Raivosa

Acordei com a pá virada.

Igual à pá dando patadas no terreno

da obra, eclodindo feito tempestade, do ladinho do quarto.

O dia mal surge por detrás das cortinas de linho 

acinzentado.

Salto da cama, tonta ainda.

O espelho confirma o temporal que se aproxima.

Os martelos se apresentam. 

Faço café e uma longa lista de afazeres.

“Pq vc não vai pra casa de sua mãe?” Fui. 

Seiscentos quilômetros de olhos esbugalhados,

Chorumela e raiva,

chego no meu refúgio. 

Ainda raivosa, descarrego o carro. Desabo inteira.

Abro portas e janelas. 

O silêncio me abraça. A brisa leve, afaga. O sol abranda e me embala.

Me acalmo. A longa lista de afazeres cresce.

Calmamente.

Ecologia caseira

Tenho um marido ecológico, como diria uma amiga, cujo marido é igual ao meu. Aposentado, é ele que insiste em ser o jardineiro da casa. Numa rápida avaliação diria que ele é ótimo com as gramas: no corte, poda e adubação. Com relação aos canteiros, uma lástima. Tudo que germina vai crescer e florescer. Desde as sementes defecadas e espalhadas pelos pássaros, até as plantas que brotam, crescem e se esparramam por todos os lados. Ninguém pode mexer. É a natureza. E assim, as fênix mais parecem buxos gigantes, as Costelas de Adão sobem paredes, os bambus viraram paliteiros no jardim, as experiências com plantas se reproduzem em escala industrial, as orquídeas viraram uma cidade de vasos, e, sempre, segundo ele (de vez em quando, segundo eu) tem uma orquídea raquítica florescendo. Tem os dinheirinhos e outros inços, que de vez em quando, são tirados à faca. Nossos amigos, quando vem nos visitar, sofrem pra chegar na área de entrada da casa: além da escada em V (um erro grosseiro de arquitetura) ainda precisam desviar das Costelas de Adão, pois é inevitável não roçar nas folhas gigantes da planta que avança sobre os degraus. Não sei exatamente o que aconteceu, pois fui eu quem comprei as Costelas de Adão, pensando que fossem do tipo mini: ou me enganaram/enganei com as mudas ou foi excesso de adubo. Só sei que minhas plantas favoritas são as Senhoras da Entrada da casa, postadas feito cavaleiros medievais em suas armaduras de aço. Depois de anos tolerando todos os excessos pelos quatro cantos da casa e abrindo mão de um dos grandes prazeres de estar e contemplar um belo jardim, dei um ultimato: ou meu marido  muda o jardim ou eu mudo. Dia a dia vou olhando com o rabo do olho todas as possibilidades e começo a projetar uma enorme reforma no jardim. De uma coisa, tenho certeza. A transformação vai acontecer. Ou muda o jardim, ou mudo eu. De casa.

Igualzinho à minha mãe

A gente passa a vida tentando ser diferente da nossa mãe, quando a gente vê, tá igualzinho a ela. 100% ainda não! Mas no caminho … 

Enquanto arrumava meu closet me peguei falando pra minha assistente:

  • Céus, este vestido deve ter uns 25 anos. Esse terno era do tempo em que eu clinicava, deve ter uns … 18 anos;
  • Este sapato comprei numa loja que eu adorava, a loja Tal, que pena que fechou. Lá, tinha tudo que eu precisava;
  • Comprei esta bolsa na viagem que fiz para o Chile fazem uns 15 anos. Vou guardar mais um tempo porque a moda de bolsa com franja vai voltar.
  • Esta blusa comprei pra festa de 1 aninho do Felipe.
  • Esta biju era da Fernanda, minha filha. Ela disse pra passar adiante. É uma pena, tão bonita esta biju. Guardei pra mim. Mas nunca usei. Uma pena passar adiante. Talvez um dia eu queira algo assim e não encontre. Volta pra caixa.

Igualzinho à minha mãe. Mudam os tempos, os elementos, mas a essência é a mesma. Chego à conclusão que meu closet e os armários da minha mãe, estão se transformando em Museus da Moda da Família. 

