O pior de mim

Conheci Josélia há exatos 5 anos. Na época, eu era uma recém-formada cheia de sonhos e planos. Minha primeira meta era a especialização em Integração Sensorial para melhor atender as crianças autistas, minha clientela na APAE de Blumenau. Às vezes, na vida, coisas boas vem junto com coisas ruins. Josélia apareceu na mesma época em que perdi meu pai, assassinado com catorze facadas, numa madrugada fria, no ferro velho em que morava sozinho, na periferia de Curitiba. Meu pai é uma assombração eterna. Desde sempre, a simples menção a seu nome, Josué, causa calafrios em tudo e todos. Que o diga a família da minha mãe, que desde o primeiro momento, foi categoricamente contra o relacionamento dos dois. Mas, minha mãe estava apaixonada. De quatro por ele. Engravidou. Casou. Ele ficou desempregado e montou uma Oficina Mecânica. Vendeu automóveis roubados e muito mais, é o que deduzo, pela pena de 35 anos em regime fechado, e agora, este violento e sangrento assassinato. Não gosto de lembrar do que vivi por causa deste amor maldito. É coisa do passado, da qual sou mera consequência.

Aprendi a lutar por tudo que quero e preciso, por necessidade. Não queria a vida que minha mãe, por culpa ou vergonha, atraiu para si. Seu olhar é uma súplica, e ao mesmo tempo, um engodo. No fundo, o que a manteve viva foi a piedade alheia. E foi esta piedade, o prêmio de suas escolhas. Um amor bandido. Um negro como marido, um tapa na cara de sua família italiana apostólica romana. Conheço a dor de minha avó Antonella. Se ela se envergonha das escolhas da filha? Não. Não mais. As netas foram o bônus maior de tudo que aconteceu. E ter a vida da filha no cabresto e rédea curta, tem dado a ela a sensação de importância e razão. Mesquinho da parte dela, mas, absolutamente verdadeiro. E é justamente por causa da minha avó que me tornei quem sou.

Por isso, quando Josélia comentou da atrocidade do pai, ao internar sua avó, mãe de sua mãe, num asilo de quinta categoria em Curitiba, não aguentei. Assim como minha mãe, também a mãe dela desceu ao inferno por causa de um amor maldito. Mas diferente da minha mãe, a mãe dela morreu. Morreu por confiar naquele homem asqueroso, que de tanto traí-la, a contaminou com AIDS.

Visito Josélia e a vó de vez em quando. São um quarto barato em Curitiba.

Diferente de mim, Josélia é um doce de pessoa. Talvez a exposição dela ao amor de um homem e uma mulher não tenha tido consequências tão abomináveis quanto eu tive.

Já tentei amar. Não consigo. O fogo que me fez nascer me queimou. Esturricou qualquer forma de relação com os homens. Já tentei o amor homo e bissexual. Nenhum me satisfaz. O que me satisfaz é pendurar as crianças de ponta cabeça no meu consultório, ver o pavor naqueles olhos idiotas, ver suas mães desesperadas pela cria que trouxeram ao mundo, os pais embasbacados com a confusão generalizada em suas casas e seus casamentos. Meu prazer maior.

Sou filha do amor bandido da minha mãe e dos crimes do meu pai, criada entre segredos e sussurros. Sobrevivi a todos me tornando quem sou.

Posso parecer neurótica. Psicótica talvez. Sei que não faço mal a ninguém. Jamais machucaria alguém. Aquelas crianças dependuradas estão mais seguras comigo do que em seus apartamentos sem telas de proteção. Meu prazer é silencioso e cuidadoso. Basta olhar os absurdos que a raça humana faz com suas vidas, em nome do amor. Homens e mulheres tornam-se imbecis em suas Ferraris e minissaias. Loucos e pervertidos. Vão continuar gerando autistas. Porque somos todos autistas, egoístas de olho no próprio umbigo, no próprio prazer. Eu não. Como fruto da idiotice, nasci imunizada ao amor. Graças a meus pais.

Obrigada vovó. Sobrevivi aos desatinos de todos. Aos seus, inclusive.

Blog pessoal

Tenho recebido pedidos via Gmail para abrir meu blog para a versão pública. Optei pelo blog pessoal, particular, algum tempo atrás. E tenho adorado esta modalidade. Além de poder escrever absolutamente sobre tudo que quero, reviso os textos quando tenho vontade e vejo os posts ajeitadinhos e exclusivos. Um dia poderei publicar o conteúdo que quiser, ou então, fazer uso do blog para aquilo que ele, de fato, serve. Um espaço de escrita. Treino. Lamento. Exercício. Desabafo. O registro e documentação do meu tempo.

