Inclusão Conjugal

Conflito gera crescimento! Essa máxima pode ser aplicada a todas as situações em que o ser humano está implicado: do individual ao social, do social ao conjugal. Crises conjugais coincidem com as crises individuais. E vice-versa. É quando casamento e indivíduo batem de frente. Surge o momento de avaliar a relação e a si próprio. Muitos aproveitam e dão uma guinada na vida pessoal e/ou conjugal. Outros mantém a estabilidade conquistada, permanecendo como estão e onde estão. Mas todos redimensionam a própria vida, o relacionamento e se forem sábios, as expectativas. Casais constroem histórias sem regras que definem como devem proceder para terem uma vida digna e satisfatória, porque não existem manuais que se ajustem à pluralidade e singularidade humanas. Alguns sonham em viver contos de fadas e se decepcionam. Particularmente prefiro as histórias reais. Elas são possíveis. Testadas e aprovadas. Concordo que existem casamentos duradouros mantidos pela aparência, por interesses, por medo. Mas, existem também casamentos por amor, carinho, respeito. Imagem rara, extremamente invejada e almejada, são os casais que envelheceram e permaneceram juntos, sobrevivendo a toda sorte de situações com que foram presenteados. Vê-los de mãos dadas, passeando, fazendo compras, indo ao cinema, jogando cartas, viajando, indo ao médico … nos mostra a possibilidade de uma vida longa, a dois. Estão juntos, não pela beleza física, pelo sexo, pelos filhos, pela carreira, nem pelo dinheiro. Estão juntos porque aprenderam a viver a vida juntos, incluindo-se mutuamente com cuidado, carinho, respeito, confiança e companheirismo. Construíram o amor porque acreditaram nele. Muitos dirão que hoje as coisas são diferentes, que são raros os casamentos felizes e duradouros, que não podemos mais confiar no outro como acontecia antes, tipo Antigamente era assim … O risco do divórcio é real e nos rodeia. Vivi pessoalmente divórcios em família, acompanhei muitos casais se separando. Acredito que muitos divórcios são bênçãos, outros tantos são equivocados. Para a grande maioria, o casamento passou a ser um investimento de risco. Ou apenas uma tentativa – e como tentativa, já nasce abortado.  Como investimento de verdade – de risco ou não – quanto maior o investimento, a crença e confiança, maior o retorno. Invisto 100% e nunca me arrependi. No final, tudo o que queremos é alguém para amar e estar junto. O resto é apenas isso, resto.

imagem de internet
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Ninho Vazio

Etimologicamente falando, ninho é a habitação das aves, feita por elas para a postura de ovos e criação dos filhotes. Pode ser refúgio ou abrigo, e, por conseguinte, a casa paterna. Nosso lar. Imagina quantos outros ninhos existem! Vários. Inclusive alguns ninhos de cobras! Infelizmente. Ninho de cobras, segundo o Aurélio, é o lugar onde há pessoas de índole má e traiçoeira. E o ninho vazio? Psicologicamente falando, é quando os pais estão entre os quarenta e os sessenta anos e os filhos estão saindo de casa. Um ciclo natural. Vejo em muitos National Geograph e Discovery Chanel os pais jogando seus filhotes dos ninhos, literalmente expulsando-os. Não é o que nós, humanos, normalmente fazemos. Não vejo – na natureza – nenhum sofrimento neste comportamento animal, apenas a certeza instintiva e inata de lançar filhotes prontos ao mundo.

Será que nosso sofrimento reflete a incerteza sobre os filhos que lançamos ao mundo? Será que sobreviverão em meio aos ninhos de cobras, às intempéries e à vida em si?

