A semana que passou.

Ainda bem.

Assisti Prometheus e sua ideia de engenheiros da criação. Haja criatividade e crueldade na concepção do que seria a gênesis do Universo.

Amanheci com a notícia de que a delegação da Chapecoense + convidados + jornalistas caiu próxima ao Aeroporto de Medellin, na Colômbia. Comoção mundial. Emoção, dor e incredulidade. Convenceram-me de que “todo conto dá conta”: O ferreiro e a tecelã + o conto da verdade = Mulheres que correm com lobos. Preciso reler o clássico de Clarissa Pinkola Estés. Concluí que a dança circular – para mim – é puramente meditativa. Disseram-me que os chacras são como vórtices de energia. E assim, através do chacra ligado ao coração (não me perguntem o nome que se dá ao dito cujo) fizemos um exercício meditativo enviando energia, consolo e amor para as vítimas, familiares e a cidade de Chapecó. Depois de mais uma noite alternativa no espaço da Cida, em Jurerê, confirmei que esta tribo ainda me é bem estranha. Desconfio que voltei ao modo de funcionamento estressado de ser e estar.

Aquele avião que caiu, caiu por uma pane seca: FDP do empresário/piloto, que pra economizar, não respeitou sequer a autonomia de 3000km que a aeronave tinha, nem solicitou pouso antecipado pra não ter de pagar multa. Morreram 71 pessoas. Indignação e revolta. Ódio da ganância e da petulância humana.

Namoro, vinho, briga, insônia. Quando a crítica extrapola, a vontade é de não existir. Fugir. Desaparecer. Qualquer dia destes.

O sol da 5a convida a um passeio na praia. Minha lombar olha para as conchas e deixa passar. Nem elas convencem meu esqueleto a se curvar. Aliás, disseram-me dias atrás, que o que determina ser idoso ou não, são as articulações. OK. Sou uma senhora milenar. Já em casa, de novo, minhas plantas me encaram e imploram por comida: andam todas tão mirradinhas! Lá vou eu fazer papinhas e sucos de adubo, já que areia é pobre pobre de maré de si. O texto sobre kairós e chronos continua perdido no espaço. A tarde é de atelier. Leitura. Escrita. Quem sabe fisgue os tempos perdidos por aí.

Também não quero mais me curar do que sou. Li algo assim no livro “A mão esquerda de Vênus” de Fernanda Young. Descobri que quanto mais leio a mesma poesia – ou o mesmo livro – mais gosto e entendo do babado. Por isso vou reler o também inacabado livro “Toda Poesia” de Paulo Leminski. Enquanto isso, chronos e kairós continuam enigmáticos, e a cada minuto, mais urgentes. Procrastino com a pilha de livros em couro verde de Casanova. Dou uma espiada nas páginas amareladas e me convenço de que a leitura combina com o frio do inverno, com tardes chuvosas e solidão. E isso, parece que vai demorar. E o fim de semana chegou. A Jornada Arteterapêutica também: Para viver o tempo fechou um ciclo. A formação em Arteterapia está praticamente concluída. Elogios, feedbacks, gente nova, querida, diferente. Hora de pensar no que vem a seguir. Depois do ciclone avassalador e 12 horas sem energia elétrica, o almoço foi na Comunidade Católica. Jurerê quer uma igreja pra chamar de sua.

E eu, uma cama. Ainda bem que a semana passou.

Por que sair de casa

As novas gerações pouco brigaram com as gerações mais velhas. Pouco precisaram conquistar! Estão ganhando tudo de mão beijada. Quem não ouviu estas expressões? Afinal, com toda a liberdade e mordomias que tem na casa dos pais, por que sair de casa? A pergunta é simples. A resposta mais complicada. A realidade é esta em muitas famílias que também se questionam: Porque nossos filhos devem sair de casa, quando é mais econômico, seguro e afetivamente mais tranquilo que eles permaneçam em casa? Antigamente, se é que se pode ir tão longe no tempo, sair de casa era uma conquista. Com ela vinham outras: o primeiro emprego, a primeira casa (quem se importava em viver num muquifo sujo e desconfortável?), a liberdade de ir e vir sem dar explicações a ninguém, as primeiras experiências sexuais. Era ter a vida nas próprias mãos. Com todas as mudanças sociais e culturais, estas deixaram de ser conquistas e passaram a ser garantias que muitos desfrutam sem qualquer esforço: o emprego é servir de motorista, de companhia ou de cola para o relacionamento conjugal. O que dizer sobre sexo e liberdade para ir e vir? Conforme a classe social, tanto uma como outra, começam cedo demais, quando nem corpos, nem cabeças estão prontos. Os pais não apenas permitem, como estimulam estes comportamentos. Justificativas explicam o inexplicável. Mantemos nossos filhos infantilizados e agarrados a nós até não os aguentarmos mais. Permitimos que fiquem conosco, enquanto nos convém, enquanto não estamos prontos para jogá-los do ninho e lançá-los ao mundo. Temos medo da nossa cria. Estará ela pronta para os desafios da vida? Saberá sobreviver sozinha? Não suportamos a dor deles. E assim, covardemente, delegamos a eles o sofrimento do corte do cordão umbilical. Esta necessidade um dia surgirá. Para muitos o corte derradeiro será a morte dos pais protetores. E assim, pela primeira vez sozinhos, tornam-se duplamente desamparados: perdem ao mesmo tempo os pais e a vida vivida até então. Sobra pra eles a árdua tarefa de viver e sobreviver por conta própria – sem estarem preparados – já que não poderão mais desfrutar da sombra fresca patrocinada pelos pais.

