Livros chatos

Ando cansada de ler livros chatos. Consegui a façanha de sequenciar dois livros chatos, depois de ler outros dois livros chatos. Fevereiro foi uma chatice em termos literários. Quatro livros chatos. Talvez seja eu a chata do mês. Felizmente o chato do verão está indo embora. Espero que a chatice de tudo e todos se abrace ao verão, pegue carona e suma. Só pra deixar claro: li quatro livros em fevereiro. Todos chatos.

Final de tarde

Enquanto lia “Clarice Lispector – Pinturas” de Carlos Mendes de Sousa,

o corpo cansado e dolorido descansava no estaleiro chamado cama.

O dia foi de arrumação e limpeza. Tipo excessivamente trabalhoso.

À minha volta, tapetes de caixas, roupas e calçados…

Deveria arrumar, sei disso. Mas, não dá. Blá-blá-blá, blá-blá-blá.

Vamos dar um mergulho? Caminhar? Sair de casa? Convida meu marido.

Levanto. A lombar grita. Os joelhos estralam …

Vamos. Vamos caminhar.

As pernas protestam. 

Os braços balançam abobalhados como eu. Eu e minha vontade.

Sim. Vamos. Vamos caminhar sim. 

Jurerê, terça-feira, 23 de fevereiro de 2021, 

em plena pandemia de COVID19, final de dia e temporada. 

São poucos os caminhantes,

poucos são os banhistas e turistas.

A maré está baixa. 

O mar cinza espelha o céu nublado e mal ondula no horizonte.

Caminhamos ao Il Campanário, um pouco mais … Regressamos. Suamos. Cansamos.

Jogamo-nos ao mar de águas mornas e ondas serenas.

Alguns peixes cambalhotam em volta, de olho num cardume de peixinhos em trânsito.

Compreendo as pinicadas e tropeçadas destes minúsculos seres,

devem estar apavorados com os peixões que nos cercam, batendo em retirada.

Batendo em nós também.

Me distraio com o sol que começa a baixar por entre nuvens e montanhas.

Sublime como todo por do sol,

o por do sol em Jurerê, com a Fortaleza de São José da Ponta Grossa,

  • vulgo forte da Praia do Forte – e a montanha, atiçam o olhar.

De repente, num virar de corpo e piscar de olhos

surge, rente ao horizonte, a um dedo do agora, mar azul petróleo, gaivinas do mar anãs.

Quem sabe são gaivinas de faces brancas ou gaivinas de asa branca, 

talvez gaivotas do bico preto. 

Não sei ao certo. Sou péssima conhecedora de pássaros. 

Se tem penas, bico e asas é pássaro. Qualquer pássaro.

Mas, que pássaro seria aquele, que, em bando, vários bandos,

mais de vinte bandos, pareciam regressar, em bandos, para um mesmo lugar?

Continuei pesquisando que pássaro era aquele. Tem penas, bico e asas … (Descobri que eram talha-mares, conhecidos também como corta-água, talha-mares-pretos, corta-mar, bicos-rasteiros, gaivotas-de-bico-tesoura ou paaguaçus. Ou, como diriam no Pantanal, taiamãs).

O que sei, de verdade, é que tanto eles quanto nós, precisavam retornar.

Voltar pra casa foi o espetáculo daquele final de tarde.

Voltar pra casa deveria ser sempre um grande espetáculo.

Também nós retornamos.

10 anos de bySuzete

Bom gravar esta data: 25/02/2021. 

10 anos de bySuzete

+ de 1080 posts. 14 categorias + 9 sub-categorias. 

Um projeto de curto/médio prazo que se tornou projeto de longo prazo. Assim como tantos outros projetos, o BySuzete.com nasceu com um propósito, que se renovou e se adaptou a novas necessidades e objetivos. De exercício literário transfigurou-se naquilo a que, de fato, ele se destina: um diário. Um espaço que registra tudo aquilo que importa na passagem do tempo. Abandonei-o durante alguns meses quando se abriu uma cratera em minha vida. Percebi o quanto era importante ter este espaço de escrita e o reativei. 

