Pollock, Jung e eu – A pintura como método arteterapêutico – Linguagens do Inconsciente

“A pintura permite que o “invisível se torne visível”. (Paul Klee)

RESUMO

O presente artigo visa estabelecer uma relação entre a arte abstrata, o círculo psico-orgânico criado por Paul Boyesen e a psicologia analílita de Carl Gustav Jung. Para tanto, busca na arte e na vida do pintor norte-americano Jackson Pollock algumas referências quanto ao processo psicológico que desencadeia um tipo especial de arte, com uso específico de técnicas e materiais como forma de expressão. A autora deste artigo, assim como Pollock, utilizou-se dos mesmos recursos artísticos, como forma de expressão e busca de resolução egóica. A profusão dos trabalhos pictóricos e o bem estar psíquico conquistados – tanto pela forma, como pela intensidade artística – confirmaram a importância da arte com fins terapêuticos, através da linguagem e expressão do Inconsciente.

Palavras Chave: Arteterapia; Pintura Abstrata; Jackson Pollock; Carl Gustav Jung; Círculo Psico-orgânico – Paul Boyesen

ABSTRACT

The present article seeks to establish a connection between abstract art, the psycho-organic circle created by Paul Boyesen and Carl Gustav Jung’s analytic psychology. To achieve so, the author looks into the art and life of the American painter Jackson Pollock, in reference to the psychologic process that triggers a special kind of art, using specific techniques and resources as a form of expression of the uncounsious world of the artist. The author of this article, just like Pollock, has made use of the same artistic resources, as a form of expression and search for ego resolution. The achievement of pictorial works and psychic well being profusion – both by form and artistic intensity – have confirmed the importance of art for therapeutic purposes, through the language and expression of the unconscious mind.

 Keywords: Art therapy; abstract painting; Jackson Pollock; Carl Gustav Jung; psycho-organic circle; Paul Boyesen

 

INTRODUÇÃO

“Pollock , Jung e eu – a pintura como método arteterapêutico” – é o relato de uma experiência pessoal vivida durante um período de grandes mudanças e adaptações pessoais. Uma casa nova, num lugar absolutamente novo, uma nova condição de vida pessoal (menopausa) e conjugal (aposentadoria do marido), o distanciamento dos filhos (Ninho Vazio) e todos os desafios próprios do desenvolvimento normal do ciclo vital humano.

Neste ínterim, a pintura clássica cedeu lugar à pintura abstrata de forma inconsciente e intuitiva, tornando-se uma ferramenta arteterapêutica essencialmente autodidata. O único objetivo, a expressão e a vazão de emoções e sentimentos obscuros e efervescentes. A manifestação majestosa e inequívoca do Inconsciente.

Passados quatro anos, mais de 20 telas produzidas, o ciclo pictórico se fecha. O ciclo psico-orgânico de Paul Boyesen avança e cede lugar a um novo movimento, a uma nova etapa de vida.

Um novo ciclo se inicia. Uma nova necessidade se apresenta.

Ao relato deste processo pessoal serão anexadas fotos de doze telas produzidas, referencial bibliográfico sobre a terapêutica contida no uso de tintas e outros materiais plásticos, e por fim, uma conclusão pessoal sobre a vivência deste processo arteterapêutico.

DESENVOLVIMENTO

A pintura e a arte tem sido constantes em minha vida.

Meu primeiro contato com a arte da pintura aconteceu em 1996.

Na época, estava me adaptando a viver numa nova casa, numa nova cidade.

Um novo fazer se anunciava.

Novas formas de relação aconteciam.

Era a vida dando mais uma guinada.

Durante 4 anos pintei em ateliê de pintura com orientação de professores, fazendo cópias de artistas conhecidos e famosos.

Passados 15 anos,

retomei a pintura em 2013,

sabendo que não iria frequentar nem escola, nem professor,

nem estudar técnicas de pintura.

De todas as artes, a pintura é a arte menos dominada.

Algo de muito misterioso acontece, pois sempre, absolutamente sempre, perco a mão.

Do período em que pintei em atelier de pintura, sinto-me uma fraude.

As pinceladas mais marcantes são das professoras que tentavam me ensinar a pintar.

Nunca aprendi. Mas, queria pintar.

Queria cor na minha vida.

Quando decidi pintar uma tela para a adega de outra casa nova, comecei carimbando a tela com o fundo de garrafa molhado de vinho + placas de madeira de caixas de vinho.

Ao olhar para a tela, a certeza de que aquele troço definitivamente

não era para mim.

A vontade era de jogar tudo no lixo.

O que quer que eu fizesse com aquela tela detonada não mudaria o pior destino dela.

Com restos de tintas, fiz sem-saber-sabendo-apenas-sentindo, minha primeira drip painting.

O resultado?

Absolutamente a minha cara.

Amei. Minha família amou. Os amigos também.

A tela da adega abriu a porteira para muitas outras.

Algo em torno de 20 telas foram produzidas desde então.

Se domino a pintura hoje? Não, ainda não.

Tenho, assim como Pollock teve, dúvidas:

“Isto é uma pintura?”

Perguntou Pollock a Lee Krasner,

influente pintora expressionista abstrata da segunda metade do século XX.

O que pinto são pinturas?

Também me questiono ao admirar minhas telas.

Sinto que sim.

Minha pintura é uma deliciosa brincadeira com cores e tintas.

O resultado agrada e alegra.

Não me sinto mais uma fraude.

Cada uma das 20 telas pintadas nestes últimos 3 anos, refletem exatamente quem sou.

Ou melhor, como estou. Como me transformei.

Como continuo mudando.

Carter & McGoldrick (1995) afirmam que o ciclo de vida individual acontece dentro do ciclo familiar, que é onde acontece todo desenvolvimento humano.

Nos pontos de transição da vida familiar, que coincidem com as crises de desenvolvimento do indivíduo, surgem frequentemente impasses e bloqueios, desencadeando sintomas emocionais ou mesmo quadros psiquiátricos.”(Eizirik, Kapczinski & Bassols, 2001, p.60)

“A meia-idade é uma fase do ciclo vital que se estende aproximadamente dos 40 anos aos 60 anos … Resumir e reavaliar são características marcantes do período, mesmo quando não levam a quaisquer mudanças notáveis.” .”(Eizirik, Kapczinski & Bassols, 2001, p. 159)

Nesta fase ocorrem mudanças nas condições físicas (saúde, vigor) extremamente variáveis de uma pessoa para outra. As mulheres entram na menopausa. As capacidades mentais atingem o auge. A produção criativa pode declinar, mas melhorar em termos qualitativos. Para alguns, o sucesso na carreira e o sucesso financeiro atingem o topo. Para outros, pode ocorrer esgotamento ou mudança de carreira. A responsabilidade pelo cuidado dos filhos, o lançamento destes ao mundo, bem como a entrada de seus cônjuges e netos, e o cuidado dos pais idosos, podem tornar este período particularmente difícil. A saída dos filhos deixa o Ninho Vazio. Em um estudo de 1978, Harkins determinou que os efeitos do Ninho Vazio, em mulheres ditas “normais” costumam ser leves e desaparecem em torno de dois anos. A maior ameaça ao bem-estar feminino neste período é ter um filho que não consegue se tornar independente no momento esperado.

Atualmente, os pais lançam seus filhos ao mundo quase vinte anos antes de aposentar-se, sendo imprescindível que encontrem outras atividades e ocupações. Em algumas famílias este é um período de fruição e conclusão. Uma segunda oportunidade para explorar novas possibilidades e novos papeis. Em outras famílias, pode ocorrer o rompimento e um sentimento de vazio e perda esmagadora, depressão e desintegração geral. O ajustamento conjugal torna-se central e essencial, podendo exigir novos arranjos e combinações. Alguns casais aceitam alegremente a meia-idade e vivem através dos filhos e netos, enquanto outros sentem que o “mundo os chama”.

Para as autoras Carter & McGoldrick (1995), as mulheres estão mais expostas à mudanças e instabilidades em suas vidas, do que os homens, e são mais vulneráveis aos estresses do ciclo vital, em virtude do seu maior envolvimento emocional e afetivo com aqueles que a cercam. Habitualmente, cabe às mulheres atenderem às necessidades dos outros: primeiro dos homens, depois das crianças e depois dos idosos. São consideradas mais responsivas a uma rede maior de pessoas pelas quais sentem-se responsáveis.

As autoras delineiam seis estágios de desenvolvimento no ciclo vital de toda e qualquer família. Elas citam os seguintes estágios:

  1. Saindo de casa: jovens solteiros;
  2. A união de famílias no casamento: O novo casal;
  3. Famílias com filhos pequenos;
  4. Famílias com filhos adolescentes;
  5. Lançando os filhos e seguindo em frente;
  6. Famílias no estágio tardio da vida.

TABELA 1 – OS ESTÁGIOS DO CICLO DE VIDA FAMILIAR

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Fonte: Carter& McGoldrick, 1995 p. 17

“Dado seu papel fundamental na família e sua dificuldade para estabelecer funções concorrentes fora dela, talvez não surpreenda que as mulheres tenham sido as mais propensas a desenvolver sintomas nas transições do ciclo de vida.”(Carter&McGoldrick, 1995, p.14)

As mais de vinte telas produzidas nos últimos anos,

nada mais são do que

Diálogos do Inconsciente.

Num belo dia de sol, numa semana qualquer,

um grito surdo quer ser ouvido.

uma lona preta estendida no subsolo de casa, várias telas esparramadas, latas, bisnagas e restos de tinta, tubinhos de xadrez líquido, cola, pinceis, varetas, água, thinner, frascos

e um universo esperando por cores e formas diluídas, desconexas e infinitamente harmoniosas.

“Historicamente, a Arte tem sido um canal para expressar a emoção e a alma. A pintura é uma das mais velhas expressões da nossa espécie … Muito antes que a linguagem fosse registrada, temos evidência da arte rupestre, datando de aproximadamente 50.000 A.C.”( Bello, 1998, p. 24)

Para Susan Bello, a pintura espontânea é um portal que permite acessarmos uma dimensão potencial da mente que não é controlada pelo conhecimento racional. A pintura espontânea é um processo de autoconhecimento. Através de imagens simbólicas o pintor expressa sua energia latente.

“Na arte arquetípica, é o símbolo que dirige o pintor; o pintor não tem nenhuma ideia do conteúdo que será pintado. As imagens interiores aparecem espontaneamente nas telas e tomam forma através das pinceladas. As pinceladas são expressão do mundo interior.” (Bello, 1998, p. 13)

Susan Bello define a arte arquetípica como um trabalho criativo, dominado por temas comuns, representados por imagens vitais e significativas, fruto da ressonância no inconsciente de quem entra em contato com o trabalho artístico. Essa arte pode ser a pintura, a dança, escultura, cinema, literatura, poesia, ou qualquer outra forma de expressão artística.

Para a autora, o processo criativo acontece quando o self obedece seu próprio ritmo de crescimento. Quando a mente consciente não é oprimida, nem controlada, a energia é ativada com tanta força que nada pode pará-la. Esta energia vai aos mais profundos recantos do inconsciente, ultrapassando o inconsciente pessoal e atingindo as bases dos arquétipos, que estimulados, se expressam através da Arte e/ou linguagens simbólicas.

Em dados momentos de nossa vida, a criatividade parece afluir quase que por si e dotar nossa imaginação com um poder de captar de imediato relacionamentos novos e possíveis significados.”(Fayga, 2013, p. 55)

Segundo a autora, estes momentos nos alimentam com inúmeras cargas emotivas e intelectuais e abrangem a totalidade de nossas vidas.

Nise da Silveira (2007, p. 42) cita Giedion que vê em toda obra de arte um documento psíquico. A autora salienta também, a importância da linguagem simbólica expressa pelo inconsciente. Linguagem essa, que pode ser decifrada e tornar-se harmoniosa, viva e bela, reverberando em verdadeiras obras de arte.

“ Uma das funções mais poderosas da arte – descoberta da psicologia moderna – é a revelação do inconsciente, e este é tão misterioso no normal como no chamado anormal.” (Nise da Silveira, 2015, p. 16)

Nise da Silveira (2007, p. 42) cita Herbert Kuhn que distingue a arte dos sentidos da arte da imaginação. A arte dos sentidos se relaciona à percepção do mundo. Já a arte da imaginação exprime fantasias e experiências internas do artista, que as apresenta de maneira irrealista, onírica e abstrata. Ou seja, pintar o que vemos diante de nós é uma arte muito diferente de pintar o que vemos dentro de nós.

“As imagens internas são tão vivas e fortes que até parece que um projetor as lançou sobre o papel ou a tela e o indivíduo apenas lhe dá contorno com o pincel, tão concentrado ele fica e rápido é seu trabalho.” (Nise da Silveira, 2015,p. 145)

Neste contexto, Nise acredita que expressar as emoções pela pintura é um excelente método para confrontá-las, independente de sua qualidade estética. Importa propiciar à imaginação oportunidade para desenvolver-se livremente, permitindo que o indivíduo participe ativamente dos acontecimentos imaginados.

Fayga complementa afirmando que quando o indivíduo consegue expressar criativamente suas necessidades interiores, ele torna sua vida mais rica e significativa. A autora sugere que o resultado final da criação, mesmo que influenciada pelo conhecimento consciente, é absolutamente intuitivo. A consciência do processo intuitivo acontece quando damos forma à criação.

“Os processos de criação ocorrem no âmbito da intuição. Embora integrem, como será visto mais adiante, toda experiência possível ao indivíduo, também a racional, trata-se de processos essencialmente intuitivos.” (Fayga, 2013, p. 10)

Sara Paim afirma o quanto é importante compreender e diferenciar o uso da “abstração” como busca plástica, ou como “camuflagem”. Um mecanismo psíquico para não se expor.

Para Nise da Silveira o uso da abstração é a forma do homem encontrar tranquilidade e refúgio, num cosmos confuso e instável. Entre o mundo externo e o mundo interno do ser humano surgem fronteiras intransponíveis.

“Esses dois mundos interpenetram-se em graus diferentes. Isso ocorre a cada instante na vida cotidiana e torna-se particularmente manifesto nas obras de arte, plásticas e literárias.” (Nise da Silveira, 2007, p. 119)

e conclui:

“Certamente a linguagem abstrata presta-se a dar forma a segredos pessoais, satisfazendo uma necessidade de expressão sem que outros os devassem.” (Nise da Silveira, 2007, p. 22)

e

“O artista não domina o ímpeto da inspiração que dele se apodera. Obedece e executa, “sentindo que sua obra é maior que ele e, por esse motivo, possui uma força que lhe é impossível comandar.”(Nise da Silveira, 2007, pg 139)

Fayga sugere que não há certo, nem errado no fazer do artista. Nem mesmo ele consegue explicar o porquê de suas ações e decisões. Ele se sente impulsionado por uma força interior que o orienta como uma bússola.

Esta lhe diz: vá adiante, revise, ajunte, tire, acentue, diminua, interrompa! São ordens que, ao recebê-las, o artista sente como imperativas, às quais deve irrestrita obediência, tão absolutamente essenciais se revelam a seu próprio ser.”(Fayga, 2013, p. 71)

“O impulso criativo é tão poderoso quanto o impulso sexual para o nascimento de uma nova vida.” ( Bello, 2014, p.110)

Susan Bello afirma que uma vez estimulados, nossos símbolos inconscientes podem se expressar através de várias formas. Ela cita a pintura espontânea. A espontaneidade permite que nossos símbolos pessoais inconscientes se expressem em qualquer forma necessária para aquele individuo, sem influência externa. Estes símbolos contêm e transformam a energia. Eles são potencial puro em busca de realização. O símbolo, tem significado único, uma vez que entra em contato com o inconsciente de cada indivíduo.