Quando meus filhos chegaram nesta fase, meu lado mãe falou mais alto que o lado psicóloga. Não fosse o pai, talvez nossos filhos ainda estivessem em casa conosco. Segundo ele, na natureza os pais jogam os filhotes dos ninhos para que eles aprendam a voar. Deveríamos fazer o mesmo. Eu alegava que eles ainda não estavam prontos. Com mais ou menos traumas ambos saíram de casa e ganharam o mundo. Meu lado psicóloga acabou falando mais alto, permitindo que meus filhos se tornassem adultos livres e responsáveis. Prontos pra agarrar a vida com as próprias mãos.

 

 

 

Você é fiel?

Dias atrás reli um artigo – que escrevi para um jornal – sobre infidelidade feminina. Assunto espinhoso e cavernoso. Qual teria sido o melhor enfoque: O psicológico, o afetivo, o científico, o jurídico, qualquer um, todos? Como abordar a monogamia, a poligamia, os casamentos modernos em meia folha de jornal?  Divagando sobre o assunto, sem restrição de linhas e sem o enfoque conjugal, pensei no que realmente entendo por fidelidade. Conheço homens que não conseguem ficar muito tempo com a mesma mulher, mas são fiéis a uma mesma marca de carro ou eletrônicos, do tipo “Aqui em casa só entra Wolksvagen e Sony”. Sem falar na fidelidade com o time de futebol ou os próprios amigos (afinal, homem não entrega homem)!! Conheço mulheres que apesar de fiéis a seus maridos e namorados trocam o tempo todo de empregada, cabeleireiro, marca de margarina, extrato de tomate, iogurte. Sempre acreditando que o outro (ou outra) podem ser melhores do que o que tem ou conhece. Quantas pessoas conhecemos que sonham ou desejam o vizinho, o dentista, médico, ator, atriz de televisão ou jogador de futebol, mesmo estando muito bem casados ou acompanhados?

Somos infiéis quando desejamos o novo, o diferente, o desconhecido? Quando exercitamos nosso equipamento sensorial e nossos desejos? Dando asas à imaginação? Soltando fantasias reprimidas? Avaliando possibilidades? Pesando e medindo realidades?

Porque não! É difícil ser fiel? Quem trai mais: o homem ou a mulher? Perguntas espinhosas para uma resposta escorregadia: depende. Depende de quem somos, do que queremos e no que acreditamos.

Conhecendo-se verdadeiramente, saberemos ser fiéis ao que realmente importa.

                                                                                    Los Canales, outubro de 2006.

Paixões Impossíveis

Adoro me apaixonar! Pouco importa o que desperta minha paixão. A sensação excita, tem poder de tirar sono e apetite e dar velocidade máxima à vida. O efeito reparador e restaurador é mágico, universal, interplanetário, transcendental. Surpreendente.

Quem nunca se apaixonou por um vestido novo, uma bolsa gloriosa, um sapato divino, um carro fantástico, um ator maravilhoso?

Me apaixonei por Will Turner, personagem de Orlando Bloom, em “Os piratas do Caribe” 1, 2, 3 e todos os outros que vieram depois. Sim, me apaixonei por um pirata capaz de tirar o coração do peito, guardá-lo num baú e dá-lo a sua amada para ser seu guardião por toda eternidade. Certos personagens e cenas somem com nossas preocupações por minutos, horas, dias. Depois – passado o encanto, bobeira, delírio – desabamos na realidade da vida. É quando percebemos que aquele vestido novo não cabe nem no  corpo nem no orçamento, assim como a bolsa gloriosa, que tampouco combina com nada do que temos – inclusive o preço, definitivamente indecente – é quando aquele sapato divino e torturante nos eleva a todas às alturas. Quanto ao carro fantástico? Melhor permanecer na categoria Paixão Impossível.  Quanto ao ator fantástico – minha paixão momentânea – ele é apenas um personagem de ficção, um pirata que merece um parágrafo à parte.

