Solidão

Particularmente, adoro.

Quando estou sozinha consigo me organizar, criar, descansar, fazer um monte de coisas, que acompanhada, acabo não fazendo.

Mas, existe um tempo para este bem-estar na solidão.

Tem hora que o espaço do outro se agiganta e clama por ocupação.

Lendo o intrigante livro “Ousadia em estar feliz” o autor Dinael Corrêa de Campos cita outro autor, que cita as diferentes formas de solidão.

Ei-las:

  1. Solidão do ressentimento – por reação de lembranças dolorosas;
  2. Solidão por enclausuramento – por falta de respeito pelo que o outro tem de diferente;
  3. Solidão da perda – pela ausência de alguém;
  4. Solidão da disjunção – por desunião do que antes foi união;
  5. Solidão da procura – por busca incessante de conexão;
  6. Solidão possessória – que tenta substituir o vazio do ser pelo delírio do ter;
  7. Solidão dos desapossados – associada à privação dos bens de sobrevivência mínimos;
  8. Solidão depressiva – por falhas no encontro com o outro ou consigo mesmo;
  9. Solidão por opção – por descoberta da identidade na interioridade;
  • Solidão por descrença – por ausência de afetos e de esperança;
  • Solidão por indiferença – derivada do sentimento de falta de significado por parte de quem nos rodeia.

Conseguiu identificar qual a solidão que te aflige?

Melhor sofrer com a solidão que escolhemos viver. Todas as outras, me parecem, relacionam-se com algum tipo de falta.

E solidão escolhida, é solidão preenchida.

 

 

 

 

 

Arrumação: apego ao passado ou medo do futuro?

Duas vezes por ano, normalmente antes do Natal e nas férias de inverno – há muitos e muitos anos – faço uma senhora arrumação em casa. Do tipo

  • esvaziar, limpar e reorganizar guarda-roupas, armários, gavetas, prateleiras;
  • revisar, colar, lavar, polir, pintar, lixar, envernizar ou passar óleo de peroba/betume em adornos e móveis menores ou de apoio;
  • lavar ou mandar para lavanderia roupas mofadas ou amareladas e para a costureira, roupas que merecem algum tipo de ajuste ou concerto (não tenho mandado nenhum calçado ao sapateiro, o custo benefício tem sido inviável.

Ou seja, viro a casa do avesso, e com ela, viro do avesso também. Ao longo dos anos, fui fazendo e aprendendo. Costumo dizer que sou algo bagunceira, algo indisciplinada e algo organizada. Em parte, pelo tanto que produzo (velas, cerâmica, scrap, mosaico, pintura, literatura) e pelo tanto que guardo (do fio ao pavio, folhas, botões, chaves velhas, papeis, adornos quebrados, etcetcetc). Tudo, absolutamente tudo, pode ser reaproveitado e transformado. Reciclado e estilizado no melhor estilo “fui eu que fiz”. Haja disposição, criatividade, dinheiro e tempo. Tempo é fundamental. Só comece se tiver tempo pra terminar. Por isso, estipule uma meta: Um fim de semana, uma semana, um mês. Aproveite para desintoxicar sua casa e reencontrar muita coisa. Mas termine o que começou. E já planeje a próxima etapa. Além de selecionar, limpar e colocar no sol pra ventilar roupas e demais artigos, pratique o desapego.

O DESAPEGO é a parte mais importante da arrumação. Do que vou me desfazer. O que vai pra doação? O que vai para o lixo?

A dificuldade de se desfazer de coisas que não usamos mais, pode ser decorrente do apego ao passado ou medo do futuro. Ambas podem governar o modo como nos relacionamos com coisas, e, pessoas. Trata-se de um padrão de funcionamento. Mantemos em nossas vidas apenas o que realmente queremos? Ou estamos entulhados de objetos, reféns de uma sociedade de consumo? Nos transformamos em acumuladores compulsivos e competitivos?

Como diz Marie Kondo, no livro A mágica da Arrumação – A arte japonesa de colocar ordem na sua casa e na sua vida: “Há três maneiras possíveis de lidar com nossos pertences: encará-los agora, algum dia ou evitá-los até a morte. A escolha é sua. Acredito piamente que é bem melhor encará-los agora. Se reconhecermos o apego ao passado e o medo do futuro ao analisar com sinceridade nossas coisas, conseguiremos enxergar o que é realmente importante.”

Li o livro, enquanto reorganizava a casa.

