Sacramentado

Já deveria ter batido o martelo. Não bati.

Dei várias chances. Ouvi palpites. Preferências.

Dei mais uma chance. Mais uma. A última.

A partir de agora, amigo meu,

aqui em casa,

está proibido de escolher sabor de pizza.

Aí eles querem brócolis com catupiry, margarita, portuguesa

etcetcetcetcetcetc.

Gente eclética, sofisticada.

Na hora de comer, o olho e o garfo,

avançam na minha,

calabresa com cebola.

Não dou mais.

A partir de agora,

escolheu comeu.

Roteiros

O inconsciente é poderoso.

Magistral, o define melhor.

Mal sabia eu, que ao escrever

ele revelaria segredos abissais. Meus.

Não meus. Igualmente meus.

Cobertos por anos e anos e anos e anos e anos

de normalidade, sucesso, amor. Muito amor.

Mesmo assim, o inconsciente é implacável. Não perdoa.

Estava em algum lugar meu o que não era meu.

Mas era. Porque era de quem comigo estava.

A verdade veio à tona, fantasiada de ficção.

De faz de conta.

E a história se repetiu e se repetiria tantas e quantas vezes

fossem necessárias.

O inconsciente, eu sei, é holofote e

ilumina e guia o caminho. Um tapete de verdades e realidades.

Os roteiros mudam. Desbravam pântanos. Desertos.

Se embrenham em florestas. Afundam em areias movediças.

Roteiros da vida da gente. Que nada tem a ver com a gente.

Com a vida da gente.

São apenas roteiros.

São, nada mais, nada menos, a vida da gente.

Saturnada

Quando alguém tira a gente do sério, fica coisado mesmo.

Gente sem noção, sem vontade. Gente egoísta focada no próprio umbigo.

Surtei. Chorei. Choro até agora.

Quero distância desta incoerência.

Se não queria, era só falar.

E não enrolar, enrolar. Um velho mantra.

Deu. Não quero mais.

Petulância me irrita. O rei na barriga me empanzina.

Saturei. Pra Saturno eu vou.

Deveria ir e já estar lá.

A decepção, mais uma vez, tirou meu chão.

Saturno, me aguarde. Um dia eu vou.

Por enquanto,  às voltas com os Diálogos.

Do Inconsciente.

viagem

de Araranguá à Floripa a chuva foi companheira.

Seguiu lado a lado conosco. nem à frente, nem atrás. do lado.

sorte a dela não ter dado de frente

com o enorme engarrafamento de sempre em Palhoça.

foi lá que ela se aligeirou e chegou antes de nós.

a bolsa de pano da Giovana Baby chegou encharcada.

as telas umedeceram. um pouco. quase nada. emudeci.

amendoins e cucas foram pro forno, presentes conferidos,

e eu, eu me recolhi. fui pra cama.

imaginei que os diálogos do inconsciente estavam destruídos.

sobrevivemos todos.

Saí pra comprar roupa

Comprei uma bolsa.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um par de botas.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um par de tênis.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um lenço.

Saí pra comprar roupa.

Comprei uma gargantilha, uma pulseira e um anel.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um par de brincos.

Saí pra comprar roupa.

Comprei livros.

Saí pra comprar roupa.

Voltei de mãos abanando.

Me nego a comprar tamanho GG.

Novembro

Quando novembro chegou

chegou também o cansaço.

Ele se entranhou na carne, nos ossos, nas vísceras.

Dominou meus pensamentos, minha alma. Meu coração.

O sono era digno de um recém nascido, de um adolescente afogado em hormônios,

de qualquer ser vivente que extrapolou e exagerou na dose de viver.

Normal. É assim que sou: Sem medidas.

Desabei pelos sofás e camas, cadeiras e redes,

absorvi a brisa do mar,

me entreguei ao edredon de penas de ganso, bebendo chá, leite quente, vinho tinto.

Descansei lendo e escrevendo bocadinhos. Tudo de pouquinho.

Estava no pó. Num fiapo de vida. Exaurida.

Guardei os crochês e tricôs.

A poeira amontoou. A casa ficou fora de lugar.

Abandonei a domesticidade.

Me resguardei.

Enfim, me recompus. Que assim seja.

É mais um ano finda.

 

Anestesiada

Formigamento e cócegas e infinitas micro-explosões.

Ontem não senti o sal na sopa. Parecia insossa. Sem gosto.

Também não sinto o desassossego do coração.

A crueza dos sentimentos está há duas semanas das cartelas metálicas.

Companheiras diárias.

Foram elas que tiraram com a mão, talvez com foice,

a sensação de falta de ar, falta de vida, alegria e energia.

Empoderei quem me anestesiou.

Perdi o tato e o contato, amortizei o gosto das coisas.

Preciso voltar a sentir.

Viver é isso.

Sentir. Sofrer. Sangrar.

Cuidados

O céu de hoje esteve esplendoroso

azul rajado de nuvens, cruzado de fragatas e gaivotas.

