Sobre as velas

Enfim, mais uma temporada produzindo velas. Foram mais de 40 velas, entre pilotos (pra abastecer os candelabros à beira da piscina), velas com sementes, conchas, canelas, flores e folhas, xícaras e potes.

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É a quinta temporada. Uma vez por ano, reservo uma semana, e me entrego ao calor da parafina, aos tempos e processos que fazem parte de produzir a própria luz do verão.

 

Este ano resolvi inovar e fiz minhas primeiras velas com gelo. Amei o resultado. Além de lindas, são super simples de fazer.

Mas, a grande empreitada foram as velas com as Conchas de Jurerê. Depois de um ano recolhendo conchas na praia, derreti uma antiga vela azul, acrescentei parafina branca, e, eis as velas da temporada.

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Fazendo velas

Fazer vela é uma atividade que exige algumas aptidões especiais. Talvez a mais importante de todas, seja a atenção, já que o processo envolve riscos de queimaduras graves. Por isso, um olho no fogareiro, outro nas velas. Qualquer descuido, pode ser fogo. Literalmente. Mesmo assim, volta e meia, sobram pingos de parafina a 120 graus e panelas tinindo de quente, que vão sapecando, pouco a pouco, a pele sensível de mãos e braços. Imagina, tombar panelas e formas fumegantes!!! Quando faço velas, fico 100% atenta a todo o processo. A cada saidinha mínima, me certifico de que tudo está desligado.

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Outra aptidão é a tolerância `a bagunça e desorganização, inevitáveis quando o espaço de trabalho é pequeno, os riscos enormes e a quantidade de material bem variável. Não ser perfeccionista também é interessante, já que nenhuma vela sai 100% perfeita. As minhas sempre saem um pouco tortas.

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Ter tempo e espaço é fundamental: só começo a fazer velas quando estes dois itens podem ser satisfeitos integralmente, bem como, ter material suficiente para fazer a maior quantidade possível. Nem comece, se não for pra fazer velas para, no mínimo, um ano. É função demais.

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Óbvio que a prática ajuda muito. Como fazia dois anos que eu não mexia com o material, primeiro reli a apostila, coloquei todo o material a ser usado – bem `a mão -, forrei o piso e a mesa onde o trabalho iria acontecer e comecei o processo de preparar remedinhos, pilotos e a vela, propriamente dita. Cada etapa exige cuidados e tempos específicos. Tudo acontece por etapas. Imprescindível é não esquecer de passar vaselina líquida – sem economia – em todas as formas a serem usadas. Caso contrário, tudo fica grudado e a vela não acontece. Esse ano resolvi que usaria poucos elementos. Mudei de ideia assim que as primeiras velas ficaram prontas. Sem dúvida, a vela fica muito mais bonita quando os elementos que a circundam são de uma abundância generosa.

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O que tenho feito, cada vez mais, são as velas em potes, xícaras e conchas. Como moro na praia, as velas de conchas aconchegam as noites de verão e os jantares regados a vinho branco e frutos de mar. Depois de usados, deixo-os de molho em água fria, pra depois lavar potes e conchas. Engana-se quem pensa que é a água quente que limpa os restos de parafina. Para remover os excessos, o jeito é deixar em banho-maria, até a parafina derreter e soltar, por isso, não recomendo potes muito grandes. O tempo gasto, mais o gás, não compensam. Sem contar que pra acender a vela, `a medida que ela vai sendo usada, vai ficando mais difícil e o efeito da iluminação da vela, se perde.

Velas Recicladas

Pra quem gosta de velas é interessante aprender a fazer e reciclar velas. É possível aproveitar praticamente toda a parafina e grande parte dos elementos usados para decorá-las (canela, folhas, sementes, cafés, pimentas, cascas, etc.) Quando apagar a vela, escorra o parafina derretida num pote (para ser reaproveitada depois) evitando assim que o pavio mergulhe na parafina líquida e dificulte quando acender novamente a vela. Costumo ir juntando cacos e restolhos de velas, flores e sementes secas, canelas, conchas, poupouris, xícaras, potes velhos e tudo mais que possa ser usado pra deixar a vela ainda mais especial.

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O segundo passo é separar os materiais e preparar o ambiente para trabalhar com parafina. É fundamental ter em mente que aonde a parafina cai, ela gruda e é um Deus nos acuda removê-la. Por isso, forro com papelão toda a área a ser usada – do piso à mesa. Por mais cuidado que se tenha, sempre cai ou respinga parafina. E, se você for atrapalhada ou acidentada, convém usar um avental com segurança apropriada.

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Costumo separar os materiais conforme o uso e as cores das velas: brancas com brancas, amarelas com amarelas e laranjas, creme com creme, e no final, faço a vela da cor de burro quando foge. É quando misturo tudo que não combina com nada.

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Depois de selecionar e misturar as diferentes cores de velas, deixo algumas brancas pra clarear a vela se for preciso. Se quiser – e gostar – é possível usar corantes artificiais. Depois de derretida, é fundamental peneirar a parafina, separando impurezas, pavios, elementos e sujeiras. Uso um bule velho de alumínio, coloco um pano de prato velho (que será descartado quando as velas estiverem prontas) pra peneirar a parafina líquida. É neste momento que recolho os elementos e esparramo sobre o papelão, para secar e serem reaproveitados mais adiante.

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Alguns equipamentos são fundamentais para fazer velas. Além de panelas, formas, pavio e fogareiro, o termômetro é imprescindível, já que a parafina alcança altas temperaturas e pode pegar fogo. Chegando aos 120 graus é hora de desligar o fogareiro e esfriar os ânimos.