Não escrevo sempre. Escrevo sobre o que gosto, sobre o que faço questão de um dia lembrar. Escrevo sobre arte e artesanato. Psicologia e poesia. Me diversifico nas miniaturas e ideias alheias. Gosto de refletir sobre a vida e meu cotidiano. Gostaria de ter mais tempo e escrever mais. Me diversifico neste temp, quase sempre curto, e exploro curiosidades. Quando releio posts antigos, resgato o que vivi, senti, sonhei, pensei ou fiz, num outro tempo e lugar. Alguns textos mais pessoais, nem sempre caem neste caldeirão bysuzete.com. Melhor assim. Eles que fiquem guardadinhos e seguros onde estão. Às vezes, a poesia os nomeia e os define muito bem. Passa a emoção e o afeto, feito café, e tudo fica bem. 

Do alto dos seus 81 anos, minha mãe, sem saber exatamente o que é um blog,  me aconselhou a fazer um diário. Aconselhou também minha filha, neta, sobrinha e amigos para registrarem suas vidas. Segundo ela, como ela gostaria de lembrar de mais coisas que viveu, fez e sentiu. Muito do que aconteceu  se perdeu com o passar dos dias, semanas, meses e anos. “Minha vida poderia ser um livro” comenta ela. 

A vida de todos nós poderia ser um livro. 

E o Bysuzete.com é este livro digital com cara de diário, ficção autobiográfica, exercício.

Um espaço para existir. Um caminho a seguir.

Intruso

Maltratadas, maltrapilhas, usadas, sujas,

amareladas com sardas cor de laranja,

pretas de pele acinzentada, esbranquiçadas.

Camisetas, jeans, bermudas, pijamas e jaquetas, sapatos e bolsas de couro, carteiras, toalhas e fronhas, lençóis, acolchoados, paredes, prateleiras, armários …

O olhar acerta o alvo. Expiro. Os olhos coçam. Arrasto tudo ao sol.

Me vou junto e me espreguiço por entre as cadeiras

que acomodam de tudo um pouco.

Quem vê de fora e de longe

vê um circo em dia de desmonte, casa alagada em dia de enchente.

Vejo fungos mascarados por toda parte,

resistentes e resilientes, vem e vão, ano após ano,

faxina após faxina.

O tempo passou, ninguém reparou

  • ou cansou de reparar –

À beira mar, a maresia e a brisa que vem do mar, ali, pertinho do olhar,

andam futricando com o bolor e o mofo.

Esta intimidade e fecundação e procriação 

me exasperam.

Se ajudasse, mergulhava a casa inteira no mar.

Não dá. Nem posso.

Resigno-me a expulsar este ilustre intrometido.

Ele volta. Sempre volta. 

Maldito mofo.

Na finaleira

Enfim, depois de quase 3 meses, chegou a hora dos albinhos, fotos soltas, postais e lembranças de viagem … lembranças dos tempos em que as fotos eram analógicas: revela filme + revela foto = poucas fotos boas; muitas fora de foco, fotos preto e branco amareladas, fotos da velha e amadora Instamatic. Sim, eu tive uma!!!!! São fotos e mais fotos. A ideia é olhar todas, organizar e selecionar. Sucatear aquelas que pouco mostram (chãos, verdes, vultos). E depois preencher e completar os albinhos.

Programar a próxima etapa é tarefa para março.

Depressão de verão

Ela existe. Só pra fazer constar. É tema de livro e constatação da realidade de alguns. São poucos. Já que a maioria deprime na escuridão e no frio do inverno. Como se o sol e o calor não pudessem nocautear vivente!!! Põe na lona, sim. 

Uns pensam que é pressão baixa; calor demais; cansaço; stress. 