Além de lindo e sedutor, é um charmoso apaixonado muito romântico. Capaz de tudo pra salvar e estar com sua amada. Capaz de trair, matar e morrer. Para ele vale tudo para mostrar o quanto seu amor é importante. Quem de nós – reles mortais – anda carente de magia e fantasia? Quem teria coragem de dar o coração – ao outro para ser seu guardião – com poder de decidir entre a vida e a morte? Do que seríamos capazes para estar e ficar com o outro? À minha volta vejo homens e mulheres lindos desfilando poder e autossuficiência. Qual deles seria capaz de abrir mão da carreira, conforto, mesada, corpo torneado, conta bancária polpuda mantida com dedicação quase absoluta, apenas para ficar com a pessoa amada? Quem seria o louco maravilhoso, apaixonado e romântico que daria seu próprio coração à amada?

Sem medo, pois o amor selado entre duas pessoas deveria ser assim. Sem medo.

Felizmente, ninguém precisa arrancar o coração e dá-lo ao outro. Seria imprudente e humanamente impossível. Criaram-se outros símbolos representativos da união, entrega e vínculo entre dois amantes. Uma singela aliança. Mas, como vivemos num mundo real – imune à magia e fantasia – nosso símbolo passou a representar poder, aprisionamento, jugo. Pobre de nossas alianças perdidas ou tidas como perigosas ou tão escondidinhas, entre enormes pedras e outras argolas de maior brilho que ela própria. Seu brilho deveria ser único e reinar majestosa e orgulhosa em nossos dedos anulares.

Enquanto vivermos num mundo que se envergonha do amor, suas manifestações e símbolos, possivelmente continuaremos nos apaixonando por personagens loucos, apaixonados, capazes de matar e morrer por amor. Por roupas, bolsas, sapatos, carros, computadores …

Pessoas de verdade são muito mais apaixonantes. Podem ser paixões de longa duração. Podem ser  momentâneas e passageiras. Podem durar a eternidade da vida ou do sentimento.

Deveriam, tão somente, enfeitiçar e trazer magia à nossas vidas, tornando-se paixões possíveis de tão impossíveis.

 São Paulo, novembro de 2007.

Sorte

Minha sorte está em ser mulher, de poder sentir a vida de forma intensa e verdadeira, de poder chorar sem sentir vergonha, de cometer enganos sem sentir que era obrigação acertar, sorte por me perceber e me olhar diariamente no espelho e achar que estou bem, sorte por eu ser feliz como sou, sorte por me permitir ser e pensar assim, sorte de ter a família na qual me criei e criei, nos maravilhosos pais separados que me ensinaram que o mais importante na vida é ser feliz, que a felicidade somos nós quem construímos, pelos irmãos que acreditam e lutam por sonhos de uma vida melhor, mesmo sabendo quão difícil pode ser, sorte pelo marido e filhos lindos, amorosos e dedicados, cada um num momento novo, vivendo humanamente estes momentos: rindo, chorando, brigando, com desespero e alegria, mas acima de tudo, vivendo com emoção e intensidade, sorte pela casa cheia de nós, cheia de amor e amparo, nosso Shangrilá, onde zeramos o que nos incomoda, onde recarregamos nossas energias, sorte pela saúde de ferro que me permite fazer o que quero e quando quero, sorte pelo trabalho que tenho e adoro, por conviver com pessoas cheias de histórias e sentimentos, sorte por…… tudo!

Talvez a maior sorte que devemos almejar seja perceber tudo que podemos ter e ser. Basta trocar o ângulo ou os óculos! A lente pode estar fraca ou forte demais, fora de medida.

Quanto à outra sorte – aquela que todos apostamos – sinto informar, apenas uma cesta de roupa íntima, da qual sequer lembro, e um perfume, que idem, não lembro qual foi, nem mega-sena, loteria, prêmio …

Lajeado, julho de 2007.