Pesquisas mostram que a dor e a angústia típicas do ninho vazio duram em torno de dois anos. No máximo. A exceção se cria quando existe patologia materna, conjugal, familiar, ou, no próprio rebento. Além da saída dos filhos, outras características marcam este período. O relacionamento conjugal muda, porque marido/pai e mulher/mãe mudam; o relacionamento não se faz mais necessário para a sobrevivência da prole, a esta altura, pronta e lançada para o mundo/vida; assoma-se a isto uma nova forma de relação entre pais e filhos – agora adultos – de gerações, hierarquia de poder e idéias diferentes; nossa relação como filhos de nossos pais também passa por um momento único – a resolução de antigas farpas e desentendimentos encontram o melhor momento para serem solucionadas – frente a seu envelhecimento percebemos que não temos, nem eles têm, todo o tempo do mundo. A meia-idade fica espremida entre a terceira idade e o adulto jovem. Ficamos no meio do sanduíche. Espremidos dos dois lados. Vivemos esmagados tentando encontrar alternativas para estas três gerações: nossos pais, nós e nossos filhos. Vemo-nos sem saída! A sensação é de que nosso ninho começa a desmoronar. Afinal, para abrigar tanta novidade ele precisa de novos contornos e muito mais espaço. Nosso universo familiar precisa se expandir. Acaba explodindo muitas vezes! Rasgamos contornos familiares para integrar nossos próprios pais, noras, genros, netos…… E a nós mesmos. Assim, esmagados pelas necessidades e peculiaridades de ser jovem demais ou velho demais, precisamos seguir em frente. É o único caminho possível.

Boa companhia à mesa

De várias coisas tenho sentido falta neste momento de minha vida. Num período muito curto tenho procurado me adaptar à parada temporária de minha atividade profissional, a adaptação a uma nova cultura, nova casa, novos móveis, novo idioma, o distanciamento de filhos e demais familiares. É uma lista enorme de mudanças que viraram minha vida e minha rotina de pernas para o ar. Estou sobrevivente, e procuro me adaptar a esta nova fase, ou seria melhor dizer, a este novo papel. Mas o que tem me deixado um tanto aborrecida, tem sido a hora do almoço. Após uma vida acompanhada neste momento do dia, primeiro na casa de minha família com pai, mãe, irmão, avô, avó, bisavô e tia-avó, sempre com comidinhas caseiras feitas com todo o amor e dengo de avó; depois, recém casada, às voltas com panelas, receitas e falta total de experiência na cozinha, mas com todo amor e colaboração do maridinho; passei para os memoráveis almoços com filhos que brincavam com a comida, não gostavam de cebola, alho, verduras, feijão e de mais uma lista enorme de não gosto, aviõezinhos, sermões e chantagens. Evoluí para o papo-cabeça adolescente, das notas boas e das explicações para as notas não tão boas, insinuações quanto a namoros e baladas, agora já acompanhadas com a comida gloriosa de minha assistente doméstica. De repente os filhos saíram de casa, cada um no seu tempo e sobramos apenas eu e minha fiel escudeira. O primeiro golpe foi nas compras de supermercado, quando a melhor parte (mas não tão saudável) foi cortada. Ou seja, tudo que os adolescentes e jovens adultos magros podem comer sem moderação: guloseimas, biscoitos recheados, salgadinhos, chocolates, sucrilhos, danones, etc, foram banidos a favor da balança e de um corpo mais esguio e mais saudável. As quantidades também foram reduzidas, bem como as receitas adaptadas às novas moradoras da casa. Isso sem mencionar a falta do que oferecer quando surgem visitas inesperadas.  Nestas semanas já experimentei diferentes modalidades: comida requentada do jantar, comidas rápidas para uma só pessoa, ou então um lanche substancial. Todos com suas vantagens e desvantagens: comida requentada no almoço sugere jantar fresquinho, noite mal dormida e calorias além do esperado; fazer comida para apenas uma pessoa requer panelas pequenas, pratos únicos, saladas, grelhados, muita sujeira na cozinha para pouca comida, acaba ficando sem graça; lanches no almoço levam o corpo a pedir comida o resto do dia, o que leva a muitos lanchinhos e a um enorme jantar. Dia após dia tenho experimentado diferentes maneiras para almoçar. Passei a invejar minha mãe e minha sogra que já fazem isso há anos e não parecem se importar, ou é assim que penso. Aliás, pessoas ao redor do planeta fazem isso sem maiores problemas. Fui me dando conta de que talvez seja na hora do almoço o melhor momento (ou o pior) do dia para perceber meu “ninho vazio”, as mudanças da rotina e da vida, do novo. Aos poucos, tenho almoçado com a televisão, com livros e revistas ao meu lado, com o computador, com as palavras cruzadas em espanhol, com os pensamentos divagando por sobre a vista fantástica da minha varanda. Percebo que o problema não é a comida: é a companhia. É da vida em movimento que desfilava durante as refeições, e que agora está por minha conta. Este tem sido meu desafio diário. Entrar num acordo entre a fome do corpo e a fome do coração. O problema é aplacar a fome do coração com a comida do corpo. Percebo cada vez mais, pessoas sozinhas. Comendo sozinhas. E cada um encontra a melhor forma para isso. Aos poucos começo a me familiarizar com meus novos companheiros de almoço( TV, livros, micro, som, etc.). Quanto ao jantar? Volta pro começo. Jantar à luz de velas, vinho, música romântica, muita conversa com o maridinho 100% meu (sem filhos, sem empregada, sem mãe, sem sogra, sem preocupação, sem….) A vida não é absurdamente bela?!!!!