Sumiço

Enquanto organizava o armário, um fio de ouro com uma bolinha na ponta e uma argola na outra ponta, desapareceu bem diante dos meus olhos. O fio faz par com outro e ambos dão um toque especial em alguns brincos pouco especiais. É só encaixar o fio que o brinco se transforma. Tudo aconteceu quando retirei minha caixa de quinquilharias e bijuterias do esconderijo entre as caixas de mantas e cachecóis e bolsas de sair à noite. As bolsas são aquisições de mais de 30 anos, das ruas José Paulino e 25 de Março, em São Paulo, outras foram trazidas de viagens. Todas pequenas no tamanho, mas enormes no charme. A maioria, vintage. Os cachecóis seguem a mesma moda. Antigos, exclusivos, de boa qualidade e baratos. Especialmente, lindos. As caixas de quinquilharias, que é como as chamo, tem de tudo que cabe nos dedos, pulsos, garganta, cabelos e orelhas. São duas. Uma para o dia a dia, outra para eventos, ocasiões especiais, coisa tipo chick. É nesta caixa que estava meu fio de ouro com bolinha. Estendi um lençol sobre a cama e despejei braceletes, anéis, relógios, brincos e outros apetrechos tão abandonados quanto minha dieta. Fui limpando e conferindo o estado de cada peça. Selecionei as que ainda combinam comigo, separei e as recoloquei na caixa, agora limpa e refrescada com pano úmido e vinagre e arejada ao sol. Uma a uma fui realocando as peças que prometi voltar a usar, quando me deparei com apenas um dos fios com a bolinha na ponta. De tão pequeno e insignificante que é, imaginei que pudesse estar enroscado em algum bracelete ou brinco. Enquanto guardava as quinquilharias, fiquei de olho no fio sumido. Lembrei de um anel perdido, de brincos e tarraxas de brincos desaparecidos … Logo eu que sou atenciosa e cuidadosa com este tipo de peça de valor sentimental (lembro da vez em que levei um pingente de rubi, que na verdade era de acrílico, presente de primeira comunhão que ganhei da minha avó materna, para compor com uma pedra ametista, presente de uma grande amiga, numa joalheria reconhecida. Guardo esta peça até hoje e só a uso em ocasiões muito especiais.) Enfim, tem coisas que simplesmente somem, como se um buraco negro as engolisse. São meias, grampos e livros que somem como num passe de mágica. Quase conformada com este destino inevitável, vibrei ao encontrar o fio de ouro com a bolinha na ponta, agarrado na barra do lençol. É preciso ficar muito atento ao mexer com as quinquilharias de valor sentimental. Como num passe de mágica, elas podem sumir e reaparecer.

Feliz da vida, devolvi o fio a seu par. Devem estar felizes da vida, juntinhos agora, na caixa de quinquilharias e bijuterias.

Livros chatos

Ando cansada de ler livros chatos. Consegui a façanha de sequenciar dois livros chatos, depois de ler outros dois livros chatos. Fevereiro foi uma chatice em termos literários. Quatro livros chatos. Talvez seja eu a chata do mês. Felizmente o chato do verão está indo embora. Espero que a chatice de tudo e todos se abrace ao verão, pegue carona e suma. Só pra deixar claro: li quatro livros em fevereiro. Todos chatos.

Final de tarde

Enquanto lia “Clarice Lispector – Pinturas” de Carlos Mendes de Sousa,

o corpo cansado e dolorido descansava no estaleiro chamado cama.

O dia foi de arrumação e limpeza. Tipo excessivamente trabalhoso.

À minha volta, tapetes de caixas, roupas e calçados…

Deveria arrumar, sei disso. Mas, não dá. Blá-blá-blá, blá-blá-blá.

Vamos dar um mergulho? Caminhar? Sair de casa? Convida meu marido.

Levanto. A lombar grita. Os joelhos estralam …

Vamos. Vamos caminhar.

As pernas protestam. 

Os braços balançam abobalhados como eu. Eu e minha vontade.

Sim. Vamos. Vamos caminhar sim. 

Jurerê, terça-feira, 23 de fevereiro de 2021, 

em plena pandemia de COVID19, final de dia e temporada. 

São poucos os caminhantes,

poucos são os banhistas e turistas.

A maré está baixa. 

O mar cinza espelha o céu nublado e mal ondula no horizonte.

Caminhamos ao Il Campanário, um pouco mais … Regressamos. Suamos. Cansamos.