Nise da Silveira (2007, p. 147) cita Jung que afirma que

O processo criador, na medida em que o podemos acompanhar, consiste numa ativação inconsciente do arquétipo, no seu desenvolvimento e sua tomada de forma até a realização da obra perfeita.”

Para a autora, a verdadeira e genuína obra de arte, é uma produção impessoal.

“O artista é “um homem coletivo que exprime a alma inconsciente e ativa da humanidade.”(Nise da Silveira, 2007, p. 143)

Segundo ela, o surgimento de certas ideias e imagens que aparecem nos sonhos e fantasias, podem ser análogas a vários mitos, contos e fábulas, aparecendo também em outros produtos da criatividade humana. As imagens arquetípicas não são herdadas. O que é herdado e inato é a disposição de configurar e dar significado a estas imagens, que mantém semelhanças em seus traços fundamentais, mas assumem uma nova roupagem conforme a época e situações em que reaparecem. Desta forma, a criança ao nascer, traz consigo o rascunho de sua individualidade futura, embasada nos alicerces da imaginação, sentimento e ação, comuns à toda humanidade.

“Devido a seu caráter universal, Jung denominou estas camadas mais profundas da psique inconsciente coletivo, e arquétipo às disposições herdadas para produzir imagens e pensamentos similares em toda parte do mundo e em todas as épocas.” (Nise da Silveira, 2015, p. 148)

Fayga afirma que o potencial de criação do homem é movido por necessidades sempre novas. Este potencial seria um fator de realização e constante transformação.

Para Nise da Silveira (2007, p. 139) cada artista experiencia o processo criador de um jeito próprio. Ela cita Picasso que diz: “Quando eu começo uma pintura, há alguém que trabalha comigo. No fim, tenho a impressão que estive trabalhando sozinho, sem colaborador.”

Susan Bello (1998, p. 12) cita Joan Miró, que relatou seu processo como pintor, numa entrevista em 1947. Segundo ele, no primeiro estágio, ele deixa qualquer ideia – ou pincelada que sugira uma ideia – aparecer espontaneamente. Já o segundo estágio é cuidadosamente planejado e calculado, de acordo com as regras de composição.

Pollock afirmava não ter consciência do que estava fazendo enquanto pintava. À medida que se familiarizava com sua pintura é que a percebia como tal. Pollock acreditava que a pintura tinha vida própria e precisava deixá-la revelar-se. Só quando ele perdia o contato com ela é que percebia o caos e a confusão. Do contrário, o resultado final de sua arte era “pura harmonia, um dar e receber fácil, e a pintura sai bem.” (Emmerling, 2008, p. 65)

Pollock revolucionou o conceito de arte na segunda metade do século 20. Foi influenciado pela pintura em areia dos índios americanos e pelos pintores mexicanos de afrescos. Em 1936 pintou telas violentamente expressionistas. Inventou processos originais aplicando imensas telas contra a parede ou no chão. Em vez de usar pincel e paleta, praticava o dripping  passeando sobre a tela com latas furadas, de onde escorria tinta. Criador da Action Painting, Jackson Pollock encarnava a fúria de uma raça embriagada por grandes espaços e afetou não só artistas jovens, mas toda uma geração de pintores contemporâneos, inclusive mais velhos. Pollock travou uma grande batalha contra o alcoolismo e a depressão. Alguns viam nele apenas um criador de peças caóticas e isentas de sentido – a Revista Time chegou a apelidá-lo de Jack, o Gotejador. Outros, aclamaram-no como o mais promissor e impressionante pintor da América. Nasceu em 1912 e morreu em 1956, aos 44 anos, num acidente de carro. Ele também acreditava que a pintura era a forma do artista exprimir seu mundo interior (sua energia, impulsos e outras forças interiores).

“Mais que representar alguma coisa, a obra criativa representa seu autor, uma época, uma cultura.” (Sara&Jarreau, 1996, p. 43)

O estilo é a essência de uma pessoa, sua integração, sua própria coerência interior. Dentro de um estilo o indivíduo desenvolve sua personalidade, se estrutura e estrutura sua obra.

Dentro de seu estilo, pois, o indivíduo cria. Transformando-se quantas vezes for necessário, poderá renovar as formas e renovar a si próprio, sem jamais se violentar.”(Fayga, 2013, p. 141)

Do ponto de vista junguiano a psicologia pessoal do artista ou seus conflitos pessoais até podem esclarecer características de sua obra, mas não as explica. Para Jung, a problemática individual, tem tanta relação com a obra artística do autor quanto o solo tem com a planta semeada e germinada.

A cor sempre se apresenta.

Nada de beges, um pouco de cinza e muito de vermelho, amarelo, azul, verde, laranja.

Preto e branco são básicos. Não vivo sem eles.

Na hora de pintar, as cores se sobrepõe,

se misturam,

se absorvem.

As cores brincam entre si e eu com elas.

Ao movimentar a tela, movimento a tinta,

movimento o corpo

e a força escorre líquida.

Ela envereda por cumes e precipícios.

escorre

de lado a lado, de cima a baixo,

até encontrar

o ponto estranho de deformada simetria.

A forma perfeita.

Como sei disso?

Não sei. Apenas sinto.

“A forma está ligada ao movimento enquanto a cor é somente sensação. A forma apela à abstração, ao reconhecimento do objeto, enquanto a cor provoca a sensibilidade e a intuição. A forma evoca o gesto, a cor traduz a emoção.” (Pain&Jarreau, 1996 p. 99)

Paul Boyesen, cita o modelo fenomenológico do Círculo Psico-Orgânico como referencial tanto para a trajetória de vida como para circulação energética do indivíduo, vinculando sua experiência psíquica e corporal. Segundo ele, o círculo divide-se em nove pontos: Necessidade, Acumulação, Identidade, Força, Capacidade, Conceito, Expressão, Sentimento e Orgonomia.

Toda vez que o círculo se fecha, abre-se novamente. O que determina esta constância são novas necessidades que surgem inexoravelmente durante todo o desenvolvimento humano. O primeiro ponto, a Necessidade, representa ouróboros, a completa fusão e a dependência. O eu-não eu, o meu-não meu, o dentro – o fora são apropriados, assegurando ao ego a certeza e a constância, a sensação de bem-estar e da própria existência. A Acumulação surge com esta apropriação, e consequente sentimento de posse. Ao se apropriar da energia e de tudo que é seu (seu território, corpo e conteúdos internos) ele começa a estabelecer trocas com o meio externo, dando e recebendo. De posse de si mesmo (corpo) vivencia a Identidade, expandindo-se com total autonomia. O quarto ponto, a Força, surge quando o indivíduo percebe a própria força e a canaliza para ações específicas. Introjetando limites e regras, entra em contato com potencialidades e possibilidades. Na Capacidade, a energia criativa flui livremente. Tudo são possibilidades. Na hora de optar, de escolher conscientemente e de confrontar-se com a realidade, o Conceito define o que fazer. A escolha de uma possibilidade, exclui todas as outras possibilidades. O indivíduo passa da idealização ao concreto. No mundo real, expressa seus desejos. A Expressão é a concretização do desejo, independente da reação do outro. Assim, ele vivencia o Sentimento, conectado à ação decorrente de como foram vivenciados todos os pontos anteriores do círculo. Chega o momento de usufruir dos frutos de sua realização e vivenciá-los com satisfação. É quando se permite o encontro com o outro, e a este, se entrega, podendo fundir-se; porém, sem perder sua identidade. O momento pode ser de vulnerabilidade, pois há abertura para o outro. Atingindo a Orgonomia o indivíduo se percebe como parte de um todo maior. A sensação é de pertencimento. Quase um retorno ao estado original de completude, com a vivência do todo, mas com a consciência de si próprio. O Círculo se fecha. E se abre, tão logo surge uma nova Necessidade.

Segundo a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung o desenvolvimento psicológico tem início a partir de um estado de indiferenciação, também conhecido como Ouróboros (correspondente ao ponto 1 da Necessidade, do Círculo Psico-Orgânico).

Ouróboros ou Oroboro é a representação de uma criatura mitológica, uma serpente que engole a própria cauda formando um círculo que simboliza o ciclo da vida, o infinito, a mudança, o tempo, a evolução, a fecundação, o nascimento, a morte, a ressurreição, a criação, a destruição, a renovação. Muitas vezes, esse símbolo antigo está associado à criação do Universo.

Ana Luísa Batista (apostila) descreve Ouróboros como o “redondo que contém.” É onde os opostos (pai/mãe, macho/fêmea, início/fim) se unem. Tudo é envolvente e contém, circunda, protege, preserva e nutre.” Neste estágio inicial, o Inconsciente é absoluto. Vivencia-se o caos onde tudo existe sem forma específica.

Susan Bello afirma que depois que as camadas mais inconscientes são acessadas, torna–se importante integrá-las na estrutura do ego. Com o caos, abre-se ao indivíduo a possibilidade de que um colapso na sua atitude consciente possa ser substituído por uma nova integração num nível mais básico da psique. Caso se obtenha isso, significa que a consciência foi trazida para uma relação mais íntima com o inconsciente, e que uma nova atitude consciente está em uma base mais sólida.

“O ego precisa entender que o caos e a desestruturação são parte natural de seu processo de transformação.(Susan Bello, 1998, p. 29)

Para a autora, o artista, pessoa criativa ou qualquer um com suficiente estrutura de ego pode mergulhar fundo “no oceano escuro do inconsciente” e voltar à tona com uma nova visão de seu mundo interno.

Susan Bello (1998, p. 156)) cita J. Van Eenwyk que afirma: “A combinação da linguagem de Jung com a Teoria do Caos leva a uma interessante descrição sobre o processo de individuação: quando a tensão entre o consciente e o inconsciente atinge um certo nível crítico, o caos entra na dimensão psíquica … Se ao caos é permitido continuar (a tensão entre os opostos continua), padrões reconhecidos (símbolos/fractal attractors) aparecem eventualmente. Esses padrões representam a emergência da ordem do caos e, se interpretados corretamente, dão insight sobre o status do processo.”

“Na representação plástica do adulto as imagens que chegam neste momento, em geral, não têm forma. São indiferenciadas – tudo se mistura: não há estrutura, tempo e espaço. Quando figurativo, encontram-se imagens referentes às profundezas: abismos, vales, fundo do mar, lagos, poços, interior da terra, mundo interior, caverna, casas, ninhos, conchas … Compartimentos que têm a finalidade de envolver para proteger e lugares de refúgio onde a vida concentra-se para se transformar.” (Apostila de Formação em Arteterapia, Ana Luisa).

Para Ana Luísa Batista, as técnicas que favorecem este momento nas artes plásticas, são os trabalhos com manchas, indiferenciadas e sem formas figurativas. São técnicas que favorecem a projeção de conteúdos inconscientes: vê-se fora o que está dentro. Não existe controle sobre a atividade em si, nem sobre o resultado final. Cabe ao sujeito somente acompanhá-las.

“A pintura é sempre uma questão de escolhas. Essas se fazem ao nível da composição, das linhas, dos ritmos, das cores (dominantes que recobrem a tela), dos valores, dos contrastes, do movimento, do estilo, por um lado ligados à época e, por outro, à personalidade de seu autor.” (Pain&Jarreau, 1996, p. 80)

Pain&Jarreau relatam a importância de observar o uso insistente de determinadas cores ou sua ausência, os tons mais importantes – aqueles capazes de emocionar promovendo ressonância ou associação com experiências vividas. Importa observar como o indivíduo rompe a angústia da tela em branco e a emoção despertada: de uma maneira agressiva, tímida, íntima, tônica, irônica, compulsiva, antecipadora. O primeiro toque marca o ponto de origem: central ou periférico. A partir do início, uma cadeia de significações vai surgindo. Que tipo de toque é mais usado (traços longos ou pequenos), continuidade de orientação, relações entre a forma e a cor, a utilização de cores puras ou o uso de nuances (+ preto, + branco, + outra cor) bem como a utilização de cores quentes ou frias para os “fundos” das telas, sombras, espaços vazios, brilho, profundidade, etc. O significado estético do uso de determinadas cores pode implicar, nada mais , nada menos, apenas o estilo e a intenção de expressão mais realista, simbólica, abstrata ou decorativa.

Geralmente, classificam-se as cores em “quentes” e “frias”. Elas transmitem a sensação de calor ou de frio. Vários estudos comprovam que as cores têm um efeito psicológico nas pessoas e por esse motivo, diferentes cores são usadas para despertar sentimentos e estados de espírito. Cores quentes como o vermelho, laranja e amarelo remetem à luz solar, ao calor, ardor e processos de adaptação. São excitantes e estimulantes. Já as cores frias como o roxo, azul e verde são associadas ao mar e ao céu, e têm efeito calmante.

“Essa distinção é, no entanto, enganosa, considerando-se que a criatividade emerge dos conflitos e das compensações.” (Pain &Jarreau, 1996, p. 102)

Jung associa as cores às principais funções psíquicas do homem:

  • O azul é a cor do céu, do espírito. É a cor do Pensamento;
  • O vermelho é a cor do sangue. Paixão e Sentimento;
  • O amarelo é a cor da luz. Ouro e Intuição;
  • O verde é a cor da natureza, do crescimento. Função Sensação.

“O primeiro caráter do simbolismo das cores é sua universalidade, não só geográfica mas também em todos os níveis do ser e do conhecimento, cosmológico, psicológico, místico, etc. As interpretações podem variar.” (Chevalier&Gheerbrant, 2001, p. 275)

Mesmo com diferentes interpretações, as cores permanecem como fundamentos do pensamento simbólico. Determinadas cores representam os elementos da natureza:

  • Fogo: vermelho, laranja;
  • Água: verde;
  • Ar: amarelo, branco;
  • Terra: preto, marrom.

As cores opostas, como o preto e o branco simbolizam o dualismo intrínseco do ser. O preto, tempo; o branco, o intemporal; e tudo que acompanha o tempo; escuridão e luz; fraqueza e força; sono e vigília. O preto representando as forças noturnas, negativas e involutivas; e o branco, as forças diurnas, positivas e evolutivas. O Yin e o Yang.

Para Jung, o preto representa as germinações, origens, começos. Simbolicamente, é mais compreendido como frio e negativo. É cor do luto, indicando uma ausência a ser preenchida, uma falta provisória. É a cor da Substância Universal, da prima matéria, da indiferenciação primordial, do caos original, das águas inferiores … possuindo incontestavelmente, um aspecto de obscuridade e impureza. Ausência de toda cor, de toda luz. O preto absorve a luz e não a restitui. Evoca o nada, as trevas terrestres da noite, o mal, a angústia, o inconsciente e a Morte. Enquanto imagem de morte, de sepultura, terra, travessia noturna, liga-se à promessa de uma vida renovada e terra fértil.

O branco é absoluto. Ora significa a ausência, ora a soma das cores. É uma cor usada em ritos de passagem pois expressa as transformações conforme esquema básico de iniciação: morte e renascimento. Em todo pensamento simbólico, a morte se antecipa à vida e todo nascimento é um renascimento. O branco também é usado como cor de morte e luto. E também como cor da pureza. Para o pintor W. Kandinsky, o branco tem para nossa alma o mesmo efeito que o silêncio absoluto.

O azul é a mais profunda e fria das cores. É o caminho ao infinito, onde o real se transforma em imaginário. Imaterial em si mesmo, a azul desmaterializa tudo aquilo que nele toca. As formas desaparecem, afogam-se nele e somem como um pássaro no céu. O azul resolve em si mesmo as contradições e alternâncias (dia/noite) que dão ritmo à vida. Indiferente, ele se basta. Sugere a ideia de uma eternidade tranquila.