                                                     Los Canales, setembro de 2006.

Ensaios Pornográficos

Li minha primeira cena sexual aos 14 anos. O livro era um bestseller de Sidney Sheldon, “O outro lado da meia-noite”, que retirei na biblioteca pública de minha cidade. Vi pela primeira vez uma Playboy aos 17 anos. Encontrei a revista entre os pertences de meu namorado. Assisti a meu primeiro filme pornográfico quando tinha 25 anos. Foi o segundo filme a rodar no nosso primeiro aparelho de vídeo-cassete. O primeiro filme a rodar foi “A história sem fim”. Nem preciso dizer quem escolheu cada filme, certo? Assisti a um show erótico pela primeira vez aos 31 anos. Em nossa primeira viagem à Europa nos encontramos com amigos alemães na cidade de Hamburgo. Lá nos disseram que íamos ao show mais quente de toda Europa. Confesso que fiquei curiosa, mas jamais poderia imaginar o que eu ia ver. Sobrevivi a uma peça de teatro de sexo explícito, a menos de 10 metros da mesa onde estávamos sentados. Recentemente assisti a um strep tease feminino e masculino. Ao longo dos anos aprendi que cada pessoa tem suas próprias zonas erógenas. Que cada pessoa é estimulada de forma diferente. Órgãos diferentes captam os sinais e os estímulos genitais. Aprendi também que a maioria dos homens adora filmes pornográficos ou qualquer tipo de estímulo genital visual. Enquanto que a maioria das mulheres detesta filmes pornográficos ou estímulos genitais visuais, preferindo as demonstrações de romantismo como um poderoso estímulo sexual. Obviamente que existem exceções. Mulheres que gostam de pornografia e homens que não gostam. Mulheres que desconfiam e ridicularizam demonstrações de romantismo e homens que se sentem estimulados. Também existem situações em que determinados estímulos podem ter o efeito contrário ao que sempre tiveram, fazendo com que uma mulher sinta-se excitada com um filme pornográfico quando normalmente este tipo de filme a aborrece e a irrita. Muitos dirão que estas preferências são culturais e aprendidas. Que desde cedo, nós mulheres, aprendemos a reprimir nossos desejos e fantasias sexuais e por isso não apreciamos filmes pornográficos, nem cultivamos fantasias sexuais. Muitos dirão que homens são estimulados pelo que veem, que os estímulos visuais são poderosos para o gênero masculino, não ocorrendo o mesmo com o gênero feminino, que prefere outras formas de estimulação. Acredito nas duas possibilidades. Ambas contribuem para haver ou não estímulo sexual. Ambas atiçam ou não nossos desejos. Depende de cada um! Infelizmente este saber pouco resolve o impasse entre homens e mulheres quando a questão é que, o que acende o desejo de um, tem o poder diametralmente oposto, de apagar o desejo do outro. Tanto a pornografia como o romance pode ter este mesmo efeito! Imagina o homem que está apenas a fim de sexo, e se vê enredado numa história romântica, numa relação de intimidade para a qual não se sente preparado. Ou uma mulher, que quer viver seu conto de fadas com seu príncipe encantado e é levada a assistir a um filme pornográfico. Pane geral! Com a facilidade e a quantidade de conteúdos pornográficos em nosso dia-a-dia, principalmente via internet (mas também em outros meios de comunicação), cada vez mais mulheres convivem com o olhar genital, aprendendo e desenvolvendo este lado reprimido do universo feminino. Cada vez mais mulheres têm recebido mensagens, piadas e fotos mostrando ensaios fotográficos sensuais com homens parcialmente ou totalmente nus, de frente ou de costas, valorizando bumbuns e pênis, nas mais diversas posições e situações. Confesso que alguns, ainda hoje, me deixam encabulada e até envergonhada. Afinal, esta ainda é uma área pouco explorada em nosso universo feminino. Durante muito tempo via este tipo de material nos micros de meu marido e filho. Obviamente, eram mulheres nestas mesmas condições, que eles exibiam orgulhosamente, indiferentes ao olhar recriminatório feminino da casa. Sempre que questionados sobre estes gostos e necessidades, escutávamos que eram “coisas de homem”. Parece que precisavam de constantes estímulos visuais para manterem sua libido em alta, sua sexualidade alimentada e valorizada. Diferentemente das mulheres que estão aprendendo a gostar destes ensaios fotográficos, a pornografia neles embutida, parece ser muito mais uma desforra, uma revanche. Do tipo, “se não pode com ela junte-se a ela”. Bela e brilhante saída! No entanto, e apesar de haver ganhos com esta evolução, temos sofrido um ataque maciço de dimensão planetária, uma overdose de estímulos genitais visuais via Internet, filmes, novelas e programas de televisão, revistas, músicas, entre outros meios de comunicação, que têm dado uma nova dimensão à sexualidade humana, vista cada vez mais de forma banalizada, descartável, reduzida apenas a um mero e insignificante objeto a ser usado, abusado e jogado fora. Ainda assim, têm surpreendido a selvageria e a promiscuidade dos filmes pornográficos atuais. Coisa quase inimaginável!!! Cada vez mais se percebe que neles existe uma coisificação sexual brutal. Infelizmente as maiores protagonistas das cenas deprimentes que vemos nestes filmes, são mulheres. São elas que comandam cenas de sexo animal. Sem qualquer limite físico ou orgânico. Parecem querer provar sua supremacia sexual frente aos homens, que apenas aparecem como meros coadjuvantes, acessórios necessários para que haja um “falo” em cena. Que não raramente falha em sua representação, tamanho o desempenho sexual feminino! Me entristece pensar que chegamos a este nível de competição com os homens. Por outro lado, vemos cada vez mais homens se prestando a ser objetos sexuais, fazendo a alegria de uma infinidade de mulheres. Pelo simples prazer de olhar, de admirar o que é belo, de se permitir fantasiar, de se excitar sexualmente. Mas parece que principalmente pela diversão que proporcionam. Talvez seja este o novo olhar feminino sobre a pornografia e a estimulação visual de sua sexualidade. Como os homens têm reagido a esta invasão, a este novo aprendizado feminino? Não sei quanto aos outros, mas os meus não estão gostando nem um pouco. Acho que esta nova revolução sexual feminina pegou os homens novamente desprevenidos. E a nós também.