O mar verde, puro deleite. A água, geladézima.

Os turistas, me pareceu, pouco se importaram:

Aventuraram-se.

Na areia, um cemitério de peixes e o alvoroço de corvos e abutres. A festa.

Caminho focada no coração.

Compulsões e perdições. Decepções.

O coração sofre. Tenho de me cuidar.

Cardumes de piranhas se alvoroçam.

Estranhamente perfeito

Lá fora a neblina marítima engole a todos, feito nuvem baixa.

O sol, ao longe, tenta. Até tenta. Repudiado, apenas observa.

Olho pela janela. Nas vidraças a maresia se impregna.

Dificulta o olhar. O mar.

Recolho-me. Introverto-me. Vou ler e espairecer.

Os Diários de Susan Sontag inspiram.

A vida registrada em lembretes, listas e observações.

Uma estranha autobiografia. Estranha e absurda. Perfeita.

O rei que pulsa em mim

Eis-me aqui deitada numa maca: à minha volta, sons estranhos. Bips assustadores.

Procuro lembrar-me de outros sons. Sons confortáveis: o vento assombrado assobiando lareira abaixo e que tanto assustou Inah; o mar que vem e vai, rugindo mais ou menos, mas sempre, todo tempo, o tempo todo; folhas que farfalham e desvestem árvores inteiras, forrando caminhos quebradiços de tapetes multicoloridos; o ronronar de tantos gatos que se foram e que voltam de vez em quando, em sonhos, em vida, em noites mal dormidas, em dias preguiçosos; pássaros de espécies incertas: será um sabiá? um tico-tico? um pardal? Certeza são os sons das corujas e das pombas, o grasnado dos periquitos. Inconfundíveis. Me arrepia o som das cataratas, dos córregos e rios em cheia, o som da chuva, das folhas que balançam ao vento, da brisa doce dos finais de tarde, do crepitar do fogo … do som do silêncio, dos LPs antigos tocando na velha vitrola, a voz de Freddy Mercury. Saudade do choro e das risadas, das vozes e gritos e cochichos das crianças e amores que transitaram – e ainda transitam – pela vida.

Mas, aqui na maca, deitada de lado, olho fixamente para o monitor: vejo e ouço a palpitação, o abrir e o fechar de anéis escuros, o cintilar dos azuis e vermelhos, formatos estranhos e irreconhecíveis ao meu olhar amedrontado, ao mesmo tempo apaixonado.

Seu coração está bem, me tranquiliza o médico.

Poderíamos gravar o som do coração? Pergunto.

Não, não dá. Ele responde. Ele entende de imagens que nada me dizem. Entende de teorias e estratagemas que pouco combinam com a poesia do coração que anda subindo alturas, suspirando e claudicando. A poesia do sentir. Disso entendo eu.

Definitivamente, ouvir e ver o próprio coração pulsando, gigante incrustado e empoderado, feito eco vindo das profundezas.

Eu o escuto, fascinada.

Ele me faz lembrar que viver é pulsar e impulsionar. Insistentemente e sempre.

Até o dia de tombar e cessar.

Desço da maca, me visto, agradeço. Estou bem.

Um rei me habita. Lhe devo maior respeito. Prometo ser uma súdita mais comportada.

Cortar sais. Caminhar na areia. Desanuviar grilos e lambisgoias.

Pra começar.

Mar de outono

O rugido do mar me intimou.

Estive ausente. O ouvi quando cheguei ontem.

Dormi ninada e mimada por ele. Cantiga de ninar este mar que aprendi a amar.

Um sono embalado e cadenciado. Sonho bom.

Fui. Final de tarde. Final de verão.

O outono paira no ar. No mar.

As montanhas, ao longe, também.

Azul grafite. Marinho. Celeste. A água “tíbia”.

Nada de golfinhos, nem peixes . As ondas se desenrolam a meus pés.

Na areia nada de conchas. Apenas o reflexo do céu.

Espelho de cores e formas.

Amarelo, azul e branco pintado de peixes e gaivotas, estilizadas ao vento.

A noite cai rápido. O estranho agito na maré que sobe,

nos pássaros que se afastam, nos ciclistas e passantes que aceleram.

O dia finda. Arranco a roupa do corpo

me perco na noite a beira mar.

A água, continua tíbia.

Mixórdia de larica

Acordei com larica por sorvete e bala.

Apetite esfomeado de pura porcaria.

Meu filho é um geek moderno.

Deixou de ser um nerd às antigas.

Felizmente deixou a distopia

de ser um comunista capitalista,

um bastião indefensável,

em digressão

na ágora mais dista de se chegar.

Ou seja,

Acordei com uma vontade louca de comer porcaria, do tipo supérfluo engordante, tipo sorvete, salgadinho ou bala. Geek é nerd e todo mundo tem um destes em casa ou na família. Já a distopia é coisa complicada. Tipo o oposto de utopia. Menos complicado entender um defensor que abstrai porque demora a chegar na praça pública.

Uma mixórdia de bagunça.