O vermelho é universalmente conhecido como símbolo do Princípio de Vida, com sua força, poder e brilho. Cor de fogo e sangue. Conforme sua tonalidade clara ou escura, reflete sua ambivalência simbólica. O vermelho claro é macho, diurno e tônico incitando à ação, lançando como o sol, sua força e seu brilho sobre todas as coisas. Já o vermelho escuro é feminino, noturno e expressa o mistério da vida. O vermelho leva em si os dois mais profundos impulsos humanos: ação e paixão, libertação e opressão.

O amarelo é a cor da eternidade, assim como o ouro é o metal da eternidade. Ambos são base para rituais cristãos. É intenso, violento, agudo e estridente, amplo e cegante. É a mais quente, expansiva e ardente das cores. Para os chineses, o amarelo emerge do negro, assim como a terra emerge das primevas águas. Cor do Imperador, o amarelo é central no Universo, assim como o sol é central no céu. Para Kandinsky, o amarelo é a mais divina e terrestre das cores. Já o poeta Mario Quintana questiona: “Se não fosse o Van Gogh, o que seria do amarelo?”

O alaranjado é a cor a meio caminho entre o amarelo e o vermelho e simboliza o ponto de equilíbrio entre o espírito e a libido. Equilíbrio este, difícil de ser conquistado. Pode expressar ou a revelação do amor divino (túnica cor de açafrão dos monges budistas), ou o emblema da infidelidade e luxúria (o que remonta aos cultos da Terra-Mãe, onde o equilíbrio era buscado através de orgias e rituais de iniciação).

O verde é a cor do reino vegetal, o despertar da vida. É refrescante, tranquilizadora, humana e tonificante. É a cor da esperança, da força e longevidade. Cor da imortalidade, representada universalmente pelos ramos verdes. O verde é uma cor feminina, reflexiva e centrípeta. Situado entre o amarelo e o azul, o verde resulta de interferências cromáticas. E entra com o vermelho num jogo simbólico de alternâncias, conservando um caráter estranho e complexo, que provem da sua polaridade dupla: o verde do broto e o verde do mofo, a vida e a morte. É a imagem das profundezas e do destino.

“Na realidade trabalha-se com poucas cores. O que dá a ilusão do seu número é serem postas no seu justo lugar.”(Pablo Picasso)

O tempo passou.

Passou o tempo de pollockar.

Mais um ciclo se fecha,

enclausurado e enrolado em si mesmo.

Orgonomia? Ciclo Cósmico?

A Totalidade Psíquica.

Sinto a alegria da Criança Interior

escalando montanhas, percorrendo vales, mergulhando de ponta cabeça em abismos

de cores e formas, texturas,

linhas e palavras.

Pintar é brincar. É pollockar.

No horizonte, nada à vista.

Ainda.

CONCLUSÃO

Entender como e porque a pintura pode ser um recurso artístico utilizado para atravessar períodos conturbados e caóticos, neste eterno movimento que é a vida, pode ser esclarecedor e profícuo a seu uso terapêutico.

Diferentemente do que aconteceu em 1996, meu retorno ao universo das tintas em 2013, revelou um EU mais complexo, num momento confuso e desestruturado. Pintar sem orientação profissional ou modelo a ser seguido, parece demonstrar maior segurança interior, uma autocrítica reduzida e uma necessidade retumbante de expressão. A escolha de telas imensas também.

Romper o branco de uma tela de 0,30m X 0,60m é bem diferente de romper o branco de uma tela de 1,50m X 1,50m. Ao me deparar com o tamanho da tela, além do medo e do desafio, a certeza de conseguir dominar aquele espaço.

As primeiras camadas das telas são em tinta acrílica – diluível em água –gotejadas, e depois, escorridas. A finalização, sempre é feita com tinta esmalte (brilhosa, não diluível em água) e segue o acaso e a força. Ambos determinam a quantidade de tinta, direções e formas dos traços finais na tela. Quando a forma não agrada, a tela é girada. Às vezes, os quatro lados. A tinta acrílica e a tinta esmalte escorrem e se misturam. Depois, a tela é colocada para descansar. Ela e a tinta, precisam secar. Por último, vem o acabamento. Força e paciência determinam onde os pontos amarelos, pretos e vermelhos precisam estar. A tinta esmalte escorre, e onde ela para, é onde deve ficar.

As primeiras telas foram trabalhadas sobre o fundo branco. O branco, como ausência e soma das cores. Como morte e renascimento. O silêncio absoluto. A sobreposição de camadas de tintas demonstra experimentação, insatisfação e busca. O processo, inicialmente demorado permite infinitas possibilidades. No fundo da tela, as sombras se compõe. São desconhecidas ainda.

Com o tempo, o fundo das telas passou a ser preparado com as próprias mãos. Sem pressa. O momento é de devaneio e introspecção. O contato com a tinta cria uma conexão íntima e prazerosa. O azul escuro foi a cor escolhida. A mais profunda e fria das cores. Caminho ao infinito, onde o real e o imaginário se misturam. Azul, cor do céu, do espírito e do pensamento. O pano branco da tela pede o toque repetitivo para cobrir cada poro do tecido de linho. Os escuros – as sombras – do fundo da tela, não exigem nenhuma perfeição. Servem apenas para cobrir o branco. O nada. Hora de gotejar pingos e pontos escuros e pigmentar a tela. A mistura cria um caos. A força dos braços me impulsiona no giro da tela. Acompanho a tinta escorrer. Dou o limite justo. Viro a tela de novo. E de novo. E de novo. O processo cansa. Precisa de tempo. Consenso. Calma. Espero a tinta secar e o desenho abstrato se formar. Abismos e precipícios mostram meu momento de vida.

foto tela adega

Figura 1. “Mudança”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 1,00 X 1,50m

A primeira tela – a da adega – foi experimental do início ao fim. Feita e refeita várias vezes no período de 4/5 dias foi iniciada na antiga casa – onde minha alma insiste em ficar. A busca pela forma ideal exigiu várias camadas de tinta. A ideia de uma camiseta manchada com o fundo sujo de uma garrafa de vinho e a colagem de placas de madeira de vinícolas mundialmente famosas foi a inspiração inicial. Foi finalizada com tinta acrílica branca, com rolo “compressor” de texturas, e por último, as linhas pretas, amarelas e vermelhas. Do projeto inicial, sobraram apenas as bordas, que mostram fundos de garrafas de vinho carimbadas. Todo o resto foi alterado. O estranho caos era a imagem certa. Na casa nova, reina absoluta no subsolo. Na adega. Seu nome: “Mudança”.

foto tela bar

Figura 2. “Abismo Abissal”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 1,50 X 1,50m

A tela (fig 2) remete ao desmoronamento. Destruição. O alto e o baixo. Das profundezas algo emerge e queima. Do alto, algo despenca, transborda: O humor. As certeza. Os afetos. O inferno. O paraíso. O amor. A tela de 1,50m X 1,50m – ainda hoje – oscila sua posição na parede. O em cima e o embaixo podem alternar-se sem maiores prejuízos estéticos ou psicológicos. A impermanência da vida e a oscilação do que sentimos e vivemos é expresso nesta tela intitulada “Abismo Abissal”. O extremo. O tudo e o nada.

A tela da lareira (Fig 3) é a tela vermelha, inacabada. “Mar em fogo”. Ela ainda espera a pintura final – com pincel – de uma gaivota ou barbatana da baleia. Negras. Voar ou mergulhar, ainda são possibilidades. Além do vermelho quase total – nuances de verde, amarelo e laranja aparecem no fundo – as ondas em relevo de massa acrílica, fazem da tela de 1,50m X 2,00m um ornamento de peso e de impacto. Ela é central na sala de estar. Voar ou mergulhar, aqui e agora, são centrais nesta nova vida, nesta nova morada. O grito não poderia ser mais vermelho. Mais cheio de paixão e ódio. Pura ambivalência simbólica. O vermelho leva em si os mais profundos impulsos humanos: ação e paixão, libertação e opressão.

tela vermelha

Figura 3. “Mar em fogo”, acrílico e tinta esmalte sobre tela. 1,50m X 2,00m

A tela da sala de jantar é “A prisioneira” (Figura 4). A sensação de aprisionamento por causa do quadriculado sobre o fundo camuflado em tons esverdeados, pretos e amarelos, que remetem à selva. A águia negra (tinta esmalte) que se formou, se desintegrou e se perdeu. Quase sumiu entre o preto e o vermelho.

tela prisioneira

Figura 4. “A Prisioneira”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 2,00m X 1,00m

Ela ornava a parte superior da tela e escorreu no vermelho que a cercava. Ela ainda não estava pronta para existir. Assim como não estavam nem a cauda da baleia, nem as asas da gaivota. De todas, a mais amarela das telas. Intensa, violenta e estridente. O amarelo é central no Universo, assim como o sol é central no céu.

A sala de jantar como simbolismo de família. O sagrado de toda uma vida.

tela-jacinta-de-longe1.jpg

Figura 5. “Sumida”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 0,90m X 0,90m

“Sumida” mostra a diluição total. (Fig 5) O fundo do poço. Alguns pontos de luz iluminam no vasto breu da escuridão.

tela explosão

Figura 6. “Estelar”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 0,80m X 1,20m

“Estelar” (Fig 6) é a tela que fecha o ciclo de maior diluição. É a mais colorida. O fundo negro ganha tons de azul mais claro e lilás. Os tons de rosa e amarelo contrastam com o preto e o azul. A luminosidade remete à constelações e galáxias.

“Siamesas” (Fig 7) são duas telas de 1,50m X 1,50m cada, colocadas lado a lado, também no subsolo da casa. Neste ponto do processo pictórico, cria-se uma técnica pessoal. Um estilo artístico. As duas telas precisam dar continuidade uma à outra. O mundo inconsciente e o consciente ensaiam uma integração em 4,5 metros quadrados de tela pintada.

tela irmãs siamesas artigo

Figura 7. “Siamesas”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 2 x 1,50m X 1,50m

Nesta mesma época, faço a única reforma em uma tela. A Fig 8 fazia par com a Fig 2. Antes ela era uma extensão da tela Abismo Abissal. Ela precisava de um novo movimento. Precisava se diferenciar daquele primeiro momento. O inconsciente e o consciente, o em cima e o embaixo se comunicam com tentáculos azuis. Conexões emergem das profundezas.

Untitled

Figura 8 “Conexões” acrílico e tinta esmalte sobre tela 2,00m X 1,50m

Uma longa pausa demarca um novo momento.

“Fuga”(Fig 9), “Candelabro”(Fig 10), “Flowers”(Fig 11), “Nana Nenê”(Fig 12) e “Abismo Sideral”(Fig 13) são a última produção de pintura espontânea. Cada uma inspirou uma poesia.

Fuga

“Se pudesse eu fugiria,

fugiria das grades, dos pântanos, do branco espectral.

Me confundiria com o céu azul e o vermelho alegria,

me lançaria em golfadas

para a vida, para o mundo.

Se pudesse …

Cá estou.”

foto fuga

Figura 9 “Fuga”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 0,90m X 0,70m

Candelabros

“Queria me acertar

Pra lá me fui, pra cá me perdi.

Quem sabe mais uma camada.

Mais cores, mais amores.

Mais uma tentativa.

A perfeição que não existe.

A harmonia que insiste. Persiste.

Ficarei – por ora – perdida e deformada.

No pano de linho retangular,

Retomo as tintas. Me jogo inteira.

Candelabros azuis surgem.

A luz me abraça.

foto candelabro

Figura 10 “ Candelabro”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 0,90 X 1,20

Flowers

“Obra prima de Deus.

Fálicas e ginecológicas.

Flores. Flowers.

Um buquê.”

foto tela espermatozoide

Figura 11 “Flowers”, acrílico e tinta esmalte sobre tela. 0,70m X 0,90m

Nana Nenê

“Nana nenê que a cuca vem pegar

Papai foi na roça, mamãe já vai chegar.”

Chegamos, os dois.

Sonhe com os anjos azuis, com o sol de amarelo.

Vibre com o vermelho e o laranja da vida.

A Sombra existe. Respeite-a.

Nana nenê.

Estaremos sempre com você.

foto tela nana nenê

Figura 12 “Nana Nenê”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 2,10m X 0,80m

Abismo Sideral

“O céu e o inferno se querem,

se buscam, se encontram.

Dançam no ritmo da Rumba, da Salsa. Lambada. Tango.

Jamais uma Valsa.

Fazem gráficos. Tiram medidas. Avaliam-se.

Não importa o que conspira,

O que constela no vácuo,no espaço de pontos.

Estalactites, estalacmites.

A beleza do abismo. O encanto sideral.

tela espaço sideral

Figura 13 “Abismo Sideral”, acrílico e tinta esmalte sobre tela 1,50m X 1,50m

Assim como Pollock, também acredito que a pintura é uma forma de expressão do mundo interior de quem pinta. A pintura tem vida própria e é preciso deixá-la revelar-se. Para isso, a intuição é uma bússola. É ela quem orienta o que, quando e como fazer. Quando parar. Quando continuar. Que cores usar e quais não usar. Como bem assinalou Jung, os conflitos pessoais podem até esclarecer a obra do artista, mas jamais explicá-la.

Como da primeira vez, foi através das tintas e das cores que o equilíbrio pessoal foi atingido. Pelo menos, encaminhado. No primeiro ciclo pictórico, a arte dos sentidos; A cópia do mundo visto pelo olhar de pintores consagrados. No segundo ciclo, a arte da imaginação; O mundo visto e expresso através da própria imaginação. No início deste novo estágio – lançando os filhos e seguindo em frente – a constatação de um recomeço ainda sem forma específica. Os filhos partindo, o relacionamento conjugal entre a aposentadoria, os primeiros sinais da menopausa, a adaptação a um novo espaço e um novo querer que se agiganta.

Nos dois momentos (ou ciclos pictóricos) a coincidência de estar em fase de adaptação a um novo momento de vida, um novo estágio do ciclo do desenvolvimento humano. No primeiro, a adolescência da filha. No segundo momento, o próprio Ninho Vazio. Em ambos, uma casa nova para ser decorada e impregnada de personalidade.

Nas etapas transicionais ou estágios do desenvolvimento, surgem novas necessidades e objetivos a serem alcançados. Paul Boyesen cita o Círculo Psico-orgânico como modelo de como a energia transita de uma forma totalmente desestruturada (ouróboros) até atingir a orgonomia. Este processo é constante e permanente, assim como o ciclo vital. A necessidade, representada por ouróboros, é vivida pela experiência do eu – não eu, meu – não meu, a completa indiferenciação. Ao se apropriar da energia e de tudo que é seu, são estabelecidas trocas com o mundo externo. A consciência de si mesmo, leva à percepção da própria força. Das potencialidades e possibilidades que existem. A criatividade se expressa e flui livremente. Saber o que fazer define o caminho a seguir. Escolher algo real e concreto, implica excluir algum outro algo ideal. A expressão é a concretização do desejo escolhido.

A pintura que aparece desde a primeira tela demonstra esta grande confusão. Imagens sem forma e indiferenciadas que remetem às profundezas, abismos, vales, fundo do mar, espaço sideral, mundo interior, cavernas. Refúgios para proteger a vida que precisa se transformar. A abstração como mecanismo psíquico de camuflagem e a intuição fomentam a criação artística. A projeção do inconsciente acontece sem controle da atividade, nem do resultado final. Na tela, a expressão viva e incontestável do inconsciente.

A escolha e mistura das cores, a força com que a tinta é jogada e escorrida, a composição, as linhas e ritmos do que se pretende expressar, representam em parte, a personalidade do autor, em parte, seu momento de vida.

