Estremeço

Venta lá fora

As portas tremem, balançam as palmeiras.

O uivo lareira abaixo é fantasmagórico.

Vento odioso e tenebroso, estremeço.

O corpo se contrai, pressente o perigo.

Imprevisível e rabugento, ele arrasta tudo,

sem dó nem piedade. Me afundo na cama.

O frio vem misturado nele. A noite gela.

Antes dele, dormi com a noite de trovoadas e raios.

Amo os dois:

O ronronar das nuvens que se chocam,

a claridade que explode.

A infância me inunda misturada de chuva.

Um misto de fascínio e exultação é o que sinto.

Uma força maior rege a todos:

O vento, raios e trovões, a chuva e, eu.

Será que São Pedro está fazendo faxina lá no Céu?

Balançando

Gosto de abrir a janela e ver o sol nascer, o horizonte, a imensidão do vale,

o rio que corre encaixado na paisagem:

da sacada, do quarto de casa.

Esta é a cena matinal que me desperta para o dia. Para um bom dia.

Gosto do verde que me cerca.

Do contorno das montanhas ao fundo do vale.

Dos telhados das casas vizinhas. Gente que conheço de outra vida.

De uma vida aqui vivida.

Neste meu refúgio eterno.

Continuo refugiada,

confinada na minha insegurança e indecisão.

 

Hoje não abri a janela. O sol bate nas venezianas. Me convida a sair.

Hoje não. Hoje vou lamber minhas dores.

O vento que balança as palmeiras, os plátanos e os pinheiros,

hoje balança minhas emoções.

Hoje,

a escuridão me aconchega melhor.

Puxadores antigos

Comentei sobre a mega operação/faxinão/repaginação realizada na casa da minha mãe e sobre as antiguidades que lá encontrei. Se não comentei, deixa comentar e mostrar agora. Pra começar vou falar dos puxadores. Céus, adoro puxadores antigos. Por conta desta adoração me apropriei de todos os puxadores que encontrei (óbvio que minha mãe consentiu, até porque não tinha onde colocar na casa dela. Estes puxadores foram retirados de móveis que se perderam para os cupins. Tipo vão-se os dedos, ficam os anéis = puxadores)). Sorte a minha ter um móvel precisando de puxadores novos.

PUX1

Antigos, melhor dizendo. São tantos os puxadores e tantas as possibilidades que ainda vou experimentar outras opções. Acredito na combinação perfeita.

Promessa antiga

Há alguns anos prometi à minha mãe que colocaria a casa dela em ordem; tipo, além da faxina, uma boa organização em todos os ambientes, restauração, doação e sucateamento do espólio de toda a vida. Como ela gosta de dizer, é herdeira de três gerações, teve uma loja e não liquidou o estoque. Ou seja, a casa da minha mãe, além de imensa, é um verdadeiro tesouro a ser reivindicado. Com a decisão de dar suporte à ela, neste período de COVID19, sabia que teria tempo para a empreitada. A questão inicial era por onde começar. Comecei por aquilo que dependia do calor do sol. Estávamos no final de março, início de abril. E lá fui eu descer cortinas, colchas, cobertores, edredons, roupas, tapetes, almofadas, cúpulas de abajour, calçados, bolsas, etcetcetc. Enquanto isso secava ao sol, escolhi iniciar pelo quarto que me acomodaria neste período. O processo se repetiria em todos os ambientes da casa: esvaziar gavetas e prateleiras, checar a presença de cupins, tratar, dar acabamento; selecionar e organizar o material (lavar, mandar pra costureira ou sapateiro, mandar consertar, doar, sucatear); passar óleo de peroba ou lustra-móveis ou tinta, aspirador de pó, pano úmido, etcetcetc. Alguns ambientes foram repaginados. Outros tiveram móveis restaurados. As flores de seda lavadas e transformadas em belos arranjos.A garagem voltou a acomodar dois carros. Os porões passaram por uma varredura minuciosa. Muita coisa foi queimada ou posta na lixeira, sob o olhar atento da dona que revisava item por item o que eu decidia sucatear. Tenho de reconhecer: alguns itens foram desviados desta inspeção. Mas diferentemente do que havia planejado, mantive grande parte dos seus objetos. Preferi respeitar o desejo e não teimar/brigar para que ela se desfizesse de objetos inúteis carregados de recordações. Na casa tem espaço e só bati o pé com relação à moveis tomados por cupins (queimados) e eletrodomésticos sem serventia alguma (encaminhados ao ferro velho). Estamos na reta final. E lá se vão quase 3 meses, de terça à sexta-feira (com 3 pequenas interrupções) cinco horas diárias de trabalho. Mais quatro semanas e a parte interna da casa deve estar finalizada. Talvez seis semanas. Minha mãe gostou tanto do resultado que me escalou para ajudá-la a reinventar o imenso jardim que circunda a casa. Algo pra mais adiante. Projeto para um ano, já que a ideia é gastar o mínimo possível, do jeito que foi repaginar o interior da casa.