Jogamo-nos ao mar de águas mornas e ondas serenas.

Alguns peixes cambalhotam em volta, de olho num cardume de peixinhos em trânsito.

Compreendo as pinicadas e tropeçadas destes minúsculos seres,

devem estar apavorados com os peixões que nos cercam, batendo em retirada.

Batendo em nós também.

Me distraio com o sol que começa a baixar por entre nuvens e montanhas.

Sublime como todo por do sol,

o por do sol em Jurerê, com a Fortaleza de São José da Ponta Grossa,

  • vulgo forte da Praia do Forte – e a montanha, atiçam o olhar.

De repente, num virar de corpo e piscar de olhos

surge, rente ao horizonte, a um dedo do agora, mar azul petróleo, gaivinas do mar anãs.

Quem sabe são gaivinas de faces brancas ou gaivinas de asa branca, 

talvez gaivotas do bico preto. 

Não sei ao certo. Sou péssima conhecedora de pássaros. 

Se tem penas, bico e asas é pássaro. Qualquer pássaro.

Mas, que pássaro seria aquele, que, em bando, vários bandos,

mais de vinte bandos, pareciam regressar, em bandos, para um mesmo lugar?

Continuei pesquisando que pássaro era aquele. Tem penas, bico e asas … (Descobri que eram talha-mares, conhecidos também como corta-água, talha-mares-pretos, corta-mar, bicos-rasteiros, gaivotas-de-bico-tesoura ou paaguaçus. Ou, como diriam no Pantanal, taiamãs).

O que sei, de verdade, é que tanto eles quanto nós, precisavam retornar.

Voltar pra casa foi o espetáculo daquele final de tarde.

Voltar pra casa deveria ser sempre um grande espetáculo.

Também nós retornamos.

10 anos de bySuzete

Bom gravar esta data: 25/02/2021. 

10 anos de bySuzete

+ de 1080 posts. 14 categorias + 9 sub-categorias. 

Um projeto de curto/médio prazo que se tornou projeto de longo prazo. Assim como tantos outros projetos, o BySuzete.com nasceu com um propósito, que se renovou e se adaptou a novas necessidades e objetivos. De exercício literário transfigurou-se naquilo a que, de fato, ele se destina: um diário. Um espaço que registra tudo aquilo que importa na passagem do tempo. Abandonei-o durante alguns meses quando se abriu uma cratera em minha vida. Percebi o quanto era importante ter este espaço de escrita e o reativei. 

Não escrevo sempre. Escrevo sobre o que gosto, sobre o que faço questão de um dia lembrar. Escrevo sobre arte e artesanato. Psicologia e poesia. Me diversifico nas miniaturas e ideias alheias. Gosto de refletir sobre a vida e meu cotidiano. Gostaria de ter mais tempo e escrever mais. Me diversifico neste temp, quase sempre curto, e exploro curiosidades. Quando releio posts antigos, resgato o que vivi, senti, sonhei, pensei ou fiz, num outro tempo e lugar. Alguns textos mais pessoais, nem sempre caem neste caldeirão bysuzete.com. Melhor assim. Eles que fiquem guardadinhos e seguros onde estão. Às vezes, a poesia os nomeia e os define muito bem. Passa a emoção e o afeto, feito café, e tudo fica bem. 

Do alto dos seus 81 anos, minha mãe, sem saber exatamente o que é um blog,  me aconselhou a fazer um diário. Aconselhou também minha filha, neta, sobrinha e amigos para registrarem suas vidas. Segundo ela, como ela gostaria de lembrar de mais coisas que viveu, fez e sentiu. Muito do que aconteceu  se perdeu com o passar dos dias, semanas, meses e anos. “Minha vida poderia ser um livro” comenta ela. 

A vida de todos nós poderia ser um livro. 

E o Bysuzete.com é este livro digital com cara de diário, ficção autobiográfica, exercício.

Um espaço para existir. Um caminho a seguir.

Intruso

Maltratadas, maltrapilhas, usadas, sujas,

amareladas com sardas cor de laranja,

pretas de pele acinzentada, esbranquiçadas.

Camisetas, jeans, bermudas, pijamas e jaquetas, sapatos e bolsas de couro, carteiras, toalhas e fronhas, lençóis, acolchoados, paredes, prateleiras, armários …

O olhar acerta o alvo. Expiro. Os olhos coçam. Arrasto tudo ao sol.