Poucos percebem-se deprimidos. 

Assim como o verão, este tipo de depressão também passa. 

Dizem os poucos estudiosos atentos ao tema, que a temperatura do sol da estação mais quente do ano, faz mal pra cabeça. Antigamente diziam que o sol cozinhava os miolos. É algo desse tipo. Por isso, suporto o calor debaixo de chapéu, sombrinha ou guarda-sol. Melhor mesmo é se resguardar em casa. Dentro da piscina, banheira ou mangueira. Ar condicionado ou ventilador. Na praia ou na serra. Se puder, evite as cidades, os prédios altos e o asfalto (a não ser que seja pra viajar). Dedique-se ao que vc gosta. Hobbies. Leitura. Crochê. Carteado. Use a inspiração e divirta-se. Pelo menos, evite cobranças desnecessárias. O ano, no Brasil, começa em março, depois do carnaval. Há uma certa sabedoria popular neste início tardio de todos os anos. Seria bom se assim fosse: simples, controlável e acessível a todos. Depressão é doença. Sempre é bom lembrar. Não escolhe gênero, idade, cor nem classe social. Absolutamente democrática.

É evitável? Às vezes. 

Se for depressão de verão, as temperaturas amenas do mês de março + algumas dicas acima podem minimizar seus efeitos. Se for mecanismo de defesa/evitação de problemas, vai passar quando o problema passar, ou mediante terapia. A meu gosto, do tipo psicodinâmica. Nem todo mundo acredita ou investe em autoconhecimento. Eu acredito e faço. E tem as grandes depressões. Do tipo psiquiátrico. 

Seja de qual tipo for, busque ajuda. Pesquise. Trate-se.

Posso não gostar do verão, das altas temperaturas e da luminosidade extrema. Mas a vida merece cor, atividade e atitude suportáveis. Não permita que uma doença, habitualmente controlável, limite sua vida. Troque de médico, de terapeuta, de terapia, de medicação. Faça as mudanças necessárias. Aquelas que berram no seu ouvido e oprimem seu coração. Mudança assusta? E como … demais … nem sempre … depende. 

Lembre-se apenas. A depressão não é um bicho papão. 

Domestique-a.

Controle-se e viva a vida. Jamais esqueça: a vida é bela!!!!

Por onde começar?

Ás voltas com meu atelier, scraps e outras artes, observei a quantidade de material estocado em gavetas, armários, caixas e prateleiras: lãs, linhas, papeis, argila, pastilhas de vidro, etcetcetc. Defini assim que uma das metas deste ano é consumir o máximo deste material. Tem trabalhos iniciados e não finalizados. Tem material comprado que nunca foi utilizado. Hora de organizar a agenda e encaminhar ideias e projetos que se perderam no tempo.

Assim, neste período de limpeza e restauração, reparei vários álbuns de scrap iniciados, inacabados e abandonados. Entre álbuns comuns e antigos, mini álbuns e álbuns de scrap e foto-livros, encontrei 3 caixas de fotos, devidamente separadas e arquivadas naqueles velhos álbunzinhos que as lojas que revelavam e ainda imprimem fotos, costumavam dar de brinde. São fotos de outros tempos e outras tecnologias. Então, exagerada que sou, sei disso, resolvi que deveria digitalizar todas estas fotos antigas. Uma meta megalomaníaca, à princípio, terceirizada. Por ora. O tempo vai me dizer se vou precisar aprender a usar aquele aparelho que digita fotos – o Scanner. Com ele virão outros aprendizados …

Sei que a meta é bem ousada … Ando fora de forma com o scrapbooking. Muitos materiais estão vencidos. Desaprendi como operar alguns equipamentos … Mas, de uma coisa tenho certeza: preciso me organizar e dar o primeiro passo. 

Pq tudo começa assim: planejamento e execução.

Janeiro foi o mês de preparar o Planner: finalizado e em uso.