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Outro ítem fundamental é a vaselina líquida para untar as formas e permitir que as velas escorreguem e desformem facilmente. Economia zero na vaselina, ou a vela, simplesmente não sai. Gosto de usar citronela  por causa do cheirinho e também porque espanta os mosquitos. Diferentemente do que a maioria pensa, a citronela não é amarela e pode ser misturada – na temperatura correta – a qualquer cor e forma de vela.

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Também gosto de fazer velas em potes, xícaras e vidros resistentes. Na hora de reciclar, a forma de tirar e limpar os recipientes da parafina antiga é levar ao banho-maria até que a parafina derreta totalmente. Deixe o frasco de ponta cabeça, espere esfriar e coloque de molho em água fria pra lavar e deixar o recipiente pronto para uma nova vela.

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O maçarico foi minha última aquisição. Vale à pena, mas é melhor comprar uma luva protetora. Na fração de um suspiro, a chama passou pelo meu dedo e levantou uma bolha do tamanho de uma bola de gude.

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Duas velas: uma sem, e a outra com acabamento do maçarico.

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Dedinho medicado e a aparência da vela depois que o excesso de parafina foi derretida pelo maçarico. O resultado valeu o acidente, mas uma luva adequada já está na lista de compras pro atelier.

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Experiência com velas em conchas de ostras. A ideia é esparramá-las nas mesas em noites de moqueca, caldeirada, peixes fritos, frutos do mar…

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Gosto deste excesso de elementos que sobe e abraça toda a vela. A nitidez dos elementos é obra do maçarico malvado.

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Faltou parafina amarela pra preencher a vela deprimida. Gostei das saliências e reentrâncias desta vela com sementes reaproveitadas!

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Vasos marajoaras pequenos, xícaras da vovó sem uso e potes de barro ficam uma graça e viram presentes bem exclusivos. Talvez da próxima vez eu ouse em alguma cor.

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Conchas e flores secas!

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E a vela cor de burro quando foge … o azul, rosa, vermelho, branco e marrom ficou cor de uva e já animou um jantar entre amigos. O recipiente de vidro foi remodelado e ficou com cara nova.

vela uva E então, deu vontade de fazer suas próprias velas?

Velas deprimidas

Depois do casamento da minha filha Fernanda, em março deste ano, fiquei – entre outras sobras – com um saco cheio de restolhos de velas. Sou uma apaixonada por velas que uso sem cerimônia em jantares, bate-papos com amigos, pra namorar, ler, perfumar e iluminar a casa. Uma vela é sempre um bom motivo e qualquer motivo é sempre bom com uma vela.  Assim…….o que fazer com todo este material? Óbvio: reciclar. Primeiro passo: aprender a fazer e reciclar velas. Em junho fiz um curso no Empório das Velas, em Moema, São Paulo, onde aprendi o básico suficiente pra me aventurar na arte das velas artesanais.

Segundo passo: comprar o material. Já aproveitei na saída do curso e com orientação da professora (faltou um mini-maçarico para os acabamentos – uma aquisição futura) Terceiro passo: mãos à obra. A primeira tentativa – depois do curso e do olhar atento da professora – foi no meu fogão de inox LOFRA, no apartamento em Sampa. Caos total na cozinha. Ainda bem que era dia de faxina: enquanto a faxineira arrumava de um lado eu zoneava do outro. Por incrível que pareça, ainda hoje (semanas depois da empreitada) me vejo raspando vela no granito branco polar da bancada ao redor do fogão. E olha que eu cuidei ao máximo!!!!!! Uma meleca. Juntei todo material e decidi que este é o tipo de atividade pra se fazer em lugar adequado – meu atelier de Lajeado-RS.

Nada de improvisos. Valeu a primeira tentativa pra adequar procedimentos e providenciar materiais faltantes absolutamente imprescindíveis.

Chegando em Lajeado, preparei meu atelier: juntei todos restolhos de velas (tanto os do casamento, quanto outras velas usadas no dia-a-dia),

forrei piso e mesa com papelão em rolo, emprestei um fogareiro com um bocal potente (outra aquisição futura), comprei um panelão (para uso exclusivo), recolhi xícaras, potes, formas, etcetcetc. Comecei fazendo velas dentro de recipientes. Adoro usar peças antigas, como esta xícara da minha bisavó.

Dá pra perceber a depressão da vela? É essa “caída” no centro que faz uma vela deprimida. Quem diria!!!!! Mas ela tem remedinho. São estes quadradinhos – feitos da própria parafina – que preenchem o vazio que se cria no âmago de toda vela.

Na forma, quando a vela deprime, a gente recorta – no momento apropriado – à 1 cm da borda, escorre a parafina líquida de volta pra panela e preenche com os quadrados (remedinhos). Depois de preenchida com o remedinho, acrescenta-se parafina a 120 graus pra uniformizar, deixa descansar e espera secar. Se a vela deprimir de novo um simples preenchimento resolve a questão.  

Gosto de velas artesanais com elementos. Escolhi umas sementes velhas (que antigamente tinham um perfume maravilhoso mas que sumiu), comprei umas pimentas, folhas amareladas e grãos de café. Amanhã vou recolher alguns ramos com folhas do plátano na calçada da minha casa e fazer velas outonais.

Neste momento, meu atelier está gestando o trabalho do dia. Durante a noite, espero que minhas velas recicladas e devidamente medicadas e preenchidas, recuperem a beleza e a funcionalidade.

Encerrado este processo noturno, o amanhã reserva a hora derradeira: desenformar as velas e dar o acabamento. Mas este é outro assunto e outro dia. Isso se as velas saírem ilesas e inteiras. O amanhã dirá.