Emma

Me dá um certo nervoso quando depois de 15 dias, ainda não consegui terminar de ler  um  livro. Este não é livro pra desistir. É livro pra persistir. E insistir. “Emma” de Jane Austen tem me enervado. O ritmo lento, o enredo circular desprovido de ação e as letras miúdas do texto, tem me posto a dormir há duas semanas. Pelo menos, isso.

Sobre o tempo das coisas e o Natal

Dizem que o tempo nos faz parecidas com nossas mães. Esta afirmação me indignava. Como muitas outras constatações que a maturidade traz, me identificar com quem me deu vida, confirma apenas de onde vim e para onde vou. E isto não me enfurece mais. Hoje não tenho vergonha de dizer que assim como ela, também sou apaixonada pelo Natal. Aliás, minha filha também é. Então, acho que este troço natalino, passa de geração em geração … o que é bom demais.

Por conta da idade avançada da minha mãe (ela que não leia este disparate, afinal, “quando eu ficar velha” aos 79 anos …) sou eu quem faço a decoração interna da casa dela. Isso quer dizer que monto a árvore de Natal e distribuo arranjos por toda a casa. Mas antes, preciso consertar e arrumar praticamente tudo. De cola à tinta, passo um dia às voltas com estes consertos e adequações.

Apaixonados por Natal são, em tese, colecionadores de tranqueiras de Natal. Guardo até hoje, meu primeiro Papai Noel mais pomposo, de quando era recém casada. Coisa de 39 anos atrás. De lá pra cá dá pra imaginar o tamanho do meu acervo natalino. São caixas sobre caixas que revestem quase uma parede inteira no depósito de casa. Imagina o acervo da minha mãe. Ela guarda coisa do tempo da “venda”. Eu guardo coisas do tempo das “vacas magras” e das viagens que fiz, e minha filha, guarda de tudo um pouco e muito do que ela encomenda da internet. Todas temos, apreço por nossas bugigangas antigas, desbotadas e destruídas pelo tempo, pela baixa qualidade de produtos “made in China ou Taywan” e pelos meses ensacadas ou encaixotadas em porões, sótãos, armários e garagens.

A arte de reciclar preciosidades me lembra a arte de requentar comida apresentando-a como se fosse fresca e recém saída das panelas. Há de ter vontade, criatividade e ingredientes coringas de qualidade.

Reciclar o Natal dá trabalho. Meche com as emoções. Exige medidas extremas e decisões radicais. Arranjos são sumariamente destruídos e reconstruídos, usando sobras de outros arranjos destruídos. Coisas de todas as épocas vão para a esteira da modernização e fazem a alegria do Natal com uma das estrofes mais repetidas e aprendidas com minha mãe: isto aqui tem 30 anos e comprei em tal lugar; este anjo de crochet ganhei de fulana; paguei em 6 vezes este meu “JesusMariaeJosé”, que custou os olhos da cara, mas é a peça mais linda de todas; isto aqui veio de Monte Sião ou  Campos de Jordão? Muitos adornos falam de viagens, negócios, dificuldades, desejos, amizades, de desentendimentos, de arrependimentos, de planos futuros.

A árvore cheia de penduricalhos mostra por onde e com quem andamos vida a fora.

Para completar este momento mágico, minha mãe vai ao piano e toca músicas natalinas  do tempo do colégio (dela) ou roda velhos LPs na vitrola de agulha desdentada. A maior modernidade são os CDs lançados pelos grupos de corais dos quais faz parte. O cenário seria perfeito se não fosse o choro da minha mãe. Ela lembra dos que partiram: meus avós, parentes, vizinhos, colegas, as amigas do coral da igreja, as amigas de infância. Gente que viveu e conviveu com ela por muitos e muitos Natais. São histórias e lembranças demais pra deixar passar sem um pequeno xilique. Este ano tive de apelar: ou ela parava de chorar ou eu parava de decorar a casa para o Natal. Nem ela parou, nem eu parei. Seguimos fazendo e recontando histórias, rindo e chorando juntas. Ao final de dois dias, muita cola quente e glitter, finalizamos enfim, a decoração de Natal da casa da minha mãe.

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A felicidade só não foi completa porque vislumbrei meu próprio arsenal natalino encaixotado há um ano, louco pra ser repaginado e realocado em cada canto, cada prateleira e mesa da minha casa. Um arsenal digno do Tio Sam. Melhor respirar fundo, brindar com café e biscoitos amanteigados e deixar que o espírito natalino paire sobre mim e baixe feito estrela cadente.

Vou precisar!!!

 

Perfumando a casa para o Natal

E quem não gosta de cheirinho bom dentro de casa? Eu adoro.

Já há alguns anos, faço eu mesma aromatizadores de ambiente. É fácil, rápido e barato. Mas se você for hipersensível à perfume, melhor usar máscara e trabalhar num ambiente bem arejado. O risco de enxaqueca ou rinite é bem provável. Eu que o diga!!!!