                                                                                    Los Canales, outubro de 2006.

 

Encontrei um amor onde eu menos esperava!

Poderia escrever sobre o grande amor da minha vida, meu companheiro de 29 anos, sobre meus dois amados e maravilhosos filhos, meus pais, amigos, ou algum animal de estimação. Com certeza, teria muito o que falar sobre qualquer um deles. Mas quando pensei sobre qual amor escrever, lembrei-me imediatamente de minha casa. Um verdadeiro e grande amor em minha vida, que se mostrou intenso e verdadeiro quando cogitava me desfazer dela. Parece tão material, tão impessoal, que soa estranho falar que uma casa possa ocupar um espaço tão importante na vida de alguém. Mas, nossa casa merece esta homenagem, merece esta declaração de amor. Quando decidimos construir esta casa, a quem chamamos carinhosamente de “Xangrilá”, procuramos um arquiteto amigo que nos sugeriu fazer um desenho de como gostaríamos que ela fosse. Não sei se esta é uma sugestão comum entre arquitetos e clientes, ou se, pelo fato de meu marido ser engenheiro, ele pensou que poderíamos “adiantar o serviço” e esboçar nossa ideia no papel. De qualquer forma, ele também traria uma ideia a partir do que havíamos conversado. No dia de nossa reunião levamos nosso pré-projeto e ficamos impressionados com a semelhança do projeto trazido por nosso arquiteto. Tirando alguns detalhes arquitetônicos mais arrojados, os dois desenhos eram iguais. Assim, não restavam dúvidas de como seria nossa casa. Ela havia se manifestado. O período de gestação de nossa casa foi de 3 anos. Um para a finalização do projeto e 2 para a construção. Nossa casa foi pensada e trabalhada à distância. Foram 3 anos de dedicação e economia total. Todos os nossos recursos e energias foram canalizados para ela. Quando ficou pronta, ou, parcialmente pronta, decidimos que era hora de nos mudar. E em pleno mês quente de dezembro de 1994, trouxemos nossa surrada, antiquada e pequena mudança para o nosso verdadeiro e novo lar. Voltamos para nossa terra natal, o Rio Grande do Sul. Foi um choque muito grande. Nossos móveis eram pequenos demais. Eram adequados para as mudanças frequentes (exigência da profissão nômade de meu marido, engenheiro de uma grande construtora) e gritavam com a imponência e modernidade de nossa casa. Muitas coisas pensadas no projeto como sendo maravilhosas se mostraram um desastre na prática, e eu, pensava comigo mesma, havíamos concebido um elefante branco cheio de defeitos e inadequada para nossas necessidades. Durante muito tempo pensei em vendê-la. Mas era o único lugar para onde poderíamos voltar, e eu acabei, aceitando-a. Nossa casa é ampla e espaçosa. Com poucas paredes divisórias, toda envidraçada, com pé direito altíssimo, e um enorme jardim de inverno central, que traz a natureza exuberante para dentro dela. Os primeiros dias e noites dentro de nossa casa foram um desafio aos meus sentidos. Até hoje ela é extremamente comunicativa. São estalos e barulhos, que com o tempo, identifiquei como os ruídos próprios de uma casa com uma estrutura metálica e de vidro muito grande, que trabalha conforme o clima. A sensação de pequenês dentro dela, a falta de paredes que dêem contornos aos ambientes, os janelões de vidro que trazem para dentro de casa o mundo lá de fora despertam sensações emocionais e fisiológicas muito intensas, que se acomodaram e se incorporaram de tal forma, que hoje, lugares pequenos, cheios de paredes e teto rebaixado me sufocam. Durante 12 anos vivi intensamente nosso Xangrilá. Continuar lendo “Encontrei um amor onde eu menos esperava!”