Aprendendo com os outros

Existe um ditado alemão que diz mais ou menos o seguinte: esperto é aquele que aprende com os erros dos outros, inteligente é aquele que aprende com os próprios erros e burro é aquele que não aprende nem com os próprios erros nem com os erros dos outros. Já fui esperta, inteligente e burra. Tenho tentado ser o mais esperta e inteligente possível. Quando insisto naqueles erros inadmissíveis, dando uma de burra, me consolo dizendo que foi por causa da minha teimosia taurina ou culpa da minha determinação alemã. Não que isso diminua o impacto ou o estrago do erro, mas poupa minha autoestima, a esta altura sensivelmente abalada. Aprendi com meus próprios erros que devo sempre: acreditar em mim, na minha capacidade, intuição e instintos; evitar tomar qualquer atitude radical por impulso; ouvir uma segunda, terceira, quarta … opiniões médicas quando desconfio do diagnóstico ou do tratamento; evitar sair às compras quando estou de mal comigo/mundo; desconfiar quando um produto é muito barato; aceitar minha paixão à primeira vista por alguém ou coisa; prestar atenção aos limites do meu corpo; dormir 8 horas por dia; comer exatamente aquilo que estou com vontade de comer; tomar cuidado com as roupas listradas, justas ou de tamanho menor que o meu; usar calcinhas com foro de algodão; ter sempre na bolsa um remédio pra enxaqueca e cólica; evitar ter estoque de balas, chocolates ou sorvete em casa … Aprendi com os erros dos outros que preciso dar atenção e conversar freqüentemente com filhos, familiares e amigos; que o divórcio machuca demais; não devo gastar mais do que ganho ou tenho; não devo dar ouvidos às fofocas; preciso ser atriz da minha vida e não expectadora da vida dos outros; preciso avaliar muito bem para quem emprestar dinheiro; ser fiador apenas para pais ou filhos; não fumar jamais; não beber demais, não comer demais, não trabalhar demais; devo lutar com unhas e dentes pelo amor da minha vida; nunca usar de chantagem e violência com quem amo; ser a maior responsável pela minha felicidade; sempre acreditar naquilo que aprendi com a vida e comigo mesma … Ainda não aprendi a falar inglês e espanhol fluentemente; lavar louça enquanto  cozinho; usar religiosamente os cremes prescritos pela dermatologista; beber menos café; comer menos doces; “armar barraco”, “rodar a baiana”, “subir nas tamancas”, ou seja, “botar a boca no trombone” … Possivelmente estou esquecendo de muitas coisas que aprendi de um jeito ou de outro ou que ainda não aprendi. Muitos dos nossos erros/aprendizados são uma escolha pessoal. Aprendemos na prática aquilo que já sabíamos da prática dos outros. Ousamos e insistimos em tentar do nosso jeito, acreditando que pode dar certo ou não, nos boicotamos, fazemos gol contra e nos prejudicamos, consciente/inconscientemente. Parece que não queremos aprender, não queremos acertar. Por quê? Saber a serviço do que estão nossos acertos e erros pode nos indicar o lugar onde queremos chegar! Como queremos chegar! Com quem queremos estar!

                                                     Los Canales, setembro de 2006.

Dor e Tristeza

Dizem que estamos vivendo a Era da Felicidade. Sentimentos como dor, frustração, desapontamento e tristeza parecem ETs da modernidade, antinaturais e anormais. Um mal a ser evitado ou medicado. A regra é ser feliz, ou melhor, mostrar que se é feliz. A realidade porém, é bem diferente: todos sofremos e nos entristecemos. Sofrimentos vem e vão, são substituídos, diluídos, absorvidos. O melhor remédio, dizem, é o tempo: infinito, insensível, temperamental. Ideal seria mesmo, exterminar estas malditas dores e tristezas ingratas, de imediato! Quando meu filho entrou na sala de cirurgia por causa de uma fibrose no cotovelo esquerdo que limitava seus movimentos, pensava eu em como seria bom se já tivesse passado um ano, o resultado esperado+alcançado, as sessões de fisioterapia, as dores, o choro, as reconsultas, os exames, tudo, tudo fosse coisa do passado. Queria um parênteses para nele aprisionar meu sofrimento, um vácuo que engolisse minha dor. O mesmo aconteceu com outras doenças, crises, perdas, as coisas ruins+dolorosas e inerentes à vida humana. Tudo o que queria era minha vida de volta. Queria a felicidade que julgava ter direito. É o que todos queremos e acreditamos merecer! Queria uma trégua da vida – sabendo de antemão – que viria a temperança! Que o tempo tudo abrandaria! Mas a travessia sempre é difícil e doída! Tarefa pessoal e intransferível, ninguém pode ultrapassá-la por nós! Deste turbilhão saímos fortalecidos ou destroçados. Melhorados ou piorados. É assim que é! Uma forma de avaliar a dor é dar-lhe um tamanho, um número. Do tipo, se é um é pouco, se é oito, já é bastante. Os números nos dão uma medida, daquilo que teoricamente, não tem medida. Tornando objetivo o subjetivo, nos impermeabilizamos e vemos tristeza e dor –  externas e controláveis – em tempo de digeri-las e sobreviver a elas. Caso persistam, convém se perguntar: pra que serve o que estou sentindo? Que lugar estes sentimentos ocupam e que função tem na minha vida? Nem sempre encontramos as respostas, e talvez, seja necessário encontrar quem possa ajudar. Família, companheiros, filhos, amigos. Quem sabe um profissional. Dor e tristeza são necessárias para crescer e amadurecer. Porém, devem ser passageiras e transitórias, jamais um Estado Permanente.

                                                               Lajeado, maio de 2007.