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Bastam 3 ingredientes básicos: álcool de cereais, essência perfumada e água de torneira + frascos e varetas para difusor. As minhas varetas reaproveito até não poder mais. Deixo-as de molho em água pura, vou trocando a água até perceber que estão limpas e livres de qualquer tipo de cheiro. Depois deixo secar e estão prontas para o re-uso. Quanto aos frascos, qualquer frasco de vidro serve. Uso os de leite de coco e de azeite de oliva (vidro claro de preferência) sem cerimônia. Além de frascos antigos, vasos, vidros diferentes e cerâmicas próprias para receber líquidos. Em casa, a regra é clara: reaproveitar e reciclar tudo. E esparramo sem limites pela casa inteira. Quando quero presentear algum amigo compro vidros com tampa de rolha em Atacadões. Tem pra todos os tamanhos e bolsos.

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Depois de experimentar vários tipos diferentes de essência, optei por dar identidade olfativa à nossa casa de praia. As essências de Algas e Ozônio tem sido as escolhidas pois trazem o cheiro de mar pra dentro de casa. Reservo as essências de Capim Cidreira e Floresta para dar de presente aos amigos e perfumar a casa de Lajeado e da minha mãe.

Como este ano estou dedicando tempo e espaço para as conchas na decoração de Natal, decidi que também os amigos receberão aromatizadores com cheiro de Algas e decorado com conchas de Jurerê.

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Quanto ao detalhe do cordão, sabe aquele velho e fuzilado tapete de sisal? Depois de aproveitar o aproveitável, o resto virou matéria prima para os mais belos acabamentos com barbantes.

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Porta-ostras em flor

Esta bela flor nada mais é do que um porta-ostras. Em cada pétada uma ostra poderá ser servida crua, com queijo “cheddar” ou molho branco, assada e gratinada no forno. No miolo da flor, um vinagrete para acompanhar, maionese ou qualquer molho.

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Como diz minha professora: aqui ficou lambuzado; aqui faltou esmalte; aqui tem esmalte demais; aqui faltou limpar melhor … sim, sim, sim. Concordo. Constatações pós-queima, quando a fusão dos minérios apenas ressalta as imperfeições.E aí não adianta chorar sobre o minério esmaltado.

Como é com os erros que se aprende, espero que as próximas queimas fiquem melhores.

Uma jornada mensal

Todo mês repito o mesmo trajeto de Florianópolis/SC à Lajeado-Colinas/RS. São 6h30min de viagem pra ir, outras 6h30min para voltar. Se tudo der certo. Se não houverem maiores engarrafamentos, acidentes, necessidades ou imprevistos. São 600 Km entre a minha casa e a casa da minha mãe, mais 25 km para a casa que é mais minha casa. Conheço o trajeto quase de cor. Saindo de Floripa vem São José, Palhoça, Garopaba, Imbituba, Laguna, Tubarão, Criciúma, Araranguá, Sombrio, Torres … a metade do caminho; Os limites de velocidade; Os pardais; Onde se posicionam os policiais rodoviários para flagrar os motoristas mais apressadinhos; Onde ficam os melhores postos de combustíveis; Os melhores banheiros; O melhor café; Onde ficam as curvas mais perigosas; Onde a estrada está pior e exige mais atenção … O trecho gaúcho é pura nostalgia. Mais 300Km observando a paisagem, as placas dos outros carros (pra saber de onde vem ou quão longe de casa estão), relembrando verões, passeios, almoços de outras épocas e ocasiões … a possibilidade de ir por outro caminho – a Rota do Sol – passando por São Francisco de Paula, Canela, Gramado, Nova Petrópolis, Garibaldi. Estrada de pista simples cheia de curvas, belas vistas e maiores perigos. A escolha, habitualmente,  é a Free Way. E assim, faço o trajeto em pista dupla de Floripa à Lajeado, num traçado seguro, rápido e bonito.

CAVALOS

Adoro viajar e dirigir. Sozinha. Quase uma forma de meditação. Durante a viagem, converso comigo mesma, gesticulo, organizo ideias e pensamentos. Tomo decisões ao som de CDs antigos e muita porcaria (balas e salgadinhos) pra comer. Embarco no carro numa ponta e só saio quando chegar na outra ponta. Paradas cortam minha determinação e foco. Na medida do possível, paro apenas, quando for absolutamente necessário.

Nestes 600 km, existem lugares que sempre me encantam. Alguns trechos com vista para o mar, criações de ostras, a ponte Anita Garibaldi, em Laguna. A região dos bananais, as figueiras no entorno da Lagoa Itapeva, entre Torres e Terra de Areia.

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O Parque eólico de Osório. A Lagoa dos Quadros seguida pela Lagoa dos Barros, com suas lendas, assombrações e um dos mais belos pores-do-sol do mundo. A Arena do Grêmio, os arrozais, e o traçado decorado de uma vida inteira da BR 386 até chegar em Estrela, cruzar a ponte sobre o Rio Taquari, avistar Lajeado, pegar a faixa da direita na entrada do Parque do Imigrante, e enfim, acionar o portão e adentrar na antiga e esvaziada garagem de casa.