O que ando lendo

Estou empacada no livro “Lavoura Arcaica” de Raduan Nassar. O livro é ótimo, mas o estilo tem me cansado. Os parágrafos longos, de várias páginas, com uma sucessão de temas, nomes, sentimentos e fatos, exigem uma atenção redobrada. Um requisito em falta neste momento. É recorrente reler páginas – já recomecei a ler o livro duas vezes – por falta de atenção. As guinadas do narrador são frequentes, e quando vejo estou absolutamente perdida no texto e no contexto do livro. Aliás, 2020 não tem sido uma ano profícuo para a leitura. Nem para a escrita. A agitação política, social e de saúde pública, com a COVID19, tem me afetado mais do que gostaria. Em compensação tenho produzido muito. Gosto de dizer que estou realizando em 2020 o que estava programado para 2019.

De qualquer forma, alguns livros tem saído das estantes e alegrado meus dias mais introspectivos. Por enquanto, esta é a lista de livros lidos no ano:

  1. a bruxa não vai para a fogueira neste livro – amanda lovelace
  2. Vidas Provisórias – Edney Silvestre
  3. Drácula – Bram Stoker
  4. Hamlet – Willian Shakespeare
  5. Esboço – Rachel Cusk
  6. A sabedoria da natureza – Roberto Otsu
  7. A garota do lago – Charlie Donlea
  8. O talentoso Ripley – Patricia Highsmith
  9. A Uruguaia – Pedro Mairal
  10. A hora da estrela – Clarice Lispector
  11. O reino do dragão de ouro – Isabel Allende
  12. Terapia do chocolate – Cathy Lamb
  13. Lavoura Arcaica – Raduan Nassar (finalmente concluído)
  14. Detetives Selvagens – Roberto Bolaño (em andamento)

 

 

Um charme extra

Às vezes, basta uma pincelada displicente, um puxador moderninho ou um detalhe qualquer pra transformar aquele móvel sisudo, num móvel encantador.

Às vezes, o efeito tão desejado é obtido por acaso. Quando decidi pintar a penteadeira de azul, desisti de lixar o acabamento em verniz que já havia no móvel. Pensei que pintando três demãos de tinta iria dar conta do recado. Ledo engano. Ao passar um pano para limpar a peça, em vários pontos a tinta se soltou. Amei o resultado, e fiz do acaso, algo planejado. Dei o efeito desgastado exatamente nos lugares que queria. Hoje, passado mais de um ano, a tinta secou, e por mais que esfregue, ela não solta mais. Só lixando mesmo.  Às vezes, até cortar as pernas da mesa de jantar e transformá-la numa mesa de centro é suficiente para reaproveitá-la melhor (óbvio que guardei os pedaços das pernas, caso um dia precise dela para atender na copa ou na cozinha). Existem colas capazes de colar o céu e a terra (sei do que estou falando). Por precaução, até guardei pastilhas de vidro adequadas para dar o acabamento necessário, e ninguém jamais, perceberá que aquela mesa, um dia, teve suas pernas cortadas.

ma5O mundo da restauração é cheio de pequenas surpresas e grandes milagres. Pode confiar. E se você não encontrar alguém que faça para você, arregace as mangas e faça você mesmo. Você vai ver que é fácil. Trabalhoso. E muito gratificante.