Te juro

Fazer comentário político no Facebook é certeza de incomodação. Infelizmente, tenho amigos virtuais que comentam irônica ou agressivamente na minha página, quando faço comentários contra o PT ou a favor do presidente Bolsonaro. Cada vez menos, mas, ainda de vez em quando. Tenho usado a estratégia de deixar quieto. Não respondo, não explico, nem me justifico. Eles na deles e eu na minha. Ontem assisti o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, cotado para o Oscar de melhor documentário e fiz o post usando uma matéria do site Jornal da Cidade Online: Assisti o documentário esquerdista ontem. Olhe e tire suas conclusões. Afinal, está concorrendo ao Oscar. E aí encontro o comentário do Bial. “É uma menina querendo dizer para a mamãe dela que ela fez tudo direitinho, que ela está ali cumprindo as ordens de mamãe, a inspiração de mamãe. ‘Somos da esquerda, somos bons. Nós não fizemos nada de errado.” Psicanalítico, não?

Óbvio que apareceram as esquerdistas de plantão e alfinetaram:

‪- Ui! E eu, que venho de uma família de direita, devo ser esquerdista só pra desagradar mamãe! Ai ai.

  • – eu também!!!

– Seguimos desagradando. Essas rebeldes que somos por querer um mundo mais justo e igualitário, menos preconceituoso e limitado.

Te juro, só não bloqueei por detalhe. E pq acredito que é bom saber o que a esquerda pensa e comenta. Isto me dá a medida de como anda o pensamento deste povo sequelado.

Às vezes penso que seria melhor não postar nada sobre política e só postar as bobagens de sempre. Daí me dou conta que tenho tanto direito quanto qualquer um de opinar sobre o assunto que eu quiser.

Uau. 277 (duzentos e setenta e sete) palavras escritas. A meta é de 100 (cem) palavras escritas por dia. Superei a meta (na verdade, com estas palavras, tripliquei a meta) e ainda desabafei.

Calor de verão

Sobre cansaço já falei muito. Escrevi outro tanto.

Sobre exaustão também.

Verdade verdadeira é que sou exagerada,

cheia de ideias, vontades e desejos.

Verdade é esta incapacidade de lidar com limites.

Os próprios. O dos outros. E limite importa:

Senão a gente se entorta e se esgota.

O corpo reclama. Dói. A alma encolhe. Dorme.

O sono avança. Consome.

Ando às voltas, pra variar, com zanga de verão.

E eu na contagem dos dias.

Ao menos, menos um. Quantos dias faltam?

O outono se aproxima. Vixe Maria. Uma benção.

Depois vem o inverno. E então, a primavera. Puro deleite.

E do nada, lá vem o verão sorridente de novo.

Todo ano é a mesma coisa. O mesmo desconforto. Físico. Mental. Emocional. Social. Astrológico. Biológico. Transcendental. Imagético. Estrutural. Gutural. Cibernético. Natural e cíclico.

E eu, eterna desadaptada estacional. Vou sobrevivendo.

 

 

 

 

 

Resuminho

Fevereiro chegou. Chegou também, e já foi, minha amiga Márcia Morais. Já fui e já voltei de SP deixando o apartamento do Felipe, centímetro por centímetro, limpo e organizado. Montei no início de janeiro, e hoje, início de fevereiro, desmontei a quarta edição da exposição Diálogos do Inconsciente. O espaço do CIC não poderia ser melhor: espaçoso, claro e bem localizado. As telas, embaladas em plástico bolha, agora, jazem esparramadas pela sala esperando nova disposição pelas paredes. A ideia é remanejá-las. Mas, ao chegar em casa, caí por nocaute e eis-me demolida sem iniciativa no sofá. Sim, estou exausta. A viagem à SP, a visita de uma semana, o calor, a retomada do consultório, os excessos etílicos, a gulodice diária, a trilha pela Costa da Lagoa da Conceição, as noites entre amigos e papos-cabeça me deram uma surra. Preciso de uns dias de leitura e escrita, silêncio e solidão. Amanhã é um novo dia. Depois de amanhã também. E depois. E depois, também. Quem sabe amanhã!!!!

O melhor de cada um

Conheço Janaína há alguns anos. Da época em que íamos juntas, uma vez por mês, de ônibus, de Blumenau a Curitiba. Enquanto ela ia para a residência no Hospital Universitário da UFP, eu ia visitar minha avó, internada num asilo para pessoas idosas.

