As cores

Amo. E desde sempre. 

Aprendi a gostar do preto. A cor do luto. Do velho. Da tristeza.

Tornou-se chique. Básico. Sem erro. Assim como os tons em cinza. 

Tolero cada vez mais os beges. Teoricamente, combinam com tudo. 

Assim como o branco.

Com o passar dos anos o preto se instalou e dominou meu armário. 

Outros tons neutros começaram a chegar também. 

As cores vibrantes viraram acessórios:

Bolsas, sapatos, lenços, colares, anéis, mantas, cachecóis …

Esta invasão de básicos dominou quase todos os espaços.

Logo eu que sempre fui dos vermelhos, pinks e verdes bandeiras.

Logo eu que via no bege, a falta de opinião.

No preto, a preguiça da escolha.

No cinza, o preto desbotado.

Lá de vez em quando, solto matizes.

Volto aos vermelhos. Ao impacto da cor.

Os extremos e os vermelhos cansam.

Busco o meio termo. Encontro e descanso.

Lá de vez em quando, solto os matizes.

Monstros e fantasmas se encontram.

Dividida

O mapa astral foi certeiro:

Seria eu uma eterna dividida. 

Não esquizo. Nem bipolar. Nem noite, nem dia.

Meio um, meio outra.

Quando estou cá, quero estar lá.

Quando lá, quero estar cá.

Uma vida dupla, numa vida plena.

Lá e cá.

Quilômetros me dividem em duas, 

talvez em mais.

Meu norte tem sido juntar o leste e o oeste.

O esquerdo e o direito. 

O alto e o baixo. 

O em cima e o embaixo.

O lá e o cá.

O sul.

Ando exausta desta vida dupla.

Deste ir e vir e nunca chegar.

Creio eu, nasci para este eterno vagar.

neste mapa dividido, encontro-me

absolutamente

inteira.

Creio eu, busco eus por ando passo.

Existo assim,

absoluta, absurda e lindamente

esparramada. Dividida.

Como eu amo este lugar

Amo a tranquilidade deste lugar,

dos gorjeios dos pássaros, de todos os tipos, 

que circundam e invadem a casa por todos os cantos;

dos gatos, senhores de si, donos desta casa sem dono presente.

São eles que fazem a ronda e descansam debaixo das cicas, das fênix, 

em meio e rodeados da mandala de sol.

As orquídeas, as bananas e as jabuticabas, e agora as pokan,

crescem a Deus dará. Enchem de vida este lugar.

Aos poucos a casa fica com jeito de casa:

Vou arrebanhando móveis antigos e desgastados

Envolvo-os de sonhos de um amanhã cheio de vida e alegria.

O silêncio e a solidão são amigas sempre bem-vindas,

sempre presentes. Dispensamos o lado de fora da cerca.

O dentro se basta e se completa.

Com elas – a solidão e o silêncio – me preencho,

 e sei, elas vivem sossegadamente nesta casa.

Também sei o quanto elas amam a chegada destes abandonos e farrapos.

Somos todas a alma desta casa.

Estropiadas, sucateadas, esquecidas.

Todas, ganhamos vida neste lugar.

É por isso que sempre volto.

Até chegar o dia de cravar raízes,

feito os kaizucas que ladeiam a casa,

ou os plátanos que a margeiam.

O Cambará

Andando pela plantação de alfafa – serena e tranquila, eu – o olhar perdido nas videiras podadas e amarradas (pobrezinhas), nas araucárias solitárias e imponentes, feito povo em pé, entre ovelhas e caixas de abelhas, o avistei de longe.

Parecia um lutador de box.

Com luvas fofas e arredondadas de vermelho,

ou laranja, amarelo ou verde.

Conforme eu rodava, o Cambará também rodava,

e rodavam as cores e as formas. Rodava eu também, encantada.

Zanzei de cá pra lá e de lá pra cá, o dia todo, e ao por do sol, pé ante pé, a memória do olhar, ainda tamborilando, conduziu-me a olhar de perto, quem pela manhã me seduziu.

O Cambará.

A árvore de casca grossa e alma antiga, ostentando seus galhos secos, quebrados e retorcidos pelo tempo, pelo frio, pelos ventos, geadas e nevascas, calorões infernais e sol inclemente. Ele sabe. Ela sabe. A natureza sabe ser implacável e cruel, e o cambará, de dias contados, resiste heroicamente. Sabe do seu tempo.

Sabe da imprevisibilidade do tempo e da vida.

Enfeita-se de colares, anéis e braceletes de bromélias coloridas. Um Cambará perua. Quem diria.

Enchente do rio

O rio transbordou, bradam todos. Irados, tensos e nervosos.

Sim, o rio transbordou como sempre transbordou,

desde que me conheço como gente, desde que o mundo é mundo.

De tempos em tempos, ele vem mostrar sua força, atender suas e também as nossas necessidades.

É por ele que as cidades do vale vingaram, cresceram e se transformaram em pequenas e vibrantes colônias de gente.

Elas sabem, fingem não saber, mas, maior poder é o dele:

do impressionante Rio Taquari,

que quase some entre os cascalhos, pra ressurgir glorioso e truculento, arrastando árvores, casas, gente. O lixo humano. A vaidade humana. O descaso.

Ele é o que é.

Normalmente calmo, segue ele, dia a dia, encaixadinho na trilha, feito um bonde comportado.

Daí, depois de dias, dias e mais dias e noites, noites e manhãs e tardes e mais noites

açoitado por águas, raios e trovões,

vira um bicho nervoso, tenso e irado, feito nós.