 

 

E não é que esqueci do mosaico?

Aprendi a fazer mosaico na mesma época em que aprendi scrapbooking. Ambos na Casa da Arte, no Brooklin, em São Paulo. A primeira peça que fiz é até hoje a minha preferida: a mesa de apoio com galhos de bambu, com pastilha de vidro.

 

Vieram caixas, bandejas, mandalas, outro tampo de mesa, e agora, mais um tampo. O material usado inclui pastilhas de vidro (ou azulejos), alicates apropriados, lixa, pinça, cola Cascorez, uma base, e para finalizar, rejunte de azulejo. Foi o que aprendi a fazer. Existem outras técnicas e outros materiais. Me contentei com o básico. Até houve uma tentativa de aprender a fazer o mosaico indireto (aquele em que vc cola a pastilha de vidro/azulejo num papel/tela, e depois de concluído o mosaico, o aplica na base escolhida, finalizando com rejunte). Era um projeto com o fundo do mar e muitos peixes para a beira da piscina. Desisti na segunda aula. Percebi o tamanho da empreitada, o atelier era longe e não gostei de troço todo colado ao contrário. Deu um tilt no meu cérebro. No mosaico convencional fiz um sem número de utilitários para uso próprio, dei de presente outro tanto e depois, aposentei o material. Mas antes, comprei um pequeno estoque de pastilhas de vidro. Sabia que um dia voltaria a mosaicar.

Percebo este movimento entre as artes que faço. Aconteceu com a pintura. Acontece com o scrapbooking. Conforme o conflito que estou vivendo, escolho uma forma de arte distinta para atravessar o período. E o mosaico me reporta a colar cacos. Picar, lixar, encaixar, colar. Há de ter raiva e delicadeza. Força e paciência.O período passa. O mosaico fica.

Este é o tampo em andamento. A ideia é uma mesa para a copa. Colorida e alegre como a vida deve ser.

Aquele armário antigo …

… passou por mais um processo de restauração caseira. Tô ficando boa nisso … Após remover toda a tinta esmalte e acrílica com produto específico + espátula, descartei as portas (carcomidas e infestadas de cupim) e transformei o armário numa grande prateleira para acomodar a maioria dos meus materiais artísticos e artesanais. Pintei com tinta acetinada branca e dei acabamento provençal, com quinas e vincos lixados com lixa grossa, coloquei prateleiras em fórmica branca (de fácil manutenção) e alguns aramados. Ficou prático e espaçoso.

A4

Nele acomodo todo material para fazer velas, cerâmicas, aromatizadores, pintura, roupas e acessórios para o fazer artístico.  Às vezes, uma mudança radical pode dar certo. Tirei o armário do quarto e o levei ao depósito. Trocando de lugar e de função, pude aproveitar o armário da vó Angelina da melhor forma. Caso contrário, ele acabaria sim, na fogueira.

 

A quantas andam minhas cerâmicas

Nem preciso dizer que 2020 ainda não aconteceu no quesito cerâmicas. Iniciei o ano cheia de ideias (normal) mas as aulas presenciais ainda não começaram. Terminei 2019 super-hiper-mega-motivada para operar o torno. Fato que ainda não aconteceu e com poucas possibilidades de acontecer no decorrer deste ano. Por outro lado, consegui acomodar um pequeno atelier de cerâmica no meu depósito e já fiz as primeiras peças. Ainda não finalizadas, nem biscoitadas.

 

Isso sim, culpa do COVID19. Com as notícias alarmantes da pandemia, “fui de mala e cuia” ao RS para dar suporte à minha mãe octogenária. Tem sido um ir e vir entre o RS e SC. Retornando à Floripa espero conseguir fazer a primeira queima. Quem sabe, finalizar as peças. Por enquanto o que sei do atelier de cerâmica frequentado em  2019, é que todos (exceto eu que estou no RS) retiraram seus materiais. E alguns, tem feito aulas online, tipo lives. Prefiro aguardar o segundo semestre. Quem sabe, agosto nos propicie enfim, a retomada das aulas presenciais. E o torno, eu sei, não vai fugir.