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Quando chego, chego estranha. A casa está vazia. Nada nem ninguém vem me receber. Apenas o alarme piscante e cadenciado, o buganville e os gerânios sempre floridos. A piscina espia em tons azulados ou esverdeados, quando não terrosos. Os buxos arredondados, os palmitos e palmeiras espevitados parecem esculturas congeladas no tempo de toda uma vida. Desde que me lembro, estão lá, ladeados pelas fênix, cicas e kaizucas. A atração da última temporada, foi a jabuticabeira que pela primeira vez, em mais de 20 anos, “arrombou”, como dizem os manezinhos de Floripa. Carregou com suculentas e saborosas jabuticabas. Ao lado, a pokan e os quatro cachos de banana, sinalizam a eterna fartura do pequeno pomar. Mal estaciono o carro e todo este universo me invade e preenche. Saio do carro apenas com a bolsa, o computador, o celular, algum livro. O resto fica aguardando sossegadamente no carro … quando chegar a horra, descarrego tudo. Mas, só quando chegar a hora.

Porque chego aos poucos. Alguns pedaços meus ainda estão viajando. Largo a sacola de comida na cozinha. Abro uma caixa de leite ou uma garrafa de vinho. Jogo amendoins torrados no pote improvisado, descasco laranjas, bananas ou maçãs. Preparo uma bandeja de boas vindas. Subo ao quarto. Ligo antigos abajures, arrumo a cama, cubro com o edredon de pelúcia, afofo os travesseiros e me ponho a ler. Nada de banho, nem dentes escovados. Me satisfaço com o toque do velho pijama antigo e maltrapilho. Me aconchego ao som da brisa suave e do ronronar dos carros ao longe. Chego cansada da viagem, da vida, da rotina, de ser quem preciso e optei ser. Chego cansada de mim mesma. Preciso de uma longa noite de sono e sonhos e de uma manhã interminável e descompromissada.

É assim que chego na manhã seguinte à minha chegada. Acordo outra. Passo o café, sento no sofá, observo e espio o que acontece. Me acalmo. É quando meu corpo encontra minha alma adormecida. Com o movimento da manhã ou da tarde, retiro a agenda da bolsa, as roupas da mala. Abro as janelas, afasto as cortinas, espio o horizonte e os vizinhos, identifico sons. Ligo para alguns amigos. Saio de casa, me embrenho no jardim, piso na grama, vou ver as plantas no canil, recolho as bromélias floridas. Caminho ao redor da casa. Verifico a caixa de correspondência. Enfim, estou em casa. Inteira e verdadeira.

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“Bowls” tamanho médio

Depois dos “bowls” pequenos e “pit pots” minúsculos, chegou a hora de equipar minha cozinha com “bowls” médios. Aquele tipo que serve arroz branco, purê de batatas e macarrão para duas ou quatro pessoas.

Bowl 1

A técnica usada tem sido o acordelado. Quase um ano fazendo e montando cobrinhas sobre cobrinhas. Grudando, moldando e aparando excessos. A próxima técnica será o torno elétrico, e com ele, uma maior produção de “bowvs”. A meta para 2019.

bolw 2

Quando conheci as técnicas cerâmicas, achei exagerado o tempo de 1 ano para aprender cada técnica (acordelado, torno e figurativo ou artística). Agora, passado um ano, percebo que este tempo, é o mínimo necessário. A cada peça finalizada, a certeza de que a peça seguinte sairá melhor e mais perfeita que a anterior.

bolw 3

Ainda não consigo padronizar os tamanhos dos “bowls”. Cada um tem seu tamanho e formato. Pelo menos, consigo encaixá-los um dentro do outro. Estes foram pensados brunidos por fora e esmaltados por dentro. Brunir uma peça cerâmica é fechar totalmente seus poros antes da primeira queima.  Para brunir, é necessário que a peça esteja 100% finalizada. Utiliza-se o fundo de uma colher, ou um equipamento próprio, esfregando toda a superfície, que ficará brilhosa.

brunidoDepois, esfrega-se um plástico para dar o último acabamento antes de ir ao forno. O resultado final remete à aparência de pedra na parte brunida.

panela brunida

Nesta panela – finalizada e pronta para uso – a parte interna foi esmaltada com preto e a parte externa foi brunida.

Águas marinhas

Hoje o mar não estava para conchas,

estava para as águas marinhas. Estendidas e desovadas na areia.

Melhor assim.

Inofensivas, entumecidas e inchadas,

vibrantes cor de rosa, lilás e roxo. Azul claro,

de cauda azul marinho desfiada em pura maçaroca.

Ardidas ao sol. Doídas no desamparo da dura e seca areia da praia.

Melhor ainda, sob o olhar satisfeito de toda uma gente.

Também eu, sorri inebriada. Agradeci aos céus.

Sim, me senti horrorosa e maravilhosamente sádica.

Como dizem, vingança é um prato que se come frio.

Doí tempos atrás com a pegada displicente da linda, colorida e ardida água marinha.

Ardi numa dor traiçoeira sem saber do que, como, onde ou porque.

Chorei de dor.

Pois que ardam no calor do sol, na areia seca e no olhar satisfeito de toda uma gente.

Como dizem, vingança é um prato que se come frio. Me lambuzei.