Desde a primeira vez que sentamos juntas, a história de Janaína, mexeu muito comigo. Uma mulata 6:30h, com cabelo afro, desabou a meu lado, na minha primeira ida à Curitiba. Estava indo ver minha avó, escorraçada de casa por meu pai, sem que eu conseguisse fazer nada pra evitar esta desgraça familiar. Ai de mim se me opusesse à decisão dele com relação à mãe de minha falecida mãe. Com muito custo, economizei o dinheiro da passagem + a noite num hostel, para dar apoio à minha avó, inconformada com a morte da filha, a ingratidão do genro e a fragilidade da neta. Fazia então, o que achava ser o meu melhor.

Mal Janaína sentou a meu lado, começou a falar sobre sua formação em terapia ocupacional, a especialização para atender crianças autistas e o quanto amava o que fazia.

  • E você, faz o que?
  • Sou professora. Dou aula pra primeira série numa escola municipal de Blumenau.
  • Você gosta do que faz?
  • Gosto.

Janaína me metralhou com tantos o que, quando, porque, onde, quantos, que fiquei zonza em menos de 15 minutos.

  • Tô te cansando né?
  • Mais ou menos. Me fala um pouco de você.

Reparei uma dor avassaladora dominando seu semblante. As mãos retorcendo. O corpo contraindo.

       –     Você está bem?

  • Estou triste.
  • Posso ajudar?
  • Meu pai faleceu no fim de semana passado.
  • O que aconteceu?

E Janaína falou. Falou sobre o pai que morava num ferro velho, na periferia de Curitiba. Um presidiário em liberdade condicional, condenado a trinta e cinco anos de cadeia. Não, ela não sabia porque o pai estava preso. O assunto era um tabu. Ninguém falava nada sobre o assunto. Nem a avó de Janaína, nem a mãe. Nem mesmo o pai. Com sua morte, ou melhor, com as quatorze facadas que lhe tiraram a vida, este segredo teria de ser revelado. Afinal, os parentes de Josué, seu pai, poderiam estar correndo risco de vida, visto a violência com que ele foi assassinado, dizimado, eliminado. Sua mãe, Ivone, estava em choque. Não acreditava no destino cruel do grande amor de sua vida. Apesar de separados, Janaína tinha certeza do amor shakesperiano dos pais.

  • Minha mãe é branca. Meu pai era negro. Imagina o que foi o amor dos dois!
  • Um Romeu e Julieta inter-racial. Eles estavam separados desde quando?
  • Eu tinha sete anos quando meu pai foi preso. Era muito menina ainda.
  • Sua mãe casou de novo?
  • Não. Minha mãe juntou eu e minha irmã e se mudou pra casa de minha avó. Foi ela e meu tio que nos ajudaram durante todos estes anos.
  • Sua avó ainda vive?
  • Vive sim. Minha mãe ainda mora com ela e minha irmã.
  • E você saiu de casa?
  • Saí. Eu não queria repetir a história de pobreza e discriminação da minha família. Sei o que é depender do dinheiro e da boa vontade dos outros. Em Blumenau, uma afrodescendente como eu, precisa mostrar o quanto é boa pra ser aceita.
  • Sua mãe deve ter orgulho de você.
  • Acho que sim. Ela sabe o quanto me esforço, trabalho e economizo. Depois da especialização que estou fazendo na UFP, vou comprar um apartamento. Depois, uma sala. É. Tenho muito trabalho pela frente.

Fiquei impressionada com a história da Janaína. Mais impressionada ainda, fiquei com a determinação e os sonhos de sucesso da crioula do cabelo crespo. Ela foi uma inspiração para mim. Ao longo destes últimos anos, também eu me meti a trabalhar mais e estudar mais. Saí da casa do meu pai. Aluguei um apartamento em Curitiba onde vivo com minha avó. Ela ajuda a pagar as contas, como a avó da Janaína ajuda. Hoje sei que faço o melhor que posso.

E Janaína é sempre muito bem vinda em nossa casa.

Os livros que li em janeiro

  1. Vidas Provisórias, de Edney Silvestre;
  2. Drácula, de Bram Stoker;
  3. Hamlet, de Willian Shakespeare;
  4. a bruxa não vai para a fogueira neste livro, de amanda lovelace.

Além destes, iniciei e ainda não terminei:

  1. Esboço, de Rachel Cusk;
  2. A sabedoria da Natureza, de Roberto Otsu;
  3. O poder do jardim, de Roberto Araújo;
  4. A culpa é dos planetas, de Stella Hyde.

Estão empatados livros lidos finalizados e livros não finalizados. O interessante é a variedade dos temas: literatura nacional e internacional, clássicos antigos, paisagismo, astrologia e taoísmo. A ideia é finalizar todos. A lista dos comprados, indicados e recomendados não para de crescer. E assim, a lista dos livros de 2020 começa a trilhar seu próprio chão.