Me vou junto e me espreguiço por entre as cadeiras

que acomodam de tudo um pouco.

Quem vê de fora e de longe

vê um circo em dia de desmonte, casa alagada em dia de enchente.

Vejo fungos mascarados por toda parte,

resistentes e resilientes, vem e vão, ano após ano,

faxina após faxina.

O tempo passou, ninguém reparou

  • ou cansou de reparar –

À beira mar, a maresia e a brisa que vem do mar, ali, pertinho do olhar,

andam futricando com o bolor e o mofo.

Esta intimidade e fecundação e procriação 

me exasperam.

Se ajudasse, mergulhava a casa inteira no mar.

Não dá. Nem posso.

Resigno-me a expulsar este ilustre intrometido.

Ele volta. Sempre volta. 

Maldito mofo.

Na finaleira

Enfim, depois de quase 3 meses, chegou a hora dos albinhos, fotos soltas, postais e lembranças de viagem … lembranças dos tempos em que as fotos eram analógicas: revela filme + revela foto = poucas fotos boas; muitas fora de foco, fotos preto e branco amareladas, fotos da velha e amadora Instamatic. Sim, eu tive uma!!!!! São fotos e mais fotos. A ideia é olhar todas, organizar e selecionar. Sucatear aquelas que pouco mostram (chãos, verdes, vultos). E depois preencher e completar os albinhos.

Programar a próxima etapa é tarefa para março.

Depressão de verão

Ela existe. Só pra fazer constar. É tema de livro e constatação da realidade de alguns. São poucos. Já que a maioria deprime na escuridão e no frio do inverno. Como se o sol e o calor não pudessem nocautear vivente!!! Põe na lona, sim. 

Uns pensam que é pressão baixa; calor demais; cansaço; stress. 

Poucos percebem-se deprimidos. 

Assim como o verão, este tipo de depressão também passa. 

Dizem os poucos estudiosos atentos ao tema, que a temperatura do sol da estação mais quente do ano, faz mal pra cabeça. Antigamente diziam que o sol cozinhava os miolos. É algo desse tipo. Por isso, suporto o calor debaixo de chapéu, sombrinha ou guarda-sol. Melhor mesmo é se resguardar em casa. Dentro da piscina, banheira ou mangueira. Ar condicionado ou ventilador. Na praia ou na serra. Se puder, evite as cidades, os prédios altos e o asfalto (a não ser que seja pra viajar). Dedique-se ao que vc gosta. Hobbies. Leitura. Crochê. Carteado. Use a inspiração e divirta-se. Pelo menos, evite cobranças desnecessárias. O ano, no Brasil, começa em março, depois do carnaval. Há uma certa sabedoria popular neste início tardio de todos os anos. Seria bom se assim fosse: simples, controlável e acessível a todos. Depressão é doença. Sempre é bom lembrar. Não escolhe gênero, idade, cor nem classe social. Absolutamente democrática.

É evitável? Às vezes. 

Se for depressão de verão, as temperaturas amenas do mês de março + algumas dicas acima podem minimizar seus efeitos. Se for mecanismo de defesa/evitação de problemas, vai passar quando o problema passar, ou mediante terapia. A meu gosto, do tipo psicodinâmica. Nem todo mundo acredita ou investe em autoconhecimento. Eu acredito e faço. E tem as grandes depressões. Do tipo psiquiátrico. 

Seja de qual tipo for, busque ajuda. Pesquise. Trate-se.

Posso não gostar do verão, das altas temperaturas e da luminosidade extrema. Mas a vida merece cor, atividade e atitude suportáveis. Não permita que uma doença, habitualmente controlável, limite sua vida. Troque de médico, de terapeuta, de terapia, de medicação. Faça as mudanças necessárias. Aquelas que berram no seu ouvido e oprimem seu coração. Mudança assusta? E como … demais … nem sempre … depende. 

Lembre-se apenas. A depressão não é um bicho papão. 

Domestique-a.

Controle-se e viva a vida. Jamais esqueça: a vida é bela!!!!

Por onde começar?