Marie Kondo dá várias dicas interessantes para REALMENTE arrumar a casa. Não concordo com todas. Talvez porque seja psicóloga e o passado faz parte do meu fazer profissional. Talvez por ser arteira e qualquer caco pode ser reciclado e transformado. Talvez por ser ecologicamente correta, diminuir o consumo e reciclar é fundamental, enfim …

Para mim, organizar a casa é organizar a própria vida. Quando não estou bem, minha casa (de alvenaria, madeira ou pau a pique) e meu corpo físico (espírito, alma) também não estão. À medida que a casa fica arrumada e ordenada, me ajeito também. Ver as coisas limpas, organizadas e colocadas em seus devidos lugares dá tranquilidade e leveza. A casa – e a própria alma – se enchem de energia e alegria. Prontas para o próximo passo.

Dentre os apontamentos da autora, de mais de dois milhões de livros vendidos, achei interessante:

  • faz mais sentido classificar as pessoas – no quesito organização – por suas ações do que por seus traços de personalidade. Existem os que “não conseguem jogar fora”, os que “não conseguem colocar de volta no lugar” e 90% dos casos, os que “não conseguem nem jogar fora, nem colocar de volta no lugar”. Ufa, a grande maioria.
  • Há dois tipos de organização: a “diária” e a “organização como evento especial” (esta que estou fazendo agora). Ela sugere que se pegue cada peça/objeto e ao observá-lo, perceber se ele nos traz felicidade. Se sim, fica. Se não, descarta.
  • Além do valor material, existem outros fatores que atrapalham na hora do descarte: funcionalidade, informação, apego emocional e raridade.
  • É importante organizar (e descartar) por categoria. Junte tudo, retire do cabide, das prateleiras, das caixas. Jogue tudo no centro da sala ou do quarto. Olhe peça por peça, dialogue com ela. A primeira categoria a ser trabalhada são as roupas, depois vem os livros, papeis e documentos, itens variados, e por último, artigos de valor sentimental. Ao manusear artigos de valor sentimental e decidir o que descartar, você processa seu passado.
  • O tipo de organização chamado de “enviar as coisas para a casa dos pais” deve ser evitado. Despachar objetos para outro lugar é como varrer a sujeira pra debaixo do tapete.
  • O “clique do suficiente” é difícil de ser alcançado. O certo é que vivemos com mais coisas do que de fato, precisamos.

Ok. Preciso trabalhar alguns destes tópicos. Mas, nada de exageros.

Percebo como o menos tem me agradado mais. O quanto tenho descartado. Quão pouco tenho comprado. Encontrar nos armários, balcões, gavetas e caixas aquilo que gosto, os livros organizados, o ateliê idem, alguns móveis restaurados e reposicionados, tem trazido leveza à minha vida.

Ao descartar o que não mais me define, abro espaço para o novo.

De “novo, novo mesmo” pretendo adotar uma conversa diária com a casa que me acolhe, com os móveis que participam do dia a dia em família, com as roupas e calçados que me agasalham, com os livros, fotos e documentos que registram momentos e acontecimentos. Aos objetos descartados, agradecimento. Foram úteis, importantes, necessários. Também eles precisam seguir em frente.

Sabe aquele presente que você ganhou e não tem nada a ver com você, mas que você guarda assim mesmo? Desapegue. Ele já cumpriu a função dele: foi o presente que alguém escolheu pensando em você. É hora dele seguir adiante.

 

 

 

 

 

 

Reincidente

Ando meio sumida, consumida por outras paixões.

– novas e antigas –

Um universo calado e mitigado me assalta sobressaltado.

– exige espaço e afago –

Quer existir e se entranhar.

Deixar de ser hospedeiro.

E ser daqueles hóspedes

com direito ao quarto principal e a cabeceira da mesa.

Voltar a clinicar é voltar a respirar

e sentir no fígado a dor de tanta gente.

É fluir a energia represada, conduzindo-a numa ainda

desconhecida jornada.

Sair do próprio silêncio e cair de cabeça no silêncio do outro.

Esbarrar na própria solidão cutucando a solidão do outro.

Voltar a clinicar é colar a última peça do mosaico, é respingar a cor mais vibrante na tela de tantas nuances, é encontrar o roteiro perdido da viagem, o efeito tão desejado da forma e da cor na esmaltação cerâmica, é encontrar as únicas palavras que expressam sentimentos e emoções únicos, é acertar no tempero da berinjela, no arroz com feijão e na mistura perfeita do café com leite de cada dia.

Clinicar me remenda por inteiro:

Tantos eus

vividos e sofridos por outros,

tantas teorias e saberes pulverizados e escamoteados por anos a fio.