Fevereiro, a princípio, está reservado para finalizar a reforma e limpeza dos álbuns e fazer um balanço de fotos e álbuns a serem finalizados. Talvez adentre março … Depois deste balanço, finalizar álbuns inacabados é a próxima etapa. Tem os mini-álbuns para o Natal … Nos meus planos, talvez mirabolantes, um álbum por mês, parece meta possível. Talvez seja necessário reavaliar o processo. Bem provável.

Aprendi que é melhor parar, descansar e dar um tempo – em qualquer projeto ou meta determinados – do que desistir. Nada a ver com procrastinação. Apenas um respiro. Aprendi também que preciso de estímulo e cobrança pra fazer as coisas acontecerem. Por isso, um post com o passo a passo do scrap mensal deve servir de registro e estímulo e comprovar o cumprimento da meta.

Clarear do dia

Acordo com o clarear do dia. A persiana fica aberta para que o ar da noite e a brisa do mar refresquem o quarto. Ar condicionado só em emergência de calor extremo, noite sem brisa, sem luar, sem agito. Assim, tem manhã que acordo inspirada e levanto com o sol. Tem manhã que acordo injuriada, baixo a persiana, e tento dormir mais um pouco. Nem sempre consigo levantar nem voltar a dormir. Nem sempre acordo inspirada, nem injuriada. 

Certo é, que acordo sempre com o clarear do dia. 

Consumação

Esta ideia de consumir com tudo:

Das tintas, linhas e papeis;

Panelas, louças e roupas;

Móveis, tapetes, lustres e livros;

Equipamentos, eletrônicos, Cds, DVDs;

O esgotamento.

A dilapidação e extinção do que delimitou dias e noites da própria existência: 

os sonhos e as ambições.

A dissolução da própria existência.

Misturada que sou à história de tudo e 

todos, que me tornaram este eu apegado e atrelado,

sucumbi ao ouvir herdeira minha dizer:

que desse eu destino à tantas exigências,

a tantas extravagâncias, providências e provas de existir.

Muambeira e sucateira. Arteira. Empilhadeira da arte de viver … 

Sim, se não me apressar

alguém um dia colocará um ponto final, onde insisto colocar pontos e vírgulas.

A antessala do fim. O epílogo de uma vida. 

O arremate final não será meu. Se assim eu deixar acontecer.

Por ora, transformo camisetas em panos de chão;

Armários são reorganizados; espólios doados; 

Especifiquei herdeiros de joias e livros; arte e móveis antigos;

  • tudo ainda amadoristicamente pensando –

Pois é esta a realidade da vida. 

Um dia tudo acaba. 

E, se não quiser que outros consumam com tudo que fui e lutei …

Ainda não ando exatamente atenta aos fatos e atos

O que existe é a ideia. A certeza.

O resto ainda é, 

pura especulação.

Já é um começo do fim.

Eu alienígena

Sensação estranha.

De ser e estar no lugar errado, 

no corpo errado, 

com a pessoa errada,

na família errada, 

dentro da roupa errada, 

no país e hemisfério errado, 

na profissão errada.

Fazendo tudo errado.

Sabe aquele dia errado que a gente não é mais a gente?

Quando até a respiração soa estranha

 e o coração bate e sente, sabe sei lá o que.

Não dá pra entender.

É quando a vida que te cerca, aprisiona. Asfixia.

Tá tudo tão estranho e errado comigo,

que até meu amado e venerado xangrilá, meu porto seguro, meu refúgio ficou estranho. Errado.

O que é que eu estou fazendo aqui?

Tenho me angustiado, me perguntado, me questionado. Minuto a minuto.

Ando exausta, sei disso.

O calor me destempera.  O suor destila minhas incertezas.

Tá tudo errado.

São 11 horas da manhã.

Vou voltar pra cama e acordar mais tarde. Mais tarde.

