidas, miseráveis de tão idiotas:

porque se arrepender por algo que fez ou deixou de fazer,

comprou ou deixou de comprar,

faz parte de viajar)

Mesmo assim (e apesar de tudo) reitero.

Viajar, sair da rotina e do lugar comum, é ótimo.

Voltar pra rotina do dia a dia, também é ótimo.

Acreditem.

Ir e vir é tão ótimo, mas tão ótimo, que consegue ser maravilhoso.

(mesmo que meu sonho de consumo nos próximos doze meses seja

deixar o esqueleto com a bunda em casa)

 

Reincidente

Ando meio sumida, consumida por outras paixões.

– novas e antigas –

Um universo calado e mitigado me assalta sobressaltado.

– exige espaço e afago –

Quer existir e se entranhar.

Deixar de ser hospedeiro.

E ser daqueles hóspedes

com direito ao quarto principal e a cabeceira da mesa.

Voltar a clinicar é voltar a respirar

e sentir no fígado a dor de tanta gente.

É fluir a energia represada, conduzindo-a numa ainda

desconhecida jornada.

Sair do próprio silêncio e cair de cabeça no silêncio do outro.

Esbarrar na própria solidão cutucando a solidão do outro.

Voltar a clinicar é colar a última peça do mosaico, é respingar a cor mais vibrante na tela de tantas nuances, é encontrar o roteiro perdido da viagem, o efeito tão desejado da forma e da cor na esmaltação cerâmica, é encontrar as únicas palavras que expressam sentimentos e emoções únicos, é acertar no tempero da berinjela, no arroz com feijão e na mistura perfeita do café com leite de cada dia.

Clinicar me remenda por inteiro:

Tantos eus

vividos e sofridos por outros,

tantas teorias e saberes pulverizados e escamoteados por anos a fio.

Enfim, me reencontrei entre o medo e a preguiça, entre livros e bordados, entre o amar e ser amada, entre o ir e o ficar, entre o passado, o presente e o futuro.

Cheguei.

É com muito prazer que quero me reapresentar:

Psicóloga de formação, Terapeuta de casais e família por opção, Escritora e Artista por paixão; Mulher, Mãe, Filha, Irmã, Amiga.

Inteira. Faminta. Curiosa.

Reincidente na arte de tratar e viver.