 

 

DI na Casa da Cultura e CIC

A terceira e quarta edição da exposição Diálogos do Inconsciente aconteceu respectivamente, na Casa da Cultura, em Lajeado/RS, e no CIC, Florianópolis/SC.

A versão dos DI na Casa da Cultura de Lajeado, teve a participação da amiga Márcia Morais, com telas de realismo clássico. A exposição “Imagens do Tempo” teve por objetivo mostrar como o Expressionismo Abstrato compõe bem com o Realismo Clássico. Quem viu, adorou.

A quarta e última exposição, aconteceu no CIC (Centro Integrado de Cultura) em Florianópolis/SC e foi uma grata surpresa. Mesmo acontecendo em janeiro, período de férias, a visitação surpreendeu. O espaço cedido foi maravilhoso. E a disposição das telas, perfeita. Diferente de todas as outras exposições, nesta abri mão do coquetel de abertura. Uma decisão acertada.

Flores de seda

Tem quem goste. Minha mãe adora. Todos os anos, no período de Finados, acompanho minha mãe nas compras de flores e arrumação dos túmulos da família. Uma tradição alemã. Quando posso, participo de todo o processo: da compra das flores à limpeza, feitura e arrumação dos arranjos. Além desta utilização, minha mãe tem alguns arranjos de flor de seda distribuídos pela casa, sem contar as flores sobressalentes que ela leva a possíveis velórios e enterros de amigos, parentes e conhecidos. Fúnebre, eu sei. Mas, é esta a realidade.

Quando decidi repaginar a casa da minha mãe, durante a pandemia da COVID19, juntei tudo que encontrei de flores de seda esparramadas pela casa. As flores novas/sem uso foram para um vaso aguardando velórios e enterros futuros. “Preciso disso” sentenciou minha mãe. As flores usadas foram para uma bacia (tamanho GG) e ficaram de molho em água e sabão em pó, por aproximadamente 2/3 horas. Uma leve escovada pra começar. Depois enxaguar em água corrente. Por fim, deixar secar de ponta cabeça, de um dia para o outro, em algum lugar ventilado e apropriado. Depois de limpas e secas, decidi fazer arranjos de flores de seda e distribuí-los pela casa.

Primeiro passo: definir os ambientes e os vasos;

Segundo passo: preencher o interior dos vasos com jornal velho, sacos plásticos ou qualquer material que ajude a definir a altura do arranjo. Usei argila (comprada em floricultura) e coloquei sobre este preenchimento, deixando de 3 a 5 cm da borda do vaso. Assim, o arranjo não fica engolido pelo vaso;

Terceiro passo: Selecione as flores por cores e tamanhos de caules. Usei as flores de caule mais longo no centro do arranjo e fui preenchendo com flores de tamanhos médios e pequenos, até que o arranjo estivesse bem preenchido e colorido.

Quarto passo: verifique o arranjo em 360 graus. É bom que ele fique simétrico de qualquer ângulo em que for visto. Não economize nas flores de preenchimento. Fique atento para o efeito decrescente, tipo escada, das flores.

Quinto passo: refaça o arranjo tantas vezes quantas for necessário. Nem sempre o arranjo sai perfeito nas primeiras tentativas. Mas, vale à pena tentar.

Porque o resultado pode surpreender.

Sobre o crochê e o tricô

Poderia culpar a COVID19 por não estar fazendo muito crochê. Ou tricô. Não, não é por conta do corona vírus. Já era decisão tomada não dar continuidade ao curso de crochê em 2020. Continuo fazendo meus souplats de presente e retomando a manta de doação do ano apenas como passatempo para minhas mãos inquietas. Imagino que as aulas não estejam acontecendo, já que o grupo de whatsapp está quieto. Outros projetos tem me desafiado e ocupado mais. Outros começam a despontar para breve. Importante é saber a hora de começar e também, a hora de terminar.  Fazer só por fazer ou para estar no grupo, para mim, não é a melhor opção. Consigo levar adiante o que me estimula e me apaixona.

Dica importante para a cadeira e a espreguiçadeira é fixar a capa de tricô sobre a lona pré-existente. Se usar só o tricô, ele certamente irá ceder e impossibilitar o uso dos móveis.