Quem sabe este “alien” estranho e errado que habita nas profundezas daquilo que me imagino

suma nas brumas do sonho e se consuma no sono que me consome.

Calor

Calor calor calor

Quanto ardor.

Um pavor de horror.

Sim, o calor me deprime, me oprime.

Viro peste de poucas vestes.

Reparo arestas e saliências. Protuberâncias e jactâncias.

Exposta me reparo inteira. Desgosto e gosto.

Gosto e desgosto. O olhar que mal vê.

O dia a sol aberto, cega, queima, 

fuzila o olhar.

Saudade do mar, do ar a beira mar.

Anseio pra lá voltar.

O que li em janeiro

  1. Claraboia – José Saramago
  2. Consciência à flor da Pele – John Updike
  3. O formigueiro – Ferreira Gullar
  4. Primeiro Caderno do alumno de poesia – Oswald de Andrade
  5. A crise da meia-idade feminina – Sue Shellenbarger
  6. A revolução das plantas – Stefano Mancuso
  7. A consciência de Zeno – Ítalo Svevo

Iniciei 2021, sem querer, com uma releitura. “Claraboia” de José Saramago. 

“Consciência à flor da pele” de John Ukdike foi recomendado em alguma aula de Escrita Criativa, tipo autobiografia de ficção, algo do gênero. Comprei o livro na Estante Virtual, e tirando alguns capítulos entediantes (a carta aos netos com a Árvore Genealógica da família) gostei de saber sobre o autor e a maneira como ele aborda questões familiares e de saúde pessoais. Interessante a narrativa literária que a história de cada um pode render, e sim, fiquei divagando sobre quais momentos meus eu escreveria num formato de auto-ficção, um gênero literário ainda muito atual.

“O Formigueiro” de Ferreira Gullar me surpreendeu pela  criatividade da apresentação de uma única poesia curta, distribuída de forma aleatória, feito um formigueiro. Uma brincadeira interessante. Leitura de 15 minutos. Ideia de arte e poesia. Chamo este estilo de leitura, de livro de respiração. Leve e lindo. De fácil digestão e pouca inquietação.

“O primeiro Caderno do alumno de poesia” de Oswald de Andrade aborda a garatuja poética do escritor. O começo da poesia e ilustrações de Tarsilla do Amaral. Um pouco da história da poesia. Tanto “O Formigueiro” como o “Primeiro caderno do alumno de poesia” são livros de arte pra colocar na mesa de centro ou de apoio da sala principal, pra ler e curtir numa sentada.

Já o livro de Sue Shellenbarger  “A crise da meia-idade feminina” pode ser classificado como livro de autoajuda. Este vai para a lista dos que indico e prescrevo. Li e adorei a perspectiva da autora que tira de cena a relação meia-idade/menopausa X velhice. Renovação e reinvenção de si mesma é o que melhor define a mulher madura. Um texto leve e divertido, tendo a teoria junguiana como lastro. “Shellenbarger delineia seis arquétipos – a Aventureira, a Amante, a Líder, a Artista, a Jardineira e a Buscadora -, que enfrentam a crise da meia-idade de seis maneiras – Explosão Sônica, Moderada, Queima Lenta, Fogo de Palha, Ataque de Fúria e Início Adiado. Contrariando a sabedoria popular, ela afirma que, na meia-idade, as energias vitais de alegria, sexualidade e autodescoberta estão borbulhando dentro das mulheres, de maneira mais poderosa e convincente do que nunca.” (texto da contra-capa).