O momento inicial é de fragmentação e diluição. De adaptação a algo ainda novo e desconhecido. Com o passar do tempo – e das telas – um estilo artístico foi atingido e uma forma de equilíbrio conquistado. As poesias e as últimas telas mostram um momento de explosão e renascimento. “Fuga” e “Flowers” transmitem este movimento. “Nana Nenê” faz contraponto com “A Prisioneira”; a cantiga que ninou os filhos, nina agora a própria vida e as próprias escolhas. Os “Candelabros” iluminam mais uma tentativa em busca de harmonia. “Abismo Sideral” marca o momento atual:

A beleza do abismo. O encanto sideral. Os altos e baixos da existência humana que nos fazem escalar montanhas e mergulhar no mais fundo dos abismos da própria alma, pra voltar à tona, mais integrados e iluminados.

Sobre o estilo artístico cunhado nesta expedição interior, cito Pain&Jarreau:

“A busca de estilo constitui um processo, mais que um ponto de partida e toda fixação denota, seja um obstáculo, seja o ápice do contexto terapêutico, ou, ao contrário, o resultado de um grau de excelência.” (1996, p. 105)

 Possivelmente, um novo ciclo se inicia.

Uma nova necessidade se apresenta.

Este círculo se fecha.

Outro, haverá de abrir-se.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Apostila do Ateliê Arteterapêutico – os canais expressivos e o círculo psico-orgânico: Ouróboros – Ponto 1: Necessidade. Ana Luisa Baptista
  2. Bello, Susan “Pintando sua alma – método para desenvolver a personalidade criativa”, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1998.
  3. Bello, Susan “Pintura Espontânea – criando a jornada simbólica”, Editora Susan Bello, 2014.
  4. CARTER, Betty & McGOLDRICK, Monica As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar – 2 ed. – Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.
  5. CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain “Dicionário dos Símbolos – Mitos, sonhos, costumes, gestos, figuras, cores, números” – 16 ed. – Rio de Janeiro, Editora José Olympio, 2001.
  6. EIZIRIC, Cláudio Laks & KAPCZINSKI, Flávio & BASSOLS, Ana Margareth Siqueira   O Ciclo da Vida Humana: Uma perspectiva Psicodinâmica.   Porto Alegre, Artmed Editora, 2001.
  7. EMMERLING, Leonhard “ Jackson Pollock – 1912 – 1956 – no limite da pintura”, Lisboa, TASCHEN GmbH, 2008.
  8. OSTROWER, Fayga Criatividade e Processo de Criação – 29º ed. – Petrópolis, Ed.Vozes, 2013.
  9. PAIN, Sara & JARREAU, Gladys “teoria e técnica da arte-terapia – a compreensão do sujeito – Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.
  10. SILVEIRA, Nise da, “ Imagens do Inconsciente”, Petrópolis, Ed. Vozes, 2015.
  11. SILVEIRA, Nise da “JUNG – Vida e Obra”, 21º ed. – São Paulo, Editora Paz e Terra S/A, 2007.

Cadarços – Estudo de Caso

 

“Qualquer semelhança é mera coincidência.” Um estudo. Uma história. Não é minha. Não é sua, nem nossa. Se Bem que poderia ser.

I. CASO CLÍNICO

 George é um jovem de 16 anos, transferido para o hospital a partir de um centro de detenção juvenil, após uma séria tentativa de suicídio. De algum modo, ele atara cadarços de sapatos e tiras de tecido em torno de seu pescoço, causando prejuízo respiratório, sendo encontrado cianótico e semiconsciente. O jovem dera entrada no centro de detenção naquele dia e os funcionários haviam percebido que ele se mostrava bastante retraído. Na admissão, George relutou em falar, exceto para dizer que iria matar-se, e ninguém poderia impedi-lo. Entretanto, ele admitiu uma história de 2 semanas de humor deprimido, dificuldade para dormir, diminuição do apetite, menor interesse por tudo, sentimentos de culpa e ideação suicida. De acordo com seus pais, George não teve dificuldades emocionais até os 13 anos, quando então se envolveu com drogas, principalmente LSD, maconha e sedativos não-opióides. Suas notas caíram drasticamente, ele fugiu de casa em diversas ocasiões após discussões com seus pais, e fez um gesto suicida tomando uma superdosagem de aspirina. Um ano depois, após uma discussão com o diretor, foi expulso da escola. Incapaz de controlarem seu comportamento, seus pais fizeram com que fosse avaliado em uma clínica de saúde mental, sendo recomendada a colocação e um albergue de grupo.Ele, aparentemente, saiu-se bem ali, e seu relacionamento com os pais melhorou imensamente com aconselhamento familiar. Ele era bastante responsável, mantendo um emprego e freqüentando a escola, e não esteve envolvido em quaisquer atividades ilegais, incluindo o uso de drogas.

Seis meses antes da admissão no hospital, entretanto, George novamente começou a usar drogas e, ao longo de duas semanas, engajou-se em 10 arrombamentos, sempre sozinho. Ele recorda que na época estava deprimido, mas não consegue recordar se a alteração no humor ocorreu antes ou depois da volta ao envolvimento com drogas.

Então foi enviado para o centro de detenção juvenil, onde se saiu tão bem que recebeu alta e foi colocado sob a tutela dos pais 3 semanas antes. Um dia depois de voltar para casa, saiu impulsivamente com seus colegas em um automóvel roubado, para uma viagem ao Texas, sendo detido e readmitido no centro de detenção. A depressão de George começou logo depois, e, de acordo com ele, a culpa com o que fizera aos pais o levou à tentativa de suicídio.

  1. DINÂMICA DO CASO

Apesar de não haverem dados suficientes para formular um entendimento psicodinâmico detalhado, várias são as observações e reflexões possíveis, levando-se em consideração os dados conhecidos.

Segundo os pais de George, este não tivera nenhuma dificuldade emocional até os 13 anos. Foi somente após o envolvimento com o uso de drogas que houve uma mudança significativa no comportamento de George.

Como nada sabemos sobre suas relações familiares, sobre o seu grupo de amigos nem sobre seu desenvolvimento emocional anterior, pode-se pensar que a entrada na adolescência, um período normalmente marcado por mudanças físicas, psíquicas, familiares e sociais, possam ter despertado sentimentos tais que levaram o menino a buscar refúgio nas drogas.

Uma das tarefas básicas, senão a grande tarefa da adolescência é a busca de uma identidade. Para Kalina, esta é uma fase que pode ser marcada por muita angústia e desolação, e é quando o adito potencial busca formas de evitar este encontro consigo mesmo. Assim, vítima de sua fraqueza, ele não demora a descobrir que a vida além de oferecer gratificações, também oferece frustrações que podem ser sentidas como devastadoras.

Eduardo Kalina afirma que “O drogadito é sempre dominado por angústias e temores cuja qualidade e intensidade os transforma em sentimentos inteiramente insuportáveis para seu ego. A insegurança em si próprio e o medo de ser destruído demonstram, pela constância com que se evidenciam e a intensidade com que se apossam deste tipo de personalidade, que a estrutura de ego do toxicômano potencial é notavelmente fraca.”( texto p.78, do livro Drogadição Hoje)

Ou seja, para Eduardo Kalina existe um tipo de personalidade aditiva com características próprias, que justificam o envolvimento com as drogas e toda a destruição posterior, oriunda deste envolvimento. Para ele, “a maneira como o adito potencial sente esta fragilidade não é outra coisa que a vivência que, em última instância, tem de sua morte” (p. 78). Para este autor, o adito em potencial pré-sente o “alto grau de inconsistência de sua identidade”.

 Diariamente todos temos a consciência de nossas limitações como seres humanos. Mas em geral quanto maior a fragilidade egóica, maior o desejo de ser poderoso. Kalina afirma que sob o efeito da droga, “a sensação de fragilidade é substituída por um sentimento de extraordinária consistência e força”.

A Síndrome de Popeye, reflete este pensamento. A droga seria o equivalente simbólico do espinafre de Popeye. Quando o indivíduo se droga, ele vive de forma parcial ou total a ilusão de ser Popeye. A droga – espinafre – lhe permite viver a ilusão transitória de ser outro: forte, perfeito, invejado, etc. É a onipotência do tudo querer e tudo poder do adolescente.

No entanto, o efeito da droga é transitório. Logo o adito se dá conta da realidade, e sua intolerância à frustração, cresce numa proporção direta à satisfação que a droga oferece. Isto prossegue até que a dose da droga não dá mais o prazer buscado, quando então, existe o risco da overdose, para atingir o mesmo bem estar, o mesmo prazer.

Kalina afirma que ”no clímax de seu desespero, o drogadito descobre que não há tóxico mais eficaz contra o risco de morte que a própria morte”. (p.84) A morte surge como a melhor alternativa para acabar com a incerteza, a angústia e o risco opressor da frustração sem limite. Para este autor, o adicto constrói um projeto de morte, claramente suicida, cujo objetivo final e radical é acabar com o sofrimento e com todos os problemas, o que reflete uma conduta abertamente psicótica. A morte é então vista como o saldo de um extermínio implacável ao qual o jovem se submeteu desde o momento em que iniciou o consumo de drogas, e mesmo antes disso.

Mas o que leva um adolescente de 13 anos, a enveredar por um caminho tão destrutivo, tão suicida?

Várias são as causas da etiologia do abuso e dependência de substância. As teorias iniciais, segundo Kaplan & Sadock, nasceram dos modelos psicodinâmicos. Posteriormente foram incluídas as variáveis comportamentais, genéticas e neuroquímicas. Atualmente, acredita-se que todas estas variáveis podem estar presentes.

A escolha das drogas usadas por George, o LSD ( um alucinógeno), a maconha (psicoativo) e sedativos não-opióides, podem sugerir que George buscava algo para se afastar dele mesmo, das suas angústias, incertezas, inseguranças, para se anestesiar das suas dores (físicas?, psíquicas?), para fazer parte e ser aceito por um grupo de amigos, para se diferenciar do todo, para ser reconhecido e visto como único, para experimentar o proibido. Na adolescência vários são os atrativos que a droga oferece. Bem como, várias podem ser as funções da droga para o adolescente.

Segundo Kaplan& Sadock, “ O início de um transtorno de humor na adolescência pode ser difícil de diagnosticar quando visto pela primeira vez, caso a adolescente tenha tentado automedicar-se com álcool ou outras substâncias ilícitas. Em um estudo recente, 17% dos jovens com transtorno de humor buscaram atendimento médico primeiramente como abusadores de substâncias. Apenas depois da desintoxicação os sintomas psiquiátricos puderam ser adequadamente avaliados e o diagnóstico correto de transtorno de humor pôde ser feito”. ( 1997, p.1041).

Pensar em George como um jovem depressivo parece justificar o seu comportamento de humor deprimido, dificuldade para dormir, diminuição do apetite, menor interesse por tudo, sentimentos de culpa e ideação suicida.

Da mesma forma, Kaplan&Sadock afirmam que “Na adolescência, um comportamento negativista ou francamente anti-social e o uso de álcool ou outras substância ilícitas pode estar presente ou justificar os diagnósticos adicionais de transtorno de oposição desafiante, transtorno de conduta e abuso ou dependência de substância.”(1997, p. 1040)

Sukhamani K. Gill e colaboradores,relatam que enquanto as crianças e adolescentes estiverem deprimidos, eles sofrem habitualmente das seqüelas como desempenho escolar insatisfatório e comprometimento das relações interpessoais, como também risco elevado de suicídio, pensamento homicida, fumo, abuso de álcool e de outras substâncias, gravidez precoce, etc.

Sabe-se que as porcentagens de depressão maior na população jovem têm aumentado na última década e as taxas de suicídio entre adolescentes quadruplicaram na última metade do século( Lafer, Almeida, Fráguas & Miguel, 2000, p. 241)

Solomon afirma que “ A depressão e o abuso de substâncias formam um ciclo. Os deprimidos abusam de substâncias numa aposta para se livrarem da depressão. Elas perturbam suas vidas a ponto de ficarem deprimidas pelo dano causado. “ (2002, p.201) Para ele “4% de adolescentes que tiveram depressão na infância cometem suicídio. Um enorme número tenta o suicídio, e tem altas taxas de quase todo tipo de problema grave de ajuste social. A depressão ocorre entre um bom número de crianças antes da puberdade, mas chega ao auge na adolescência. Nesse estágio, é quase sempre combinada com abuso de substância ou transtornos de ansiedade” (p. 174)

III. DIAGNÓSTICO

Pelos dados do caso clínico em questão surge um questionamento:

O que aconteceu antes: um comportamento depressivo como gatilho para o abuso de substância, ou, o início do abuso de substância levando ao conseqüente comportamento depressivo. Segundo os pais, George nunca apresentara dificuldades emocionais antes do início do uso de drogas; o que não é difícil acontecer numa família drogadita, pois os pais tendem a negar as dificuldades do filho, e vêem o ingresso no mundo das drogas com estupefação.

Vários são os sintomas encontrados que nos remetem a pensar num quadro depressivo grave para George, como o humor irritável e deprimido, agressividade, condutas anti-sociais, comportamento destrutivo, insônia, baixa auto-estima, isolamento, recusa escolar, baixo rendimento escolar, tentativa de suicídio, etc.

George apresenta características de um adolescente envolvido em drogas com comportamentos claramente anti-sociais. No entanto, estes comportamentos podem estar associados ao quadro depressivo de George, e estarem funcionando como defesa para a personalidade frágil de George.

Pela gravidade dos sintomas e principalmente pelas tentativas recorrentes de suicídio, pode-se pensar num quadro depressivo maior.

  1. INDICAÇÃO TERAPÊUTICA

Como George está internado devido à sua séria tentativa de suicídio, é importante que ele permaneça internado, a fim de que possa ser melhor avaliado e observado, de forma a poder controla-lo e conte-lo, devido às ameaças de consumar o suicídio. Assim pode-se auxilia-lo a conter seus impulsos, aliviar sua culpa e preservar sua vida.

Penso que o tripé para o acompanhamento para George seja o acompanhamento psiquiátrico medicamentoso, psicoterapia individual e acompanhamento familiar.

O acompanhamento psiquiátrico medicamentoso deve ser, neste momento, o carro-chefe, devido à sintomatologia depressiva e ao risco sério de suicídio.

A psicoterapia individual mostra-se necessária devido ao estado confusional de George, seus sentimentos de culpa, sua desestrutura e fragilidade psíquica, sua desesperança. O tipo de psicoterapia utilizada pode ser variável podendo num primeiro momento ser psicoterapia de apoio, cognitivo-comportamental num segundo momento, e, por último uma psicoterapia psicodinâmica. Cada uma num momento distinto do processo de recuperação e reestruturação de George. Cada qual com seus objetivos e foco de alcance.

O acompanhamento familiar é sempre uma conduta terapêutica adequada, principalmente por se tratar de um paciente adolescente. Além de poder auxiliar os pais com relação ao quadro psicopatológico de George, também poderá auxilia-los a lidar com a adolescência deste filho, sua recuperação, como também poder ver, de que forma, a sintomatologia do filho pode estar a serviço de outros conflitos familiares encobertos.

V. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.  DSM-IV – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Trad. por Dayse     Batista. 4ª ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.

  1. KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamin J.; GREBB, Jack A. COMPÊNDIO DE PSIQUIATRIA – Ciências do Comportamento e Psiquiatria Clínica Trad. por Dayse Batista. 7ª ed. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
  1. KALINA, Eduardo.   Drogadição Hoje Texto: cap. 5 “ O significado do corpo e da               morte na experiência drogaditiva.
  1. KALINA, Eduardo.   Clínica e Terapêutica das Adicções. Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
  1. LAFER, Beny; ALMEIDA, Osvaldo P.; FRÁGUAS JR., Renério; MIGUEL, Eurípedes C. Depressão no Ciclo da Vida Porto Alegre, Artes Médicas, 2000
  1. SOLOMON, Andrew.   O DEMÔNIO DO MEIO-DIA – Uma anatomia da depressão.   Rio de Janeiro, Objetiva, 2002.

