Luna

Lá fora, a lua seduz. Revela-se inteira por trás de um véu de nuvens brancas. Esfumaçada, brinca de ir e vir. Espia atentamente através do tule algodoado. Do alto, impera na noite. Segue sua dança, indiferente às estrelas. Aos cometas. Satélites. O silêncio é absoluto. O branco, lunar. Majestoso. A maresia no ar, o som…

o dito e o não dito

não lembro quando me calei, quando foi que meus olhos e meu corpo assumiram o controle pelo dito e o não dito. por covardia ou preguiça, muito foi calado. engavetado, arquivado. jamais esquecido. fortaleceu-se o agigantou-se o monstro do não dito. do silêncio covarde. ouço destroços e destruição, como cavalos selvagens atropelando o pasto.

Um livro por semana

Pra ler, olhar, sentir … Que seja para acarinhar poemas, biografias, contos, fotos, receitas, romances, dicas, mapas, histórias, lembranças. Que seja para ler dinâmica ou atentamente -ou apenas – escorregar os olhos por sumários, epígrafes, agradecimentos, poemas. Frases e citações. Da tropa aquartelada nas prateleiras da minha biblioteca Tenho várias vidas para desbravar … Vou…

Cascalhos

Colhi cascalhos no leito seco do rio. Esparramei-os na mesa de centro, no living. Rústicos cinzentos e adormecidos, espraiaram-se sossegadamente entre livros de arte, castiçais e velas. Eles me falam de infância. Travessuras e aventuras. Os cristais kosta boda? Encaixotei-os todos. Eram mudos e frios. Não havia diálogo entre nós.

Hilda Hilst

Lendo Hilda Hilst, da poesia – o livro de uma vida em poesia – vivi seu lamento e dor. A perda. O luto. Como ela, também inspiro lamentos. Poesia que encerra infortúnio e desconsolo; nos braços de um amante, rosas com espinhos e lua cheia. A morte. Aposto que ela não ouvia nem o mar,…

Arte em poesia

Fui crocheteira, tricoteira, bordadeira, tapeceira. Linhas, lãs, agulhas e pontos me teceram meiga e carinhosa. Acolhedora insaciável. Aprendi a domar minhas entregas pra não ser desperdiçada. Me embrulhei em papeis, tesouras e estiletes e recompus minha história em álbuns de retratos decorados. Foram anos acertando pontas e redefinindo arestas. Me apaziguei. Perambulei por panos e…

perdas

se tenho medo de te perder? não. não tenho mais. aquele que eu temia perder já não existe mais. perdi faz tempo.

o que se foi

a temporada de verão acabou. foram-se os turistas. sobraram alguns retardatários insignificantes na imensidão do mar. não contam. hoje, éramos eu, as ondas, a chuva, e algumas gaivotas ensaiando seu regresso. estamos tímidas e receosas, elas e eu. nosso santuário foi afrontado e desrespeitado. que a chuva e o tempo purifiquem a heresia do abuso…

cochichos

não sei se abraço a vida ou a morte. a morte acena cheia de facilidades e finalizações. xeque mate. ponto final. já a vida, impõe sacrifícios e compensações. um ainda em constante processo. – o próximo. o seguinte. mais uma, outra vez – ando tão farta de me exigir e me infligir perfeição, decepção, dor….

sótãos e porões

sótãos e porões são encantadores e muito, muito promissores. caixas velhas e esfarrapadas, sacos plásticos mofados, socados em fundos de armários e prateleiras, velam o que poderia ser importante, mas se perdeu no tempo e no conceito do que deveria ter sido. a vida também é assim. nas catacumbas da nossa existência existem verdadeiros tesouros perdidos…

fazendo as contas

se nesta vida alguém te amou – sua mãe, filhos, irmãs, irmãos, amigos, colaboradores – outros tantos te odiaram. te amei demais. te odiei outro tanto. hoje, somo e subtraio, multiplico e divido. a equação do que sinto por ti é complicada. confusa. perversa. te amo demais, sim. sempre fui péssima em matemática.

na pele

vontade de arrancar a própria pele e me vestir outra. sair deste corpo que aperta. estrangula e sufoca. um corpo que não me serve, nem me define mais. ruiu, virou pó. espatifou. me esmigalhei inteira. sumo em frestas feito água. feito pó. sem forma, sem contorno. líquida. invisível. essa não sou eu. diluída, me agarro…

coragem

tão corajosa eu fui. engravidei num colégio de freiras. casei no funeral do meu avô. pari sozinha dois filhos prematuros. mudei de casa, de cidade, de roupa, de identidade. tantas e tantas vezes, que perdi a conta e o rumo. mantive o prumo, apesar dos solavancos. fui escudeira do adoecer de tanta gente. a jornada,…