Ás voltas com meu atelier, scraps e outras artes, observei a quantidade de material estocado em gavetas, armários, caixas e prateleiras: lãs, linhas, papeis, argila, pastilhas de vidro, etcetcetc. Defini assim que uma das metas deste ano é consumir o máximo deste material. Tem trabalhos iniciados e não finalizados. Tem material comprado que nunca foi utilizado. Hora de organizar a agenda e encaminhar ideias e projetos que se perderam no tempo.

Assim, neste período de limpeza e restauração, reparei vários álbuns de scrap iniciados, inacabados e abandonados. Entre álbuns comuns e antigos, mini álbuns e álbuns de scrap e foto-livros, encontrei 3 caixas de fotos, devidamente separadas e arquivadas naqueles velhos álbunzinhos que as lojas que revelavam e ainda imprimem fotos, costumavam dar de brinde. São fotos de outros tempos e outras tecnologias. Então, exagerada que sou, sei disso, resolvi que deveria digitalizar todas estas fotos antigas. Uma meta megalomaníaca, à princípio, terceirizada. Por ora. O tempo vai me dizer se vou precisar aprender a usar aquele aparelho que digita fotos – o Scanner. Com ele virão outros aprendizados …

Sei que a meta é bem ousada … Ando fora de forma com o scrapbooking. Muitos materiais estão vencidos. Desaprendi como operar alguns equipamentos … Mas, de uma coisa tenho certeza: preciso me organizar e dar o primeiro passo. 

Pq tudo começa assim: planejamento e execução.

Janeiro foi o mês de preparar o Planner: finalizado e em uso.

Fevereiro, a princípio, está reservado para finalizar a reforma e limpeza dos álbuns e fazer um balanço de fotos e álbuns a serem finalizados. Talvez adentre março … Depois deste balanço, finalizar álbuns inacabados é a próxima etapa. Tem os mini-álbuns para o Natal … Nos meus planos, talvez mirabolantes, um álbum por mês, parece meta possível. Talvez seja necessário reavaliar o processo. Bem provável.

Aprendi que é melhor parar, descansar e dar um tempo – em qualquer projeto ou meta determinados – do que desistir. Nada a ver com procrastinação. Apenas um respiro. Aprendi também que preciso de estímulo e cobrança pra fazer as coisas acontecerem. Por isso, um post com o passo a passo do scrap mensal deve servir de registro e estímulo e comprovar o cumprimento da meta.

Clarear do dia

Acordo com o clarear do dia. A persiana fica aberta para que o ar da noite e a brisa do mar refresquem o quarto. Ar condicionado só em emergência de calor extremo, noite sem brisa, sem luar, sem agito. Assim, tem manhã que acordo inspirada e levanto com o sol. Tem manhã que acordo injuriada, baixo a persiana, e tento dormir mais um pouco. Nem sempre consigo levantar nem voltar a dormir. Nem sempre acordo inspirada, nem injuriada. 

Certo é, que acordo sempre com o clarear do dia. 

Consumação

Esta ideia de consumir com tudo:

Das tintas, linhas e papeis;

Panelas, louças e roupas;

Móveis, tapetes, lustres e livros;

Equipamentos, eletrônicos, Cds, DVDs;

O esgotamento.

A dilapidação e extinção do que delimitou dias e noites da própria existência: 

os sonhos e as ambições.

A dissolução da própria existência.

Misturada que sou à história de tudo e 

todos, que me tornaram este eu apegado e atrelado,

sucumbi ao ouvir herdeira minha dizer:

que desse eu destino à tantas exigências,

a tantas extravagâncias, providências e provas de existir.

Muambeira e sucateira. Arteira. Empilhadeira da arte de viver … 

Sim, se não me apressar

alguém um dia colocará um ponto final, onde insisto colocar pontos e vírgulas.

A antessala do fim. O epílogo de uma vida. 

O arremate final não será meu. Se assim eu deixar acontecer.

Por ora, transformo camisetas em panos de chão;

Armários são reorganizados; espólios doados; 

Especifiquei herdeiros de joias e livros; arte e móveis antigos;

  • tudo ainda amadoristicamente pensando –

Pois é esta a realidade da vida. 

Um dia tudo acaba. 

E, se não quiser que outros consumam com tudo que fui e lutei …

Ainda não ando exatamente atenta aos fatos e atos

O que existe é a ideia. A certeza.

O resto ainda é, 

pura especulação.

Já é um começo do fim.