 

 

 

 

O Transtorno de Conduta, na visão Winnicotiana

 

O transtorno de conduta caracteriza-se essencialmente pelo padrão repetitivo e persistente de comportamentos nos quais são violados os direitos básicos dos outros ou normas ou regras sociais importantes apropriadas à idade. Segundo Kaplan & Sadock o transtorno de conduta é razoavelmente comum durante a infância e adolescência. Aproximadamente, entre 6 a 16% dos meninos e 2 a 9% das meninas, com menos de 18 anos, podem apresentar o transtorno, sendo mais comum entre os meninos, na proporção de 4 para 1 (entre os meninos) e 12 para 1( entre as meninas). O transtorno de conduta é mais comum em famílias onde os pais tem personalidade anti-social e dependência de álcool, bem como parece estar significativamente relacionado a fatores econômicos. Os fatores etiológicos que parecem estar associados ao surgimento do transtorno são multifatoriais, e nenhum fator isolado é capaz de explicar o comportamento anti-social e o transtorno de conduta, sendo que uma variedade de fatores biopsicossociais contribuem para o seu desenvolvimento, como:

  1. Fatores parentais:Algumas atitudes dos pais e manejos falhos de educação podem influenciar o desenvolvimento de comportamentos mal-adaptativos nos filhos. A desestrutura familiar,, especialmente a tensão entre os pais, e não somente o lar desfeito, pode contribuir para o transtorno de conduta. A psicopatologia parental, abuso infantil, negligência, sociopatia, dependência de álcool e abuso de substâncias nos pais estão associados ao surgimento do transtorno de conduta nos filhos. Possivelmente muitos destes pais também tiveram privações em sua infância.
  2. Fatores sócio-culturais: Teorias atuais sugerem que crianças com privações socioeconômicas, na busca para atingir o status social valorizado em sua cultura, utilizam-se de meios ilegítimos para alcança-lo.
  3. Fatores psicológicos: Como a criação destas crianças acontece de forma precária, tornam-se rancorosas, exigentes, perturbadas e incapazes de desenvolver um grau de tolerância à frustração, tão necessária para os relacionamentos maduros.
  4. Fatores neurobiológicos: Existem poucos estudos, no entanto, alguns estudos sugerem que existe um funcionamento noradrenérgico diminuído no transtorno de conduta. Pesquisas mostram que freqüentemente existe uma inter-relação entre o transtorno de conduta e o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade(TDAH).
  5. Abuso e maus tratos na infância: Crianças expostas à violência por longos períodos tendem a comportar-se agressivamente. Muitas vezes pela dificuldade de verbalizar seus sentimentos, estas crianças se expressam por meios corporais.
  6. Outros fatores: O TDAH , disfunções ou lesões do SNC e extremos de temperamento precoces podem predispor uma criança ao transtorno de conduta. Estudos longitudinais do temperamento sugerem que muitos desvios comportamentais,são, inicialmente, uma resposta direta a um fraco ajuste entre, por um lado, as necessidades emocionais e o temperamento da criança, e por outro lado, as atitudes parentais e práticas de criação dos filhos.

O transtorno de conduta não se desenvolve da noite para o dia, evoluindo ao longo do tempo, até chegar a um padrão consistente de violação dos direitos alheios. A idade média de início do transtorno de conduta é menor em meninos que em meninas. Entre 10 e 12 anos, para os meninos, e entre 14 e 16 anos para as meninas. Crianças com transtorno de conduta expressam seu comportamento agressivo de várias formas, podendo ser expresso por provocações, agressão física, crueldade, hostilidade, abusos verbais, obscenidades, mentiras persistentes, gazetas e vandalismo. Nos casos mais severos, freqüentemente existe a destrutividade, furtos e violência física. Geralmente estas crianças não se preocupam em encobrir o seu comportamento anti-social. Apresentam, freqüentemente, pensamentos, gestos e atos suicidas. Muitas destas crianças não conseguem desenvolver vínculos sociais, tornando-se muitas vezes retraídas ou isoladas, ou então, envolvendo-se com pessoas mais velhas ou mais jovem, ou ter relacionamentos superficiais com outros jovens anti-sociais. A maioria tem baixa auto-estima, embora demonstrem coragem. Estas crianças não tem preocupação pelos sentimentos, desejos e bem-estar alheios, sendo muito difícil que tenham sentimentos de culpa ou remorso por seu comportamento, procurando usualmente responsabilizar alguém pelos seus atos. Freqüentemente estas crianças, tiveram frustrações de suas necessidades de dependência, como também, não absorveram questões de disciplina. A socialização deficiente mostra-se pela sua agressividade excessiva e falta de inibição sexual. Observa-se normalmente, algum grau de patologia social ou psicológica na família. Os padrões de disciplina dos pais normalmente não são ideais, podendo variar de uma excessiva rigidez até a inconsistência ou relativa ausência de supervisão e controle.

Os critérios diagnósticos para Transtorno de Conduta são:

A.Um padrão repetitivo e persistente de comportamento no qual são violados os direitos básicos dos outros ou normas ou regras sociais importantes apropriadas a idade, manifestado pela presença de três (ou mais) dos seguintes critérios nos últimos 12 meses, com, pelo menos, um critério presente nos últimos 6 meses:

Agressão a pessoas e animais

  • freqüentemente provoca, ameaça, ou intimida os outros
  • freqüentemente inicia lutas corporais
  • utilizou uma arma capaz de causar dano físico sério a alguém (por ex.,bastão, tijolo, faca, garrafa quebrada, arma de fogo)
  • foi fisicamente cruel com pessoas
  • foi fisicamente cruel com animais
  • roubou com confronto com a vítima (por ex., bater carteira, arrancar bolsa, extorsão, assalto a mão armada)
  • forçou alguém a ter atividade sexual consigo.

Destruição de patrimônio

  • Envolveu-se deliberadamente em provocação de incêndio com a intenção de causar sérios danos
  • Destruiu deliberadamente o patrimônio alheio ( de outra forma que pelo ateamento de fogo)

Defraudação ou furto

(10)Arrombou a residência, prédio ou automóvel alheios

(11)mente com freqüência para obter favores ou bens ou para evitar obrigações legais (isto é, ludibria outras pessoas)

(12)roubou objetos de valor sem confronto com a vítima ( por ex., furtos em lojas, mas sem arrombar e invadir; falsificação)

Sérias violações de regras

(13)freqüentemente permanece na rua a noite, apesar de proibições dos pais, iniciando antes dos 13 anos de idade

(14)fugiu de casa à noite, pelo menos duas vezes, enquanto vivia na casa dos pais ou lar adotivo ( ou uma vez, sem retornar por extenso período)

(15)freqüentemente gazeteia a escola sem justificativa, iniciando antes dos 13 anos de idade.

  1. A perturbação no comportamento causa comprometimento clínico significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
  2. Se o indivíduo tem 18 anos ou mais, não são satisfeitos os critérios para o Transtorno de Personalidade Anti-Social.

Especificar tipo com base na idade de início:

Tipo com início na infância: Início de, pelo menos, um critério característico de Transtorno de Conduta, antes dos 10 anos de idade.

Tipo com início na Adolescência: ausência de quaisquer critérios característicos de Transtorno de Conduta antes dos 10 anos de idade.

Especificar gravidade:

Leve: poucos problemas de conduta, se existem, além daqueles exigidos para fazer o diagnóstico e os problemas de conduta causam apenas um dano pequeno a outros.

Moderado: número de problemas de conduta e efeito sobre outros intermediários, entre “leve” e “grave”.

Grave: muitos problemas de conduta além daqueles exigidos para fazer o diagnóstico ou problemas de conduta que causam dano considerável a outros.

Os distúrbios de conduta podem fazer parte de muitas condições psiquiátricas da infância, variando desde os transtornos de humor, transtornos psicóticos e transtornos de aprendizagem. A relação entre o transtorno de conduta e o transtorno desafiador opositivo ainda está em debate. O transtorno desafiador opositivo tem sido considerado como o precursor leve do transtorno de conduta. Muitas crianças não evoluem para o transtorno de conduta, mas mantém suas características oposicionistas. O que diferencia os dois transtornos é que no transtorno de conduta ocorre a violação dos direitos básicos dos outros, enquanto que no distúrbio desafiador opositivo, a hostilidade e o negativismo não chegam a violar seriamente os direitos alheios. É freqüente, que ocorram transtornos de humor em crianças com algum grau de irritabilidade e comportamento agressivo, e o transtorno de conduta pode ocorrer e ser diagnosticado durante o início de um transtorno de humor. Esta condição não está presente no transtorno desafiador opositivo. Em geral, crianças que são diagnosticadas com transtorno de conduta precocemente, que exibem sintomas em maior quantidade e os expressam com maior freqüência, tem os piores prognósticos. Em parte isto se deve, ao fato de se tornarem mais vulneráveis a desenvolverem outros transtornos mais tarde, como um transtorno de humor ou transtorno relacionados a substâncias Um bom prognóstico pode ser previsto quando o transtorno é leve, ausência de psicopatologia coexistente e funcionamento intelectual normal.

COMPREENSÃO DINÂMICA: A VISÃO DE D. W. WINNICOTT

Winnicott acreditava que é na época em que a capacidade de envolvimento está se desenvolvendo, entre os 6 meses e 2 anos de idade, que a privação ou perda pode ter conseqüências devastadoras: os primórdios do processo de socialização decorrentes de tendências inatas da criança podem se perder ou se obstruir. Winnicott reelabora de maneira própria, o conceito da “posição depressiva” de Melanie Klein, sendo uma das principais diferenças, a ênfase que ele dá ao ambiente humano (especialmente a mãe) na identificação e no fomento da tendência inata da criança para o envolvimento. A origem da capacidade de envolvimento apresenta um problema complexo. O envolvimento é uma característica importante na vida social, pois o envolvimento implica numa maior integração e maior crescimento, relacionando-se de forma positiva com o senso de responsabilidade do indivíduo, especialmente com respeito às relações em que se introduzem pulsões instintuais. O envolvimento refere-se ao fato de o indivíduo preocupar-se ou importar-se, e tanto sentir como aceitar responsabilidade. Geralmente se descreve a origem da capacidade de envolvimento em termos das relações mãe-bebê, quando a criança já constitui uma unidade estabelecida e sente a mãe, ou figura materna, como pessoa total. Todos os processos de maturação formam a base de desenvolvimento da criança, tanto o desenvolvimento psicológico, como o desenvolvimento anatômico e fisiológico. E para que este desenvolvimento aconteça de forma positiva, são necessárias certas condições externas para que os potenciais de maturação se concretizem. Ou seja, o desenvolvimento depende de um ambiente suficientemente bom, onde os cuidados maternos adequados, nos estágios iniciais, são fundamentais para saúde emocional da criança.

Winnicott ressalta que “existe algo que chamamos de ambiente não suficientemente bom, que distorce o desenvolvimento do bebê, assim como existe o ambiente suficientemente bom, que possibilita ao bebê alcançar, a cada etapa, as satisfações e conflitos inatos e pertinentes”(p.399,, da pediatria) Freqüentemente, diz-se que a mãe é biologicamente condicionada para a tarefa de lidar de modo todo especial com as necessidades do filho, ou seja, espera-se que a mãe identifique-se – consciente e inconscientemente – com o seu bebê. A tese de Winnicott é de que existe um estado psicológico, que ele denomina de Preocupação Materna Primária , na qual, a mãe atinge um estado de sensibilidade muito aguçada durante e principalmente o final da gravidez , e nas primeiras semanas de vida do bebê, em que elas “adoecem” de forma normal o que possibilitaria a adaptação sensível e delicada às necessidades do bebê já nos primeiros momentos. Algumas mães conseguem este estado de doença normal com um filho e não com o outro. Para o autor, as mães que desenvolvem esse estado de preocupação materna primária, fornecem um contexto para que a constituição da criança comece a se manifestar, para que as tendências ao desenvolvimento comecem a desdobrar-se, e para que o bebê comece a experimentar movimentos espontâneos e se torne dono das sensações correspondentes a esta etapa inicial da vida.

A falha materna em adaptar-se na fase mais primitiva às necessidades do bebê, conseguindo colocar-se no lugar de seu bebê, para assim corresponder às suas necessidades (inicialmente necessidades corporais, depois, psicológicas), pode ser sentida como uma ameaça à existência do eu do bebê, uma ameaça de aniquilação. Dessa forma Winnicott acredita que com um ambiente suficientemente bom, na fase mais primitiva do bebê, irá capacitá-lo para começar a existir, a ter experiências, a formar seu ego pessoal, a dominar seus instintos, podendo defrontar-se com todas as dificuldades da vida. Isto passa a ser sentido como real pelo bebê, que se torna capaz de ter um eu, que pode em algum momento, perder a espontaneidade ou até morrer. Diferentemente, quando o ambiente não é suficientemente bom, esse eu, pode dar-se ao luxo de morrer, sem nunca se desenvolver. Winnicott diz que “O sentimento de realidade encontra-se ausente, e se não houver caos em excesso o sentimento final será o de inutilidade. As dificuldades inerentes à vida não poderão ser alcançadas, e menos ainda o serão as satisfações. Quando não há caos surge um eu falso que esconde o eu verdadeiro, que se submete às exigências, que reage aos estímulos e que se livra das experiências instintivas tendo-as, mas que está apenas ganhando tempo”(p. 404, da ped)) Portanto, quando ocorre uma falha neste estágio inicial, o bebê será apanhado por mecanismos de defesa primitivos (falso eu) que pertencem à ameaça de aniquilação, e os elementos constitucionais poderão ficar anulados.

Winnicott afirma que quando o ambiente falha nos estágios iniciais de maturação, ocorre uma falha do ego em organizar defesas, ficando num extremo, o ego ocultando a formação de sintomas neuróticos ( criados contra a ansiedade que faz parte do Complexo de Édipo), e portanto, a doença oculta é uma questão de conflito inconsciente do indivíduo. No outro extremo, fica o ego ocultando a formação de sintomas psicóticos (splitting, dissociações, despersonalização, regressão, dependência onipotente, etc), estando a doença na estrutura do ego. Para ele, os estágios iniciais do desenvolvimento emocional estão repletos de conflito e desintegração.A relação com a realidade externa ainda não está concluída; a personalidade ainda não está bem integrada; o amor primitivo tem um propósito destrutivo e a criança pequena ainda não aprendeu a tolerar e enfrentar os instintos.No início da vida ela tem necessidade de viver num círculo de amor e força, para não sentir medo de seus próprios pensamentos e dos produtos de sua imaginação, a fim de avançar no seu desenvolvimento emocional.   Quando isto fracassa, a criança pode desenvolver a tendência anti-social. Para que a criança supere esta falha, é preciso que ela seja capaz de sentir a realidade das coisas reais, internas e externas, para o estabelecimento e integração da personalidade. Depois dessas coisas primitivas, seguem-se os primeiros sentimentos de envolvimento e culpa, bem como os primeiros impulsos para fazer reparações.

Para Winnicott o “ego” é o somatório de experiências.

O autor utiliza a expressão tendência anti-social. Para ele “A tendência anti-social sempre se origina de uma privação e representa o pedido da criança para voltar à época anterior à privação, ao estado de coisas que conseguia quando tudo ia bem.”(p.185 matu) Dito de outro modo, que em algum período ou fase do desenvolvimento em que ocorreu uma falha real de apoio ao ego, que deteve o desenvolvimento emocional da criança. Assim o processo de maturação ficou contido por causa de uma falha no ambiente facilitador.