Enfim, me reencontrei entre o medo e a preguiça, entre livros e bordados, entre o amar e ser amada, entre o ir e o ficar, entre o passado, o presente e o futuro.

Cheguei.

É com muito prazer que quero me reapresentar:

Psicóloga de formação, Terapeuta de casais e família por opção, Escritora e Artista por paixão; Mulher, Mãe, Filha, Irmã, Amiga.

Inteira. Faminta. Curiosa.

Reincidente na arte de tratar e viver.

 

Acreditando na Educação

Sigmund Freud (1937) já dizia que educar, ao lado de governar e psicanalisar, era uma profissão impossível. Mesmo assim, ainda hoje, de um jeito ou de outro, acreditamos que podemos educar, governar e psicanalisar.

Vista através de um caleidoscópio, a arte de educar exige que nos posicionemos em pontos distintos para ver sob diferentes prismas o espaço que ocupamos e habitamos: um mundo mutante, onde a violência, os limites, a liquidez dos relacionamentos e sociedade são pontuais e cruciais; onde a estrutura familiar, a infância e a juventude cambaleiam em busca de rumo; onde os valores, princípios e crenças vivem uma crise sem precedentes, bombardeados diuturnamente por informações, conceitos e bizarrices. Nestes tempos líquidos precisamos de um porto onde ancorar nosso mal-estar e nossas inquietações.

Criar um espaço de escuta e troca dentro da escola, pode parecer pouco e fadado ao fracasso. Mas, é dentro da escola que percebemos os três lados do caleidoscópio formarem as mais diversas, estranhas e interessantes imagens. Quando professores, pais e alunos convergem em busca de soluções e respostas, o resultado aparece: relações mais harmoniosas, resultados promissores, conhecimento, diálogo, respeito, satisfação e bem-estar.

Vamos acreditar juntos?

Fotos que contam filmes

Janeiro acabou de terminar, fevereiro mergulha com Iemanjá em pleno dia dois, eu ainda estou às voltas com a faxina de final de ano (o que passou), a lista de metas e providências para 2018 continua se debatendo perdida entre desejos e necessidades, meu tarô embaralhado e posto, com o Diabo apontando como a carta Essência do ano, aguardando interpretação, a agenda com apenas os dados de identificação assinalados … O ano mal começou e já me sinto atropelada. Cantando pneus e levantando a poeira, me convenci de que é verão, o calor baixa minha pressão arterial (e minha energia), 2017 me exauriu com muitas viagens, compromissos, preocupações, decisões e sustos. 2018 que sossegue um pouco. Tudo tem seu tempo e seu jeito. Também eu. Decidi fazer de fevereiro o mês de descanso, férias e organização. Por algum motivo – entre o consciente e o inconsciente – pedi que Carla colocasse todos os álbuns de fotos de toda a vida sobre a enorme mesa da churrasqueira.

img-1193.jpgFui pegando um a um, e aos poucos, observei o amarelado das páginas, o mofo esbranquiçado em capas e contracapas de álbuns de scrap, fotos arrancadas e misturadas, caixas com postais, pequenos e antigos mini-álbuns gratuitos de papelão, uma infinidade de fotos fora de foco, imprecisas e descoloridas, com uma nitidez sofrível de momentos, lugares e pessoas, algumas ainda presentes, outras distantes e agora desconhecidas, perdidas pela vida ou sugadas pela morte.

IMG-1198Rever fotos é rever a própria vida. O tempo que as consome, também nos consome. A vida que se vê nas fotos se desenrola como num filme. A dimensão do tempo que passou redimensiona a própria vida vivida e sentida. De repente, percebo que nunca fui tão gorda como sempre me lembro de ter sido, que meus filhos sempre foram lindos e queridos demais (apesar das incomodações e preocupações), alguns lugares nem eram tão bonitos, algumas pessoas tiveram vidas incompatíveis com aqueles olhares, poses e histórias que sabíamos até então. Muitos morreram, outros tantos sumiram do mapa. Eram amigos de outros tempos. Assim como muitos sonhos e projetos que se perderam pelos mais diversos motivos. A família cresceu. O jeito de viver mudou. Todos mudamos e nos transformamos. A vida apenas seguiu seu rumo e se perdeu em algumas encruzilhadas. Hoje, consigo ver por onde andei, onde me perdi, a que ponto cheguei. Também sei que nem tudo que acontece – ou deixa de acontecer – depende do meu querer ou fazer. Tem coisas que simplesmente acontecem. Simples assim.

img-1196.jpgAos poucos, separo álbuns que precisam de consertos, algum tipo de limpeza ou acréscimo de fotos e informações.

img-1197.jpgMe encanto com antigos álbuns de scrap produzidos com capricho e amor. Preciso voltar a fazê-los e contar a vida através de fotos. Daqui a 10, 15, 20 anos, sei que vou adorar ver pra onde e como a vida me levou.