De que macaco descendemos?

Poucos discutem hoje a validade da teoria da evolução da espécie de Charles Darwin. Por mais que nos choque ou nos extasie, por mais que irritemos religiosos do mundo todo, temos a convicção de que somos a evolução mais bem sucedida de nossos ancestrais macacos. Cada vez mais vemos e lemos sobre experimentos que comprovam semelhanças entre nós e os macacos. Como psicóloga e terapeuta de casais, ao longo dos anos li, sob várias perspectivas diferentes, o funcionamento dos relacionamentos humanos. Teorias psicanalíticas e sistêmicas sempre foram as minhas preferidas. O que uma não explicava bem, a outra dava conta. Anos atrás li um livro excelente chamado “Anatomia do Amor” da escritora e antropóloga americana Helen Fisher, que abordava o amor e suas manifestações, sob a ótica evolucionista e antropológica. Achei surpreendente e pude comprovar na prática (na minha vida pessoal e também com meus pacientes) suas teorias. Realmente, muito do que fazemos é herança instintiva e evolucionária de nossos antepassados e que por terem sido utilizadas, garantiram a preservação da espécie humana. Incluem-se aí desde os jogos de sedução, as raízes do ciúme e da infidelidade, a poli ou a monogamia, entre outras questões. Recentemente chamou-me a atenção o enfoque do psiquiatra norte-americano Frank Pittman, autor do livro “Mentiras Privadas”, sobre a infidelidade e os diferentes modelos ancestrais quanto à forma dos relacionamentos humanos. Ele questiona se o casamento é algo natural na vida da espécie humana. E discorre sobre quatro diferentes modelos de relacionamentos entre os símios: gibões, gorilas, orangotangos e chimpanzés. Segundo ele, gibões são monógamos e podem afugentar os próprios filhotes da relação com sua companheira; os gorilas são polígamos, o macho dominante tem seu harém particular de fêmeas; os orangotangos são solitários e anti-sociais e esporadicamente tem encontros com fêmeas na floresta; os chimpanzés são promíscuos e mantêm-se afastados do grupo de fêmeas e filhotes, e só invadem o grupo para se acasalar com qualquer uma das fêmeas, com aquela que lhes agradar naquele momento. Seguramente conhecemos pessoas que seguem mais ou menos estes padrões de relacionamento. Interessante!!! Surpreendente!!! Será???? Como entender o formato dos nossos relacionamentos sob a ótica evolucionista? Quantas justificativas encontramos para nós mesmos e para nossos cônjuges frente à infidelidade? Afinal, existem numerosas explicações que apontariam causas inconscientes, situacionais ou contextuais para entendermos nossos relacionamentos como também a presença da infidelidade na vida a dois! Possivelmente na teoria evolucionista poderíamos deduzir que o antepassado de nosso companheiro poderia ter sido um chimpanzé, ou quem sabe um gorila. O que é menos pior na nossa sociedade monogâmica? Poderíamos pensar em como seria bom se nosso companheiro fosse descendente de um gibão, mas mais evoluído quanto aos ciúmes dos próprios filhos! Poderíamos encontrar resposta para as queixas de dez entre dez mulheres, de que existem poucos machos disponíveis, e deduzir que eles poderiam ser descendentes dos orangotangos, e que certamente estão escondidos por aí, e só saem esporadicamente para encontros fortuitos com as fêmeas, sem chance para compromissos mais sérios! Será que tudo se resume a nossa evolução? Será que ainda estamos evoluindo? Com certeza, e felizmente, estamos em permanente e constante processo de evolução. Independentemente de a explicação ser psicanalítica, sistêmica ou evolucionista.

