Saí pra comprar roupa

Comprei uma bolsa.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um par de botas.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um par de tênis.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um lenço.

Saí pra comprar roupa.

Comprei uma gargantilha, uma pulseira e um anel.

Saí pra comprar roupa.

Comprei um par de brincos.

Saí pra comprar roupa.

Comprei livros.

Saí pra comprar roupa.

Voltei de mãos abanando.

Me nego a comprar tamanho GG.

Novembro

Quando novembro chegou

chegou também o cansaço.

Ele se entranhou na carne, nos ossos, nas vísceras.

Dominou meus pensamentos, minha alma. Meu coração.

O sono era digno de um recém nascido, de um adolescente afogado em hormônios,

de qualquer ser vivente que extrapolou e exagerou na dose de viver.

Normal. É assim que sou: Sem medidas.

Desabei pelos sofás e camas, cadeiras e redes,

absorvi a brisa do mar,

me entreguei ao edredon de penas de ganso, bebendo chá, leite quente, vinho tinto.

Descansei lendo e escrevendo bocadinhos. Tudo de pouquinho.

Estava no pó. Num fiapo de vida. Exaurida.

Guardei os crochês e tricôs.

A poeira amontoou. A casa ficou fora de lugar.

Abandonei a domesticidade.

Me resguardei.

Enfim, me recompus. Que assim seja.

É mais um ano finda.

 

Anestesiada

Formigamento e cócegas e infinitas micro-explosões.

Ontem não senti o sal na sopa. Parecia insossa. Sem gosto.

Também não sinto o desassossego do coração.

A crueza dos sentimentos está há duas semanas das cartelas metálicas.

Companheiras diárias.

Foram elas que tiraram com a mão, talvez com foice,

a sensação de falta de ar, falta de vida, alegria e energia.

Empoderei quem me anestesiou.

Perdi o tato e o contato, amortizei o gosto das coisas.

Preciso voltar a sentir.

Viver é isso.

Sentir. Sofrer. Sangrar.

Cuidados

O céu de hoje esteve esplendoroso

azul rajado de nuvens, cruzado de fragatas e gaivotas.

O mar verde, puro deleite. A água, geladézima.

Os turistas, me pareceu, pouco se importaram:

Aventuraram-se.

Na areia, um cemitério de peixes e o alvoroço de corvos e abutres. A festa.

Caminho focada no coração.

Compulsões e perdições. Decepções.

O coração sofre. Tenho de me cuidar.

Cardumes de piranhas se alvoroçam.

Estranhamente perfeito

Lá fora a neblina marítima engole a todos, feito nuvem baixa.

O sol, ao longe, tenta. Até tenta. Repudiado, apenas observa.

Olho pela janela. Nas vidraças a maresia se impregna.

Dificulta o olhar. O mar.

Recolho-me. Introverto-me. Vou ler e espairecer.

Os Diários de Susan Sontag inspiram.

A vida registrada em lembretes, listas e observações.

Uma estranha autobiografia. Estranha e absurda. Perfeita.

O rei que pulsa em mim

Eis-me aqui deitada numa maca: à minha volta, sons estranhos. Bips assustadores.

Procuro lembrar-me de outros sons. Sons confortáveis: o vento assombrado assobiando lareira abaixo e que tanto assustou Inah; o mar que vem e vai, rugindo mais ou menos, mas sempre, todo tempo, o tempo todo; folhas que farfalham e desvestem árvores inteiras, forrando caminhos quebradiços de tapetes multicoloridos; o ronronar de tantos gatos que se foram e que voltam de vez em quando, em sonhos, em vida, em noites mal dormidas, em dias preguiçosos; pássaros de espécies incertas: será um sabiá? um tico-tico? um pardal? Certeza são os sons das corujas e das pombas, o grasnado dos periquitos. Inconfundíveis. Me arrepia o som das cataratas, dos córregos e rios em cheia, o som da chuva, das folhas que balançam ao vento, da brisa doce dos finais de tarde, do crepitar do fogo … do som do silêncio, dos LPs antigos tocando na velha vitrola, a voz de Freddy Mercury. Saudade do choro e das risadas, das vozes e gritos e cochichos das crianças e amores que transitaram – e ainda transitam – pela vida.

Mas, aqui na maca, deitada de lado, olho fixamente para o monitor: vejo e ouço a palpitação, o abrir e o fechar de anéis escuros, o cintilar dos azuis e vermelhos, formatos estranhos e irreconhecíveis ao meu olhar amedrontado, ao mesmo tempo apaixonado.

Seu coração está bem, me tranquiliza o médico.

Poderíamos gravar o som do coração? Pergunto.

Não, não dá. Ele responde. Ele entende de imagens que nada me dizem. Entende de teorias e estratagemas que pouco combinam com a poesia do coração que anda subindo alturas, suspirando e claudicando. A poesia do sentir. Disso entendo eu.

Definitivamente, ouvir e ver o próprio coração pulsando, gigante incrustado e empoderado, feito eco vindo das profundezas.

Eu o escuto, fascinada.

Ele me faz lembrar que viver é pulsar e impulsionar. Insistentemente e sempre.

Até o dia de tombar e cessar.

Desço da maca, me visto, agradeço. Estou bem.

Um rei me habita. Lhe devo maior respeito. Prometo ser uma súdita mais comportada.

Cortar sais. Caminhar na areia. Desanuviar grilos e lambisgoias.

Pra começar.