Winnicott introduz a idéia de caráter como algo que faz parte da integração. Para ele o caráter é uma manifestação da integração bem sucedida e um distúrbio de caráter é uma distorção da estrutura do ego, com a integração mantida.O caráter da criança se estrutura sobre a base de um processo contínuo. E na teoria dos distúrbios de caráter, pode-se pensar que o indivíduo pode ser sobrecarregado com duas cargas distintas, sendo uma delas, a carga de um processo de maturação perturbado e em certos aspectos detido ou adiado. A outra, é a esperança, uma esperança que nunca se extingue completamente, de que o meio tome conhecimento e o compense pela falha específica que acarretou o dano. Assim sendo, a tendência anti-social implica em esperança, bem como, compele o ambiente a tornar-se importante. O paciente, devido a impulsos inconscientes pode encarregar alguém a cuidar dele, tarefa esta, que muitas vezes é desempenhada pelo terapeuta, através do manejo, tolerância e compreensão.

John Bowlby, assinala a relação entre a de-privação emocional (a criança é destituída de algum aspecto essencial de sua vida em família) e a tendência anti-social, o que ocorre no período entre o final da primeira infância e a época em que a criança passa a andar, aproximadamente entre um ou dois anos. Quando acontece a tendência anti-social, aconteceu uma de-privação, ou seja, deu-se a perda de algo bom, que foi retirado. Há duas vertentes da tendência anti-social. Uma das vertentes é representada pelo roubo, e a outra é representada pela destrutividade. No roubo, a criança procura algo em algum lugar, e não encontrando, procura em outro lugar, se ela tiver esperança.Na destrutividade, ela busca a quantidade de estabilidade ambiental necessária para suportar o comportamento impulsivo.

É importante assinalar que, para Winnicott, na base da tendência anti-social existe uma experiência inicial boa que foi perdida. “Com toda certeza, um dos aspectos essenciais é o de que o bebê tenha alcançado a capacidade de perceber que a causa do desastre foi devida a uma falha do ambiente. A compreensão correta de que a causa da depressão ou da desintegração é externa, e não interna, provoca a distorção da personalidade e o impulso de buscar a cura numa nova provisão ambiental. O grau de maturidade do ego que permite uma percepção deste tipo determina o desenvolvimento de uma tendência anti-social em vez de uma doença psicótica.”(p.415, da ped)

ESTUDO DE CASO

Dados de Identificação:

Nome: LFE          Escolaridade: 4ª série

Data de Nascimento: 14.05.1993

Idade: 10 a 2m

Filiação: JE(pai)                         Idade: 46 a        Profissão: Empresário

             SE (mãe)                     Idade: 44 a        Profissão: advogada

Motivo da consulta:

LF é aluno na escola onde trabalho como psicóloga escolar. Como tem acontecido muito nos últimos anos, os pais foram chamados pela coordenação pedagógica da escola, devido a comportamentos inadequados do menino, tanto em sala de aula, como nos recreios e intervalos. LF costuma atrapalhar durante a aula, conversando e brincando,e nos intervalos é comum se envolver em confusões e brigas com os colegas. Nesta ocasião, os pais foram chamados, porque LF roubou material escolar de um colega, e destruiu uma cadeira da escola. O encaminhamento para atendimento psicológico aconteceu na própria escola, e os pais decidiram que LF, deveria iniciar atendimento psicológico o mais breve possível. A escolha da terapeuta ficou a critério da família, que optou pela mesma profissional que atua na escola, o que segundo a família, poderia contribuir e facilitar o acompanhamento de LF. Quando os pais vieram para a primeira consulta, ambos estavam bastante ansiosos com a evolução da sintomatologia do filho. Ambos relatam que, LF é um menino carinhoso, que está sempre querendo chamar a atenção, e acaba se envolvendo em situações que desagradam profundamente aos pais, pois ele mente muito, não sabe brincar, não sabe perder e trapaceia nos jogos, briga constantemente com o irmão, tem poucos amigos, roubou dinheiro dos pais, fala muito palavrão, e apresenta muitas condutas efeminadas ( segundo a mãe, são gayzices) além de comportamentos como soltar gazes e arrotos , tanto em família como quando vem visitas em casa.

Impressão Geral Transmitida:

SE e JE compareceram à entrevista de anamnese bastante ansiosos e preocupados com o comportamento de LF. Falavam o tempo todo, sobre todas as situações difíceis por que já passaram devido ao mau comportamento do filho: nos aniversários de colegas, quando vai na casa de colegas ou parentes, normalmente os pais recebem queixas pelo comportamento de LF, etc. A mãe chorava em diversos momentos, demonstrando desespero em não saber como proceder com o filho, enquanto o pai mantinha-se mais calmo e tentava encontrar explicações para todos os fatos relatados, de forma racional e menos afetiva. O casal é de classe média alta, de meia idade, ambos com aparência séria, com valores morais bem definidos e limitados, e bastante preocupados e mobilizados com o comportamento inadequado do filho.

LF veio à primeira sessão e foi “adentrando” em meu consultório, pegando os brinquedos sem pedir permissão. LF é um menino pequeno para a sua idade (é o menor de seu grupo escolar), é magro e baixo, de cabelos louros e olhos azuis. Sua expressão é pesada, pois é comum abrir olhos e boca de forma exagerada, quando se exalta ou quer mostrar algo do seu interesse. É freqüente estar agitado quando brinca ou joga, xingando e reclamando quando as coisas não saem conforme o esperado, usando palavrões e tentando trapacear durante o jogo. Mostra-se hiperativo, iniciando várias coisas ao mesmo tempo, ou, não terminando adequadamente uma tarefa para já começar outra. Na sala, costuma ficar sentado no tapete, se arrrastando para pegar as coisas ou se deitando, tanto no tapete como no sofá, várias vezes durante a sessão.

História Pregressa e Atual:

LF é o segundo filho de SE e JE. É o caçula. A gravidez de LF, apesar de não ter sido planejada foi bem aceita pelo casal. No entanto, SE relata que foi um período muito difícil para ela, devido a questões profissionais. Ela define sua gravidez como “uma gravidez muito difícil”. SE trabalhava como sócia em um escritório de advocacia, e a segunda gravidez a deixou muito dividida e indecisa sobre como conciliar a maternidade e a carreira. O parto de LF foi normal sem complicações. A mãe relata um período de depressão pós-parto, que durou cerca de 6 meses e somente quando ela conseguiu definir sua vida profissional, retirando-se da sociedade no escritório de advocacia e decidindo trabalhar como autônoma em sua própria casa, é que pôde finalmente se envolver com o bebê e a depressão aos poucos foi cedendo. A mãe pouco falou sobre este período, centrando-se mais na evolução de LF, mas segundo ela, não fez tratamento para a depressão. O desenvolvimento motor de LF foi dentro do esperado. LF foi amamentado poucas semanas, pois a mãe lembra que seu leite logo “secou”. Após alguns meses, os pais perceberam que LF apresentava um problema ocular,e LF foi diagnosticado como estrábico, e passou a usar tampão durante muito tempo, até ser submetido a uma cirurgia de correção. LF sempre “odiou” usar tampão e depois os óculos. Atualmente usa lente de contato devido a miopia, não se percebendo nada de seu antigo estrabismo. Com 3 anos, LF iniciou sua vida escolar, indo para a creche. A mãe relata que LF sempre gostou da creche, e que sempre se relacionou bem com colegas e professores. Mas sempre foi um menino que lutava para chamar a atenção para si, tanto na escola como em casa. SE relata situações de ciúme intenso entre os irmãos, a ponto de os pais terem que afastá-los senão poderiam se machucar.

O irmão de LF, PA foi diagnosticado com TDAH, e está sendo medicado já há algum tempo , e tem apresentado boas melhoras, tanto em comportamento como em seu rendimento escolar. Segundo a escola, LF sempre teve bom rendimento escolar, seu maior problema sempre foram suas atitudes e comportamentos. No entanto a partir deste ano, LF começou a decair consideravelmente em seu rendimento escolar. Os pais o levaram ao mesmo neurologista que acompanha o outro filho, e num primeiro momento este diagnosticou LF como depressivo, e passou a medicá-lo com anti-depressivo durante um período aproximado de 4 meses, sem resultados. Durante este período, LF além de piorar seu rendimento escolar, também piorou seu comportamento. Uma atitude muito preocupante de LF, foi a tentativa de cortar os pulsos, com uma faca cega, quando ele não conseguiu ganhar um objeto que ele tanto queria. LF costuma mentir para chamar a atenção, fala muitos palavrões, e por várias vezes já roubou dinheiro da carteira dos pais, bem como material escolar de seus colegas, solta gazes e arrotos em sala de aula, e em casa, na presença de visitas, o que constrange demais a família, pois parece que LF acha graça do seu comportamento. Quando é chamada sua atenção ele prontamente pede desculpas, para num momento mais tarde, repetir estes comportamentos. Na escola já falsificou a assinatura dos pais em uma prova em que ele tirou nota baixa.Junto a seu grupo escolar, passou a ser visto como um menino problema, e começou a ser comum responsabilizá-lo sempre que algo de anormal acontece em sala de aula. Esta postura do seu grupo começou a mudar, pois todos perceberam que nem sempre era culpa de LF, e com o tratamento que LF iniciou, este tornou-se um pouco mais quieto, e mesmo assim muitas confusões continuaram acontecendo em sala de aula.

No último incidente que aconteceu na escola, em que LF foi suspenso por dois dias, LF além de brigar em sala de aula, desrespeitando a professora e colegas, destruiu uma cadeira do colégio devido a intensa fúria. À tarde, quando LF foi à catequese, falou todo orgulhoso e debochando dos colegas, que ele poderia ficar em casa dormindo, durante a suspensão, enquanto os colegas teriam que ir para a escola. Outro comportamento recente, mas muito comum, foi a atitude que LF tomou no banheiro, quando mostrou seus órgãos genitais para um menino de 5 anos, da pré-escola, subindo numa cadeira, e balançando o pênis para o menino ver. Este menino saiu correndo em pânico, em busca de ajuda. Seus colegas de turma acostumados com este tipo de atitude de LF, dizem que ele “fica fazendo gayzice na banheiro” e já nem se importam mais. Após a suspensão de LF, foi combinado que a família retornaria para o médico a fim de rever a medicação e possível diagnóstico. Como terapeuta de LF, encaminhei um parecer psicológico com o diagnóstico de distúrbio de conduta. O médico não confirmou o diagnóstico. Segundo ele “A hipótese mais provável para o LF é de DDO (Distúrbio Desafiador de Oposição) talvez com alguma co-morbidade, em especial ansiedade/depressão”. A medicação foi alterada, e a combinação feita com a família foi de que se num prazo de 30 dias não houvesse melhora significativa, seria feito o encaminhamento para um psiquiatra infantil.

Há um mês ele não tem comparecido às sessões. Após um período de duas semanas em que me ausentei, a mãe buscou a avaliação de um outro profissional da área da psicologia, num instituto de Porto Alegre, a fim de confirmar o diagnóstico. Por contato telefônico, ela comunicou que assim que tivesse o resultado, ela retornaria para definir como dar continuidade ao tratamento de LF.

SE também iniciou tratamento para depressão, pois segundo ela, com os problemas de ambos os filhos, tanto ela como o marido estão exaustos, mas como ela é quem fica muito mais em contato no dia-a-dia com os dois, sentiu-se extremamente fragilizada e angustiada, iniciando tratamento farmacológico no mesmo período em que o LF alterou sua medicação. Segundo dados e relatos da escola, a família de LF sempre amenizou os problemas do filho, alegando que as professoras perseguiam o filho e que ele sempre era o “bode expiatório” da turma, e que em casa ela não tinha problemas tão sérios com o filho. Com o passar dos anos, e com o agravamento dos comportamentos de LF, a família se conscientizou da realidade dos fatos e está em busca de tratamento para LF.

Evolução do Atendimento:

O processo psicoterapêutico de LF, iniciou em 28 de novembro de 2002. Após um período de Avaliação Psicológica em que foram aplicados os testes MACHOVER, H.T.P., FAMÍLIA, BENDER, FÁBULAS DE DUSS e a HORA DE JOGO, iniciamos o atendimento com uma sessão semanal para LF e uma sessão mensal com os pais, com possibilidade de algumas sessões de família, o que até agora não aconteceu. Pode-se perceber através dos testes a presença de intensa agressividade e impulsividade, ciúmes do irmão, sentimentos de inadequação e baixa auto-estima, pouco reconhecimento da autoridade paterna e materna, bem como grande confusão e pouca confiança no mundo que o cerca, dificuldade nos contatos afetivos, imaturidade e dependência. Em entrevista com os pais , foram feitas algumas combinações de manejo como a questão do respeito pela figura de autoridade do pai e da mãe, questões relativas a equiparação de mesadas (eram de valores diferentes, apesar da pouca diferença de idade dos irmãos, o que gerava grande disputa e muitas brigas e discussões),a reparação e reposição de objetos, sempre que LF destruía ou roubava, além de atitudes mais carinhosas e afetivas para dar a LF a certeza do amor dos pais, tão disputado com o irmão PA, entre outras questões. Os pais mostraram-se muito interessados, e colocaram em prática prontamente todas as combinações, que sempre foram bem discutidas em terapia.

Durante o período de festas de final de ano e férias escolares, ou seja, de dezembro a março, houveram muitas faltas e a terapia foi acontecendo de forma lenta, porém gradual. Nas primeiras sessões, e na grande maioria delas, LF sempre quis jogar o “Jogo da Vida”. No início, deixei-o jogar a seu modo, e pude perceber a sua dificuldade em perder, quando revirava o dinheiro para que não se pudesse saber quem era o vencedor; sua baixa tolerância à frustração pois ficava muito irritado, falando palavrões ou tentando trapacear para amenizar a perda. Depois de algumas sessões, passei a assinalar e a cobrar que ele jogasse de forma correta, e o jogo começou a perder a graça, em parte porque era um jogo de “gato e rato”, onde a terapeuta ficava atenta para as infrações e o paciente tentava driblar esta atenção para ganhar da terapeuta. As interpretações e associações do jogo com a vida real, parece que tiveram pouco impacto, pois o que mais mobilizava LF era o jogo, era a possibilidade de ganhar, de trapacear , de estar atento a tudo, para ser o grande vitorioso no final. Esta situação cansou aos dois. LF passou a desenhar na lousa. Vários desenhos em questão de minutos. LF desenhava e mal terminava, apagava e começava outro, de forma ansiosa e bastante desestruturada. Seus desenhos passaram a mostrar seu mundo interno, confuso e desestruturado, e questões como a agressão, o matar e o morrer, começaram a vir a tona. Numa das últimas sessões em que LF compareceu sozinho, pedi que ele desenhasse no papel ofício para que pudéssemos guardar suas produções em sua pasta. Inicialmente ele relutou, mas depois acabou desenhando uma situação em que ele mostrava sua realidade interna: dizendo “eu sou mau, há,há,há” desenhou a casa do telhado maluco, um campo minado de minas terrestres, e a frase “Sadam Husem foi morto”. Esta foi sua última sessão.E este foi um dos desenhos que LF mostrou para a mãe, muito orgulhoso.