“A revolução das plantas” de Stefano Mancuso aborda o universo das plantas de forma única: nos apresenta as plantas como seres inteligentes cuja autonomia energética liga-se a uma arquitetura cooperativa, sem centros de comando (cérebro), com capacidade de aprender, se comunicar e memorizar. Enquanto os animais (aí incluídos os humanos) se movimentaram para sobreviver desde os primórdios da humanidade, as plantas optaram por ficar paradas (tipo os Ents do clássico e famoso Senhor dos Anéis); enquanto os animais são rápidos, as plantas são lentas; animais consomem, plantas produzem; animais geram CO2, as plantas fixam CO2 … e assim por diante. Muitas das soluções desenvolvidas pelas plantas são o oposto das criadas pelo mundo animal. Sem dúvida, a leitura faz pensar e refletir. E o universo da flora começa a ser percebido de um jeito novo e impressionante. Além de sacadas geniais, o livro aborda pesquisas a nível espacial e mostra o quão vivas e participativas as plantas podem ser. Engana-se quem pensa que as plantas são meros detalhes paisagísticos e decorativos.

Finalizando o mês “A consciência de Zeno” de Ítalo Svevo. 

15 páginas lidas já é um começo. 

Quando o verão passar

Depois de um mês, ontem foi dia de visitar minha mãe no RS. 

Em meio ao calor marciano, talvez vulcano, ou como diria uma amiga, tá tão quente que parece que estou abraçada ao sol (entendo a insanidade dela, sinto-me igual). O calor do RS pode ser tão medonho quanto o inferno, digo, inverno. Aliás, pra quem não sabe, no RS existem quatro estações muito bem definidas: primavera, verão, outono e inverno. Meu xodó é o inverno, o equilíbrio está nas duas meias estações (outono e primavera) e o verão é o calvário do ano. Mas, ele passa. E quando passa, a felicidade pelas estações que seguem à frente é muito bem vinda e aproveitada. E entre um calor insano e outro, despencam aquelas chuvas de canivete que só quem mora num país tropical conhece. Calor demais + chuva demais = a natureza perde suas medidas, seus modos e dimensões.

Na casa de minha mãe, fui passear no jardim – reformado de julho a outubro, cuja maior proeza foi retirar sete caminhões, tipo toco, de entulhos, árvores e plantas, o que reconheço e não me arrependo, pq o resultado compensou – e percebi o quanto a natureza metaboliza bem o excesso de sol e de chuva. Em todos os canteiros, no recém plantado gramado, nas áreas ainda não trabalhadas, o inço e as plantas cortadas e remanejadas aproveitaram o verão pra se expandir e mostrar sua força. Pequenas plantas, arbustos e árvores simplesmente voltaram a brotar e ocupar seu antigo espaço. Aqui e acolá vejo folhagens e galhos de flores crescendo e vicejando. Nem aí para nosso esforço de reformulação e paisagismo clean e contemporâneo. Sem contar as tiriricas. Malditas tiriricas!!!!!!

Sempre em comum acordo com minha mãe, a verdadeira proprietária do jardim botânico que é o jardim da casa dela, concordamos em deixar tudo florescer e aparecer. Quando o verão passar, a gente resolve o que fazer com as plantas indisciplinadas que não aceitaram suas novas posições e lugares. Com exceção das “flores da vovó” que surgiram por toda parte. Cortá-las incitou-as a vir com mais força e determinação. Elas são as preferidas da minha mãe e se crescessem no colo dela, era lá que deveriam ficar. Nem pensar em arrancá-las e replantá-las.

Não me atrevi a contestar, sequer a pensar na questão das flores da vovó ou Gengibre-Azul ou Trapoeraba-azul no colo da minha mãe. O calor cozinha meus miolos e dizima qualquer tipo de esforço físico ou mental. Resolveremos entre março, abril ou maio. Não estou preparada, nem animada para um mal-educado bate-boca entre mãe e filha. Deixamos estar por enquanto. Pra retomar o jardim, preciso no mínimo, de energia de persuasão. Neste momento tudo que quero é piscina e ar-condicionado neste caldeirão escaldante que é o Vale do Rio Taquari, no RS. 

O jardim vai esperar. Mil ideias vão brotar.

E, em se tratando de natureza, tudo tem o seu tempo. E sinceramente, não é tempo de desencavar o gengibre azul.