“timming”

caminhando pela orla de jurerê

eis que encontro na areia, baiacus, tartarugas e pinguins.

mortos.

o mar os expulsou, ou simplesmente,

perderam o “timming”.

a onda voltou e eles ficaram a mercê.

gaivotas, urubus, caranguejos e fragatas

lembraram-me:

a cadeia alimentar é implacável.

sigo meu caminho.

A sobrevivência não admite vacilos.

Viagem no tempo nas minas gerais

Aportei em Ouro Preto e me transportei

para os séculos passados:

a escravidão nas minas, a crueldade portuguesa,

os amores, as artes … a eterna exploração

do país, do povo, dos costumes, de uma raça inteira.

Ouro Preto

Do passado fui direto ao futuro: Inhotim – em Brumadinho.

A arquitetura das galerias e o paisagismo envolvente

são arte consagrada e exportada mundo afora.

Já os artistas … prefiro não opinar. Hei de entender.

Cada um com seus gostos e conceitos…

Comprei o livro de 462 páginas: Inhotim.

Vou ler.

BH5

De lá adentrei o sertão norte-mineiro,

entre árvores retorcidas, ipês brancos e amarelos floridos

e o circuito Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas.

O tempo presente pouco passou daquele tempo distante.

A pobreza, o calor e o atraso de toda uma gente

me transportou para aquela velha Ouro Preto.

O passado aqui ainda se faz presente.

Refresco foi o Velho Chico.

BH6

Meditando

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Medito enquanto caminho na beira da praia,

Meus pés doem,

a areia é áspera. A água, gelada.

Distraio a mente e a dor observando gaivotas e quero-queros,

garimpando conchas e tatuíras.

Meu olhar se perde no horizonte entre ilhas e montanhas que me abraçam.

A magia amolece a alma que se arrasta,

amansa os pensamentos e o espírito belicoso.

Tranquilizo minha caminhada.

 

Comprei um livro por estes dias invernosos e chuvosos:

“As cartas do Caminho Sagrado” de Jamie Sams

– a descoberta do ser através dos ensinamentos dos índios norte-americanos –.

foi minha guru do barro que me adentrou pelo caminho.

Brincadeira de bruxa no meio do mato, entre o córrego, as orquídeas e os beija-flores.

O povo de Pedra tem me chamado: ele quer ser ouvido.

O Bastão que Fala também: anuncia que existem outros caminhos.

Medito.

Me acalmo.

Entrego, confio, aceito e agradeço.

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

 

Estrelas do mar

Domingo de sol e solidão.

Sol sereno. Solidão que acalanta.

Vou caminhar.

O mar ao longe, ruge ferozmente;

Ele cobra docilmente:

Por onde andei todos estes dias?

Perdida. De mim. De tudo e de todas as coisas.

Me perdoe.

Estive longe.

Estive na sinuosidade do rio que me viu crescer.

Mar 1

Ao acolher o que vejo, escuto e sinto,

um convite me instiga.

A maré ALTA engoliu tudo.

Nada de conchas. Nada de gaivotas.

Duas estrelas do mar repousam na areia endurecida.

Repousam?

Carrego-as comigo. Sequer questiono:

Estão vivas? Mortas? Estão como eu.

Adormecidas ou perdidas no leito endurecido que as acolheu.

Sei disso. Sinto. Pressinto.

Seu destino? Igual ao meu. Seco. Duro.

Um bibelô.

estrelas do mar

A loucura do amor

Você que me assassinou de todas as formas possíveis; Apunhalou meu coração, fuzilou-me infielmente. Estrangulou minhas palavras, sufocou minha alegria, dinamitou meu amor próprio, ridicularizou meu eu. Me fulminou inteira, sem deixar traços nem rastros.

Te amo, te odeio.

Me larga, me afasta.

Vá.

Esqueça-te de mim.

Perdoa-me. Prenda-me.

Sei que não me mereço.

Volte.

Me tome inteira.

Me mate de tanto me amar.

E vá. Vá sempre. Vá.

Mas jamais, jamais esqueça de voltar.

Esta sim, seria a mais violenta e perversa de todas as loucuras.

Depois da chuva

Depois da chuva, o sol.

Depois de frio, o sol. Com ele,

o convite para o dia, para a vida.

Caminho pela praia e recolho um abraço de conchas,

recolho também garrafas plásticas, tampinhas, canudinhos …

a seara de lixo encrustada pela chuva, pelo frio,

pela insensibilidade e falta de tato e jeito e tudo

que intoxica o mar. A vida marinha.

Meus olhos. Os teus.

 

Obrigada, marzão.

De nada, marzão.

Elementos

A terra que me deu raízes,

me convida a regressar e me replantar.

Saí menina ainda. Era a vida convidando

a conhecer um universo chamado Terra.

Onde o ar, a água e o fogo me completariam.

Me tornariam inteira.

 

Escolhi a vida com meu elemento oposto.

O ar. Escorpião.

Os opostos que se atraem.

Se complementam. Se completam.

Meu homem. Meu ar. Minha sombra.

Meu eu. Terra.

 

As tempestades me esparramaram.

Me perdi. Perdemo-nos um no outro.

Me perdi de mim mesma.

E meu elemento, minha essência, enfim, cansou de ventos.

Quer repousar naquele leito de rio.

Quer o ar apenas para respirar.

Água de rio marrom de terra.

Gosto de mato. De pedra, cascalho. Infância.

O rio que me viu nascer e crescer, chama. Clama.

Me quer de volta.

Quer me parir outra.

 

O mar que se avizinha, logo ali do lado, largo e imponente,

Vem e vai, num eterno balanço de ondas,

A areia que me toca, porosa e esfarelada,

não me nutre.

Ando tão faminta do barro, da argila, da terra vermelha, preta, marrom.

De terra que firme meus pés,

e me sustente.

 

Meu elemento água é o rio.

Sinuoso. Arterial. Denso.

Nada de precipícios e inconstâncias.

Nada de marés. No mar, a água se dispersa.

O vento se agiganta.

Preciso de terra pequena. Nada de crosta e costas.

Preciso de beira de rio à vista.

De terra molhada. De verde de mato.

 

Já pari meus filhos. A Terra agradece.

Minha eternidade. Meu melhor legado.

 

O fogo.

Meu último elemento.

Ronda sempre.

Acompanhado de inverno. De toco e lenha de mato.

Travestido de lareira, vinho e aconchego.

Fogo grande que hipnotiza e me funde inteira.

Quando me for de vez,

Que o fogo me consuma,

Que a água me leve,

Que o leito do rio me regenere.

 

Mas, enquanto estou aqui,

Hei de me parir outra.