DISCUSSÃO

Winnicott desenvolve uma teoria bastante complexa sobre a preocupação materna primária – a de-privação- os distúrbios de caráter – a tendência anti-social – a esperança. Em alguns momentos, fica-se com a impressão de que ele identifica a causa ou origem da tendência anti-social, nas primeiras semanas de vida do bebê, para num outro momento, situá-la no período, que Melanie Klein denomina de Posição Depressiva, ou seja, após os 6 meses. Ele situa a idade entre 6 meses a 2 anos. O termo tendência anti-social, utilizado por ele, e definido por ele, não como um diagnóstico, como seria o diagnóstico de uma neurose ou psicose, é o termo que se equipara àquilo que chamamos de conduta anti-social ou transtorno de conduta. Pelo menos foi assim que foi entendido, compreendido e analisado.

Quando se faz a relação entre os dados do DSM-IV, a teoria de Winnicott e o estudo de caso apresentado, várias são as questões e interrogações. Qual será o diagnóstico mais provável para LF? Transtorno de Conduta ou Transtorno Desafiador Opositivo, sugerido pelo neurologista? Onde podemos situar a de-privação que desencadeou toda a tendência anti-social de LF? De que forma a constituição desta família contribuiu para a evolução do quadro? A depressão pós-parto da mãe foi significativa para o desenvolvimento emocional de LF?

Vários são os questionamentos, quando nos deparamos com o comportamento de LF. Mas, levando-se em consideração todos os aspectos teóricos, os dados da história pregressa, e a evolução do atendimento de LF, parece que o Transtorno de Conduta é o que melhor define o quadro. Apesar da idade de LF, em todo o seu desenvolvimento parece haver uma evolução na sintomatologia, que é o que relatam os autores, quando dizem que o transtorno de conduta não surge da noite para o dia. As atitudes de roubar, mentir, destruir material escolar, mostrar os órgãos genitais para os colegas e para um menor, a tentativa de se matar cortando os pulsos com uma faca, os poucos amigos, a dificuldade de relacionar-se socialmente, a dificuldade de se responsabilizar e de sentir culpa e remorso com os constantes pedidos de desculpas, para em seguida repetir as mesmas atitudes, falsificar a assinatura dos pais, etc., quando analisados na proporção e intensidade para a sua idade, sinalizam para a evolução de um transtorno de conduta.

Possivelmente, pode-se pensar num diagnóstico de Transtorno de Conduta, do tipo com início na infância, de gravidade moderada, com prognóstico reservado, em função da idade de início e quantidade de sintomatologia associada.

Outra questão importante, que não foi analisada teoricamente, é sobre qual estrutura de personalidade estamos trabalhando. Paulina F. Kernberg e colaboradores, assinalam sobre a questão da constituição da personalidade. Enfatizam que muitos clínicos relutam em fazer o diagnóstico de transtorno de personalidade para crianças e adolescentes, pois acreditam que a personalidade ainda não se cristalizou nesta idade. Mesmo assim – e até se pensarmos sobre o diagnóstico de transtorno de conduta que parece estar adequado ao paciente – o que parece ser importante, é que, pensando na possibilidade de se cristalizar uma determinada personalidade desviante, e pensando no que poderia ser feito terapeuticamente, acredito que fazer um diagnóstico, apenas auxilia de forma significativa, a escolha de tratamentos e encaminhamentos mais adequados ao caso. Se o diagnóstico for realmente 100% confiável, possivelmente só com a idade e o desenvolvimento emocional do jovem é que saberemos.

Pode-se pensar em uma estrutura borderline, talvez até psicótica. Mas, se pensarmos em termos de Transtornos de Personalidade, e LF satisfaz muitos dos traços característicos dos transtornos de personalidade, podemos ficar atentos a um possível Transtorno de Personalidade Anti-Social. Quando pensamos no desenvolvimento emocional de LF, suas primeiras relações afetivas, sobrevém a depressão pós-parto da mãe de LF, e aquilo que Winnicott denomina de ambiente suficientemente bom, e preocupação materna primária. Pode-se pensar que, a falta de uma ambiente suficientemente ligado (ou bom), consciente e inconscientemente, entre mãe e filho, não aconteceu em sua plenitude. A mãe relata intenso conflito para conciliar questões profissionais e maternais durante toda gravidez e nos primeiros meses de vida de LF. Na teoria de Winnicott, é durante este período, que se estrutura o desenvolvimento emocional saudável – seria a estrutura de personalidade? – da criança. É neste período que a criança precisa ter criado um “bom ambiente interno”, a partir de um bom ambiente externo, pois, como a personalidade ainda não está bem integrada, o amor primitivo pode ser destrutivo e a criança ainda não aprendeu a tolerar e a enfrentar seus instintos.

Winnicott afirma, que no começo da vida, a criança tem necessidade absoluta de viver num círculo de amor e força, para não sentir medo excessivo de seus próprios pensamentos e dos produtos de sua imaginação (medo de aniquilação), para poder prosseguir em seu desenvolvimento emocional. A família de LF parece não ser uma família negligente, muito pelo contrário, ambos os pais, mostram uma grande preocupação e dedicação para com os dois filhos. Ambos mostram-se bastante severos e rígidos para com os filhos.

Na história escolar de LF, parece que houve um período em que a mãe negava os comportamentos inadequados do filho, dizendo tratar-se de perseguição das professoras, numa tentativa talvez inconsciente de compensar “alguma coisa”. Somente quando o quadro ficou totalmente fora de controle, é que a mãe e o pai, concordaram que o problema era com o filho e não da escola. Winnicott entende a atuação (acting out) como a forma que a criança encontra, num momento de esperança, de forçar o ambiente a efetuar a cura, o que acontece quando o ambiente exerce forte reação de controle, o que permite à criança sentir-se segura, contida.

Parece que é isto que LF busca. Mas, não é apenas a contenção e a provisão ambiental, mas toda e qualquer forma de proteção e afeto. Percebe-se em LF uma necessidade quase que instintiva de confirmar o amor, aquilo que Winnicott chama de sofreguidão. Ele busca este ambiente suficientemente bom em sua família, na escola, na sociedade, na terapia.

A Fórmula da Felicidade

Você sabia que existe uma fórmula para avaliar a felicidade? Entenda a teoria – via esquema – por trás da arte da felicidade.

H = S + C + V

H = HAPINESS: FELICIDADE

S = SET RANGE: limites estabelecidos (herança genética para a felicidade (bioquímica cerebral) = Você vai ser tão feliz quanto a soma da felicidade dos seus pais.

C = CIRCUNSTANCES: As circunstâncias (casamentos bons/ruins, clima, trabalho, situação financeira, saúde, educação, alimentação, gênero, idade, relações sociais) influenciam + ou – em sua felicidade.

V = VOLUNTARY: Variáveis voluntárias = Emoções positivas no tempo: ser bem resolvido emocionalmente no passado, presente, futuro.

O que são emoções positivas no tempo? Que no Passado hajam bases sólidas para gerarem satisfação, contentamento, realização, orgulho e serenidade + que no Presente possamos encontrar alegria, êxtase, calma, entusiasmo, animação, prazer, plenitude (FLOW), algo como “Viva a vida intensamente.” + Que tenhamos otimismo, esperança, fé e confiança no Futuro. Evite emoções de futuro como medo, ansiedade e preocupação.

Tipos de Felicidade:

Prazeres Físicos: É o prazer sensorial de curto prazo (momentâneo), ativado pelos sentidos: tocar, sentir gosto e cheiro, movimentar o corpo, fazer sexo, namorar, usar drogas …

Prazeres Maiores:  Alta Intensidade: enlevo, deleite, êxtase, emoção, hilaridade, euforia, empolgação, sublimidade, júbilo. Média Intensidade: animação, encantamento, contentamento, vigor, alegria, bom humor, regozijo, entusiasmo, atração e graça. Baixa Intensidade: conforto, harmonia, divertimento, saciedade, relaxamento.

Como aumentar os prazeres da vida:                                                           

Habituação: espaçamento dos prazeres físicos (comida, bebida, drogas). Para manter o prazer é preciso manter a quantidade de estímulo.                                                                                                     Apreciação: partilhamento, formação de memória, autocongratulação, aguçamento da percepção, absorção.                                                                                                            Atenção: esteja 100% presente no que você faz.

Uma das formas de se sentir feliz é sentir-se pleno. Existem várias maneiras de atingirmos este estado: realizando-se afetivamente, profissionalmente … Chamamos este estado de FLOW (sensação de plenitude).

Como identificar se você está em FLOW: a tarefa exige habilidade e é desafiadora, exige concentração, os objetivos são claros, o Feedback é imediato, o envolvimento é intenso e natural, a consciência do EU desaparece, o tempo para.

O que fazer para gerar o FLOWDesenvolver pontos fortes (forças e virtudes) + Usar forças e talentos.

Pinte o 7 em 2017

Que tal “pollockar” em 2017? Você pode não acreditar, mas a técnica de Pollock, além de fácil, é extremamente terapêutica, exclusiva e colorida. Adoro os paineis que pollockei nestes últimos 3 anos. Eles dão vida aos ambientes. E, pelo que parece, todo mundo gosta.

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Mas antes de arregaçar as mangas que tal conhecer um pouco de Pollock?

Além do link acima (em vermelho) um pouco mais do pintor americano que abalou o mundo das artes. Pollock nasceu em 1912. Foi influenciado pela pintura em areia dos índios americanos e pelos pintores mexicanos de afrescos. Em 1936 pintou telas violentamente expressionistas. Inventou processos originais aplicando imensas telas contra a parede ou no chão. Em vez de usar pincel e paleta, praticava o dripping  passeando sobre a tela com latas furadas, de onde escorria tinta. Criador da Action Painting, Jackson Pollock encarnava a fúria de uma raça embriagada por grandes espaços e afetou não só artistas  jovens, mas toda uma geração de pintores contemporâneos, inclusive mais velhos. Pollock travou uma grande batalha contra o alcoolismo e a depressão. Alguns viam nele apenas um criador de peças caóticas e isentas de sentido – a Revista Time chegou a apelidá-lo de Jack, o Gotejador. Outros, aclamaram-no como o mais promissor e impressionante pintor da América. Morreu em 1956, aos 44 anos, num acidente de carro.

Voltando à ideia de “pollockar”.

Costumo forrar o piso da garagem com lona plástica preta e arregaço as mangas durante vários dias. Compro várias telas – em formato de painel, que dispensa moldura – e vários frascos e tons de tinta. Sabe como é: quando a inspiração chegar, melhor estar preparada. Porque se tiver de me arrumar, pegar e rodar de carro, comprar tintas, telas … by by inspiração.

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Tudo devidamente forrado … hora de soltar o corpo e a imaginação. Hora de se libertar e se entregar por inteiro.

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Depois de vários dias e várias camadas de pintura – essencial esperar que cada camada seque antes de aplicar nova camada de tinta – é hora de dar acabamento com pincel nas bordas do painel.

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Depois de tudo seco e finalizado é hora de assinar e continuar usufruindo a energia da própria arte.

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Que tal? Vamos “pollockar” em 2017?

 

O fantástico mundo de Harry Potter – Uma visão psicanalítica

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RESUMO: Este artigo procura entender os motivos que levaram a estória de Harry Potter a fazer tanto sucesso, a ponto de ser vendida em 42 países e ser traduzida para 31 idiomas. Para tanto foi realizada uma pesquisa, através de um questionário, aplicado em crianças e adolescentes, de 9 a 13 anos, num total de 121 alunos, realizada em diversas escolas, públicas e privadas. Como os dados foram muito abrangentes, buscamos na interpretação psicanalítica os motivos para tanto sucesso. Assim, este artigo relê a obra de J.K. Rowling, autora de Harry Potter, através do entendimento psicanalítico, e tenta desvendar os mistérios inconscientes que levaram ao tesouro do reconhecimento e do sucesso.

A evolução de um processo

A história do órfão mágico Harry Potter fez um sucesso estrondoso em todo o mundo. Milhões de crianças, adolescentes e adultos leram os livros, assistiram ao filme, ou fizeram ambas as coisas, e a grande maioria se apaixonou e vibrou com a história e as aventuras do famoso bruxo.

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O que realmente mobilizou este exército de fãs e leitores de Harry Potter?Será o mundo fantástico e mágico da Escola de bruxaria de Hogwarts, ou será a identificação com o personagem, uma criança órfã e rejeitada, que de uma hora para outra, tornou-se uma celebridade, admirada e invejada por muitos, capaz de enfrentar e vencer muitos desafios, tornando-se um vencedor?

Para podermos entender o sucesso do personagem, foi realizada uma pesquisa em diversas escolas,tanto públicas como particulares, onde foi aplicado um questionário com as seguintes questões:

  1. Você leu algum dos livros ou assistiu ao filme do “Harry Potter”?
  2. De qual você mais gostou? Por que?
  3. Para você o que mais chamou atenção na história? Explique:
  4. Dos personagens da história, de qual você gostou mais? Por que?
  5. Pensando na história de Harry Potter, e a realidade em que vivemos, o que você gostaria de apontar?
  6. Para você, por que Harry Potter faz tanto sucesso?

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As aplicações dos questionários aconteceram de 3a. à 6a. séries, com alunos de 9 a 13 anos, num total de 121 alunos. A aplicação ficava sob a supervisão da professora da turma naquele período, ou então, os alunos respondiam em casa e traziam para a escola o questionário respondido.

Os dados que mais se repetiram foram:

  1. A maioria assistiu ao filme;
  2. Gostaram mais do filme, relataram que no filme puderam ver os personagens, os lugares e conhecer esta realidade mágica e por que tinha efeitos especiais e ação, como o jogo de quadribol, vassouras voadoras, monstros, etc;
  3. O que mais chamou a atenção da maioria dos alunos, foi a magia ,a fantasia e a vida de Harry Potter, o modo como ele era tratado pelos tios, sua coragem e capacidade de vencer obstáculos, a escola de aventuras e ousadias.
  4. Os personagens mais citados foram Harry Potter, pela sua coragem, determinação, inteligência, criatividade, pelas suas magias, por ser aventureiro, bonito e pela capacidade para enfrentar e vencer obstáculos; e também a menina Hermione, pela sua inteligência e esperteza;
  5. Alguns não encontraram relação, pois são mundos totalmente diferentes, mas muitos apontaram para o mundo de magia e fantasia, tão diferente do mundo em que vivemos, mas que tanto na história como na vida real existem desafios e problemas que devem ser enfrentados;
  6. Por que é uma história de magia e bruxos, repleta de novidades, por que mexe com a imaginação das pessoas, e também devido a grande publicidade realizada para a divulgação dos livros e filmes.

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Estes dados sugerem várias possibilidades e razões pelo sucesso de Harry Potter, retratando tanto a questão da magia e fantasia, como algo novo e bom, o enredo envolvendo uma criança que se tornou tanto uma celebridade na história como na realidade, pois mostrou que apesar das adversidades, Harry Potter conseguiu superar-se e tornar-se vitorioso.

A história de Harry Potter nos permite fazer uma leitura sob o aspecto psicanalítico encontrando razões conscientes e inconscientes, que podem ter sido mobilizadas, suscitando toda esta exaltação pelo jovem mágico.

Partindo basicamente do enfoque de Bruno Bettelheim, em seu livro “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, procuramos encontrar respostas para todo o sucesso que Harry Potter fez.

O autor diferencia a história tipo mito ou conto. Segundo ele, o mito é pessimista, enquanto o conto de fadas é otimista. O final do mito é quase sempre trágico, enquanto é sempre feliz nos contos de fadas. Para ele, “os mitos projetam uma personalidade ideal agindo nas bases das exigências do superego, enquanto os contos de fadas descrevem uma integração do ego que permite uma satisfação apropriada dos desejos do id. Esta diferença responde pelo contraste entre o pessimismo penetrante dos mitos e o otimismo essencial dos contos de fadas”.(pg.52) É esta a essência da história de Harry Potter.