                                                                              Los Canales, setembro de 2006.

A infidelidade

Não importa a idade que temos. A infidelidade dói. Dói no corpo, no coração e na alma. Machuca o ego e dilacera a autoestima de qualquer um. Porque ser trocada ou dividida com outra pessoa estilhaça a imagem que fazemos de nós mesmos, de nossos parceiros e do nosso relacionamento. Pouco importa o tempo ou a seriedade da infidelidade. De repente, a verdade que conhecíamos tão bem, não existe mais. Aquilo que pensávamos existir e ser verdadeiro, na verdade não existe. Existia apenas em nosso desejo, em nossa fantasia. Frente à descoberta da infidelidade, um embate interior ganha força. Por um lado a negação: Como seria bom se tudo fosse mentira! Se aquela nossa verdade continuasse sendo a verdade! Mas como é difícil se enganar frente às evidências, frente à verdade nua e crua. Frente à realidade da infidelidade! Quando a imagem construída se destrói fica a sensação de perda, de vazio. O buraco criado pela descoberta da traição muitas vezes derruba quem somos ou o que fomos. Descobrir que nosso relacionamento não era tudo aquilo que pensávamos que fosse, que nosso parceiro não era aquele ser divino e maravilhoso, que nós não éramos tão amadas e indispensáveis como pensávamos ser, nos coloca frente a um sério questionamento. E agora? Durante toda minha vida, direta ou indiretamente, convivi com muitas situações de infidelidade. Independente de quem fosse o traído ou o traidor, da qualidade do relacionamento, da idade dos envolvidos, do tempo de duração do relacionamento ou mesmo, do tempo que durou a infidelidade. Independente de qualquer coisa, a descoberta da infidelidade é um evento catastrófico na vida da maioria das pessoas. Mesmo para aquelas que parecem não sentir ou demonstrar a dor, a traição gera um gosto amargo na boca e crava fundo no coração. As implicações e decorrências da infidelidade em nossas vidas como as brigas, a possibilidade de retaliação ou revide, a dor da perda, a depressão, o congelamento afetivo podendo levar ao divórcio, transtornam a vida pessoal e familiar. Cada pessoa encontrará a melhor forma de lidar com o que aconteceu, pois cada um reage e age à sua maneira, sua história e sua estrutura emocional ou até, sua estrutura financeira. Não existem melhores jeitos, não existem receitas prontas ou kits pós-traição. É engraçado como buscamos explicações e respostas para a infidelidade. Estas nem sempre existem. Quando existem, ou duvidamos ou não acreditamos nelas. Elas não se encaixam em nada, nem mesmo em nossas vidas. Não reservamos espaço para a traição e a infidelidade! Este espaço sempre é roubado, é tomado à força. Mesmo que estejamos vivendo num mundo onde as taxas de infidelidade são altíssimas, em nosso imaginário ela é uma intrusa, uma alienígena, uma visita indesejável. Para a qual nunca estamos prontas ou preparadas. Acreditamos estar imune a ela. Por mais que pensamos já nem amar mais tanto, saber que o outro amava menos ainda pode ser um golpe duro em nosso narcisismo egoísta. Nos faz repensar. Será que amávamos tão pouco? Continuar lendo “A infidelidade”