IMG-1195Por isso, mãos à obra.

Deu pra ti 2017

O que dizer do ano que finda?

Houveram fatalidades da vida.

Retomadas e guinadas. O que parecia estar tomando um rumo,

rumou em outra direção.

Retomei o consultório. Ainda de forma tímida.

Mas, certa. Apesar das dúvidas.

A Psicologia faz parte de quem sou e me completa como ser humano.

Não posso, nem consigo, viver sem ela.

A Arte ganhou novos contornos.

A Pintura Espontânea ganhou técnica e estilo pessoal.

A Literatura, uma das minhas paixões, andou a passos curtos.

Mantive alguns dos meus hobbies. Outros, hibernaram.

Projetos foram cancelados. Adiados. Suspensos.

Repensados.

A vida pessoal teve seus solavancos. Entrei na menopausa.

E foi ela quem ditou os humores e rumores do ano.

A família vai bem. A saúde também.

Pra 2018, vou fazer enfim, meu Mapa Astral.

Decidi ler sobre Vidas Passadas e Botânica.

Fazer pão caseiro e Pilates.

Andar de bicicleta.

E deixar a vida acontecer.

Cada dia mais, percebo o plano maior.

Vou viver um dia de cada vez.

Ser feliz e cuidar dos meus.

Os planos, vou manter no horizonte ensolarado.

Haverá um se e vários porques,

quando for a hora de acontecer.

Pois,

Que venha 2018.

Balanço

Além dos lugares, aproveitei também 2017 pra viajar através de livros que há séculos me encaravam da estante, pedindo releitura. Quando decidi voltar a clinicar, me parecia correto reler textos e resgatar expressões da área psi, há muito empacotadas e adormecidas. Livros que foram fundamentais em outros tempos e momentos pediam outro olhar. Até porque, novas expressões e novos saberes habitaram meu dia a dia neste último setênio. O ano me trouxe Jung, sua história e inúmeros livros da Psicologia Analítica, Símbolos e Arte. Imagino que algumas teorias e percepções tenham mudado com a tecnologia que transformou o mundo e as pessoas que nele vivem. Quanto ao que li e reli, perdi o fio da meada. Dos que lembro – e ainda hoje são marcantes – estão “Complexo de Cinderela”, de Colette Dowling; “Homens que odeiam suas mulheres & As mulheres que os amam”, de Susan Forward, e “Perdas Necessárias”, de Judith Viorst. Três livros de autoajuda que sempre recomendo. “Neve”, de Orhan Pamuk, tem sido meu livro de cabeceira. Mas, o que deu o tom de 2017 foram as atividades em Arteterapia. Artigo científico, estágio, supervisão, leitura e muita pesquisa. Após 3 anos e meio, enfim, mais uma formação concluída. E a certeza do poder das ferramentas arteterapêuticas e da profundidade das bases teóricas. Através da Arteterapia me inseri no universo da cerâmica. Uma, ainda, ambivalência. Gosto. Apenas isso: gosto. Pra levar adiante, preciso de paixão desenfreada (assim como foi com as velas, a pintura espontânea, a literatura, o blog). O ano foi de conflito. Aprendizados. Escolhas e decisões. Como todos os anos são, o que beira a castigo e benção. Escrevi pouco. Me exercitei pouco. A eterna meta de emagrecer, permanece eterna.

brindando com espumante

Não sei se repito 2013, e deixo acontecer. Ou se faço lista de metas. Sinceramente, uma esdrúxula questão em aberto. Certeza única e irrevogável é ler e escrever mais. Publicar meu livro de poesias. Promover a vernissagem das telas de pintura espontânea. Voltar a clinicar mais. Muito mais. Fazer pilates. Ir ao cinema uma vez por semana. Passar uma semana por mês com minha mãe, no RS. E assim, já elenquei 8 itens pra 2018. Emagrecer e me exercitar mais. 10 itens. Renovar meu closet. 11 itens. Prefiro números ímpares.

Que seja.

Com lista ou sem lista, sinto que o ano novo, será cheio de colheitas.

Plantei, reguei e adubei durante muitos anos.

A hora da colheita se aproxima.

Os balaios estão a postos.