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Para ele, “há uma concordância geral de que mitos e contos de fadas falam-nos na linguagem de símbolos representando conteúdos inconscientes. Seu apelo é simultâneo à nossa mente consciente e inconsciente, a todos os seus três aspectos – id,ego e superego – e à nossa necessidade de ideais de ego também. Por isso é muito eficaz; e no conteúdo dos contos, os fenômenos internos psicológicos recebem corpo em forma simbólica.”(pg.46-47)

Bettelheim afirma que “a criança intuitivamente compreende que embora estas estórias sejam irreais, não são falsas; que ao mesmo tempo que os fatos narrados não acontecem na vida real, podem ocorrer como uma experiência interna e de desenvolvimento pessoal; que os contos de fadas retratam de forma imaginária e simbólica os passos essenciais do crescimento e da aquisição de uma existência independente.”( p.90) Ele continua afirmando que “… o conto de fadas usa símbolos universais que permitem à criança escolher, selecionar, negligenciar e interpretar o conto de formas congruentes ao seu estado de desenvolvimento intelectual e psicológico. Qualquer que seja este estado, o conto de fadas determina a forma como a criança pode transcendê-lo e o que pode estar envolvido na conquista do próximo estágio no seu progresso para a integração madura”.(p. 161-162)

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Pode-se entender, que quando a criança, o adolescente ou até mesmo o adulto lê a estória, dependendo de suas necessidades e momento situacional e desenvolvimental, o conto de fadas, poderá auxiliá-la a fim de que alcance uma maior integração psicológica e bem-estar emocional. Portanto, não existe uma razão que possa determinar o sucesso de Harry Potter. Possivelmente, existam inúmeras razões, cada uma compatível com a necessidade do leitor que leu a estória.

A história narra a trajetória de um menino, que após a morte dos pais, é levado a viver com os tios maternos. Passados muitos anos, nota-se o tratamento diferenciado entre Harry Potter e Duda, o filho natural da família Dursley.

Segundo Bettelhim, “ O conto de fadas começa com o herói à mercê dos que o desprezam e às suas habilidades, que o tratam mal ou mesmo ameaçam a sua vida, como faz a rainha malvada em “Branca de Neve”. À medida em que a estória se desenrola, o herói é freqüentemente forçado a depender de amigos que o ajudam: criaturas do mundo subterrâneo como os anões em “Branca de Neve” ou animais mágicos como os pássaros em “Cinderela”. Quando o conto termina o herói dominou todas as provas, e apesar delas, ele permaneceu fiel a si próprio, ou, ao passar por elas exitosamente, adquiriu sua egoicidade verdadeira.”(p. 159)

Em Harry Potter, o conto começa com a triste vida que Harry vive na casa dos tios maternos, que o rejeitam e o desprezam. Com a entrada na escola de Hogwarts, Harry conta com a ajuda dos amigos, Rony e Hermione, e também das figuras mágicas, como Hagrid e a coruja mensageira Edviges. Juntos enfrentam inúmeros obstáculos e no final saem vitoriosos. Harry se vê no topo das atenções, como aquele que lutou e conseguiu chegar ao final deste processo como vencedor.

Tudo começa mudar às vésperas do aniversário de 11 anos de Harry. Com a chegada de seu aniversário, cartas são enviadas ao menino informando-o de sua aceitação para o ingresso na escola de magia de Hogwarts. Existe toda uma mobilização para que o mesmo não tome conhecimento do conteúdo das cartas, pois estas revelam quem realmente é Harry Potter, seu verdadeiro passado, sua identidade familiar, enfim o informam de sua identidade de bruxo; algo totalmente desconsiderado e abominado pelos tios. Esta passagem sugere a entrada na adolescência, por volta dos 11 anos.

Segundo Aberastury,”A adolescência é um momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento.”(p.15). Segundo a autora, ele ”mover-se-á entre o impulso ao desprendimento e a defesa que impõe o temor à perda do conhecido. É um período de contradições, confuso, ambivalente, doloroso, caracterizado por fricções com o meio familiar e o ambiente circundante.”(p.15-16) A autora ressalta que “ante a iminência das primeiras mudanças corporais e a ansiedade que estes provocam, o adolescente faz uma fuga progressiva do mundo exterior e busca um refúgio em seu mundo interno”.(p.227) Assim, de forma transitória, o adolescente foge do seu mundo exterior para um refúgio na fantasia, no mundo interno, com o aumento da onipotência narcisista.

Aberastury diz que “em nossa fantasia inconsciente, levamos dentro um mundo formado sobre o modelo das pessoas que primeiro amamos e odiamos e que representam também aspectos de nós mesmos. Sua existência dentro de nós pode ser tanto ou mais real em nossos sentimentos inconscientes do que os acontecimentos exteriores.” (p.229) Ela se refere a Melanie Klein, e sua teoria das relações objetais, de que “essas pessoas de nosso mundo interno temo-las sentido e as sentimos individualmente como constituindo partes de nós mesmos; representam o que amamos, admiramos e ambicionamos possuir; constituem os bons e maus aspectos de nossa vida e de nossa personalidade.”(p.229) Para ela, a vida das emoções, presente em nós desde o nascimento, está baseada num modelo simples: tudo é bom ou mau; nada é neutro. Tanto os acontecimentos, circunstâncias, objetos e pessoas, e sobretudo os nossos sentimentos e experiências, sentimos como essencialmente bons ou maus.

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Quando pensamos na família de Harry e na nossa família, inicialmente observamos grandes diferenças.. Quando a criança busca sua independência , rumo à adolescência, ela normalmente precisa atacar, confrontar, agredir os pais, para entrar em contato consigo mesmo e se diferenciar. No caso de Harry, ele deixa para trás uma família que o maltratou, e, encontrou na escola uma “família” que o acolheu. Assim sendo, Harry não teve que lidar com sentimentos de culpa, ao deixar para trás esta família. Pode-se pensar em Melanie Klein, que enfatiza o objeto bom e o objeto mau. O objeto bom é representado pela família de origem de Harry que é refletida no Espelho de Ojesed, no qual é projetado o desejo de Harry, ou seja, a sua família idealizada, que contribuiu para a formação do psiquismo de Harry Potter, através dos aspectos positivos que ela transmitiu para o filho, como: a herança da magia como legado e identidade familiar, a herança financeira como a garantia do futuro e também como prova do amor, da preocupação pelo bem-estar e segurança do filho. O objeto mau é representado pela família substituta, pela forma como esta o trata, desvalorizando-o e desqualificando-o como ser humano, cujos desejos e necessidades são negados.

Segundo Bettelheim, “…. não há objeto mais adequado para pensamentos de vingança do que a pessoa que usurpou o lugar dos pais: na estória de fadas, um pai substitutivo. Se damos curso a fantasias repreensíveis de vingança contra o usurpador malvado, não há razão para sentimentos de culpa, ou temermos uma retaliação , por que aquela figura claramente merece isto. Frente à objeção de que os pensamentos de vingança são imorais e de que a criança não deveria tê-los, devemos frisar que a idéia de que não se deve ter certas fantasias nunca impediu as pessoas de tê-las. Apenas baniu-se para o inconsciente onde o dano resultante para a vida mental é muito maior. Assim, a estória de fadas permite à criança ter o melhor dos dois mundos: pode engajar-se e fluir integralmente das fantasias de vingança contra o pai postiço da estória, sem qualquer culpa ou medo em relação ao pai verdadeiro.”(p.165)

Em todo o processo de adolescência normal, existe o desejo ambivalente de pertencer e não pertencer. Ao mesmo tempo em que o adolescente ama ele também odeia, o que gera enorme conflito. Em Harry Potter este dilema é solucionado através da dissociação (objeto bom e objeto mal) . Na vida real isto não tem como acontecer, ao menos conscientemente, pois o jovem precisa saber lidar com os aspectos bons e maus, seus e de sua família. Ele precisa integrar o lado bom e mau de sua família, e também os seus, o que pode gerar muitos conflitos. Uma das tarefas básicas da adolescência é a busca de uma identidade, o que implica no desprendimento do grupo familiar. Para conquistar esta identidade o jovem se afasta da família, e busca no grupo de iguais, com quem se identifica, a força necessária e o espaço para poder se construir. Todo este processo pode gerar muitos conflitos. Para Harry esta passagem é tranqüila, retratando apenas os ganhos que ele tem com a saída do lar,e como o conto de fadas nos fala de forma simbólica, ele pode afastar-se sem culpa desta família .

Também os personagens centrais da estória, Harry Potter e Lord Voldemort, retratam os dois lados, o bom e o mal. Para Bettelheim, “O conto de fadas nos ajuda a entendermo-nos melhor, já que na estória os dois lados de nossa ambivalência são isolados e projetados em personagens diferentes.”(p. 107) Assim o personagem Harry Potter simboliza o lado bom , enquanto que o Lord Voldemort, simboliza o lado mal. Na estória, existe a dúvida e o mistério sobre o que une Harry a Lord Voldemort, pois as varinhas mágicas dos dois são as únicas feitas pela pena da mesma fênix e ambos tem poderes semelhantes. Mas Harry vence Lord Voldemort, desde bebê, nos mostrando que o bem deve vencer o mal. É curioso pensarmos que ninguém fala o nome de Voldemort, e sim, Aquele-Que-Não-Se-Deve-Nomear. Pode-se pensar que sejam as coisas, sentimentos e afetos negativos, que tanto rechaçamos e reprimimos.

Quando a criança identifica-se com o herói da estória, no caso o bruxo Harry Potter, ela “pode-se compensar – em fantasia e através da identificação- de todas as inadequações, reais ou imaginárias, do seu próprio corpo. Pode fantasiar que ela também, como o herói, pode escalar o céu, derrotar gigantes, mudar sua aparência, tornar-se a pessoa mais poderosa ou a mais bonita – em resumo, fazer seu corpo ser e efetuar tudo o que uma criança possivelmente poderia almejar. Depois que seus desejos mais grandiosos foram satisfeitos em fantasia, a criança fica mais em paz com seu corpo tal como é na realidade”.(p.73) Um dos motivos mais apontados em nossa pesquisa sobre o porquê do sucesso de Harry Potter, foi o fato de ele conseguir superar os obstáculos. No dia-a-dia de nossas crianças e adolescentes, vários são os obstáculos e desafios a serem enfrentados, e identificando-se com o herói vencedor, a criança pode em fantasia, sentir que ela também conseguirá vencer suas dificuldades.

Bettelheim cita Tolkien que descreve as facetas necessárias para um bom conto de fadas. Ele cita a fantasia, recuperação, escape e consolo. Falando do final feliz, diz ser extremamente importante, pois dá a esperança de que ela também poderá se desvencilhar dos seus desesperos. Esta seqüência acontece na estória de Harry Potter.

Com a entrada no mundo exterior a criança dá-se conta das limitações dela e de seus pais. Bettelheim assinala que “Quando isto sucede, os novos desafios apresentados à criança por suas experiências mais amplas são tão esmagadores, e sua capacidade de efetuar estas coisas novas e resolver os problemas suscitados por seus passos em direção à independência são tão pequenas, que ela necessita recorrer à fantasia como satisfação, para não ceder ao desespero.”(p.156). Assim, a criança necessita desenvolver a capacidade para desenvolver fantasias para ultrapassar o presente e alcançar o futuro, o que torna suportáveis as frustrações experimentadas na realidade. Desta forma, quando a criança é capaz de fantasiar (imaginar), surge uma solução para o seu presente, por que estabelecida a esperança no futuro, as dificuldades do presente tornam-se mais suportáveis.

A adolescência se caracteriza basicamente pela busca por uma identidade, é como vamos nos apresentar ao mundo. Para Harry Potter é neste momento que ele descobre seu passado. De uma hora para outra ele deixa de ser um menino rejeitado e passa a ser alguém com poderes especiais, um bruxo.

Assim como na nossa realidade, o adolescente busca seu grupo de iguais, para se auto-afirmar , incorporando falas, vestes, maneiras de ser e agir, também Harry Potter ao se identificar como bruxo, introjeta um novo padrão de comportamento, compatível com seu grupo de iguais. Desta forma ele se fortalece, para prosseguir em busca de sua maturidade e identidade.

Quando pensamos na escola de Hogwarts, que tem no curso de magia 6 anos de duração, podemos pensar que é este o tempo que o jovem necessita para poder se tornar um bruxo. Na nossa sociedade, este ponto corresponde ao fim do ensino médio, e é quando se espera que o jovem esteja pronto para definir o que vai ser quando adulto, ou seja, para gerenciar a própria vida. Observa-se também que, ao final dos 6 anos de estudos na escola de magia, o jovem estará pronto para enfrentar a vida, muito diferente do que acontece nos dias atuais, quando o jovem não tem esta definição clara, nem espaço para trabalho, o que normalmente prolonga a sua adolescência, ou dependência dos pais, podendo gerar conflitos pessoais e familiares.

Quando falamos em busca de uma identidade, podemos pensar na integração do nosso mundo interno.

Dentro da Escola de Hogwarts, Harry Potter pertence à Casa de Grifinória, que tem características próprias, diferentes das outras casas (Sonserina, Lufa-lufa e Cornival). No seu grupo, Harry se relaciona basicamente com mais dois personagens : Rony e Hermione.

Para Bettelheim, “O número três nos contos de fadas parece referir-se freqüentemente ao que é encarado em psicanálise como os três aspectos da mente: id, ego e superego”.(p.131) Na estória, pode-se pensar que cada um dos três personagens representa um dos aspectos do nosso aparelho psíquico: Harry parece retratar o Id, com sua impulsividade, desatenção, superação, a quebra das regras, etc; Hermione representa o Superego, pois é ela quem conhece as regras, o certo e o errado, e é quem sempre questiona se deve ou não fazer determinadas coisas, é a certinha, a estudiosa ; e Rony parece representar o meio termo, o Ego, é ele quem tenta conciliar as diferenças entre Harry e Hermione .

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O ser humano, também necessita integrar estes aspectos, para que ele possa usufruir de uma boa saúde mental e relacional. O adolescente, cada vez mais cedo, começa a querer se mostrar como ele é, e isto implica em conciliar as exigências do id, ego e superego. O pensamento mágico, a realidade, os valores, o certo e o errado. Todos estes aspectos precisam ser integrados, para que o jovem consiga enfrentar os seus obstáculos, os seus desafios, que tanto podem ser internos como externos. Isto vale tanto pra o adolescente como para a criança, e por que não dizer, para o adulto.

Na estória de Harry Potter, todos pudemos nos identificar um pouco, pois todos temos um pouco desta estória. Obstáculos a superar, amigos a conquistar, fantasmas internos a enfrentar, sentimentos de rejeição e inadequação a elaborar, coisas boas e ruins a conciliar, problemas familiares, afetivos e emocionais, pois tudo isso torna-se necessário para nos tornarmos pessoas sadias e humanas, em constante processo de formação e reconstrução.

Poderíamos dizer que muitas vezes, para conseguirmos tudo isto precisaríamos ser mágicos. E que assim como na estória de Harry Potter, também a nossa estória tivesse um final feliz. Esta é a esperança que Harry Potter nos dá.

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As 4 Leis do Universo

  1. Lei da Crença: A crença é o maior filtro. Qualquer coisa que eu acreditar com sentimento, irá se transformar em realidade.
  2. Lei da Expectativa: Também é um filtro, um comando para o seu sistema. Qualquer coisa que você desejar intensamente, irá se transformar na sua profecia autorrealizável.
  3. Lei da Atração: Qualquer coisa que pensar consistentemente você atrairá para sua vida.
  4. Lei da Reversibilidade: Tudo que acontece no mundo exterior é reflexo do seu mundo interior.

SBC – Sociedade Brasileira de Coaching