O olhar

Acordei com o sol cegando o olhar.

Fui caminhar.

Distraída, vi no olhar dos caminhantes quatro golfinhos ao mar.

Me perdi na dança sincronizada. No espetáculo ensaiado.

Seria para nós? Seriam dois casais? Amigas? Amigos?

Ninguém parece se importar.

Olhamos todos, uns aos outros,

Inebriados uns com os outros.

E todos, seguimos em frente.

Eu, os caminhantes e os golfinhos.

O dia segue. Voltamos pra casa.

Perdi os golfinhos do olhar.

Maré alta

Manhã da cor do chumbo.

Quero-queros também. Eles caminham junto.

As corujas só observam. Giram-se atentas nesta manhã acabrunhada.

O céu floreado de cinza e branco. Bordado em azul.

O mar como espelho. Sujo, cinza, contido. Sentido.

Alguns banhistas chegam junto. Chego também.

Muitos não veem, não escutam, não falam.

São zumbis contemporâneos de celular na mão.

Cinzentos. Contidos. O mar à frente não encanta.

Está indeciso. Estamos todos nós.

Não sabe o mar, se jorra em ondas ou se contenta com a serenidade de lago.

Também não sabemos.

Foi trator e carregou a praia. Inclinado e desajustado ficou o caminho.

A corrente marinha leva e trás. Pra frente e pra trás.

Não sei o que é. Mas algo se passa nas profundezas do mar.

Também ele, hoje amanheceu errado.

Um espelho o mar de Jurerê.

 

 

Cocorocas ao mar

A água estava boa?

Estava muito suja. Digo eu.

Choveu demais, comenta o menino das cadeiras e guarda-sois.

O mar de Jurerê, cor de esmeralda tom de pedra aventurina.

Um xixi de mar calmo e límpido, num vai e vem de ondas comportadas. Sempre.

Elas podem até se erguer pra ver a restinga. Uma espiada marota.

Mas, nada de aflições:

um óculos perdido, alguns goles d’água, olhos avermelhados, cabelos ressecados. Mareados.

Marolinhas na imensidão do mar.

No calor da temporada, chuvaradas barulhentas assustam.

Porém, sujam de verde de mato o mar de esmeraldas.

Nestes dias quentes e sujos

mais peixes vem ver a estranheza do lugar.

Quando a gente vê, vê peixe caçando peixinho, peixe saltando,

xispando em disparada e surfando ondas junto da gente, assim:

a uma ondinha de distância.

O risco de atropelamento é grande. Sequer pedem desculpas.

Cutucos gratuitos. Meio alarmantes.

Se fosse em Boa Viagem, no Recife, haveria gritaria: tubarão na água.

Por aqui, a gente sabe: é cocoroca na água.

Saltitando feliz brincando de verão.

A gente brinca junto.

No calor do verão

Acordei com a chuva batendo na porta arrastando móveis e deixando cair as pratarias.

Alguns cristais se quebraram nesta visita matinal tão bem vinda.

É cedo ainda.

Fui recebê-la com café e wafel congelado. Tostado e amanteigado.

Que falta me fazem as manhãs geladas, cinzas e cheias de raios e trovões.

Voltei pra cama, com o café fumegante nas mãos, aquecida de saudades,

embrulhada de sobre-lençóis, abraçada em Mário Quintana.

Ligo o ar condicionado.

É verão ainda.

Pelo menos, chove lá fora.

Tristeza

Na Pinheiro Seco, fazenda de amigos meus,

descobri os mirtilos e as caixas de abelhas. Um adoçando o outro.

Foi o que salvou o passeio de moto para o frescor das montanhas.

As uvas não vão dar. As ovelhas fedem. O lago está cheio de sapos. O campo cheio de bosta de vaca. O barulho – de água correndo – da fonte das carpas vermelhas atrapalhou o silêncio. Sem contar os quacquac e os gluglu dos patos, gansos, galinhas e perus. O mau humor e as notícias de Brumadinho me afundaram no sofá. A fragilidade e o descaso  pela vida e o peso da morte me hipnotizaram frente à TV ligada o dia todo. Mal vi as araucárias. Minha coluna entortou e a bateria da moto arriou.

Devia ter ficado e mergulhado nas ondas.

Escolhas

Em mim e minh’alma

preparei tantos refúgios e esconderijos.

Tantas folhas coladas. Tampas e lacres.

Criei gavetas no pensamento e arquivos secretos no coração.

Senhas e segredos tão pessoais.

Tão intransferíveis.

A podridão e aversão alheias. Indigestas.

Fiz caber em mim o que a mim não pertence

– nem caberia –

pra me impregnar e me pregar na realidade de escolhas não minhas.

Frutos, não meus.

Porque? Me pergunto.

Por que talvez tudo não se resuma ao que é seu ou meu.

Talvez tudo se resuma ao que é nosso.

Assinaturas

A assinatura de uma pessoa parece coisa simples. Mas não é. Quando fiz meu primeiro CPF, assinei meu nome de solteira por extenso. Ao casar acrescentei a meu nome, o sobrenome do meu marido. Assumia uma nova identidade, que precisava de uma  assinatura de casada. Despreparada, abreviei o M. de Maria, o L. de Lammel, sobrenome de meu pai. Assinei escrituras, diplomas, certidões, documentos. Assinei meu livro “Os segredos de Serena” com meu nome de casada. Ainda não me sentia escritora. Ainda era a mulher, a mãe, a psicóloga. Demora um tempo para descobrir quem somos, como nos transformamos e como queremos ser representados.

A vida nos empurra,

querendo ou não, gostando ou não.

Ao deixar pra trás um jeito de ser e viver, deixei também algumas das minhas neutralidades e paranoias. Fui me descobrindo outra e confortavelmente me apresentei ao mundo, simplesmente, Suzete Herrmann. E então vieram os “Diálogos do Inconsciente”. Minha primeira exposição artística individual. Cada obra pedia um nome e uma assinatura. De artista. Como das outras vezes fiquei confusa. Insegura.

O nome incomum, enfim, se impôs.

Me representa e me apresenta: Suzete H.

Esta é apenas a história da assinatura do um nome. E minha assinatura como ser humano? Que marca ou marcas me identificam? Um eterno e intrincado crochê onde cores e fios que se mesclam e se enroscam. Dão nó. Pontos se sobrepõe. Uma marca é fazer sempre a diferença, um lema de vida. Ser um espírito livre, um valor absoluto. Ser autêntica e verdadeira, sempre. Generosa e grata também. Outras marcas. Singelas e poderosas assinaturas. Aos poucos, percebo brotar doses indigestas de intolerância e irritabilidade frente à imbecilidade, falsidade e mediocridade humanas. Assim como o desenho da minha assinatura mudou e se adequou a papeis e escolhas, minha assinatura humana começa a criar novos contornos.

Onde existe sombra e luz,

como nunca antes. Percebo-as

numa Gestalt transparente de tão límpida.

Existe quem fui, quem sou e quem pretendo ser.

Mas quem, exatamente serei eu?