Vira uma locomotiva desgovernada, estridente e alucinada.

Arrasta tudo que cruza seu caminho, sua trilha, seu destino, sua meta.

Senhor de si, ele passa.

Vai-se embora até se reinstalar sossegado e satisfeito. Ele não olha para trás. Não se arrepende.

Apenas responde atavicamente à sua natureza.

Penso em nós.

Em nossa insignificância e onipotência.

Poderíamos aprender com o rio, deixando o rio em paz.

Também nós temos um caminho a seguir. Um destino a cumprir.

Inspiremo-nos no rio.

Estremeço

Venta lá fora

As portas tremem, balançam as palmeiras.

O uivo lareira abaixo é fantasmagórico.

Vento odioso e tenebroso, estremeço.

O corpo se contrai, pressente o perigo.

Imprevisível e rabugento, ele arrasta tudo,

sem dó nem piedade. Me afundo na cama.

O frio vem misturado nele. A noite gela.

Antes dele, dormi com a noite de trovoadas e raios.

Amo os dois:

O ronronar das nuvens que se chocam,

a claridade que explode.

A infância me inunda misturada de chuva.

Um misto de fascínio e exultação é o que sinto.

Uma força maior rege a todos:

O vento, raios e trovões, a chuva e, eu.

Será que São Pedro está fazendo faxina lá no Céu?

Balançando

Gosto de abrir a janela e ver o sol nascer, o horizonte, a imensidão do vale,

o rio que corre encaixado na paisagem:

da sacada, do quarto de casa.

Esta é a cena matinal que me desperta para o dia. Para um bom dia.

Gosto do verde que me cerca.

Do contorno das montanhas ao fundo do vale.

Dos telhados das casas vizinhas. Gente que conheço de outra vida.

De uma vida aqui vivida.

Neste meu refúgio eterno.

Continuo refugiada,

confinada na minha insegurança e indecisão.

 

Hoje não abri a janela. O sol bate nas venezianas. Me convida a sair.

Hoje não. Hoje vou lamber minhas dores.

O vento que balança as palmeiras, os plátanos e os pinheiros,

hoje balança minhas emoções.

Hoje,

a escuridão me aconchega melhor.

Calor de verão

Sobre cansaço já falei muito. Escrevi outro tanto.

Sobre exaustão também.

Verdade verdadeira é que sou exagerada,

cheia de ideias, vontades e desejos.

Verdade é esta incapacidade de lidar com limites.

Os próprios. O dos outros. E limite importa:

Senão a gente se entorta e se esgota.

O corpo reclama. Dói. A alma encolhe. Dorme.

O sono avança. Consome.

Ando às voltas, pra variar, com zanga de verão.

E eu na contagem dos dias.

Ao menos, menos um. Quantos dias faltam?

O outono se aproxima. Vixe Maria. Uma benção.

Depois vem o inverno. E então, a primavera. Puro deleite.

E do nada, lá vem o verão sorridente de novo.

Todo ano é a mesma coisa. O mesmo desconforto. Físico. Mental. Emocional. Social. Astrológico. Biológico. Transcendental. Imagético. Estrutural. Gutural. Cibernético. Natural e cíclico.

E eu, eterna desadaptada estacional. Vou sobrevivendo.

 

 

 

 

 

Sacramentado

Já deveria ter batido o martelo. Não bati.

Dei várias chances. Ouvi palpites. Preferências.

Dei mais uma chance. Mais uma. A última.

A partir de agora, amigo meu,

aqui em casa,

está proibido de escolher sabor de pizza.

Aí eles querem brócolis com catupiry, margarita, portuguesa

etcetcetcetcetcetc.

Gente eclética, sofisticada.

Na hora de comer, o olho e o garfo,

avançam na minha,

calabresa com cebola.

Não dou mais.

A partir de agora,

escolheu comeu.

Roteiros

O inconsciente é poderoso.

Magistral, o define melhor.

Mal sabia eu, que ao escrever

ele revelaria segredos abissais. Meus.

Não meus. Igualmente meus.

Cobertos por anos e anos e anos e anos e anos

de normalidade, sucesso, amor. Muito amor.

Mesmo assim, o inconsciente é implacável. Não perdoa.

Estava em algum lugar meu o que não era meu.

Mas era. Porque era de quem comigo estava.

A verdade veio à tona, fantasiada de ficção.

De faz de conta.

E a história se repetiu e se repetiria tantas e quantas vezes

fossem necessárias.

O inconsciente, eu sei, é holofote e

ilumina e guia o caminho. Um tapete de verdades e realidades.

Os roteiros mudam. Desbravam pântanos. Desertos.

Se embrenham em florestas. Afundam em areias movediças.

Roteiros da vida da gente. Que nada tem a ver com a gente.

Com a vida da gente.

São apenas roteiros.

São, nada mais, nada menos, a vida da gente.

Saturnada

Quando alguém tira a gente do sério, fica coisado mesmo.

Gente sem noção, sem vontade. Gente egoísta focada no próprio umbigo.

Surtei. Chorei. Choro até agora.

Quero distância desta incoerência.

Se não queria, era só falar.

E não enrolar, enrolar. Um velho mantra.

Deu. Não quero mais.

Petulância me irrita. O rei na barriga me empanzina.

Saturei. Pra Saturno eu vou.

Deveria ir e já estar lá.

A decepção, mais uma vez, tirou meu chão.

Saturno, me aguarde. Um dia eu vou.

Por enquanto,  às voltas com os Diálogos.

Do Inconsciente.